11 de jun de 2011

Olhos de pomba

Oculi ergo devotæ animæ sunt columbarum 
quia sensus eius per Spiritum Sanctum 
sunt illuminati et edocti, spiritualia sapientes. (…) 
Nunc quidem aperitur animæ talis sensus, 
ut intellegat Scripturas. 
(Ricardo de São Víctor, Explicatio in Cantica canticorum, 15) 

Vento, sopro, espírito

O vento é realidade ativa, mas invisível, irreprimível e metamorfoseante. Considerado pela mentalidade antiga como princípio da vida é concebido, por isso, como dado por Deus. Mais: o “Sopro” de Deus é a origem de toda vida.

Criada do húmus, a pessoa humana é uma “alma vivente” em virtude do “espírito”. Mas “quem é que sabe se o espírito dos humanos vai para o alto e se o espírito dos jumentos vai para baixo, para a terra?” (Ecl 3,21) Com efeito, o mesmo hálito procedente dos lábios de Deus alenta tanto os homens quanto os animais, cuja vida está contida no sangue. Por outro lado, em oposição à carne, o espírito humano está destinado a um fim sobrenatural, pois é capaz de se fazer “um só espírito” com Deus.

O espírito dado ao homem desfalece ou revigora‑se, experimenta emoções, sentimentos e pensamentos, exprime‑se na oração. O espírito vem a ser, portanto, o que de alguma forma conduz o movimento do coração, da inteligência ou da vontade, e inclusive torna o homem presente onde ele não se encontra.

Discernimento dos espíritos

O espírito designa uma realidade que informa todos os aspectos da vida e não apenas alguma de suas facetas. Daí que se possam distinguir diversos espíritos, “hálitos mentais”, os quais ou animam a tal indivíduo a adotar certo comportamento, ou determinam a atitude de uma comunidade, ou o compromisso de um povo. Há espíritos de ciúme, de torpor, de prostituição, de mentira, do Egito, de Píton, ou ainda espírito nobre, espírito novo, espírito de sabedoria, de revelação, de profecia, de Elias, de fé, de mansidão. Todos os espíritos procedem de Deus, pois o Senhor, “que pesa os espíritos” (Pr 16,2), tem pleno domínio sobre toda a vida espiritual.

“Há espíritos que foram criados para a vingança e na sua fúria reforçam seus flagelos: quando vier o fim, desencadearão sua força e aplacarão o furor de quem os fez” (Eclo 39,33[28]). “Lançou contra eles o fogo da sua ira, a cólera, a indignação, a desgraça, todo um exército de anjos do mal” (Sl 78[77],49). Porquanto o Senhor “faz dos espíritos seus anjos, e do fogo flamejante seus ministros” (Sl 104[103],4), os espíritos também podem ser identificados com os anjos ou os demônios, ambos a serviço dos desígnios eternos. Aqueles recebem seu ministério por força de missão; esses, sua ação implica iniciativa própria e, da parte de Deus, permissividade. Satanás mesmo, para submeter os homens, vale‑se de espíritos imundos: espírito surdo‑mudo, espírito de enfermidade, espírito maligno.

Nesse sentido, deve ser provada a procedência dos espíritos que tocam e penetram o espírito humano, pois “a falsidade é a destruição do espírito” (Pr 15,4): Espírito de filhos adotivos ou de escravidão, Espírito de fortaleza, amor e sobriedade ou de timidez, Espírito de Deus ou do anticristo, Espírito da Verdade ou do erro.

Um da Trindade

“Quem determinou o espírito do Senhor, e que conselheiro lhe deu lições?” (Is 40,13) O Espírito de Deus, “que procede do Pai” (Jo 15,26), é também o “Espírito de Jesus Cristo” (Fl 1,19). Esse Espírito Bom e Santo é o autor da bondade e a fonte da santidade. O “Espírito Santo”, sendo um só Deus com o Pai e o Filho, procede de ambos e com eles é coeterno, consumando a Trindade como misteriosa essência da caridade divina.

A epifania do Novo Paráclito só se dá através das formas fluidas: o sopro, a água, o voo, o fogo, as metamorfoses. Tratam‑se apenas de sinais, que podem ser ambíguos, e aos quais o Espírito Santo não está ligado de forma substancial. O Espírito “Sem‑Forma‑através‑de‑Toda‑Forma” faz resplandecer o “Toda‑Forma”, que é o Verbo humanado, morto e ressuscitado, centro de todas as metamorfoses.

Ora, o Espírito de Deus invade tudo, pois o “Deus dos espíritos e de toda carne” (Nm 27,16) dispensa seu Espírito em todas as partes para cumprir seus desígnios, segundo o modo que convém às circunstâncias históricas e com o necessário vigor de irrupção. O Senhor “modela o espírito humano dentro do homem” (Zc 12,1b), imprimindo seu Selo na criatura, transmitindo‑lhe a intenção, a direção de sua vontade.

O Espírito é aquele pelo qual se completa a comunicação de Deus: é a possibilidade e a inclinação de Deus para existir como que fora de si mesmo. O Espírito “é a abertura da comunhão divina ao que não é divino. Ele é a habitação de Deus lá onde Deus está de qualquer modo ‘fora dele mesmo’. Também ele foi chamado ‘amor’. Ele é ‘o êxtase’ de Deus na direção do seu ‘outro’, a criatura” (C. Duquoc, Dieu différent, Paris, 1977, 121-2). No Espírito, a Graça e o Amor são hipostasiados.

Fonte de memória

O Espírito Santo purifica a memória do coração, ajudando a perdoar. Por isso, “não será perdoada a blasfêmia contra o Espírito Santo” (Mt 12,31): tal endurecimento — que se manifesta na recusa da graça, na desesperação da salvação, na presunção de se salvar sem merecimento, no renegamento da verdade, na inveja das mercês e na obstinação no pecado — conduz à impenitência final, à perdição eterna e ao rechaço do Espírito de amor.

Vindo à intimidade do ser humano — não à corporeidade ou à materialidade —, o Espírito está empenhado na realização da revolução espiritual através da conversão, como força e transcendência de Deus operante na história, mas além da história, irredutível à lógica mundana e instauradora duma outra lógica: a do amor ao próximo.

O Espírito é também a Memória viva da Igreja: dá o sentido e recorda o mistério de Cristo. É o princípio da presença do passado e do escatológico no presente da Igreja, convidando à vigilância do coração, e ao mesmo tempo uma força divina capaz de transformar o ser humano e o mundo.
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