19 de fev de 2011

Allan Kardec = Karl Marx + Auguste Comte

O ano de 2010, consagrado à memória de Chico Xavier, ocasionou que eu me visse obrigado a responder a perguntas de cunho espírita no extinto Formspring.

Agora que a onda parece ter passado, proponho-me reconsiderar algumas dessas questões, que transcrevo abaixo, tecendo mais alguns comentários.

Existe incompatibilidade sim!

Minutos de Sabedoria é um clássico? Quem não leu?
 Eu li e posso afirmar que não é um clássico (veja o que é um aqui).
 Admito, porém, que Minutos de Sabedoria seja um livro muito difundido (best-seller).
 O livro é extremamente fraco. Pastilhas de consolo que, se surtem efeito, é efeito placebo.

Qual livro espírita que vc já leu?
 Li “O Evangelho segundo o Espiritismo” e “Nosso Lar”. Por então, eu não era católico praticante, e só li essas obras por insistência da minha irmã mais velha, que já faleceu.
 Curiosamente, isso acabou por me levar de volta à Igreja, pois fiquei muito decepcionado com os livros. Na época, eu estava sendo solicitado por todos os lados: protestantes, espíritas e hedonistas tentavam me cativar. Então pensei: só desconheço o que ensina a própria Igreja Católica, na qual fui batizado, mas a quem aprendi em casa e na escola a ignorar e a criticar. No dizer de Santo Agostinho, “tarde te amei, verdade tão antiga e tão nova, tarde te amei”!
 Para não desviar da pergunta, teço alguns comentários sobre os dois livros:
 “O Evangelho segundo o Espiritismo”: está em clara contradição com o Evangelho e com a Bíblia como um todo. É um compêndio de confusões epistemológicas, soteriológicas, antropológicas, morais e religiosas.
 “Nosso Lar”: materialismo puro, como se houvesse corpos no além. Novela interessante, mas poderia ser uma viagem ao centro da Terra.
 Meus amigos espíritas que me perdoem pelo que digo, mas posso justificar cada palavra que escrevi.
 Talvez não seja o momento de levantar essas questões, mas gostaria de deixar clara desde já a minha identidade cristã.

Acho que não preciso acrescentar mais nada.

O perigo de uma falsa ciência

Você acredita ou não no inconsciente? 
 Reconheço que a psicologia humana tem seus meandros e labirintos.
 Mas quem é seu minotauro, cada um explica do seu jeito.
 Existe alguma Ariadne que me possa guiar?

Se todos os psicólogos estão certos, nenhum está certo. Uma abordagem meramente fenomênica tende a ser superficial. Profundidades inóspitas da psiquê humana não esgotam o mistério da vida e da religião. Guias imorais com verniz de cultura são guias cegos, massa de manobra com nível superior fazendo de marionete a pessoas mais fracas.

alguma vez teve sintoma de mediunidade?
 Procurei saber quais eram e me surpreendi. Graças a Deus, nunca os tive.
 Estão mais para enfermidades psiquiátricas. O CRM deveria acionar quem tenta transformá-los em “canais de comunicação com o além”. Se o cara não era louco, acaba ficando ao tentar dar um sentido religioso a essa joça.
 a) Suor excessivo nas mãos e axilas, principalmente nas mãos. Pés gelados, rosto quente e ardência nas orelhas.
 b) Depressão, bipolaridade, irritabilidade.
 c) Alterações do sono: sono profundo ou insônia.
 d) Labirintite.
 e) Taquicardia.
 f) Fobia. 

As informações acima eu as tinha retirado de um site espírita que detalhava cada sintoma e afirmava que eles “tendem a desaparecer com a preparação espiritual e o desenvolvimento mediúnico, mas o tempo necessário ao desenvolvimento dependerá muito do grau de mediunidade, do interesse e da preparação espiritual do médium”.

Conversei com um amigo médico a esse respeito, e ele me explicou que tais descrições parecem indicar síndrome do pânico misturada com outras desordens. No entanto, nenhuma conclusão poderia ser tirada, pois é preciso contextualizar cada um dos sintomas. Por exemplo: a frequência e a relevância de cada um; se estão ou não relacionados a uma situação específica ou ocorrem em qualquer cenário; se são concomitantes ou foram percebidos isoladamente; etc. Enfim, seria necessário que um profissional averiguasse como o suposto “médium” fala sobre tais sintomas e como se sente, para eventualmente notar características do paciente que nem este mesmo tenha percebido, para captar possíveis simulações e outros aspectos. Noutras palavras, seria preciso uma consulta médica para fazer o diagnóstico. Meu amigo concluía:

— “Todas essas descrições meio soltas e reducionistas, principalmente se escritas por um leigo e tiradas de alguma fonte não-técnica — o selo final da trambicagem! — não devem ser levadas muito em conta…”

Materialismo post-mortem

Nosso lar não retrata bem o céu?
 Nosso lar é uma “colônia espiritual”, uma espécie de spa de desintoxicação mental para os mortos, com meios de transporte e ministérios. Tão “espiritual”, “virtual” e “etérea” quanto a selva de pedra de São Paulo ou o calor concreto da cidade do Rio de Janeiro. Isso seria o céu para você? Para mim, não!
 Na verdade, o céu é a plenitude da vida e a visão da Trindade. Bem diferente de tudo isso.

na próxima encarnação quer nascer homem ou mulher?
Se existisse isso, poderia ser mulher, só para ver como é. Mas, cá entre nós, “reencarnação” não está com nada.
 Primeiro, é uma palavra equívoca, pois aplica à metempsicose (“transmigração” das almas, em grego) o termo cristão que designa o mistério de o Verbo se ter feito homem (encarnação).
 Segundo, porque as filosofias e tradições que a defendem são pouco elaboradas e superficiais. Têm uma visão deficiente do ser humano, assim como uma concepção negativa da realidade material.
 Terceiro, porque ignora que o valor pedagógico da penitência tem um pé na memória.
 Quarto, porque esconde um estranho materialismo: elude a morte tanto afirmando inúmeras vidas quanto prometendo realidades póstumas palpáveis.

quem vai para o umbral?
 “Com a morte, a opção de vida feita pelo homem torna-se definitiva; esta sua vida está diante do Juiz. A sua opção, que tomou forma ao longo de toda a vida, pode ter caracteres diversos. Pode haver pessoas que destruíram totalmente em si próprias o desejo da verdade e a disponibilidade para o amor; pessoas nas quais tudo se tornou mentira; pessoas que viveram para o ódio e espezinharam o amor em si mesmas. Trata-se de uma perspectiva terrível, mas algumas figuras da nossa mesma história deixam entrever, de forma assustadora, perfis deste género. Em tais indivíduos, não haveria nada de remediável e a destruição do bem seria irrevogável: é já isto que se indica com a palavra inferno.Por outro lado, podem existir pessoas puríssimas, que se deixaram penetrar inteiramente por Deus e, consequentemente, estão totalmente abertas ao próximo – pessoas em quem a comunhão com Deus orienta desde já todo o seu ser e cuja chegada a Deus apenas leva a cumprimento aquilo que já são.
 Mas, segundo a nossa experiência, nem um nem outro são o caso normal da existência humana. Na maioria dos homens – como podemos supor – perdura no mais profundo da sua essência uma derradeira abertura interior para a verdade, para o amor, para Deus. Nas opções concretas da vida, porém, aquela é sepultada sob repetidos compromissos com o mal: muita sujeira cobre a pureza, da qual, contudo, permanece a sede e que, apesar de tudo, ressurge sempre de toda a abjecção e continua presente na alma. O que acontece a tais indivíduos quando comparecem diante do Juiz? Será que todas as coisas imundas que acumularam na sua vida se tornarão de repente irrelevantes? Ou acontecerá algo de diverso?”
 — Agora é minha vez de perguntar: Sabe quem disse isso?

Respondo agora para quem não soube responder desde então: Bento XVI (encíclica Spe salvi, n.os 45-46).

Considerações finais

O espiritismo é um filho paradoxal do século XIX. Pretendendo-se espiritual, é fruto de uma época materialista, crente na força revolucionária da ciência (positivismo), empenhada com as questões sociais (marxismo), cética com o cristianismo tradicional (modernismo teológico).

De Comte aprendeu a se arrogar ciência. De Marx, a só valorizar a práxis. Dos modernistas, a diluir o dogma.

Ultrapassado como tudo do século XIX, persistiu no Brasil (e só no Brasil) graças às nossas raízes sincretistas, algo do que poderemos falar depois.
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