2 de jun de 2011

A mulher, paradoxo e esperança


Nenhum premiado as acusou ainda de imorais,
como ninguém tachou de má a boceta de Pandora,
por lhe ter ficado a esperança no fundo;
em alguma parte há de ela ficar.
(…)
Quando a loteria e Pandora me aborrecem,
ergo os olhos para eles,
e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica.
(Machado de Assis, Dom Casmurro, capítulo 7)

A sedução do fogo

Ao lado da figura de Lilit (mulher como mera “invenção”), também é útil recordar a descrição que Hesíodo faz de Pandora, a fim de tentar realizar uma mínima demarcação a alma feminina.

O poeta grego estabelece o tecido labiríntico da existência humana sob o signo da ambiguidade. Mais do que outra máscara da mulher, Pandora é, em si mesma, o “belo mal” (καλὸν κακόν· Teogonia, 585), uma fantasia criada pelos deuses para ser presenteada aos homens (παν-δωρα: todos os dons). As deusas a instruem e adornam: Atena com as lides domésticas, Afrodite com o desejo devorador.

Prometeu roubara o fogo dos deuses e o entregara aos homens. Às tramas e rapinas de Prometeu, Zeus respondeu com um presente de grego: a mulher. Substituta do fogo natural, a mulher é compreendida por Hesíodo como a cultura em lugar da natureza. É o preço do fogo.

A mulher é um paradoxo porquanto imitação do já existente. Ambígua, porque ao mesmo tempo frustra e presenteia. Deleuze diz que a mulher é um simulacro no sentido de que põe em questão as noções de cópia e de modelo.

A sedução da palavra

Por sua aparição é que os homens se tornam varões. E pelo artifício sedutor da fala articulada (αὐδέν), dom de Hefesto à mulher, fica substituída a linguagem expressiva (φονέν):

πατὴρ ἀνδρῶν τε θεῶν τε·
Ἥφαιστον δ' ἐκέλευσε περικλυτὸν ὅττι τάχιστα
γαῖαν ὕδει φύρειν, ἐν δ' ἀνθρώπου θέμεν αὐδὴν
καὶ σθένος, ἀθανάτῃς δὲ θεῇς εἰς ὦπα ἐίσκειν
παρθενικῆς καλὸν εἶδος ἐπήρατον·

…o pai dos homens e dos deuses
ordenou então ao ínclito Hefesto muito velozmente
terra à água misturar e aí pôr humana voz
[αὐδέν] e
força, e assemelhar de rosto às deusas imortais
esta bela e deleitável forma de virgem…
(Os Trabalhos e os Dias, 59-63).

A sedução do futuro

A esperança é desnecessária aos deuses imortais, assim como aos animais, que se ignoram mortais. Para os homens, contudo, constitui alento nos trabalhos. Ora, restou na caixa de Pandora apenas a esperança (ἐλπίς) que, porém, também é ambígua, pois os homens podem errar no que esperam.


O homem, na sucessão dos dias, tem muitas esperanças — menores ou maiores — distintas nos diversos períodos da sua vida. Às vezes pode parecer que uma destas esperanças o satisfaça totalmente, sem ter necessidade de outras. Na juventude, pode ser a esperança do grande e fagueiro amor; a esperança de uma certa posição na profissão, deste ou daquele sucesso determinante para o resto da vida. Mas quando estas esperanças se realizam, resulta com clareza que na realidade, isso não era a totalidade. Torna-se evidente que o homem necessita de uma esperança que vá mais além. Vê-se que só algo de infinito lhe pode bastar, algo que será sempre mais do que aquilo que ele alguma vez possa alcançar. Neste sentido, a época moderna desenvolveu a esperança da instauração de um mundo perfeito que, graças aos conhecimentos da ciência e a uma política cientificamente fundada, parecia tornar-se realizável. Assim, a esperança bíblica do reino de Deus foi substituída pela esperança do reino do homem, pela esperança de um mundo melhor que seria o verdadeiro «reino de Deus». Esta parecia finalmente a esperança grande e realista de que o homem necessita. Estava em condições de mobilizar — por um certo tempo — todas as energias do homem; o grande objetivo parecia merecedor de todo o esforço. Mas, com o passar do tempo fica claro que esta esperança escapa sempre para mais longe. Primeiro deram-se conta de que esta era talvez uma esperança para os homens de amanhã, mas não uma esperança para mim. E, embora o elemento « para todos » faça parte da grande esperança — com efeito, não posso ser feliz contra e sem os demais — o certo é que uma esperança que não me diga respeito a mim pessoalmente não é sequer uma verdadeira esperança. E tornou-se evidente que esta era uma esperança contra a liberdade, porque a situação das realidades humanas depende em cada geração novamente da livre decisão dos homens que dela fazem parte. Se esta liberdade, por causa das condições e das estruturas, lhes fosse tirada, o mundo, em última análise, não seria bom, porque um mundo sem liberdade não é de forma alguma um mundo bom. Deste modo, apesar de ser necessário um contínuo esforço pelo melhoramento do mundo, o mundo melhor de amanhã não pode ser o conteúdo próprio e suficiente da nossa esperança. E, sempre a este respeito, pergunta-se: Quando é «melhor» o mundo? O que é que o torna bom? Com qual critério se pode avaliar o seu ser bom? E por quais caminhos se pode alcançar esta «bondade»?

(Bento XVI, Spe salvi, n.º 30)
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