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1 de mar. de 2014

Quão longe é tão longe?


Sexo não é rito de passagem, nem uma experiência que transforme um moleque num homem.

Por outro lado, a avalanche pornográfica e o incentivo à promiscuidade tornaram toda uma geração imatura e amolecida.

Bom é que nem todo mundo é obcecado por sexo casual, embora o Doutor Correto e a Dona Direita não sejam fáceis de encontrar em cada esquina.

Estes são mitos comuns, que enganam muitas mulheres: “Ele nunca vai me querer se eu não fizer sexo com ele. Todo homem precisa de sexo para dar amor. Não encontrarei amor se não semear sexo. O sexo de hoje à noite é o relacionamento de amanhã de manhã”. Por isso, tantas pessoas guardam dores emocionais relativas ao lado físico das relações.

Para conhecer as intenções de alguém, é preciso — respire fundo — tirar o sexo de cima da mesa. Sexo não é ignição nem combustível do namoro: apenas embaralha as intenções. Para saber se alguém quer conhecer você, não será o melhor caminho oferecer-lhe benefícios físicos.

Nós homens sempre trabalhamos pelo que queremos. Presa fácil é presa descartável.

Nossas mentiras

“Se você me amasse, você dormiria comigo”. Significa o contrário de “se eu a amasse, respeitaria suas barreiras.”

“Tenho necessidades, e o sexo é uma delas”. Você conhece alguém que tenha morrido de continência?

“Eu amo você”. Às vezes isso é mentira, pois os homens gostam de dizer o que as mulheres querem ouvir.

“Não vamos saber se somos compatíveis se não fizermos sexo”. Esse papo de compatibilidade baseia-se em desejos e comparações. Ora bolas, estamos falando de amor ou de mercadorias?… Na verdade, somos sexualmente compatíveis com quem amamos de verdade, pois esse é nosso jeito de funcionar!

“Você vai acabar sozinha se não fizer concessões”. Simplesmente, você está procurando jeca, buscando amor no lugar errado.

“Qualquer coisa que você faça na viagem, na faculdade, etc., não importa, será uma única noite”. Somos a nossa memória. Qualquer decisão sexual permanece e aflora nos momentos mais inconvenientes.

“Quanto mais fisicamente unidos, mais gostarei de você”. Não necessariamente. Homem gosta de desafio; portanto, não ceda que ele gostará ainda mais!

“Nós nos amamos de verdade. É como se já estivéssemos casados”. Morar junto não é casar. Dividir quarto e dinheiro é coisa de república estudantil. E não era essa a história de amor com que você sonhava.

Algumas verdades

Para as mulheres: Seja elegante sempre. Nunca seja vulgar. Troque o sexo de fim de semana pelo sexo de uma vida inteira.

Para os homens: Todo jovem que toca a campainha de um bordel está inconscientemente à procura de Deus, já dizia Bruce Marshall. Quem deseja luxúria constata que seu coração está vazio, e que lhe faltam muitas virtudes, especialmente a da religião.

Para ambos: Casamento é contexto. Amor é projeto. Família é laço. Sem isso, o sexo é peça sem palco, história sem roteiro, diálogo sem ator.

Lembre-se: uma nota de 100 reais é sempre uma nota de 100 reais. A gente pode amassar, molhar, sujar, etc. Continua sendo uma nota de 100 reais. Ou seja: não importa o que tenhamos feito no passado. Importa o que fazemos hoje e agora. E importa muito mais quem somos. E somos muito mais que 100 reais!

12 de dez. de 2013

Em busca de reconhecimento

Muitos querem ter ideias virais. Muitos desejam visibilidade. Muitos buscam reconhecimento. O reconhecimento é a nova honraria que distingue as pessoas igualadas pela rasoura iluminista. A nova questão de ótica consiste em ser visto em todo lugar. Nasceu a síndrome Forrest Gump: estar em todas as partes sem ser ninguém.

A pessoa se sente bem conferindo 50 vezes ao dia seu perfil do Facebook com seus parcos 100 amigos. Sente-se bem porque ser citado, receber mensagens ou curtidas massageia o ego.

Massagem cara, que se traduz em horas semanais dispendidas numa inútil autoexcitação narcisista, horas roubadas ao trabalho, à cultura, à família. A obsessão da visibilidade é a nova bolha especulativa da vaidade, que traz três perigos:

1) Distancia da dinâmica de crescimento intelectual e profissional. O novo currículo consiste na métrica da vaidade, no impacto causado pelas fotos, opiniões e postagens floridas.

2) Confunde os parâmetros de tempo de dedicação e de grau de atenção que as coisas merecem. Exaustão e distração: eis o saldo da incansável atitude multitarefa que reduz a profundidade cognitiva e aumenta a mediocridade.

3) Aliena das verdadeiras necessidades das pessoas, artificializando os relacionamentos. É o melhor treino para o vício de falar de si mesmo sem parar, estragando qualquer empatia. Troca-se o valor pelo sucesso, a amizade pela simples admiração.

30 de nov. de 2013

O Natal e o Antinatal


O amargo escritor Curzio Malaparte, falecido em 1957, escreveu palavras duríssimas contra o Natal, quando — já então! — essa festa perdera muito de sua compreensibilidade para a cultura do século XX:

Dentro de poucos dias será Natal, e as pessoas já se preparam para a suprema hipocrisia. Por que nenhum de nós tem a coragem de dizer a si mesmo que o século, o mundo, nunca foi tão pouco cristão como nesses anos? Por que nenhum nós ousa reconhecer que a retórica dos políticos, o grande desfile de sentimentos evangélicos, as procissões de falsos devotos só servem para esconder uma terrível verdade: que as pessoas não são mais cristãs, que Cristo morreu na alma de seus filhos, que a hipocrisia desceu da política até a vida social, familiar e individual? Não nos importamos com quem sofre; nada fazemos para impedir o sofrimento, a miséria, o mal, o crime, a violência, a destruição; permanecemos quietos, calados, e festejamos o santo Natal.

E prossegue:

Gostaria que, no dia de Natal, o panetone se tornasse carne dolente sob a faca, e o vinho se transformasse em sangue; que por um instante todos sentíssemos o horror do mundo na boca. Queria que, no dia de Natal, nossas crianças subitamente aparecessem como serão amanhã, dentro de alguns anos, se não ousarmos nos rebelar contra o mal que nos ameaça. Pobres corpos estraçalhados, abandonados na lama vermelha de um campo de batalha. Queria que na noite de Natal, em todas as igrejas do mundo, um pobre padre se levantasse e gritasse: fora desse berço, hipócritas, mentirosos; vão para suas casas chorar sobre os berços dos seus filhos. Se o mundo sofre, é também por culpa de vocês, que não ousam defender a justiça e a bondade, e têm medo de serem cristãos até o fundo. Fora desse berço, hipócritas. Este menino, que nasceu para salvar o mundo, tem horror a vocês.

Esse texto atormentado foi escrito três anos antes de seu batismo, por sua vez ocorrido um mês antes da morte. Faltando pouco para deixar essa vida, disse ao padre que o assistia: “Vamos!” — “Para onde?”, indagou o sacerdote — respondeu‑lhe: “Para o céu!” (cf. COMASTRI, Angelo, Tu És Trindade, p. 28)

***

Pergunto o mesmo agora: “Vamos!”

— Para onde? — vocês me perguntam.

— Preparar o Natal! Vamos para Belém! Adeste, fideles, læti triunfantem, venite, venite ad Betlehem! Belém é o nosso céu, onde podemos ver a face de Deus.


O primeiro traço é que Deus é frágil. Por exemplo, o Todo‑Poderoso obedece a um imperador que ordena um recenseamento.

O segundo, é que Deus é pobre. Nasceu precariamente, sobre fatne, isto é, sobre “esterco e palha”!

O terceiro, é que Deus é amor. Amor é dom, entrega, e Deus é dom infinito: dá tudo, dá‑se, fica pobre para nos enriquecer; “aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Deus é humilde porque não vive para si, mas vive para nós!

23 de nov. de 2013

Retrofit do casamento


Pouco antes de iniciar o Ano da Fé, que termina amanhã, Bento XVI afirmou: “Há uma clara correspondência entre a crise da fé e a crise do matrimônio. E, como a Igreja afirma e testemunha há muito tempo, o matrimônio é chamado a ser não apenas objeto, mas o sujeito da nova evangelização.” (Homilia, 7/10/2012)

Os próximos dois anos prometem colocar a família e o matrimônio no foco da atenção da Igreja e do mundo. Com efeito, a ONU comemorará os 20º aniversário do Ano Internacional da Família e a Santa Sé patrocinará dois Sínodos sobre o tema. Além disso, em 2015 ocorrerá na Filadélfia o VIII Encontro Mundial das Famílias.

Em vista da ocasião, preparei três apresentações com o objetivo de incentivar uma atitude positiva e pró-ativa com relação ao tema.

A primeira consiste em explicar os objetivos da ONU para a família, os quais, graças aos esforços da International Federation for Family Development, são excelentes. As metas propostas comprovam que a família pode ser um meeting point para as pessoas das mais variadas tendências ideológicas.


A segunda apresentação visa à comunicação estratégica dos argumentos pró-família, vislumbrando as oportunidades de persuasão oferecidas pela ciência cognitiva e pela teoria narrativa, a fim de contornar o revisionismo matrimonial.


Por fim, a outra apresentação sugere iniciativas variadas no campo da família, abrindo para um brainstorming.


Recomendo que você visite e assine o feed de http://thefamilywatch.org/. E também agradeceria receber suas sugestões!

9 de out. de 2013

Deus tem Facebook?

Indubitavelmente, nosso dia a dia foi impactado pela nova cultura midiática, transformando a sensibilidade e afetando a forma de tratar com as pessoas e, ainda mais, com Deus.

Já li que a média de checagens diárias ao Facebook é de 14 vezes por dia. O efeito desse hábito pode ser desastroso, pois Deus não costuma se comunicar da mesma forma que a maioria das pessoas. Embora ele goste das pequenas coisas que você gosta e se alegre vendo a foto do último prato de comida que você comeu, isso é muito pouco para ele (e para você também).

Como deve ser nossa comunicação com Deus? Que passos dar para tornar esse diálogo mais robusto?

Primeiro, é preciso fazer do tempo gasto com a Bíblia e com a Eucaristia uma decisão diária. A Bíblia são as mensagens e a Eucaristia são as fotos que Deus põe na sua timeline. Para vê-las, desligue o celular e saia do PC.

Depois, é preciso encontrar a Deus no próximo de carne e osso. A textura da pele traz motivação para a vida. Insanidade é fazer a mesma coisa todo dia do mesmo jeito, de novo, de novo e de novo, e esperar resultados diferentes. Inove!

Por fim, é preciso contabilizar os follows e unfollows (acertos e equívocos) mediante um bom exame de consciência diário, que lhe diga claramente se você fez de Deus a prioridade da jornada. Certamente, ele cutucou você. Você o cutucou de volta?

8 de ago. de 2013

Três momentos do processo de secularização

O filósofo canadense Charles Taylor aplica o termo “secularização” em três sentidos. Vale a pena entender essas dimensões para contestar as posturas laicistas e eludir as respostas fundamentalistas.

Fenômeno social e político

Perda — e inclusive ausência — de relevância da religião na vida pública.

Em sociedades laicistas, isso é proposto como um valor, uma exigência. Do mero esfriamento do sentido religioso, dá-se um salto à exclusão da participação pública dos que têm fé.

Ter fé não seria problema — antes, é uma salvaguarda —, se os homens de fé atuassem politicamente de forma secular e responsável, sem apelar a princípios religiosos para justificar suas opiniões.

A dificuldade se estriba em que o simples fato de crer é visto pelos laicistas preventivamente, apoiados numa concepção da religião como algo irracional e, portanto, alheio ao debate público.

Fenômeno pessoal

Diminuição da fé e da prática religiosa, com o afastamento de Deus e da Igreja por parte das pessoas, consideradas individualmente.

A militância antirreligiosa citada acima pode ter sua parcela de influência no esfriamento espiritual das pessoas. Mas esse fenômeno indica uma crise mais profunda: o fracasso da formação catequética, que leva os fiéis a aceitarem visões reducionistas ou distorcidas de suas próprias crenças.

Mudança cultural

Transição, nas pessoas e na sociedade, de uma situação na que assumir a fé era um fato normal, não problemático, a outra na que se considera como uma opção meramente possível entre várias.

O pluralismo é muito bom. No entanto, muitas vezes é alegado para justificar a relativização de valores, com a consequente intolerância pela assunção de convicções.

Em outras palavras: de opção possível, a fé passa a ser vista como opção supérflua, desnecessária e até, algumas vezes, nociva.

***

Ouça o áudio da conferência de Charles Taylor na Universidade Cândido Mendes sobre o processo contemporâneo de secularização:

Parte 1:
   

Parte 2:

26 de jun. de 2013

A poesia heroica da prosa diária


Hoje é a festa de São Josemaria Escrivá, Fundador do Opus Dei. O “santo do ordinário”, na expressão do grande João Paulo II, trouxe para a nossa época, entre outras contribuições, uma visão de mundo cujo impacto de superação de dicotomias ainda não se fez sentir completamente. Gostaria de discorrer um pouco a respeito.

***

Através das circunstâncias da vida ordinária, ordenadas ou permitidas pela Providência em sua sabedoria infinita, os homens temos de nos aproximarmos de Deus (São Josemaria, Amigos de Deus, 63). O valor positivo da vida ordinária, que é própria do cristianismo, foi eclipsada pelo predomínio de uma visão caracterizada pelo afastamento do mundo como única forma eficaz de se encontrar a santidade.

Concomitantemente, as atividades profanas foram compreendidas como alheias à união com Deus, e tal união foi relegada ao “mundo eclesiástico”. Assim, a doutrina do Cristianismo, a vida da graça, passariam, pois, como que roçando o agitado avançar da história humana, mas sem encontrar-se com ela (São Josemaria, Questões Atuais do Cristianismo, 113).

São Josemaria trouxe, justamente, uma nova concepção da vida quotidiana que aporta algo realmente novo às culturas, e às práticas religiosas e profanas: consiste na superação da distinção entre sagrado e profano.

Com efeito, segundo as diversas acepções clássicas, a vida corrente não seria o lugar do “profano”, pois:

a) em chave laicista, o profano é compreendido como independente de Deus;

b) em chave espiritualista, o profano é entendido como âmbito hostil e estranho à relação com Deus, do qual seria melhor escapar;

c) para muitos, é a esfera cerrada do que possui escasso valor, e que aliena da transcendência;

d) para outros tantos, é sinônimo de vida privada, no sentido de carente de repercussão e heroísmo humano.

São Josemaria apresenta, porém, a vida ordinária como campo da santidade e da atuação caritativa, um espaço humano em que se esconde um quid divino. Se a vida quotidiana foi vista frequentemente como lugar da repetição mecânica e monótona de tarefas intranscendentes, em seu ensinamento é o âmbito da busca da finalidade última da vida mediante pequenos passos: A tua existência não é uma repetição de atos iguais, porque o seguinte deve ser mais reto, mais eficaz, mais cheio de amor que o anterior. — Cada dia nova luz, novo entusiasmo!, por Ele! (São Josemaria, Forja, 736)

Em suma: a vida quotidiana não é mero suceder de dias, mas a substância do viver. Não é χρόνος (tempo mecânico), mas καιρός (tempo oportuno).

Duas consequências dessa maravilhosa visão: ela evidencia os paradoxos da grandeza da vida corrente e do heroísmo escondido na prosa diária.

7 de jun. de 2013

O calo das vadias

Contam as más línguas que, quando chega ao jornal a carta de um leitor dito conservador chateado com alguma notícia dita progressista, o chefe de redação convoca seus jornalistas para comemorarem juntos: — Acertamos outra vez no calo desses reacionários!

Fora esse momento, os jornalistas, prisioneiros do fluxo de fechamento sob o chicote do chefe, tendem a desconhecer a opinião dos leitores. 

Opinião? Mas se só pode haver uma única, em conformidade a essas cabeças (de)formadoras da opinião pública…

Pois não é que agora o bendito Estatuto do Nascituro acertou o calo desses mesmos senhores?

Exemplo disso é o jornal O Globo chamar o Estatuto em questão, em duas manchetes (uma delas de capa), de “bolsa estupro”. Mais do que desonestidade intelectual — pois quem escreveu isso não leu o Estatuto —, esse piti midiático demonstra que o calo deve estar doendo.

E o piti midiático tornou-se piti coletivo. Afinal, essa turma forma tanto a opinião pública quanto o piti público.

Já que falamos em vadiagem, que tal recordar a mais saudosa das vadiagens?

Meu Xovem!

Horrível. Pegar um funk e fazer uma paródia em preparação para a JMJ: ideia de jerico. Passa a mensagem que os católicos “xovens” gostam de funk idiota, conhecem a letra de cor e salteado, e apreciam o rebolado.

Já assistiram ao original, da catolicíssima Anitta? É “alto nível”: “Prepara que agora é a hora do show das poderosas que descem, rebolam e afrontam as fogosas, só as que incomodam. Expulsam as invejosas que ficam de cara quando toca: Prepara!”

E lá no Youtube, enquanto uns dizem que deplorar isso é heresia, outros dizem que sim está bom, embora não nos conviesse contaminar com coisas profanas. O problema não é ser profano, o problema é ser mundano! Heresia é, antes, ter um péssimo gosto desses!

Em suma, aqui há uma enorme confusão entre secularidade, mundanidade, criatividade, bom gosto, autenticidade, etc. Enquanto essa confusão persistir, pensarão que “católico” é gênero musical, ou que ser cantor era algum grau das ordens menores, entre outras aberrações.

Para a nossa “xuventude” o que faz falta mesmo é estudar o Catecismo da Igreja Católica, ouvir música erudita, aprender o que é a virtude da castidade e fazer boa Confissão sacramental.

Ah!… Quase me esqueci: faz falta participar de adorações ao Santíssimo verdadeiramente orantes, isto é, silenciosas, não essa “aeróbica do Senhor” barulhenta e alienada do sentido do sagrado.

Bizarro, bizarro.

22 de abr. de 2013

Sheherazade popozuda

Novamente, Rachel Sheherazade caiu na boca do povo de mente aberta e punhos fechados. Dessa vez, a musa do conservadorismo conseguiu bater ao mesmo tempo nos funkeiros, em certo tipo de feministas, na falta de critério da universidade, …e numa acadêmica que dissertou sobre a cultura pelviana.

Curioso é que a loirinha do SBT recebeu de mulheres engajadas até ataques do estilo slut-shaming, pondo em dúvida se ela era bem resolvida; uma verdadeira afronta desde a perspectiva feminista.

Se a Sheherazade sabe fazer o quadradinho de quatro, ou até o de oito, eu não sei. O fato é que a contundência da paraibana tem deixado exasperado todo mundo. Confesso que eu mesmo já escrevi para ela reprovando uma das suas afirmações. Justiça seja feita, porém: a Rachel quase sempre diz o óbvio tantas vezes ignorado por pessoas ilustradas e de “boa reputação”.

Só os profetas veem o óbvio. Mas os jornalistas conseguem transformá-lo num cavalo de batalha. O duro é que a sociedade precisa menos disso e mais de verdadeiros acadêmicos que contribuam positivamente para a nossa cultura.

Enquanto tantos idealizam subculturas, levantam bandeiras ideológicas, transformam a permissividade em ciência, poucos resgatam valores, propõem metas, estudam as fontes da moralidade.

Penso que a denúncia da Rachel faz sentido, mas atropela as devidas nuances. E mais uma vez constato que a massa que se diz intelectual atua em bloco procurando desclassificar quem não compartilha do seu pensamento tolerante.

Espero que ao cabo dessas Mil e Uma Noites de funk cultural, o rei Xariar não pretenda matar Sheherazade por causa da galinhagem de outras popozudas.


12 de abr. de 2013

Cinco pressupostos da rasoura igualitária

A figura ao lado, publicada numa fanpage do Papa Francisco, foi recentemente denunciada ao Facebook como “agressiva” (pois vilipendiaria um símbolo pretensamente bom ao utilizá-lo para algo verdadeiramente bom).

Sem dúvida, todos somos iguais e temos os mesmos direitos, mas tem sido muito comum qualificar de “direito” toda sorte de reivindicação, ainda que antropologicamente falida.

Como um dos reclamantes me escreveu expondo a sua opinião contrária, recheada de críticas à Igreja — que entrou de gaiata na história —, enviei-lhe a seguinte resposta que penso ser útil reciclar aqui.

***

Primeiramente, creio ser preciso reconhecermos que você parte de alguns pressupostos “seus”. Assim, é forçoso que chegue a conclusões divergentes da doutrina da Igreja.


Pois bem, devido à solidez da doutrina católica, esses pressupostos devem ser bastante bem avaliados.

Em primeiro lugar você afirma, por exemplo, que a Bíblia “foi usada como objeto de dominação”, ou que o cristianismo justificou “atitudes horríveis”. É difícil entender a quê você se refere ao dizer isso. Afinal, a Igreja tem 2.000 anos e criou raízes em diversíssimas culturas.

Na verdade, a Igreja civilizou o Ocidente e tornou-se um referencial moral para todo o planeta, além de ser responsável por uma rede mundial caritativa, hospitalar e educativa, sem precedentes na história da humanidade. 

Outro pressuposto seu é que as instituições são obrigadas a se atualizarem de acordo com as mudanças culturais. É uma afirmação ambígua: concordo com você se essas mudanças forem boas e vinculantes. Fico em cima do muro se essas mudanças forem boas e indiferentes. Discordo de você se forem mudanças ruins. 

Seu terceiro pressuposto é que a Igreja tem sido lenta para acolher divorciados e homossexuais. Para afirmá-lo, faz referência a pastorais para separados que permitiriam a Comunhão eucarística.

Ora, não me parece cabível comparar rupturas matrimoniais com orientação sexual. 

Por outro lado, a situação dos divorciados é muito variada: há aqueles que simplesmente romperam seu casamento; outros que estão arrependidos do que fizeram; outros que foram traídos; outros que buscaram outro relacionamento afetivo; outros que contraíram responsabilidades decorrentes de novas uniões; etc. Portanto, reduzir a pastoral dos divorciados à possibilidade de comungar é um simplismo muito grande. 

Na verdade, a doutrina da Igreja é claríssima sobre isso: as pessoas que vivem ativamente em segundas núpcias não podem receber os sacramentos enquanto permanecerem nessa situação, pois suas vidas estão em desacordo com o ideal matrimonial proposto por Cristo. Mas isso não quer dizer que não possam ir à Missa, rezar, receber direção espiritual, etc. 

No fundo, a reivindicação dos sacramentos como se fossem “direitos usurpados aos fiéis” é de matriz marxista e não cristã. Quem assim pensa, não sabe o que são os sacramentos.

Seu quarto pressuposto é que a Igreja ignora o direito das pessoas a terem seus eventuais relacionamentos homossexuais reconhecidos civilmente.

Aqui percebo claramente a redução da noção de matrimônio. Se o matrimônio fosse apenas direito à sexualidade, ou tivesse uma finalidade meramente genital, ou nada tivesse a ver com filhos, ou nem tivesse seu conteúdo determinado pela natureza, então eu concordaria com você.

Por fim, seu quinto e último pressuposto é que os homossexuais seriam vistos pela Igreja como “cidadãos de segunda classe”.

Nada mais longe da verdade! Acima de tudo, a Igreja vê cada um de nós como pessoa humana. O epíteto “homossexual” é desnecessário para defender os direitos civis de qualquer um.

8 de abr. de 2013

Linguagem inclusiva, burrice exclusiva

Existe uma conhecida campanha legislativa em prol da assim chamada linguagem inclusiva. À época da posse da presidente Dilma, a questão tornou-se até mais debatida.

Adoro as mulheres, mas é uma besteira esse papo de “irmãos e irmãs”, “ser humano” em vez de dizer simplesmente “homem” e outras alternativas. No caso da palavra “homem”, isso é ainda mais ridículo, visto que homo, hominis indica a espécie, enquanto “varão” e “varoa” (tudo bem!: “senhora”) indicam o gênero (o sexo).

Esse pretenso inclusivismo pressupõe que o vício do machismo está tão arraigado que existiria até em nosso idioma! Aqui há dois equívocos: o primeiro, é que tal machismo é inexistente; o segundo, é que desconhecem a língua portuguesa. Ademais, não se deve mudar a língua por decreto (coisa feita apenas pelos totalitaristas ao longo da história, e que o desejam fazer os ideológicos de plantão).

Antes de saírem defendendo essa barbaridade linguística, seria bom que fossem estudar gramática. Efetivamente, a ideologia vive de mal com o estudo.

Copio uma explicação acerca do assunto, de autoria do helenista Jorge Piqué (os grifos são meus):

«Embora tenhamos aprendido na gramática tradicional que cada categoria tem um significado bem preciso, isso de fato não acontece nas diversas línguas. Geralmente temos dentro de cada categoria uma oposição entre um termo marcado, isto é, com um sentido bem preciso, e um termo não-marcado, isto é, neutro quanto a distinção apresentada pela categoria.

Tomemos inicialmente como exemplo a categoria gênero em português. A gramática tradicional nos diz que essa categoria apresenta um termo “masculino (ex.: gato) e um termo feminino (ex.: gata). Na verdade existe apenas o gênero feminino. O que chamamos de masculino é apenas o termo não-marcado, ou seja, neutro com respeito a diferença de sexo. O termo “gata em todos os contextos e mesmo isoladamente indica um animal do sexo feminino, mas gatonão. Embora em muitos contextos possa representar um animal do sexo masculino, a forma em si não nos diz nada sobre o sexo. Veja por exemplo a frase gato é um mamífero.” Obviamente não se refere a um gato macho, mas ao gato enquanto espécie, independente de seu sexo. Justamente pelo fato da forma “gato ser não-marcada quanto ao gênero é que ela acaba sendo escolhida quando se trata de um animal do sexo masculino. O mesmo vale para termos como “homem” ou “cavalo. Às vezes, pode ocorrer o contrário, o marcado ser o masculino (ex. “bode) e o não-marcado o feminino (ex.: cabra"), embora seja pouco frequente.»

Só um detalhe: “presidente” serve aos dois gêneros (particípio presente do verbo “presidir”) e o feminino “presidenta” também é correto.

27 de mar. de 2013

Maria Patrulha


Já reparei como, de vez em quando, vem uma alma peregrina me azucrinar na Internet porque exprimi publicamente alguma opinião desconforme ao ideário liberal pós-moderno. Até aí tudo bem, pois gosto de trocar ideias.

O galho é que esses interlocutores só aparecem quando falo de certos assuntos. E aparecem em questão de segundos. Estou me convencendo de que os grandes lobbies ideológicos fazem o patrulhamento da Internet, utilizam os alertas do Google ou coisa parecida…

Afinal de contas, escrevo sobre um monte de coisas e ninguém comenta nada. Entretanto, basta eu falar, por exemplo, que a família monogâmica é o melhor negócio que já aparece um “maria-patrulha” para me tachar de radical.

Os “malucos da machadinha” estão em todos os lugares e, pela a Internet, pertinho de nós. Por exemplo, uma pessoa investigou uma doida (que se dizia médica, mas era à favor do aborto e enchia a paciência com um discurso de tolerância), e descobriu que ela já tinha sido presa e responde pelo sequestro de um bebê.

A patrulha dos “ismos” extremistas é ativa, atenta e chata. Apela e ofende. Não se pode ter opinião a não ser a dela.

Stalkers. Estranho é como procuram por nós, mesmo quando nós estamos fora do seu circuito. Eles vasculham pelo tema da sua vida. Mas só vão atrás de pessoas convictas do contrário, o que é ineficaz, evidentemente.

Para convencer alguém, deveriam ir aos indecisos. Mas eles não desejam convencimento. Querem desmoralizar e desautorizar as opiniões discordantes. É método: pregam o pensamento único.

26 de mar. de 2013

Stalker

Você oferece a mão e já quer o braço.

Você diz que não e é tachado de egoísta. Diz que sim e acaba sendo considerado hipócrita.

Se afirma, recebe contestação. Se renega, obtém repreensão.

As alusões todas se aplicam, as ambiguidades todas ofendem.

Se explica, não entende. Se responde, não aceita. Se cala, consente.

Elogio é grilhão, reclamação é confusão.

Só há uma saída de emergência: dê eject.

21 de fev. de 2013

Interruptor da cabeça

Sentamos há dez anos à frente do micro e, desde então, nunca mais saímos.

A internet nos aproximou do mundo, mas a muitos afastou da vida.

Uma fonte de tristeza para muita gente no século XXI é não recebe um e-mail de alguém.

Corre-se o risco de inteirar-se mais a seu respeito aquele velho colega de infância reencontrado nos buscadores da vida, do que a boa mulher com quem você divide o quarto.

Conclusão? Encontre o interruptor para apagar a cabeça, antes que queime e lâmpada. Afinal, a Light é rica.

9 de out. de 2012

Quatro olhares sobre o quotidiano

Um tema relevante para o atual diálogo entre crentes e descrentes é o conteúdo religioso da banalidade.

Tanto o materialismo de vidas fechadas à transcendência, quanto o desencanto de vidas em constante evasão, produzem uma opacidade que torna difícil ver a Deus por trás das coisas.

1) Segundo Eurípides, o quotidiano é exatamente aquilo que o herói abandona em busca da aventura. Na mesma linha, ainda hoje o quotidiano em geral é tido como uma realidade alienante.

2) Para Heidegger, já que a temporalidade seria a marca do nosso ser, a autenticidade está em viver para a morte, desprendido das variedades mundanas. Cria-se assim um dilema entre a autenticidade e a quotidianidade.

Edith Stein criticou essa “tristeza nocional” diante do banal, pois equivale a pôr o homem no centro do mundo; pior, significa negar ao homem uma fonte que o transcenda, para além da temporalidade.

3) Há, contudo, sociólogos como Alfred Schutz, Peter Berger e Thomas Luckman, que avaliam positivamente a rotina. Veem no tecido das vicissitudes quotidianas o setor mais real das experiências sociais.

4) No âmbito teológico, Karl Rahner esboçou a experiência de graça que supõe a existência quotidiana. Bernhard Casper fundou a espiritualidade do dia-a-dia na experiência da gratidão, no valor cooperante do trabalho e no anelo de redenção. Leo cardeal Scheffczyk viu no dinamismo da vida diária um canal para o progresso da imagem de Deus no homem.

Mas, acima de todos, São Josemaria criou uma autêntica e completa teologia do trabalho como meio para se alcançar a perfeição da caridade:

Eu lhes asseguro, meus filhos,
que quando um cristão desempenha com amor
a mais intranscendente das ações diárias,
está desempenhando algo
donde transborda a transcendência de Deus.
Por isso tenho repetido, com insistente martelar,
que a vocação cristã consiste
em transformar em poesia heroica a prosa de cada dia.
Na linha do horizonte, meus filhos,
parecem unir-se o céu e a terra.
Mas não: onde de verdade se juntam é no coração,
quando se vive santamente a vida diária...

E você, como encara o dia a dia?

14 de mar. de 2012

Papo de homem também é filosofia

Enquanto eles trocavam as fotos da “candidata”, entabulavam o seguinte diálogo:

— Acho que vou morrer solteiro. Cada vez mais estou mais preconceituoso… Não é assim que se deve ser, mas estou. Detesto a priori meninas ou mulheres que vão à micareta (incluindo shows na Cinelândia) e que bebem cerveja como homens o fazem… E que têm esse estilo… eu diria… tropical demais… As fotos, as poses, o que está escrito na camisa dela, etc. Somos o conjunto de tudo o que traduzimos, certo? Pois é isso que ela “traduz” pra mim…

— Caraca, não imaginava que essas fotos despertariam tantos sentimentos. Já ficou apaixonado?

— Enfim… vendo essas fotos, por mais preconceituoso que você me chame, não acho que me surpreenda muito saber que ela fez o que fez… (Você sabe do que estou falando). Mas confesso também que ela tem lá sua beleza… como mulher… Mas acho que não estou mais disposto a esse tipo de “adrenalina”… estou velho pra essas coisas…

— Então não apaixonou, desanimou.

— Contudo, devo ainda dizer: sinto que ela parece ser uma boa pessoa. Transmite uma energia boa… acho que vou sonhar com ela… rs.

— Sabia que dentro desse velho ainda lateja um menino amedrontado!

— ?!? Só tenho medo da minha fatura do cartão de crédito… De resto, ainda mais falando de mulheres, não creio que tema mais nada... É… Ela é realmente bonita… Em especial a foto com a latinha de cerveja… cabelos bonitos… me lembra a Luísa do Primo Basílio… rs. Bem, melhor irmos trabalhar… deixa isso pra lá…

24 de fev. de 2012

Choque de qualidade ou choque de ordem?

A Prefeitura do Rio de Janeiro adora essa história de choque de ordem. É choque de ordem na orla, nos bairros, nas ruas, nos estacionamentos, no banheiro, no carnaval…

Muito já se falou também que o Brasil precisa de um choque de gestão. Um chacoalhão administrativo, desburocratizante, moralizante.

Que seja. No entanto, talvez o que mais seja necessário é um choque de qualidade. Pensemos nessa picaretagem de muitas faculdades de humanas e inclusive de exatas, em que os professores começam a aula mais tarde porque os alunos sempre chegam atrasados. De que adiantaria obrigá-los a chegar na hora se a aula for aquela enrolação de sempre?

Mais eficaz seria um choque de qualidade nas aulas. Bons professores não precisam exigir pontualidade, pois sua qualidade se encarrega de fazer os alunos deixarem o bar mais cedo.

Ordem não traz progresso; ordem traz tranquilidade. A Suíça organizada é exemplo para a confecção de relógios cuco e chocolates, enquanto a Itália bagunçada é exemplo de cultura, arte e criatividade.

Por isso, em vez de “Ordem e Progresso”, nosso moto deveria ser “Qualidade e Progresso”, o que traria a vantagem adicional de sacudir o jugo intelectual do positivismo que tanta miopia conferiu ao país.

Organizar a pouca vergonha nacional equivale a uma mulher safada comer cosmético numa tentativa desesperada de se tornar bonita por dentro.

8 de fev. de 2012

Derrube três muros do gueto cristão

Vimos três rotas de fuga, ou melhor, três pontes para fora do gueto. Nesta postagem, vejamos três insights cuja luz faz-se necessário difundir para iluminar essas pontes. As pontes equivalem ao “como” comunicar; os insights, a “o quê” comunicar.

Falsa dicotomia entre razão e fé

A primeira coisa a comunicar é íntima relação existente entre fé e razão.

Por um lado, é preciso recuperar o vocabulário externo, não ser um outsider epistêmico ao falar da fé. Por outro, esmagar o clichê renascentista como uma barata; restaurar a noção de religião, que não está divorciada do humanismo.

Índole pública da religião

A praça pública da razão não é espaço para duendes, bruxas nem vampiros. Mas hoje praticamente dá na mesma ser um feminista verde ou um gnomo misógino, já que as minorias substituíram as instituições. De fato, as instituições têm recebido má acolhida: não se costuma dizer que toda autoridade é burra?

A Igreja explode esse esquema, já que defende uma minoria institucionalmente. Mais do que nunca, é preciso deixar clara a dimensão social e o impacto público da existência cristã.

[Reclamaram tanto do trecho abaixo que sugiro pular para ler depois.]

Encontrei uma curiosa lista de impressões acerca da Igreja, cuja procedência é duvidosa, mas que representa bem a confusa deformação da opinião pública atual. Transcrevo-a para que sirva de referência, para deixar constância de quanto falta comunicar, e para ficar claro que as críticas são o espelho da própria miséria moral e intelectual:
  • Clube social cheio de regras (web design)
  • Não é a casa de Deus (body piercing)
  • Um simples local (empresário)
  • Não sei, nunca frequentei (modelo gay)
  • Máquina de fazer dinheiro (jornalista)
  • Problema (tatuadora lésbica)
  • Lugar da ignorância (arquiteta feminista)
  • Sistema carcerário (ex-presidiário)
  • Último lugar a se frequentar (ilusionista viciado em pornografia)
  • Onde se perde a vida (garoto de programa)
  • Não preciso dela para ter Deus (artista plástica viciada em remédios)
  • Sistema político disfarçado (artesã bissexual)
  • Onde Jesus não está (ex-participante de rede jovem)
  • Onde o extremismo reina (pai solteiro)
  • Comércio espiritual (lésbicas amasiadas)
  • Buuuuu (bancária alcoólatra)
  • Governo de uma religião (ilustrador bipolar)
  • Fanatismo (professor gay)
  • Nada contra nem a favor (casal praticante de swing)
  • Onde um mito prevalece (tatuadora com síndrome de pânico)

Consequências da liberdade religiosa

A liberdade mais fundamental é a religiosa. Mas isso não equivale a ter orgulho de se apresentar como católico em espaço público nem a criar uma militância sagrada ao lado de outros partidos.

O que mais importa é ter liberdade para fazer publicamente uma profunda proposta religiosa positiva e aberta. Imitatio Dei coercitiva é um oximoro, Deus não está interessado nisso, mas na dignidade de cada pessoa humana, charneira entre os de fora e os de dentro da Igreja.

Portanto:
  1. existe o direito de se dizer não a Deus;
  2. existe um compromisso religioso em prol do homem;
  3. deve-se usar a língua de César na vida pública, que é a linguagem da persuasão e da democracia;
  4. deve-se denunciar a falsa identificação entre laicidade e neutralidade;
  5. deve-se garantir tratamento semelhante para o ensino secular e para o religioso.

3 de fev. de 2012

Três saídas do gueto laicista

Certa mentalidade laicista,
e outras maneiras de pensar

que poderíamos chamar pietistas,
coincidem em não considerar
o cristão como homem íntegro e pleno.
Para os primeiros, as exigências do Evangelho
sufocariam as qualidades humanas;
para os outros, a natureza decaída
poria em perigo a pureza da fé.

O resultado é o mesmo:
desconhecem a profundidade da Encarnação de Cristo,
ignoram que o Verbo se fez carne, homem, e habitou entre nós.
(São Josemaria, Amigos de Deus, n.º 74)


Sair do gueto laicista significa sair do “próprio” gueto. Está encurralado quem voluntariamente foi para o canto do ringue. Por isso, os verdadeiros caminhos de saída são intraeclesiais.

Não há balas de prata que derrubem tais muros, pois as revoluções internas são mais difíceis que as externas. Basicamente, mais do que recuperar a língua latina, a Igreja precisa recuperar a linguagem da santidade.

O desafio lançado pela modernidade laicista reclama uma nova educação que resgate o homo religiosus aprisionado nas masmorras do homo modernus. Ora, a segurança de um crente lhe provém tanto da fé quanto da razão. Por isso, o “como” se transmite é tão importante quanto “o quê” se transmite.

Vejamos primeiramente três rotas de fuga, ou melhor, três pontes para fora do gueto. Numa próxima postagem, três insights cuja luz faz-se necessário difundir. As pontes equivalem ao “como” comunicar; os insights, a “o quê” comunicar.

Relançamento da santidade

À atrofia da liturgia sucede a hipertrofia da ética. O inefável é trocado pelo palpável. Isso é uma espécie de excentricidade eclesiológica.

Se ética é idioma universal, a santidade não o é. Aqui é que mora a diferença e disso não se pode fugir, pois ser só bom é muito pouca coisa.

Transversalidade política

Por hora, satisfaço-me transcrevendo o seguinte trecho de O Sal da Terra, págs. 113s:

“Os sistemas políticos desfazem-se e depois nada muda. (…) Sobretudo nos últimos anos da Democrazia Cristiana insistiu-se muito na unidade política dos católicos e considerou-se um objetivo principal que os católicos também tivessem de se mostrar unidos no domínio político, de acordo com a sua responsabilidade. Isso não impediu a Democrazia Cristiana de se desfazer, de modo que a Conferência Episcopal Italiana teve de desistir desse objetivo. Agora ela se volta mais para a neutralidade e considera como novo objetivo que os cristãos, em todos os partidos, atuem, de acordo uns com os outros, de modo “transversal”, como se diz aqui, para além das fronteiras dos partidos, no que diz respeito às questões éticas essenciais da política, a partir da sua responsabilidade comum. O objetivo é, portanto, um consenso político completamente novo que se deve formar nas questões éticas fundamentais para além dos partidos.”

Projeto generacional

A verdadeira política pró-vida é ter filhos.

Se só os islâmicos prezam a família, em breve o Ocidente será, se não árabe, islâmico. E não exagero. Vide a Holanda: as procissões de Corpus Christi voltaram a ser legítimas após 500 anos só porque cresceu a população muçulmana a ponto de derrubar a proibição a manifestações religiosas públicas do governo laicista local.

Para gerações perdidas, a melhor resposta é uma nova geração sadia.
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