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5 de mai. de 2014

Entender para crer

Narrativa e verdade

Ariano Suassuna contava um caso engraçado, de um homem que, narrando um fato divertido, era interpelado por seu ouvinte por causa de uma inconsistência da historieta. O contador lhe retorquiu: — Você quer saber a história ou quer saber a verdade?

Entre o texto e a memória, entre a imaginação e a história: o que é possível encontrar aí? Sem dúvida, seria ingênuo esperar alcançar o próprio objeto da narrativa, tal e qual, isento de interpretações. Mas também seria doentio pensar que o objeto de estudo é uma mera tela em que se projetam ideias pré-concebidas.

Razão e crença

Na maioria das vezes, os argumentos contra a historicidade de algum testemunho antigo advém da ignorância do contexto ou do estilo, e da desconfiança na fonte.

Nossa racionalidade está, em alguma medida, baseada em conhecimentos de cunho probabilístico; portanto, não faz sentido opor razão e crença. Afinal, o conhecimento humano é todo baseado em crenças razoáveis.

Mito e filosofia

O mito é um caso particular nessa problemática. Sem autor nem data, o mito explica a realidade, mas não se explica a si mesmo. A crítica filosófica pretende acabar com a referência mítica, atitude que pode causar fragmentação e degenerar no relativismo filosófico e moral. A partir daí, torna-se crime de opinião voltar a buscar referenciais absolutos. Nasce a batalha entre a filosofia mítica e os mitos filosóficos. É o que vemos, por exemplo, na pós-modernidade decepcionada com as caducas profecias modernas de prosperidade através da ciência.

Logos e história

O cristianismo apropriou-se do discurso filosófico, mas os cristãos terão conseguido superar tal ruptura entre tradição e razão? Com efeito, é muito frequente deparar-se com católicos incertos quanto às suas raízes históricas e empedernidos em sua incoerência intelectual.

Enquanto discurso, a história sagrada tem cunho literário parecido ao mitológico; enquanto síntese teológica, a profissão de fé tem caráter comunitário e normativo. A articulação desses polos tem sofrido bastante diante de uma cultura cética e descrente da razão.

Tradição e teologia

Faz-se necessário resgatar a confiança na razão. Carl Rahner dizia que o homem é um ouvinte da Palavra: de fato, de nada adianta Deus falar se não houvesse alguém capaz de ouvir. Portanto, a missão da fé é compreender o que ouviu, explicitar seu fundamento.

Se o objeto da fé é racional, a teologia consiste no esforço de compreensão do objeto da fé. Não há razão para o medo protestante de que a teologia seja uma racionalização indevida da fé, uma construção idolátrica que falseie a verdadeira face de Deus.

20 de abr. de 2014

Crer para entender

Feliz Páscoa, queridos leitores!

Ontem, na solene Vigília Pascal, tive a oportunidade de novamente ouvir os relatos fundamentais — ou, melhor dito, fundantes — da visão cristã do mundo: a criação e o êxodo. Enquanto escutava o Hino dos Seis Dias (Gn 1,1–2,2) e a descrição da Travessia do Mar Eritreu (Ex 14,15–15,1), passaram-me pela cabeça muitas lembranças de conversas que já tive com pessoas céticas, as quais, imbuídas de um racionalismo superlativo, tropeçam escandalizadas no cunho mitográfico das primeiras páginas bíblicas.

Tal tipo de conversa tem crescido à minha volta nos últimos tempos. Por um lado, por causa do filme “Não É — a incrível história do homem que não é Noé” (esse midrash mal feito do Aronofsky sobre a história de Noé); por outro, devido à minha pós-graduação em arqueologia, ambiente favorável tanto para a crendice no caráter probatório dos achados arqueológicos quanto para a desconfiança doentia de tudo o que não seja empírico.

O dilema é simples: o Pentateuco é histórico ou é mitologia?

A resposta, porém, não é simples. Vejo o Pentateuco como narrativa de memória, não história. Ao mesmo tempo, vejo o Pentateuco como mitografia, não mitologia.

Geralmente, a história pretende rigor, precisão, método, na descrição de fatos passados. Ora, o Pentateuco pretende estabelecer para Israel a sua origem, não a sua história. E sua origem remonta à protologia, não à história! O mundo foi criado tendo em vista Israel, pois o mesmo ato criador de Deus que dominara o Oceano primordial é o ato que expõe o dorso do Mar “Limítrofe” (hebraico Sof)! Segundo a concepção antiga, o Mar Vermelho (egípcio Suf) seria a borda do mundo!

Uma comparação bem próxima a nós: os combatentes da Batalha de Guararapes (brancos, negros e índios) nunca imaginariam que, séculos depois, seriam considerados os fundadores do Exército Brasileiro e que à sua época teria nascido a alma brasileira, fusão das três raças. Ou seja, a batalha ocorreu de fato, mas seu significado só foi reconhecido e aplicado muito posteriormente. Isso é história? Isso é mito?

Geralmente, a mitologia conta a biografia dos deuses: seu nascimento (teogonia) e suas lutas (teomaquia). Não é o caso da Bíblia, em que Deus antecede as vicissitudes do cosmo e impera sobre ele. Se a cosmogonia bíblica fosse uma teogonia, não seria uma criação, mas uma emanação. A diferença entre essas concepções é grande.

Emanação significa que o mundo é “magma”, na expressão de Cornelius Castoriadis, cuja ordem lhe vem imposta de fora. Para Platão, seria a obra do demiurgo sobre o caos; para Aristóteles, influxo do motor imóvel.

Criação significa afirmar que Deus não precisa de causalidade material para atuar. Significa que seu Logos possibilita e funda a existência. Significa que a natureza não é só natureza, mas criação, isto é, está fundamentada na lógica do criador. A ciência moderna é fruto dessa fé. Não haveria ciência moderna sem o cristianismo, pois a razão sem fé enlouquece, fica cega.

Assim, para o homem moderno em sua cegueira, quem põe ordem no caos “sou eu”, pois num mundo pluriversal e fragmentário, a verdade é criada “por mim” e “para mim”. Adorno e Horkheimer analisaram o Iluminismo e reconhecem que ele se nutre da divinização da verdade. Contudo, se a verdade é um construto humano, não pode haver luz. Se não há metafísica, se não há fé, se não há transcendência, a razão é irracional.

O reducionismo da razão implica afirmar que só seria racional o que pode ser reproduzido como experiência. Assim, renuncia-se à verdade para ficar com a certeza, mas morre-se na dúvida cartesiana.

A missão da razão é abeirar-se ao mistério, não negá-lo.

Se não acreditardes, não compreendereis! (cf. Is 7, 9)

30 de nov. de 2013

O Natal e o Antinatal


O amargo escritor Curzio Malaparte, falecido em 1957, escreveu palavras duríssimas contra o Natal, quando — já então! — essa festa perdera muito de sua compreensibilidade para a cultura do século XX:

Dentro de poucos dias será Natal, e as pessoas já se preparam para a suprema hipocrisia. Por que nenhum de nós tem a coragem de dizer a si mesmo que o século, o mundo, nunca foi tão pouco cristão como nesses anos? Por que nenhum nós ousa reconhecer que a retórica dos políticos, o grande desfile de sentimentos evangélicos, as procissões de falsos devotos só servem para esconder uma terrível verdade: que as pessoas não são mais cristãs, que Cristo morreu na alma de seus filhos, que a hipocrisia desceu da política até a vida social, familiar e individual? Não nos importamos com quem sofre; nada fazemos para impedir o sofrimento, a miséria, o mal, o crime, a violência, a destruição; permanecemos quietos, calados, e festejamos o santo Natal.

E prossegue:

Gostaria que, no dia de Natal, o panetone se tornasse carne dolente sob a faca, e o vinho se transformasse em sangue; que por um instante todos sentíssemos o horror do mundo na boca. Queria que, no dia de Natal, nossas crianças subitamente aparecessem como serão amanhã, dentro de alguns anos, se não ousarmos nos rebelar contra o mal que nos ameaça. Pobres corpos estraçalhados, abandonados na lama vermelha de um campo de batalha. Queria que na noite de Natal, em todas as igrejas do mundo, um pobre padre se levantasse e gritasse: fora desse berço, hipócritas, mentirosos; vão para suas casas chorar sobre os berços dos seus filhos. Se o mundo sofre, é também por culpa de vocês, que não ousam defender a justiça e a bondade, e têm medo de serem cristãos até o fundo. Fora desse berço, hipócritas. Este menino, que nasceu para salvar o mundo, tem horror a vocês.

Esse texto atormentado foi escrito três anos antes de seu batismo, por sua vez ocorrido um mês antes da morte. Faltando pouco para deixar essa vida, disse ao padre que o assistia: “Vamos!” — “Para onde?”, indagou o sacerdote — respondeu‑lhe: “Para o céu!” (cf. COMASTRI, Angelo, Tu És Trindade, p. 28)

***

Pergunto o mesmo agora: “Vamos!”

— Para onde? — vocês me perguntam.

— Preparar o Natal! Vamos para Belém! Adeste, fideles, læti triunfantem, venite, venite ad Betlehem! Belém é o nosso céu, onde podemos ver a face de Deus.


O primeiro traço é que Deus é frágil. Por exemplo, o Todo‑Poderoso obedece a um imperador que ordena um recenseamento.

O segundo, é que Deus é pobre. Nasceu precariamente, sobre fatne, isto é, sobre “esterco e palha”!

O terceiro, é que Deus é amor. Amor é dom, entrega, e Deus é dom infinito: dá tudo, dá‑se, fica pobre para nos enriquecer; “aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Deus é humilde porque não vive para si, mas vive para nós!

9 de out. de 2013

Deus tem Facebook?

Indubitavelmente, nosso dia a dia foi impactado pela nova cultura midiática, transformando a sensibilidade e afetando a forma de tratar com as pessoas e, ainda mais, com Deus.

Já li que a média de checagens diárias ao Facebook é de 14 vezes por dia. O efeito desse hábito pode ser desastroso, pois Deus não costuma se comunicar da mesma forma que a maioria das pessoas. Embora ele goste das pequenas coisas que você gosta e se alegre vendo a foto do último prato de comida que você comeu, isso é muito pouco para ele (e para você também).

Como deve ser nossa comunicação com Deus? Que passos dar para tornar esse diálogo mais robusto?

Primeiro, é preciso fazer do tempo gasto com a Bíblia e com a Eucaristia uma decisão diária. A Bíblia são as mensagens e a Eucaristia são as fotos que Deus põe na sua timeline. Para vê-las, desligue o celular e saia do PC.

Depois, é preciso encontrar a Deus no próximo de carne e osso. A textura da pele traz motivação para a vida. Insanidade é fazer a mesma coisa todo dia do mesmo jeito, de novo, de novo e de novo, e esperar resultados diferentes. Inove!

Por fim, é preciso contabilizar os follows e unfollows (acertos e equívocos) mediante um bom exame de consciência diário, que lhe diga claramente se você fez de Deus a prioridade da jornada. Certamente, ele cutucou você. Você o cutucou de volta?

5 de out. de 2013

Quem foi Jeremias

Jeremias, oriundo de família sacerdotal, consagrado por Deus desde antes de nascer para uma missão precisa de eficácia comprovada (Jr 1,1.5.9), é o tipo mais perfeito de Cristo.

Biografia

Tendo recebido a vocação em 627 aC, passou a denunciar a apostasia do seu povo (Jr 2–6). Diante da morte prematura de Joacaz, que quisera continuar a reforma religiosa de seu pai, dedicou-lhe sentida elegia (Jr 22,10-12).

Durante o reinado de Jeconias (609-598 aC), títere do Egito, Jeremias legou-nos as confissões (Jr 11,18-23; 12,1-6; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18) de seu desalento e solidão, em que encarnou o sofrimento de Judá. Desse período é a declaração de seu celibato (Jr 16,1-9). Como pronunciara um duro discurso contra o Templo aquando da coroação de Joaquim (Jr 7; 26), foi decidida sua morte, depois evitada; de qualquer jeito, nunca mais pôde entrar no Santuário.

Tendo alertado o perigo do império neobabilônico (Jr 25) em 605 aC, acabou assistindo à primeira deportação oito anos depois. Nesse período já o vemos acompanhado por Baruc, seu fiel secretário (Jr 36; 45).

Como a nação se dividisse entre recorrer ao novo faraó egípcio ou aceitar Sedecias como rei enquanto Jeconias vivia no exílio, Jeremias advoga por submeter-se à Babilônia (Jr 24). Aos exilados, envia uma carta desenganando acerca das promessas de retorno iminente dos falsos profetas (Jr 29).

A paixão de Jeremias

Quando em 588 aC Nabucodonosor cercou Jerusalém, os fatos deram razão a Jeremias, o qual prenunciou a derrota (Jr 34), embora também sinalizando a restauração (Jr 32,4-14). Contudo, ele caiu em desgraça e sofreu a sua “Paixão” (Jr 38,14-28) — lançaram‑no a um suplício concebido para ser mortal —: confinado num tanque de lodo no subsolo de uma cisterna, não pôde ali nem sequer esperar o pão da miséria que se joga aos condenados, pois já não havia pão na cidade.

Um justo de origem estrangeira, oficial da casa do rei, chamado Abdemelec, conseguiu obter deste a ordem furtiva de tirar o prisioneiro de lá antes que expire. Retornou a uma detenção menos desumana no pátio da guarda do palácio real, quando o exército babilônio se preparava para o assalto decisivo. Quando cai Jerusalém, o profeta é protegido pelas autoridades babilônicas.

Tendo permanecido ao lado de Godolias (Jr 40,2-6), Jeremias se viu obrigado a acompanhar para o Egito os sediciosos que assassinaram o administrador ao cabo de três meses. Continuou sua pregação ali (Jr 42-44), até que, segundo uma tradição cristã, foi lapidado em Tafnes pelos mesmos cuja conduta merecera suas rigorosas reprovações.

Perene memória

Sua memória sobreviveu como de ardente defensor do Deus único (Eclo 49,8s). Diz-se que escondeu a arca da aliança, o altar dos perfumes e a Tenda da Reunião no monte Nebo enquanto Deus não reúne o seu povo, para que as vicissitudes da história de Israel não interrompesse a tradição litúrgica oriunda de Moisés (2Mc 2,1ss).

Ainda apareceu como protetor dos irmãos séculos depois, ao entregar em sonhos a Judas Macabeu, cheio de glória, a espada da vitória sobre os selêucidas (2Mc 15,13-16). Mesmo o povo no tempo de Cristo cogitará ser Jesus Jeremias ressuscitado (Mt 16,14). A matança dos inocentes e a compra do campo do oleiro são profecias a ele atribuídas (Mt 2,7s; 27,9s).

Obra literária

O livro dos Trenos se entende como um segundo epílogo a Jeremias, não necessariamente de sua autoria. Na Bíblia Católica, sempre na sequência de Jeremias (Jr) e Trenos (Lm) vêm o livro de Baruc (Br 1–5) e a chamada “Epístola de Jeremias” (Br 6). Discute-se se esta teria mesmo estado nos arquivos do profeta (2Mc 2,1a), pois o autor parece ter vivido na Babilônia: conhece pessoalmente seus costumes e práticas, particularmente o fausto cultual estimulado por Alexandre o Grande (tempo da 7ª geração: Br 6,2; dentre os que ficaram livremente na terra do exílio, após o edito de Ciro: Esd 1,5; cf. 7,16; 8,25; Ne 1,1; cf. 2,1.5-6).

A composição e a transmissão de Jr são bastante acidentadas. No século XX proliferaram hipóteses explicativas, que podem ser assim resumidas: a) O livro procederia de diversas fontes. b) O texto hebraico (massorético) seria uma atualização de um livro já terminado do qual possuiríamos a versão grega (dos LXX).

2 de out. de 2013

Quem foram os profetas

Profetas não escritores

Depois de Moisés, Aarão e Maria, o Pentateuco refere-se a Balaão, o qual, embora adivinho estrangeiro contratado para amaldiçoar Israel, profetizou quatro oráculos a seu favor. Uma inscrição em Tell Deir Alla, na Transjordânia (1986), dá pé a supor que existia um “livro de Balaão, filho de Beor, o homem vidente dos deuses”; além disso, consta ter havido um famoso rei vidente arameu muito antigo.

Posteriormente, Samuel surge à frente de um dos grupos — aparecidos no seu tempo — dos fervorosos “filhos dos profetas” (1Sm 19,20). Eram comunidades religiosas que viviam de esmola (2Rs 1,8; 4,42; 5,22) e se vestiam com mantos de pelo e cíngulo de couro. Arrebatados pelo Espírito Santo, entravam em transe extático, provocado frequentemente pela música (2Rs 3,15) e bebidas fermentadas. Expressavam‑se mais pelas danças e cantos do que pela palavra, lançando gritos e invocações, e às vezes se faziam incisões (1Rs 18,28), tiravam as vestes e acabavam amiúde em estado de prostração (1Sm 19,24), pelo que chegavam a ser tachados de loucos (cf. 2Rs 9,11; Jr 29,26; Os 9,7).

Natã é o mais famoso profeta áulico, cortesão de Davi. Esse tipo de profeta foi comum no reino do Norte, e teve grande influência nos assuntos políticos e sociais.

Elias e Eliseu foram profetas carismáticos, desvinculados tanto da corte quanto do Templo. Elias é considerado o “pai dos profetas”, pois foi o mais valente defensor do javismo, quando o sincretismo dos omríadas devastava a fé de Israel. Eliseu o sucede após a assunção do seu mestre, destacando-se sua taumaturgia e sua intervenção nos assuntos públicos.

Profetas escritores

Do século VIII aC em diante, os principais profetas deixaram escritos recebidos no cânon bíblico. É razoável admitir que os oráculos de cada profeta tenham sido compilados ou completados por discípulos que escreveram integralmente (cf. Is 8,16). Contudo, parece muito mais enriquecedor aprofundar no alcance teológico refletido na ordem dos livros dentro do cânon e na ordem das diversas seções dentro de cada livro do que se imbricar na questão das ipsissima verba dos profetas.

Os hagiógrafos têm mais interesse em transmitir as palavras proféticas que em expor a biografia de quem as pronunciou. Por isso, há duas formas de intitular os livros proféticos. A mais antiga, quando os profetas ainda não tinham a auréola de mestres, diz: “Palavra do Senhor dirigida a…” (Os 1,1; Sf, 1,1; Jl, 1,1; Jr 1,1 LXX). A mais recente simplesmente aduz o magistério autêntico dos profetas reconhecidos (cf. Am 1,1; Jr 1,1 TM).

10 de set. de 2013

O escudo untado de sangue

A eleição real recaíra sobre Saul: um valoroso jovem de uma rica família benjaminita — a tribo menos importante de Israel — com um ardente anelo de grandeza e um profundo desejo do transcendente.

Não obstante, quando o inimigo acossa e cresce o clamor do povo, Saul sente medo… O ferro enfrenta o bronze numa guerra antiga… Mas na alma do rei trava-se uma batalha ainda mais violenta: eis a emocionante biografia de um homem dividido entre interesses contraditórios e a batalha por sua própria alma.

Todos deveríamos agradecer de não estar em seu lugar… Mas, embora o rei Saul tenha sido, aparentemente, “um passo em falso de Deus”, uma escolha equivocada, nada desmerece o seu heroico fim.

Uma péssima consulta

Partindo da concentração de Afec, o exército filisteu se dirigiu para a fértil planície de Esdrelão. O plano dos filisteus era conquistá‑la a fim de cortar em dois o território de Israel e controlar também as montanhas de Efraim pelo norte. Enquanto isso, acamparam em Sunam.

A fim de conter o avanço dos inimigos, Saul conduziu seu exército para a mesma área, nas proximidades de Jezrael; mas as forças eram desiguais. Saul consultou a Deus a respeito da sorte da guerra; não recebendo nenhuma resposta do efod, as sortes sagradas estabelecidas por Moisés, resolveu recorrer aos adivinhos e necromantes, superstição que ele mesmo banira de Israel.

De noite, em jejum o dia inteiro, dirigiu‑se disfarçado a Endor, diante das encostas do Tabor, à casa de uma mulher necromante, vestido com roupas modestas, acompanhado por dois homens. Chegou à sua casa e, jurando por Deus, disse‑lhe: “Como é certo que Deus vive, nenhuma culpa cairá sobre ti”. A bruxa de Endor falou: “A quem invocarei?” Saul respondeu: “Invoca‑me Samuel” (1Sm 28,10s).

Enchendo a medida da cólera de Deus, a mulher fez alguns passes, murmurou palavras especiais, e eis que Samuel surgiu da terra. Ela percebeu que o consulente era Saul, o qual se prostrou ao ver Samuel.

Saul explicou ao espectro que precisava de uma resposta de Deus acerca da sorte na guerra. Samuel lhe respondeu:

— “Por que ainda me consultas, quando YHWH se retirou de ti, tornando-se teu adversário? YHWH cumpriu o que tinha falado por meu intermédio. YHWH arrancou da tua mão a realeza e a deu ao teu companheiro Davi. Já que não obedeceste a YHWH e não levaste a cabo a sua cólera ardente contra Amalec, por isso YHWH hoje te fez isto. YHWH entregará contigo também a Israel nas mãos dos filisteus, e amanhã tu e teus filhos estareis comigo. YHWH entregará nas mãos dos filisteus também o exército de Israel” (1Sm 28,16-19).

Saul caiu como fulminado, profundamente apavorado. Depois de servido com uma vitela, retomou o caminho do acampamento.

A batalha de Gelboé

Saul tomou seus três filhos, Jônatas, Abinadab e Melquisua, e partiu com eles para a luta, ciente da morte certa e aguardando com frieza a fatalidade. Saul se sabia abandonado por Deus e deu início à batalha no furor do desespero.

O exército de Israel foi repelido; e o rei, com as forças que ainda sobravam em condições de lutar, recuou para o monte Gelboé, onde o ataque dos filisteus se tornara mais violento. Neste lugar, seus três filhos maiores caíram no combate.

Saul, ferido e desesperado, se lançou sobre sua espada para não cair com vida em mãos dos inimigos. Em seguida, não só os combatentes de Israel se dispersaram, mas também os habitantes da região fugiram de suas cidades, que foram ocupadas pelos filisteus.

No dia seguinte, a cabeça de Saul foi carregada como troféu pelas cidades da Filisteia, enquanto o corpo foi pendurado na muralha de Betsã. Na noite seguinte, porém, os habitantes de Jabes de Galaad, lembrando‑se de que, quarenta anos antes, tinham sido salvos por Saul, atravessaram o Jordão e, após retirar às escondidas seu cadáver, deram‑lhe piedosa sepultura sob seu terebinto.

O canto do arco

Ao terceiro dia, um estranho amalecita levou a Davi, que vivia acastelado em Siceleg, a coroa e o bracelete reais e lhe contou que Saul só conseguira cair morto por ter pedido sua ajuda. Davi ao sabê‑lo, mandou executá‑lo por ter levantado a mão contra o ungido do Senhor.

Depois, chorou amargamente e fez esta elegia, então consignada no atualmente perdido Livro do Justo (2Sm 2,19-27):

“A glória de Israel jaz ferida de morte nas tuas alturas!
Como caíram os bravos!

Não o conteis em Gat.
Não o proclameis pelas ruas de Ascalon,
para que não se alegrem as filhas dos filisteus
nem se rejubilem as filhas dos incircuncisos!

Montes de Gelboé, jamais caia orvalho nem chuva sobre vós
nem haja campos férteis!
Pois lá foi aviltado o escudo dos bravos:
O escudo de Saul, não untado de óleo,
mas com o sangue dos feridos, com a gordura dos bravos.

O arco de Jônatas não recuava
e a espada de Saul não voltava sem efeito.
Saul e Jônatas, amados e queridos,
nem a vida, nem a morte os pôde separar:
mais rápidos que águias, mais fortes que leões!

Filhas de Israel, vertei lágrimas sobre Saul,
ele que vos vestia de púrpura encantadora,
ele que pregava ornatos de ouro nos vossos vestidos!
Como caíram os bravos em plena batalha!

Jônatas, sobre tuas alturas ferido de morte!
Quanto estou dolorido por ti, Jônatas, meu irmão!
Quanto me eras caro e querido!
Tua amizade me era mais maravilhosa
que o amor de mulheres!

Como caíram os bravos
e pereceram as armas de guerra!”

Saul foi um herói?

Vale a pena recolher na íntegra o belo comentário de Flávio Josefo acerca da morte de Saul (Antiguidades Judaicas, VI, 15, 253):

“Julgo dever acrescentar outra reflexão, que pode ser útil a todos e particularmente aos reis, aos príncipes, aos grandes, aos magistrados, às outras pessoas constituídas em dignidade e a todos os que em qualquer condição estejam, têm a alma grande e nobre, a fim de inflamá‑los de tal modo ao amor da virtude que não haja penas nem tribulações que eles não aceitem, nem perigos que eles não desprezem e até mesmo a morte, para conquistar uma reputação imortal, dando sua vida pelo bem da pátria.

Nós vemos o que Saul fez, pois, ainda que Samuel o tivesse avisado de que ele seria morto com seus filhos na batalha, ele preferiu perder a vida a fazer uma ação indigna de um rei, para conservá‑la, abandonando seu exército, o que seria como entregá‑lo nas mãos dos inimigos. Assim, não hesitou em se expor com seus filhos a uma morte certa, mas julgou que seria melhor e muito mais feliz terminar gloriosamente seus dias, com estes, combatendo pela salvação da pátria e merecendo viver perenemente na memória da posteridade, do que o sobreviver à sua infelicidade, não ter mais uma posição e ser ainda tido em pouco na opinião de todos. Não poderia, pois, deixar de considerar já esse soberano, neste ponto, como muito justo, muito sensato, e muito generoso. E, se algum outro fez antes dele ou fizer no futuro a mesma coisa, não haverá elogios de que não seja digno. Pois ainda que aqueles que fazem a guerra na esperança de obter a vitória, merecem que os historiadores elogiem suas ações e seus feitos grandiosos, parece‑me que somente devem ser tidos como provectos na coragem os que, à imitação de Saul, preferem de tal modo sua honra à própria vida, que desprezam perigos certos e inevitáveis.

Nada é mais comum do que empreender aquilo cujo desfecho é duvidoso e de que, se houver sorte favorável, podem se auferir grandes vantagens. Mas nada poder prometer senão coisas funestas, estar mesmo certo de que se perderá a vida no combate e ir com coragem intrépida afrontar a morte, é o que se pode dizer o cúmulo da generosidade e da coragem. Foi isso que admiravelmente fez Saul; foi o exemplo que ele deu a todos os que desejam eternizar sua memória pela glória de suas ações, mas principalmente aos reis, aos quais a nobreza da própria condição, não somente não permite abandonar o cuidado de seus súditos, mas os toma mesmo dignos de censura se tiverem por eles apenas um a medíocre afeição.”

27 de ago. de 2013

Quatro paradoxos do Espírito

O que Chesterton denominava “paradoxo cristão” era o que Vittorio Messori explicava como “religião do e”.

De fato, o Cristianismo tem essa característica crítica: juntar aparentes opostos de forma surpreendente, de modo a causar admiração nos crentes e irrisão nos descrentes. Assim, Deus é Uno e Trino, Jesus é Deus e Homem, a Igreja reúne santos e pecadores, Maria é Virgem e Mãe, etc.

Ora, um capítulo novo em teologia (novo só por ainda carecer de uma desenvolvida sistematização), o qual Paulo VI considerava o próximo tema a ser aprofundado (cf. Audiência, 6/6/1973), é o da pneumatologia, isto é, o do estudo do Espírito Santo.

Em assunto tão elevado e inexplorado, é evidente que alguns desses paradoxos manifestem-se ainda mais surpreendentes aos nossos ouvidos. Gostaria de comentar quatro deles, resumindo algumas ideias da trilogia de Ives Congar sobre o Espírito Santo.

Penhor e Meta

“Venha teu Espírito sobre nós e nos purifique”, diz uma variante lucana ao pedido do Reino no pai-nosso. Com efeito, o Espírito é nossa “última recompensa”, como dizia São Nicolau de Flue. Ao mesmo tempo que o aguardamos, porém, ele já vive conosco e em nós.

Em paralelo, o mesmo Espírito recebido no batismo deve novamente ser recebido na crisma, semelhantemente a como os apóstolos o receberam em Pentecostes depois de já o ter recebido no dia da ressurreição.

Difícil é para o homem avaliar essas ascensões de plenitude em plenitude.

Carisma e Companheiro

É evidente que o Espírito já operava no Antigo Testamento (cf. 1Cor 10,3s). Ao mesmo tempo, só se fez presente na Igreja com o mistério pascal de Cristo (cf. Jo 7,39). Assim sendo, em que diferiu sua ação?

A tese segundo a qual no Antigo Testamento ele apenas agia nos crentes, enquanto no Novo Testamento o Espírito encheu de graça os fiéis, não foi acolhida pelos Padres Latinos, por São Tomás, nem pelos Romanos Pontífices.

O Aquinate explica que a graça era limitada pelo reato de pena do pecado original. Portanto, podemos concluir que, embora os patriarcas e profetas possuíssem a graça, o Espírito não lhes teria produzido os efeitos de filiação e habitação?

Eis uma questão aparentemente sem resposta!

Templo e Glória

Por metonímia, os targumim chamaram a glória de Deus de Shekinah (Tenda, Habitação). Essa Glória, assim como o Nome divino, residem no Santuário ou Morada de Deus.

Sabemos, contudo, que Deus não reside em casa feita por mão humana (At 17,24). O verdadeiro templo do Espírito, que ele preenche (cf. Lc 4,1), em que ele mora e permanece, é a alma humana.

Não temos, porém, certeza infalível de sua presença (cf. DS 803-805 e 823s). Como então o percebemos como Consolador? Interrega viscera tua: si plena sunt caritate, habes Spiritum Dei — indaga o teu íntimo: se tens caridade, possuis o Espírito de Deus (Santo Agostinho, In Epist. Ioann. Tract. VIII, 12).

Selo e Transcendência

Para explicar em que sentido se apropria ao Espírito Santo a justificação e a santificação dos fiéis, houve teólogos como Scheeben (+1892) que avançaram a ponto de defender uma “encarnação” do Espírito na Igreja.

Sem tal exagero, é preciso confessar, entretanto, que a alma agraciada é assimilada à divindade pela ação trinitária, segundo o exemplar de cada Pessoa divina.

A dificuldade se radica em que o exemplar transcende seu beneficiário, sem compor-se com ele. Para explicá-lo, São Paulo irá apelar à imagem do sinete (2Cor 1,22; Ef 1,13s; 4,30).

25 de jun. de 2013

O tio de São João Batista

A notícia de que São José entrou nas Orações Eucarísticas II, III e IV foi um motivo de grande alegria. E acabou confirmando a tendência dos últimos séculos de colocar o Santo Carpinteiro acima de todos os outros Santos.

A dúvida sempre ficou por conta de seu sobrinho, sobre o qual Cristo afirmou: “entre os nascidos de mulher, não houve maior que João Batista” (Mt 11,11a).

A iconografia, à direita e a esquerda de Jesus, traz às vezes Maria e João. E José, onde ficaria? Penso que  os iconógrafos comeram mosca. Afinal, Maria é a Rainha Mãe e, como tal, deve estar junto de Cristo.

A Rainha Mãe era a mulher mais importante na corte real judaica e exercia a função de conselheira. Os reis tinham muitas mulheres, mas uma só mãe, à qual deviam ouvir e venerar, pois dividia o trono com ela (1Rs 2,13-21; 2Rs 24,12; 2Cr 22,3).

Assim, à direita de Jesus e Maria ficaria José e, à esquerda, João Batista, pois “o menor no Reino dos Céus é maior do que ele” (Mt 11,11b). Ou seja: José e João seriam os máximos representantes de cada um dos Testamentos.

Alguém poderia questionar se José — do mesmo modo que João — não deveria ser classificado como personagem veteritestamentário. Contudo, João Paulo II ensinou que “no limiar do Novo Testamento, como já sucedera no princípio do Antigo, há um casal” (Redemptoris custos, nº 7), pois “José é o primeiro depositário do mistério divino, juntamente com Maria. Simultaneamente com Maria — e também em relação com Maria — ele participa nesta fase culminante da auto-revelação de Deus em Cristo; e nela participa desde o primeiro momento. Tendo diante dos olhos os textos de ambos os Evangelistas, São Mateus e São Lucas, pode também dizer-se que José foi o primeiro a participar na mesma fé da Mãe de Deus” (ib., nº 5).

***

Que nada disso diminua o culto a São João Batista! Por sinal, boa Festa Junina a todos!

25 de mai. de 2013

As três montanhas de Moisés

O monte da Fé

Moisés foi apascentar as ovelhas do sogro madianita e chegou no Planalto do Sinai, no deserto de mesmo nome. Segundo uma tradição, alcançou o pico do Salgueiro (gebel Serbal), de 2.054 m de altura, que está quase a pique sobre um planalto a 1.500 m sobre o nível do mar, rico em águas.

Deus então lhe fala, através de seu Anjo, desde uma sarça que ardia sem se consumir. Se era uma variedade de ditamo branco (que segrega uma essência facilmente inflamável com calor intenso sem consumir as plantas donde emana), ou uma lorantácea (parasita das árvores desses climas, cujas flores vermelhas parecem brasas sob o sol pleno), não importa. O fato é que Deus lhe comunica que se tinha lembrado de seu povo oprimido no Egito e o chama a ser o seu libertador.

De pés descalços, Moisés ousa indagar pelo Nome de Deus e obtém em resposta o que torna esse episódio a teofania fundamental de toda a história da salvação: Deus lhe revela — com uma aparente recusa, reveladora ao mesmo tempo que ocultando, a santidade e a transcendência divinas — o seu Nome inefável: “Eu Sou Aquele Que Sou”: JAVÉ (YaHWeH).

A noção divina que o Nome JAVÉ representa é distinta e elevada, superior ao nome com o qual Deus se revelara a Abraão (Gn 17,1; 28,3; 35,11; Ex 6,3; 1Rs 20,23; Ez 1,24; 10,5), pois “Ele é” significa primariamente “Ele vive”, contraposto aos ídolos mortos; “Ele é” o Deus presente que “será” com Moisés e com o povo, como o foi com os patriarcas ((Ex 3,6.12.15).

O monte do Amor

Enfim o povo chegou ao monte Sinai, também chamado Horeb pelas tradições eloísta e deuteronomista, termo que significa “árido, seco”. É o “Pico de Moisés” (gebel Musa), com 2.285 m de altura, até onde Egéria peregrinaria em 383 AD.
Ao terceiro dia do mês de Sivã, Deus comunicou ao povo as suas “Dez Palavras” e transmitiu a Moisés o “Código da Aliança” (Ex 20,22–23,19), pacto selado com solene sacrifício de sangue (Ex 24,3-8) e Comunhão (Ex 24,9-11).

Aí nasceu Israel como povo livre (Lv 26,42-45; Dt 4,31; Eclo 44,21-23) e comprometido a observar os mandamentos e a Lei (Ex 20,1; 20,22–23,33; Dt 5,1-21). Em contrapartida, Deus prometeu fazê-lo seu povo particular e cercá-lo com sua proteção (Ex 19,4-8; Dt 11,22-25; 28,1-14).

A Lei de Deus (Js 24,26) é, pois, o conjunto das prescrições religiosas e civis colecionadas no Pentateuco, o qual, porém, contêm coleções (Ex 25–31; 36–40; Lv 1–16; 23–27; Nm 1–10; 17–19) diacronicamente incompatíveis que foram sendo acrescentadas pela tradição à legislação mosaica a fim de acomodá-la às novas circunstâncias da nação.

O monte da Esperança

“No final do caminho do Êxodo, destaca-se outro lugar elevado, o monte Nebo, donde Moisés pôde contemplar a Terra Prometida (cf. Dt 32, 49), sem a alegria de poder pisá-la, mas com a certeza de a ter finalmente alcançado. Aquele seu olhar a partir do monte Nebo é o próprio símbolo da esperança. Daquele monte, ele podia constatar que Deus tinha mantido as suas promessas. Uma vez mais, porém, devia confiadamente abandonar-se à omnipotência divina quanto ao pleno cumprimento do desígnio preanunciado.” (Bem-aventurado João Paulo II, Carta sobre a peregrinação aos lugares relacionados com a história da salvação, 6).

1 de mai. de 2013

São José Empresário

Neste dia de São José Operário (e por que não “Empresário”? afinal, ele era o dono da oficina!), vale a pena relembrar alguns aspectos da teologia do trabalho.

São Josemaria, que fez do trabalho o eixo da sua proposta de santidade no meio do mundo, ensinava que o trabalho é, para nós, meio específico de santidade. O que quero dizer‑vos é que temos de converter o trabalho em oração e ter alma contemplativa (Carta 15‑X‑1948, n. 22).

Ora, se o trabalho é oração, convém captar e viver seu caráter dialógico, em que Deus nos fala e nós, por nossa vez, falamos a ele.

No trabalho, Deus nos interpela e nós lhe respondemos. Deus nos fala através do trabalho porque o Senhor está, por imensidade, em todas as criaturas, à nossa espera, ao nosso alcance, ao nosso dispor.

O trabalho é uma palavra dirigida a nós pelo Pai

“Filho, vai trabalhar na minha vinha” (cf. Mt 21,28‑31). Ao trabalho vai o filho, não o mercenário; portanto, ao trabalhar, exercitamos nossa filiação divina, assemelhamo‑nos ao Filho de Deus. 

Como é nossa resposta ao chamado de Deus? Há três opções:
  • Rebelde, grosseira e primária — “não quero!”
  • Preguiçosa, falsa e desatenta — “sim, pai! Mas não foi”
  • Generosa, pronta e sacrificada como a de Cristo — “eis que venho para fazer a tua vontade” (Hb 10,9)

Itinerário da intimidade com Deus

Deveis manter — ao longo do vosso dia — um diálogo constante com o Senhor, que se alimente das próprias incidências do vosso trabalho profissional. Ide com o pensamento ao Sacrário e oferecei ao Senhor o trabalho que tenhais entre mãos; recorrei à nossa Mãe do Céu e ao nosso Pai e Senhor São José, para que vos ajudem a superar as pequenas contrariedades que possam apresentar‑se; recomendai os vossos companheiros e colegas aos seus Anjos da Guarda; reavivai a intenção apostólica, aproveitando as pausas no trabalho; pedi luz ao Espírito Santo, para resolver de maneira adequada os problemas que tenhais pela frente (São Josemaria, Carta 15‑X‑1948, n. 22).

27 de abr. de 2013

Quantos livros tem a sua Bíblia?

Encontrei essa tabela que ilustra muito bem como o cânon bíblico teve uma história fluida:

What's in Your Bible? Find out at BibleStudyMagazine.com

Os samaritanos (que seguem até hoje a linha conservadora dos antigos saduceus) retêm os únicos livros que são unanimidade: o Pentateuco.

Os judeus estipularam, a partir das ideias da escola rabínica de Jâmnia (que funcionou entre os anos 75 e 117 dC), um cânon em que os livros são artificialmente catalogados para dar um total de 22 (o mesmo número de letras hebraicas). Todos devem ter sido escritos em hebraico ou aramaico.

As Igrejas ainda fora da comunhão com Roma (copta, siríaca, grega, eslava) nunca oficializaram o cânon. Com isso, suas listas são testemunhos vivos da Tradição Apostólica dos primeiros momentos do cristianismo, quando ainda não havia unanimidade.

A unanimidade foi sancionada para as Igrejas em comunhão com Roma quando a Igreja Católica dogmatizou a lista fechada de livros, opondo-se aos jacobitas, que queriam incluir novas obras (1441 AD), e a Lutero, que retirara alguns (1546 AD).

Os protestantes são um caso à parte, pois criaram sua lista própria em atitude polêmica com a Igreja Católica. Eles encaram qualquer tipo de tradição como abusiva, razão pela qual rechaçaram a prática multissecular de aceitar livros escritos em grego. Para ter um mínimo de base doutrinal, seguiram o cânon judaico para o Antigo Testamento. Mas quase excluíram os deuterocanônicos do Novo Testamento.

16 de fev. de 2013

Quo vadis, Papa?

Estava correndo contra o relógio a 140 km/h quando chegou o torpedo com que me comunicavam a renúncia de Bento XVI. Por sorte a surpresa não me causou um acidente, pois uns cones na pista tinham me feito reduzir a velocidade. 

Em duas semanas, dois chefes de Estado renunciaram: Beatrix da Holanda e Bento XVI da Santa Sé. A primeira pode se dar a esse luxo sem grandes polêmicas, mas o segundo… Quais seriam seus motivos? 

Sempre espere o inesperado. Nunca despreze os conceitos que costumam fazer visita a ritmo de cometa. Renuncie a julgar com ligeireza eventos surpreendentemente singulares. Mas não foi isso que vi na imprensa. Sem dúvida, há pressa em noticiar, em explicar, em comentar, em interpretar. Contudo, quanta pena senti diante da superficialidade de Luís Felipe Pondé, ou da amargura despeitada de Genézio (Leonardo) Boff, ou das teorias conspiratórias de tantos outros críticos acerbos. 

Mais uma vez, o Papa se apresentou como “sinal de contradição”, revelando o segredo de tantos corações que descarregam na Igreja o fel da própria consciência. Após um luminoso pontificado, repleto de conquistas sem precedentes, ainda há quem teime em considerá-lo um fracasso. Ou até quem acuse Bento XVI de ter traído Santo Agostinho e passado para o partido de Pelágio: com efeito, a graça não é mais importante que a mera força humana? 

Quando li a notícia, logo me veio à cabeça a famosa frase apócrifa dos Atos de Pedro, inspirada em Jo 16,5, e imortalizada pela obra de Henryk Sienkiewicz: Quo vadis, Papa? — Papa, aonde vais?

O texto do martírio de São Pedro conta como o velho pescador, informado da cruel perseguição, partiu solitário de Roma a fim de servir o Senhor, mas permanecendo vivo. Ao sair, encontra o próprio Cristo no caminho, a quem pergunta: “Senhor, aonde vais?” (Quo vadis, Domine?

E o Mestre lhe responde: “Vou a Roma para ser crucificado”. Ao que Pedro perguntou: “Serás crucificado novamente?” Mas Jesus lhe respondeu: “Não, Pedro, agora mesmo já estou sendo crucificado”. Então Pedro caiu em si e, vendo que o Senhor subia ao céu, retornou a Roma feliz de saber que seu destino seria o mesmo que o do seu Mestre.

Uma rápida analogia levaria a julgar a renúncia ao sólio pontifício com o mesmo rigor adotado por Dante Alighieri diante da abdicação de Celestino V, o santo papa medieval que o poeta afirma encontrar logo à entrada do Inferno (III, 58-60): 


Alguns já distinguira: eis, de repente,
Olhando, a sombra conheci daquele
Que a grã renúncia fez ignobilmente. 


Ao que parece, São Celestino — conhecido por Dante em 1294 — renunciou perante o Consistório após cinco meses de pontificado por causa de uma astuta campanha do cardeal Gaetani, destinado a sucedê‑lo com o nome de Bonifácio VIII. Desterrado e mantido praticamente prisioneiro em condições desumanas, Celestino veio a morrer dois anos depois. 

Mas o juízo dantesco foi paradoxalmente superado pelo juízo eclesiástico, que elevou à glória dos altares o pobre pontífice acorrentado pelas malhas da intriga. 

A única presunção cabível no caso de Bento XVI, um pastor consciente da gravidade do seu ato, um homem santo, dado à oração e à reflexão, é que ele sofreu muito para chegar a tal decisão e que viu mais benefícios do que prejuízos na mesma. Numa atitude franca e humilde, explicou suas razões aludindo à saúde física e espiritual que estão aquém das necessidades da Igreja neste concreto momento histórico. Portanto, mais do que indagar acerca das debilidades de Bento XVI, é preciso investigar a vulnerabilidade especial que sofre a Igreja de hoje, a ponto de o Papa optar por uma solução tão inusitada. 

Já se disse com muito boa intuição que, com essa renúncia, Bento XVI coroou o ciclo de abnegações que norteou a sua vida de entrega a Deus. Sem dúvida, à pergunta quo vadis, Papa?, ele poderia nos responder como o próprio Senhor: “vou a Roma para ser crucificado” ou — por que não? — “agora mesmo já estou sendo crucificado”. 

***
Transcrevo a passagem original do apócrifo:

Ὡς δὲ ἐξῄει τὴν πύλην, εἶδεν τὸν κύριον εἰσερχόμενον εἰς τὴν Ῥώμην.
Καὶ ἰδὼν αὐτὸν εἶπεν· Κύριε, ποῦ ὧδε;
Καὶ ὁ κύριος αὐτῷ εἶπεν· Εἰσέρχομαι εἰς τὴν Ῥώμην σταυρωθῆναι.
Καὶ ὁ Πέτρος εἶπεν αὐτῷ· Κύριε, πάλιν σταυροῦσαι;
Εἶπεν αὐτῷ· Ναί, Πέτρε, πάλιν σταυροῦμαι.
Καὶ ἐλθὼν εἰς ἑαυτὸν ὁ Πέτρος καὶ θεασάμενος τὸν κύριον εἰς οὐρανὸν ἀνελθόντα,
ὑπέστρεψεν εἰς τὴν Ῥώμην ἀγαλλιώμενος καὶ δοξάζων τὸν κύριον,
ὅτι αὐτὸς εἶπεν· Σταυροῦμαι· ὃ εἰς τὸν Πέτρον ἤμελλεν γίνεσθαι.
(Atos de Pedro, XXXV, 9-16) 

25 de dez. de 2012

Feliz Natal!

Eis o texto do Martirológio Romano para o dia de hoje:

Innúmeris transáctis sæculis a creatióne mundi,
quando in princípio Deus creávit cælum et terram
et hóminem formávit ad imáginem suam;
permúltis étiam sæculis,
ex quo post dilúvium Altíssimus in núbibus arcum posúerat,
signum fœderis et pacis;
a migratióne Abrahæ, patris nostri in fide,
de Ur Chaldæórum sæculo vigésimo primo;
ab egréssu pópuli Israël de Ægypto,
Moyse duce, sæculo décimo tértio;
ab unctióne David in regem, anno círciter millésimo;
hebdómada sexagésima quinta, juxta Daniélis prophetíam;
Olympíade centésima nonagésima quarta;
ab Urbe cóndita anno septingentésimo quinquagésimo secúndo;
anno impérii Caésaris Octaviáni Augústi quadragésimo secúndo;
toto Orbe in pace compósito,
Iesus Christus,
ætérnus Deus æterníque Patris Fílius,
mundum volens advéntu suo piíssimo consecráre,
de Spíritu Sancto concéptus,
novémque post conceptiónem decúrsis ménsibus,
in Béthlehem Iudæ náscitur
ex María Vírgine factus homo:

Natívitas Dómini nostri Iesu Christi secúndum carnem.

29 de out. de 2012

Sete exigências da nova evangelização

1. Amizade com Cristo

Ninguém dá o que não tem. Nova evangelização não consiste em ensinar uma doutrina, mas em ensinar uma relação, isto é, significa ensinar a relacionar-se com Cristo.

Afinal, o Cristianismo é para viver, não para falar. E há por aí um monte de bem-entendidos que são um bando de safados.

2. Contagiar com o ardor apostólico

Mais do mesmo, só que com a novidade do fogo. Diz o provérbio que a primeira condição para se abrir uma loja é sorrir.

E você quer incendiar o mundo sem ser uma brasa?

3. Contar a história de Israel

Seria estranho afirmar que Cristo cumpriu as promessas a Israel e ao mesmo tempo desconhecê-las. Por isso mesmo, São Jerônimo dizia que o desconhecimento da Escritura é o desconhecimento do próprio Cristo.

Não é questão de erudição, mas de um mínimo de intimidade com a Escritura. Gaste menos tempo na Internet e leia a Bíblia 5 min por dia.

4. Domínio da cultura contemporânea

Se você tem a Bíblia na mão direita, tenha o jornal na esquerda. Do contrário, estará criando um gueto intelectual e contradizendo a fé.

A fé se comunica e a comunicação começa por saber ouvir. Antena ligada.

5. Paixão pela Tradição Apostólica

A pior alienação para um católico é querer imitar um protestante. Não é preciso reinventar a roda, ou abrir picadas a facão, pois tudo já se fez e já se disse em nossa história bimilenar.

Você não está sozinho e há experiência de sobra na Tradição. O que falta é ler os grandes autores e estudar a patrística.

6. Ter um coração missionário

Isso não quer dizer necessariamente pegar um avião e ir para a Tailândia. Simplesmente significa sentir-se incomodado com o paganismo do seu quintal.

Se você acha normal a apologia da maconha, o crescente número de divórcios, a baixa assistência à Missa dominical ou a militância homossexual, então você nunca fará nada.

7. Gostar das novas mídias

As novas mídias são a versão 2.0 dos Correios, Telégrafos e Telefones. A sua graça está em aproximar as pessoas, mas é preciso reconhecer que muita gente gasta horas papeando com desconhecidos e vive às turras com quem convive diariamente sob o mesmo teto.

A solução não está em fugir da arena, mas em, respeitando seus limites, lutar conforme as regras.



21 de out. de 2012

A chamada de Abraão

Conforme prometi por ocasião do início do Ano da Fé, passarei a comentar acerca de alguns personagens importantes para nossa compreensão da fé como resposta do homem aos apelos de Deus.

Começo obrigatório é evocar a figura de Abraão, nosso pai na fé, de quem já pude escrever alguma coisa. A descrição abaixo baseia-se numa harmonização de dados bíblicos, historiográficos e arqueológicos.

***

Para fazer frente à vaga de invasores arianos, Hammurabi (1728-1686 a.C.) buscou a unificação dos semitas amorreus: pôs Babilônia por capital, propugnou Marduc como único deus, promulgou suas “decisões de justiça” (um código moral talhado em pedra) e sufocou as insurreições locais. Por essa causa, Mári seria totalmente destruída e a região de Ur seria perturbada por agitações políticas e bélicas, até a deportação de seus habitantes.

Nessa época, nos arredores de Ur vivia acampado, à maneira dos seminômades, um clã arameu oriundo de Harã, cidade da Mesopotâmia Setentrional. Taré, o patriarca, tinha três filhos: Abrão, Nacor e Sarai. A família praticava a agricultura, mas se deslocava a cada estação, com sua pequena grei e seus jumentinhos, às zonas incultas em que as chuvas abundavam e os poços de água eram mais numerosos. Serviam às divindades sumérias locais, semelhantes às de Harã: o deus Lua Sin e a deusa Lua Nin‑gal.

Taré gerou outro filho, Arã, o qual morreu lá mesmo em Ur, talvez por conta das pilhagens sofridas pela cidade, deixando órfãos seus filhos Melca, Jesca e Lot. Melca foi desposada por Nacor e Abrão adotou seu sobrinho Lot, pois sua esposa e meia‑irmã Sarai era estéril.

Como a cidade não garantia segurança e a religião do novo império estava sendo imposta, Taré sentiu‑se forçado a deixar Ur.

A partir daí Abrão começou a ouvir a palavra do Deus vivo, que o arrancava da sua terra, do seu povo e, em certo sentido, de si próprio. Contudo, ainda era meramente uma palavra que o interpelava desde as vicissitudes da vida aldeã: acaso até Ilu, o abstrato Deus supremo dos semitas, que na mitologia se hipostasiava em Ea, pai de Marduc, deveria inclinar‑se diante do próprio filho, que segundo a vontade de um imperador usurparia o posto da única suprema divindade? A partir de então, Abrão abandonou os ritos de seus ancestrais que honravam múltiplas divindades e passou a adorar o Deus único do céu.

Então toda a família partiu rumo ao norte com seus rebanhos, seguindo o curso do Eufrates, cobrindo um percurso de mais de mil quilômetros, com o intuito de depois chegar a Canaã, já fora do domínio babilônico.

Chegaram à sua cidade natal, Harã, em Padã‑Aram. O empório babilônico — entroncamento obrigatório das caravanas nas colinas próximas aos Montes Tauros —, que tinha bons pastos irrigados, de flora exuberante, apresentou‑se‑lhes, contudo, muito propício para a instalação. Lá se adorava o deus Lua Nanna.

Mas em Harã Abrão ouviu uma chamada explícita e exigente de Deus, o início do desígnio divino salvador, que lhe reclamou uma resposta de fé: “Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrar. Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem; todas as famílias da terra serão benditas em ti” (Gn 12,1ss).

Tomando a esposa e o sobrinho Lot, seguiu ao sul, indo buscar na terra dos cananeus mais do que uma pátria, a voz que o chamava. Passando por Damasco, onde talvez tenha encontrado seu mais fiel e antigo criado, Eleazar, atravessou o Jordão junto ao Jaboc.

Morou no Negueb, imensa região de estepe, própria para pastagem periódica, junto ao carvalho de Mambré, passando por Siquém e Betel, onde erigira um altar. Os altares de terra ou pedras, que em geral serviam para oferecer sacrifícios, tornaram‑se também monumentos comemorativos dessas experiências religiosas dos patriarcas. Siquém ficaria na memória como o primeiro santuário onde Abrão recebe a promessa de posse da terra em Canaã.

Mas além das dificuldades impostas pelos povos locais a respeito de pastagens, poços d’água e assaltos, parecia que até o Deus da sua vocação não lhe facilitava as coisas: a fome o levou a uma estadia no Egito, que quase lhe custou a esposa e ainda a própria vida, quando o faraó quis fazer de Sarai sua concubina. Essas viagens ao Egito eram comuns naquela época e sabe‑se que um tal de Ibsha com seu clã inquietou os funcionário da XII dinastia. Por intervenção divina, Abrão voltaria a Canaã com Sarai sã e salva. Provavelmente traria de lá Agar, a escrava.

Chegando de novo a Betel, o novo clã de Abrão já sofre sua primeira divisão, indo seu sobrinho Lot habitar junto ao Mar Morto, próximo às cinco cidades cananeias não muito afamadas devido à imoralidade e corrupção geral: Sodoma, Gomorra, Adama, Seboim e Segor.

Após tantos reveses, Deus lhe recompensa prometendo‑lhe a posse da terra de Canaã. Com a bênção divina e com a terra prometida, falta-lhe apenas uma descendência.

2 de jul. de 2012

Quem paga a conta?

Dizem que a mulher é vontade, e o homem, inteligência. Mas no restaurante da vida, quem paga a conta?

Antes de tentar responder a essa pergunta, vamos complicar essa mesa, acrescentando o coraçãoO coração é um certo laço entre a vontade e a inteligência, quase um filho de ambos.

Pois bem, para descobrir quem paga a conta, penso que nos pode ajudar a consideração de como a fé — misto de luz e moção interior, intuição e entrega — é acolhida pelo coração.

Fé e razão

Seguindo a Tradição cristã, que tem em Agostinho seu expoente, o homem deseja a Deus, ainda que não o saiba, e pode conhecê-lo através da contemplação do mundo ou de si mesmo.

Deus se revela mediante sua Palavra Criadora, a Palavra da Aliança, a Palavra Profética e, enfim, por sua Palavra Encarnada: Jesus Cristo. Como se deve ouvir a Palavra? Com a “obediência da fé” (CCE 144).

A fé é, simultaneamente, uma adesão pessoal a Deus e o assentimento à verdade que ele nos traz por Cristo no Espírito Santo. A cláusula “no Espírito Santo” é importante, pois indica que nossa fé se apoia na fé da Igreja, que é o locus do Espírito. Ou seja, não há fé fora da Igreja, mas mera opinião ou crendice, pois não se pode crer senão mediante um fiador ou garante do que se crê.

Embora o motivo da fé seja a autoridade de Deus que revela, e não a inteligibilidade do dado revelado, a fé não “está de mal” com a inteligência. Sem a compreensão da fé, facilmente se vai do pietismo à impiedade. Daí a necessidade de fazer mais inteligível o que se crê.

Contudo, ao longo da história, nem sempre houve uma harmonização satisfatória entre fé e razão. De fato, num primeiro momento, alguns Padres viam a filosofia com reserva, inspirados talvez em leituras bíblicas que dizem da ciência que “também é vaidade” (Ecl 2,15), pois “o temor de Deus é o princípio da sabedoria” (Eclo 1,16[14]). Posteriormente, mas em sentido contrário, alguns pensadores cristãos também se afastaram da racionalidade da fé cativados por teses filosóficas voluntaristas.

Erros históricos

Tertuliano (†220) defendia o paradoxo credo quia absurdum, contra Clemente de Alexandria (†215), que equiparava a filosofia para os gregos à Lei mosaica para os judeus.

Sigério de Brabante (†1284): foi o principal defensor do averroísmo latino, ou seja, da existência de dupla verdade, baseado numa interpretação equivocada de Aristóteles.

Bem-aventurado João Duns Escoto OFM (†1308): ensinava a potentia absoluta de Deus, fundamentando teoricamente as teses voluntaristas daqueles que o sucederam. De fato, ao apresentar a liberdade como qualidade fundamental da vontade, levou seus seguidores a considerar a liberdade como inata e absoluta e a negar à vontade a necessária colaboração do intelecto.

Guilherme de Ockham OFM (†1349): separou o âmbito da fé do da racionalidade, que só serviria para descobrir o que é provável.

Gabriel Biel (†1495): apoiava a salvação no querer de Deus, independentemente do mérito humano.

Martinho Lutero (†1546): seu pessimismo quanto ao homem o levava a pensar que o homem, conforme a natureza não faz nada senão pecar e, conforme a inteligência, nada senão errar. A graça e a fé seriam incompatíveis com a natureza e a razão.

Søren Kierkegaard (†1855): para ele, o cristianismo seria verdade por parte de Deus, mas não a intelectualizada.

Rudolf Butmann (†1976): segundo o teólogo protestante, a fé não diria como foi Jesus, mas qual seria a mensagem existencial do mito criado pela Igreja: a conversão.

Ser cerebral ou ser voluntarista?

O mistério da cruz, com sua exigência radical de fé, redimensiona toda essa questão. Tanto o intelectualismo quanto o voluntarismo caem por terra diante da entrega amorosa de Cristo.

Judas Iscariotes representa bem o intelectualismo. Homem frio, calculista, interesseiro, que só se preocupava com o dinheiro, a segurança, as coisas no lugar; ou então com uma preocupação social ineficaz, ou com um nacionalismo terreno. Não lhe entrava na cabeça o caminho da entrega, da generosidade, do esquecimento próprio. Por tudo isso, vendeu Cristo por trinta moedas.

Simão Pedro, porém, encarna o voluntarismo. Homem impetuoso, de coração grande, só se movia por entusiasmos passageiros, por sentimentos favoráveis, por caminhos fáceis e alegres. A renúncia, a abnegação, o passar oculto, custavam-lhe ao coração. Por causa de sua volubilidade acabou por negar Cristo por três vezes.

Só a fé é capaz de iluminar a mente e fortalecer o coração, tornando-se o fundamento da fidelidade.

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Afinal, quem paga a conta? Sou muito feminista. Por isso, se elas querem isonomia, penso que quem deve pagar a conta é a gatinha da vontade.

1 de mai. de 2012

Qual é a sua lente?


A mensagem seguinte a enviei em resposta a uma tentativa de apresentar Jesus Cristo como mero modelo de humanidade, a Bíblia como um livro repleto de contradições e a Igreja como uma instituição perversa.

Quem usa as lentes distorcidas da própria interioridade vê o que quer.
*****

Só há contradição onde se desconhece a chave hermenêutica. A chave para a compreensão da Bíblia é, simplesmente, a fé da Igreja, que não é “oculta” como você falou, mas publicamente anunciada. Também não tem nada a ver com uma “chave dentro de nós”. Afinal de contas, quem afirmou que a Bíblia é inspirada foi a Igreja e é a Igreja que explica em que sentido ela é inspirada. Quem aceita a Bíblia mas não aceita a Igreja é um esquizofrênico. Com efeito, se eu tivesse de escolher “os meus livros inspirados”, juntaria a Divina Comédia e alguns diálogos de Platão, nunca o Levítico ou Habacuc. Se fosse assim, eu teria de concordar com você em que a Bíblia alberga em si graves contradições.

Portanto, seria um disparate querer encontrar a chave hermenêutica dentro do próprio texto, com a pouca luz do próprio critério e da própria razão. Você mencionou, porém, que as religiões costumam alegar possuir “a chave interpretativa”. Preciso discordar. Basta conhecer minimamente o Zoroastrismo, o Xintoísmo, o Confucionismo, o Budismo, o Taoísmo, o Xamanismo, etc., para constatar que tais generalizações são infelizes. Como eu tinha apontado no e-mail anterior, esse tipo de denúncia é aplicável ao protestantismo, que absolutizou a Bíblia, mas não ao Catolicismo e muito menos às demais religiões.

Achei graça você dizer que “Jesus acreditava tanto no homem”, pois é justamente o contrário o que atesta a Escritura: “Jesus, no entanto, não lhes dava crédito, porque conhecia a todos e não precisava de ser informado a respeito do ser humano. Ele bem sabia o que havia dentro do homem” (Jo 2,24s). É infantil esperar que a Igreja seja uma comunidade de perfeitos e anjinhos. E essa imagem de Jesus humanista, ou de Jesus amigo dos excluídos, me desgosta demais. Se Jesus é uma mera referência, um modelo, então deixe ele lá no pedestal e me deixe cuidar da minha vidinha.

Pelo contrário, se Jesus é o Logos divino, o Verbo de Deus, a Palavra de Deus, o Filho de Deus feito carne, então o mundo tem uma lógica, a história tem um sentido, Deus me dirigiu sua Palavra, me tornou seu interlocutor, me fez seu filho. A mudança verdadeira não é a mudança estrutural da sociedade, mas a transformação interior de cada um mediante esse contato virtual com Cristo.

Não vou entrar no mérito da necessidade de Cristo e da Igreja para a salvação, pois disso já se falou abundantemente nos últimos 50 anos (veja esse documento, por exemplo). Por motivos de espaço, também me abstenho de comentar a confusão acerca das relações Igreja e Estado, evangelização e inculturação, etc. Para cada clichê e afirmação gratuita seria necessário recorrer a parágrafos de história e erudição que, sinceramente, não vem ao caso.

19 de abr. de 2012

A ouvido fechado, palavra aberta

Transcrevo trechos de uma mensagem que enviei a uma pessoa cheia de dúvidas, mas que não as resolve porque reluta em conservar seu ceticismo como um troféu.

É que ainda acredito ser possível o diálogo com quem começa a conversa dizendo que nunca vai mudar de ideia.


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É evidente que, se digo algo, é porque penso que posso contribuir com algo para sua vida, assim como quando você me diz algo é que quer compartilhar comigo suas convicções. Não é questão de um converter o outro. A conversão, que é um desandar o caminho andado na contramão, necessita de um meia-volta-volver que só Deus pode conceder àqueles que se dispõem a procurá-lo.

Tenho a convicção de que as atuais acusações, feitas à religião em geral (e ao Cristianismo em particular), procedem em grande parte de uma reação crítica ao protestantismo. Por exemplo: chamar os islâmicos de fundamentalistas é uma impropriedade, pois o “fundamentalismo” foi uma seita protestante americana do início do século XX.

Na mesma linha, como os pseudointelectuais de hoje desconhecem a existência de filosofia antes de Kant, é bastante comum que confundam a autêntica moral cristã das bem-aventuranças com sua versão (reduzida, protestante e kantiana) dos imperativos categóricos: daí que Nietzsche se insurja, com acerto, contra uma "moral de escravos". Mas o filósofo, apesar do bom faro, errou sua pontaria…

Explico de outro modo. A moral cristã não pretende simplesmente moldar bons cidadãos: isso é muito pouco. Também não é um código de prescrições: o mero sentido do dever não arrasta ninguém.

O Estado — ainda vale a pena falar dele? afinal, estamos entrando na era pós-estatal —, o Estado gosta é da religião gnóstica e alienante, que não leva seus adeptos a atuarem socialmente em conformidade com seu credo. A gnose é religião privada, sem repercussão pública. Mas uma ação social contundente incomoda a ordem constituída. Convenhamos: a reforma deve ser o estado habitual das coisas, pois cada geração precisa assumir a situação herdada, o que não se faz sem contribuir com sua própria visão. Repare que não estou propondo que se renegue a tradição, mas que ela seja acolhida criticamente por cada geração.

Todo este assunto é muito complexo e não pretendo fazer aqui um tratado. Apenas quis frisar uns pontos para compartilhar com você meu pensamento. Já escrevi sobre alguns desses pontos e deixei algumas aulas em http://audio.narajr.net/. Confesso que, do jeito que trato esses temas, pode ser uma verdadeira indigestão. Mas é o que tenho para falar.

Por que sou católico? Acho que a resposta é simples. É a mesma que deu São Pedro no ponto de inflexão da pregação de Cristo. Você deve se lembrar que, depois de Jesus anunciar que instituiria a Eucaristia, “muitos discípulos o abandonaram e não mais andavam com ele” (Jo 6,66). Então ele se dirigiu aos próprios Apóstolos e lhes propôs que eles fossem embora também. Mas Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).

Faço minhas as palavras dele: A quem irei? A Maomé? A Lutero? A Alan Kardec? A Kant? A Marx? A Freud? A Nietzsche? A Marcuse? A Foucault? A Derrida?…

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Deixe-me agora lhe fazer umas perguntas:

A quem você procurou? A quem você pretende ir?

22 de mar. de 2012

Quatro estágios do exílio espiritual

O exílio do homem contemporâneo começa com o lema “Cristo sim, a Igreja não”. O que supusera fratura eclesiológica (no caso do pentecostalismo) inclui também agora uma fratura teológica com base em novas revelações (mormonismo, adventismo, kardecismo, etc.).

O segundo passo é a declaração “Deus sim, Cristo não”, oriunda da Revolução Francesa, que relativiza o papel salvífico de Jesus, ainda mais com a influência das religiões orientais e de cultos orientalistas.

O terceiro estágio é alcançado com a negação de um Deus pessoal: “religião sim, Deus não”. Ou seja, o desenvolvimento de um pretenso potencial divino dentro do homem passa a ser o objetivo da “espiritualidade”. Nesse sentido, vide a cientologia.

O passo final é a negação do próprio sentido religioso: “sacro sim, religião não”. O contato com o sagrado é dissociado da piedade, da religiosidade; a reverência e o abandono são substituídos pelo domínio e a manipulação da esfera sacral. Isso se constata na magia e no espiritismo, porém é mais acentuado na moda New Age, que é mais uma network do que uma seita ou um movimento.
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