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5 de mai. de 2014

Entender para crer

Narrativa e verdade

Ariano Suassuna contava um caso engraçado, de um homem que, narrando um fato divertido, era interpelado por seu ouvinte por causa de uma inconsistência da historieta. O contador lhe retorquiu: — Você quer saber a história ou quer saber a verdade?

Entre o texto e a memória, entre a imaginação e a história: o que é possível encontrar aí? Sem dúvida, seria ingênuo esperar alcançar o próprio objeto da narrativa, tal e qual, isento de interpretações. Mas também seria doentio pensar que o objeto de estudo é uma mera tela em que se projetam ideias pré-concebidas.

Razão e crença

Na maioria das vezes, os argumentos contra a historicidade de algum testemunho antigo advém da ignorância do contexto ou do estilo, e da desconfiança na fonte.

Nossa racionalidade está, em alguma medida, baseada em conhecimentos de cunho probabilístico; portanto, não faz sentido opor razão e crença. Afinal, o conhecimento humano é todo baseado em crenças razoáveis.

Mito e filosofia

O mito é um caso particular nessa problemática. Sem autor nem data, o mito explica a realidade, mas não se explica a si mesmo. A crítica filosófica pretende acabar com a referência mítica, atitude que pode causar fragmentação e degenerar no relativismo filosófico e moral. A partir daí, torna-se crime de opinião voltar a buscar referenciais absolutos. Nasce a batalha entre a filosofia mítica e os mitos filosóficos. É o que vemos, por exemplo, na pós-modernidade decepcionada com as caducas profecias modernas de prosperidade através da ciência.

Logos e história

O cristianismo apropriou-se do discurso filosófico, mas os cristãos terão conseguido superar tal ruptura entre tradição e razão? Com efeito, é muito frequente deparar-se com católicos incertos quanto às suas raízes históricas e empedernidos em sua incoerência intelectual.

Enquanto discurso, a história sagrada tem cunho literário parecido ao mitológico; enquanto síntese teológica, a profissão de fé tem caráter comunitário e normativo. A articulação desses polos tem sofrido bastante diante de uma cultura cética e descrente da razão.

Tradição e teologia

Faz-se necessário resgatar a confiança na razão. Carl Rahner dizia que o homem é um ouvinte da Palavra: de fato, de nada adianta Deus falar se não houvesse alguém capaz de ouvir. Portanto, a missão da fé é compreender o que ouviu, explicitar seu fundamento.

Se o objeto da fé é racional, a teologia consiste no esforço de compreensão do objeto da fé. Não há razão para o medo protestante de que a teologia seja uma racionalização indevida da fé, uma construção idolátrica que falseie a verdadeira face de Deus.

28 de abr. de 2014

O triunfo das três feras

Freud, Marx e Nietszche são os três “mestres da suspeita”, na expressão de Paul Ricouer. Simbolizam a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e soberba da vida (cf. 1Jo 2,16), e assemelham-se às três feras que acossavam Dante na Divina Comédia: a pantera sensual, o lobo rapace e o leão orgulhoso (cf. Inferno, I, 31-60).

Terão triunfado? Ou apenas souberam exprimir o que o homem caído de todas as épocas concebeu no seu coração ferido? Sem dúvida, não fazem uma descrição da realidade, mas elegem uma dimensão humana (o sexo, a economia, o poder) como razão de transformação da realidade.

As ideias desses pensadores podem conter muita “lógica”, mas são tão “dogmáticas” quanto qualquer fideísmo. Em comum, racionalistas e fideístas afirmam que o mundo não é razoável, que o ser é caótico, que o seu sentido nós é que projetamos e plasmamos. Com efeito, Kant, em sua Crítica da Razão Pura, afirma que o ser em si é fundamentalmente não racional. Portanto, qualquer tentativa de filosofar (a nível verdadeiramente metafísico) conduziria a erros e criaria ídolos.

Daí que a metafísica tenha sido banida das escolas de filosofia, abandonada em prol de questões fragmentárias, substituída por fenomenologia, hermenêutica de textos ou análise crítica da linguagem.

Karl Barth
Daí também que o protestantismo tenha renunciado à filosofia clássica. Um de seus maiores expoentes, Karl Barth, chega a afirmar que a razão pela qual estaria errado ser católico é a aceitação da tese metafísica da analogia do ser. Para ele, qualquer analogia entre o ser divino e o ser criado seria uma falsificação de Deus.

Por isso é que o protestantismo resgatou a iconoclastia, aquela heresia empoeirada do século IX que proibia o culto de imagens. A iconoclastia protestante ataca não o gesso das estátuas, mas o simulacro de Deus que indubitavelmente conduziria o homem à idolatria. Como um namorado que fosse trocar sua namorada por uma fotografia dela.

***

A fé verdadeira exige a razão, pois a racionalidade é constitutiva do ser. Ao mesmo tempo, a razão saudável precisa do suprassensível, do transcendente, pois a verdade nos abre para algo que nos precede e nos liberta do nosso “eu” pequeno e limitado, aferrado a meras certezas, garantias e utilidades.

20 de abr. de 2014

Crer para entender

Feliz Páscoa, queridos leitores!

Ontem, na solene Vigília Pascal, tive a oportunidade de novamente ouvir os relatos fundamentais — ou, melhor dito, fundantes — da visão cristã do mundo: a criação e o êxodo. Enquanto escutava o Hino dos Seis Dias (Gn 1,1–2,2) e a descrição da Travessia do Mar Eritreu (Ex 14,15–15,1), passaram-me pela cabeça muitas lembranças de conversas que já tive com pessoas céticas, as quais, imbuídas de um racionalismo superlativo, tropeçam escandalizadas no cunho mitográfico das primeiras páginas bíblicas.

Tal tipo de conversa tem crescido à minha volta nos últimos tempos. Por um lado, por causa do filme “Não É — a incrível história do homem que não é Noé” (esse midrash mal feito do Aronofsky sobre a história de Noé); por outro, devido à minha pós-graduação em arqueologia, ambiente favorável tanto para a crendice no caráter probatório dos achados arqueológicos quanto para a desconfiança doentia de tudo o que não seja empírico.

O dilema é simples: o Pentateuco é histórico ou é mitologia?

A resposta, porém, não é simples. Vejo o Pentateuco como narrativa de memória, não história. Ao mesmo tempo, vejo o Pentateuco como mitografia, não mitologia.

Geralmente, a história pretende rigor, precisão, método, na descrição de fatos passados. Ora, o Pentateuco pretende estabelecer para Israel a sua origem, não a sua história. E sua origem remonta à protologia, não à história! O mundo foi criado tendo em vista Israel, pois o mesmo ato criador de Deus que dominara o Oceano primordial é o ato que expõe o dorso do Mar “Limítrofe” (hebraico Sof)! Segundo a concepção antiga, o Mar Vermelho (egípcio Suf) seria a borda do mundo!

Uma comparação bem próxima a nós: os combatentes da Batalha de Guararapes (brancos, negros e índios) nunca imaginariam que, séculos depois, seriam considerados os fundadores do Exército Brasileiro e que à sua época teria nascido a alma brasileira, fusão das três raças. Ou seja, a batalha ocorreu de fato, mas seu significado só foi reconhecido e aplicado muito posteriormente. Isso é história? Isso é mito?

Geralmente, a mitologia conta a biografia dos deuses: seu nascimento (teogonia) e suas lutas (teomaquia). Não é o caso da Bíblia, em que Deus antecede as vicissitudes do cosmo e impera sobre ele. Se a cosmogonia bíblica fosse uma teogonia, não seria uma criação, mas uma emanação. A diferença entre essas concepções é grande.

Emanação significa que o mundo é “magma”, na expressão de Cornelius Castoriadis, cuja ordem lhe vem imposta de fora. Para Platão, seria a obra do demiurgo sobre o caos; para Aristóteles, influxo do motor imóvel.

Criação significa afirmar que Deus não precisa de causalidade material para atuar. Significa que seu Logos possibilita e funda a existência. Significa que a natureza não é só natureza, mas criação, isto é, está fundamentada na lógica do criador. A ciência moderna é fruto dessa fé. Não haveria ciência moderna sem o cristianismo, pois a razão sem fé enlouquece, fica cega.

Assim, para o homem moderno em sua cegueira, quem põe ordem no caos “sou eu”, pois num mundo pluriversal e fragmentário, a verdade é criada “por mim” e “para mim”. Adorno e Horkheimer analisaram o Iluminismo e reconhecem que ele se nutre da divinização da verdade. Contudo, se a verdade é um construto humano, não pode haver luz. Se não há metafísica, se não há fé, se não há transcendência, a razão é irracional.

O reducionismo da razão implica afirmar que só seria racional o que pode ser reproduzido como experiência. Assim, renuncia-se à verdade para ficar com a certeza, mas morre-se na dúvida cartesiana.

A missão da razão é abeirar-se ao mistério, não negá-lo.

Se não acreditardes, não compreendereis! (cf. Is 7, 9)

12 de ago. de 2013

Gandaia tântrica

Ideias deletérias

Há uma leve diferença entre assustar-se e decepcionar-se. Não me assusto com nada; mas às vezes fico decepcionado ao constatar nas ideias e nos lábios de pessoas aparentemente coerentes certos disparates sobre o amor e a família.

Vira e mexe ouço especulações pseudocientíficas sobre poliamor, tantra, etc. E, quando comento a respeito do assunto com a pessoa interessada, costumo receber a seguinte resposta:

— Não se assuste. É bom ler sobre tudo, conhecer opiniões. Apenas isso. Gosto de ler tudo, todos os lados e formas. A gente cresce e vê muita coisa.

É claro que devemos conhecer as diversas opiniões. Mas não é preciso ler tudo para saber dessas coisas. Por outro lado, as opiniões divergem mais quando um tema carece de clareza ou unanimidade. Se o amor e a família são o foco da disquisição, ligue o alerta, pois o que tantos autores badalados defendem é a demolição do amor, da mulher e da família.

E mesmo que alguém tivesse a obrigação acadêmica de ler ou estudar esses escritores, não seria correto recomendá-los.

A família em disputa

— Mas talvez eles nos deem outra visão. Pode ficar tranquilo que textos não mudam essências.

Ora, temos valores humanos a preservar. E, como cristãos, esse compromisso é ainda maior, pois nada que é humano nos é alheio.

Embora a verdade não se esgote na multiplicidade de visões pessoais, é impossível que uma mesma realidade admita interpretações diametralmente opostas.

Estamos numa batalha pela família. Essa turma só não defende abertamente a pedofilia porque ainda pega mal. E são tupiniquins: nem têm o nível de um Freud ou um Marcuse.

É ingenuidade pensar que os inputs da vida não nos transformam. De fato, não mudamos de essência, mas um pouco nos assemelhamos àquilo que acolhemos no coração.

Família bem sucedida não é fruto do acaso, mas de uma urdidura de virtudes e princípios. Efêmeros golpes da sorte formam casais, não famílias.

8 de ago. de 2013

Três momentos do processo de secularização

O filósofo canadense Charles Taylor aplica o termo “secularização” em três sentidos. Vale a pena entender essas dimensões para contestar as posturas laicistas e eludir as respostas fundamentalistas.

Fenômeno social e político

Perda — e inclusive ausência — de relevância da religião na vida pública.

Em sociedades laicistas, isso é proposto como um valor, uma exigência. Do mero esfriamento do sentido religioso, dá-se um salto à exclusão da participação pública dos que têm fé.

Ter fé não seria problema — antes, é uma salvaguarda —, se os homens de fé atuassem politicamente de forma secular e responsável, sem apelar a princípios religiosos para justificar suas opiniões.

A dificuldade se estriba em que o simples fato de crer é visto pelos laicistas preventivamente, apoiados numa concepção da religião como algo irracional e, portanto, alheio ao debate público.

Fenômeno pessoal

Diminuição da fé e da prática religiosa, com o afastamento de Deus e da Igreja por parte das pessoas, consideradas individualmente.

A militância antirreligiosa citada acima pode ter sua parcela de influência no esfriamento espiritual das pessoas. Mas esse fenômeno indica uma crise mais profunda: o fracasso da formação catequética, que leva os fiéis a aceitarem visões reducionistas ou distorcidas de suas próprias crenças.

Mudança cultural

Transição, nas pessoas e na sociedade, de uma situação na que assumir a fé era um fato normal, não problemático, a outra na que se considera como uma opção meramente possível entre várias.

O pluralismo é muito bom. No entanto, muitas vezes é alegado para justificar a relativização de valores, com a consequente intolerância pela assunção de convicções.

Em outras palavras: de opção possível, a fé passa a ser vista como opção supérflua, desnecessária e até, algumas vezes, nociva.

***

Ouça o áudio da conferência de Charles Taylor na Universidade Cândido Mendes sobre o processo contemporâneo de secularização:

Parte 1:
   

Parte 2:

21 de jun. de 2013

Suicídio espírita

A constituição da personalidade encontra-se entre a conservação da memória e a realização de um destino. A tese da reencarnação destrói tanto uma quanto a outra, ao negar a memória das vidas passadas e prever uma ineludível consumação futura.

O termo “reencarnação” é, aliás, bastante infeliz. É um neologismo (segundo o Houaiss, surgido em 1899) grosseiro, que malbarata o conceito de “encarnação” (a união da natureza divina com a natureza humana — corpo e alma — na única pessoa do Filho de Deus). De fato, a ideia da “reencarnação” supõe que o homem seja só alma, e que possa assumir diversos corpos em função de uma punição da qual não tem mais lembrança.

O nome clássico e correto para essa teoria é metempsicose, ou “transmigração das almas”. Oriunda da mentalidade grega, provavelmente a metempsicose implica a crença mais na solidariedade de vida (integração entre os viventes) do que na persistência da subjetividade.

Ou seja, a metempsicose garantiria a manutenção da vida coletiva, que rebrota como a água de vasos comunicantes. Assim, a vida dos indivíduos mortais fica relativizada. Tal crença levou Empédocles ao suicídio, lançando-se no Etna a fim dissolver a própria individualidade e integrar-se no todo, alcançando a imortalidade.

Por outro lado, como os gregos acreditavam que o saber é perene, a ascese pitagórica preferiu encontrar no conhecimento a forma de o homem assemelhar-se aos deuses e furtar-se à caducidade corporal. Solução um tanto “teórica”, mas certamente menos mortal que a de Empédocles…

15 de mai. de 2013

Bode emo que acha que é galinha

O que mata é o despreparo da intelectualidade brasileira… Afirmo isso em função da conferência ministrada neste mês na Cândido Mendes pelo filósofo canadense Charles Taylor sobre o processo contemporâneo de secularização.

(Os professores podem receber salário com atraso, mas pelo menos há verba para uma lufada de pensamento em nosso deserto acadêmico!)

Apareceu tanta gente que os organizadores precisaram transferir a palestra para o teatro. Além da breve exposição do convidado, em língua inglesa, os assistentes tivemos de aguentar os discursos vazios dos anfitriões. Um deles expandia-se em clichês politicamente corretos; o outro, afetava erudição juntando alhos com bugalhos pseudofilosóficos.

Um terceiro membro da mesa, convidado a acompanhar a conferência, clérigo sem veste talar, falou com propriedade, mas com “excesso” de pontaria: foi tão vasto e penetrante que necessitaria de um curso para explicar tudo o que ele tinha em mente.

Após hora e meia de blá-blá-blá, quando todos estávamos cansados e com fome, nossos “intelectuais” começaram a divagar, a lançar pedras a esmo e a expor as feridas da própria ignorância. Fiquei penalizado por ouvir tão pouco de Charles Taylor e tanto dos acadêmicos tupiniquins. Foi como levar gato por lebre.

No fim, quando o ataque se voltou contra o papado, metade do público começou a gritar: — Viva o Papa! — Eu nunca tinha visto final tão glorioso numa discussão universitária!

Coisas pitorescas à parte, tentarei traçar um resumo em quatro pontos das ideias de Taylor sobre a secularização na época pós-moderna, que curiosamente descrevem o circo armado na Cândido Mendes e do qual — ele próprio! — era a principal atração:

1) Perda das ideias compartilhadas. Sem uma base comum, um conjunto conceitual de referências, facilmente a religião é questionada na vida pública, mesmo que ela esteja no substrato dessa mesma vida pública.

2) Demarcação identitária. Quando não há mais entendimento entre as partes, também desaparece o sentido de pertença à comunidade. Consequentemente, as pessoas tentam evidenciar-se por peculiaridades e ocorre a inflação das minorias.

3) Ruptura entre crença e vida. Como a cultura cristã ainda subjaz na sociedade vitimada de ignorância religiosa, as pessoas continuam participando de ritos que não entendem mais. Daí para a falta de fé, não vai senão um só passo. Da incoerência rapidamente se passa à bandalha.

4) Abuso laicista. O último patamar é a institucionalização da bandalha, quando, em nome da autenticidade, pretende-se excluir todo substrato cultural cujo significado tenha se perdido. No caso, a religião é vista como câncer a ser extirpado do tecido social.

Em determinado momento da conferência, um dos presentes indagou como devemos reagir diante dos que se dizem tolerantes mas nos impingem seus preconceitos. Houve um sonoro aplauso da plateia; contudo, os professores brasileiros pareceram não entender o porquê. Na verdade, o aplauso era contra eles mesmos, que tinham sido tão pouco respeitosos para com a fé católica.

Charles Taylor apenas negou que a tolerância seja um valor com o qual se construa a sociedade. Com efeito, tolerar significa apenas contornar o incômodo causado por quem faz o mal, mas cujo combate nos seria ainda mais prejudicial. O ideal da nossa sociedade deve ser dar oportunidades para todos se desenvolverem humana e espiritualmente.

Espero que esse recado seja captado por nossos criadores de opinião, que me soam como esse bode emo que pensa que é galinha:

25 de jul. de 2012

Parece que há quatro tipos de ateus

Num mundo de rótulos ideologicamente atribuídos e de tribos urbanas minoritárias que demandam por espaço social, concedo-me a liberdade poética de fazer a taxonomia da irreligiosidade, tão agressiva quanto tola, que nos avassala. E assim, no reino do ateísmo, enumero quatro filos.

A grande maioria dos descrentes é a dos ateus práticos, isto é, a daqueles que, sem assumir a tese da inexistência do Absoluto, vivem do contingente como se no efêmero encontrassem a solidez da própria vida. Entrar a fazer parte desse grupo é uma tentação muito próxima para os cristãos à deriva

Em segundo lugar, vêm os ateus teóricos militantes. Multiplicam-se na mesma proporção que cresce o laicismo. Transformam a laicidade do Estado, ou a autonomia da ciência, ou as promessas da tecnologia, ou as reivindicações ideológicas, ou quaisquer outras metanarrativas, numa espécie de religião. São extremamente “clericais”, porquanto veneram bezerros de ouro feitos pelas próprias mãos, e prestam vassalagem a tristes gurus que pontificam sobre a areia movediça de vãs filosofias. A fileira desses ateus costuma ser engrossada por pessoas pouco afeitas ao estudo e com pouca capacidade especulativa, que confundem verniz cultural e ciência de jornal com erudição e sabedoria. 

Em terceiro lugar estão os agnósticos. Não têm a temeridade dos segundos para negar a existência de Deus, nem a desfaçatez dos primeiros para assumir uma vida frívola sem pensar nas consequências. Por isso, suspendem o juízo quanto à questão crucial de Deus, disfarçando a frivolidade com a máscara da ponderação e a temeridade com a máscara da tolerância. A tal grupo sentem-se atraídos aqueles que, diante do mistério de Deus — o qual sem dúvida supera a razão humana —, preferem negá-lo a aceitá-lo maior que sua própria capacidade intelectual.

Por último, existem os ateus “deslocados” ou “atormentados”. É um grupo bizarro, que pretende não ser confundido com os anteriores. Ele nasce da ganga das defecções. Advém do insucesso ascético e do desencanto espiritual. Assemelha-se à canalha que tenta limpar o local do crime. Sem dúvida, Deus não pode ser confundido com as imagens nem com os sentimentos que tenhamos dele, mas o fato de que a piedade autêntica não seja uma “piedade sensível” não implica que não deva ser uma “piedade sentida”.

Os primeiros ateus rezam ao próprio ventre; os segundos, aos próprios bofes; os terceiros, à própria vaidade; os últimos, ao próprio orgulho. Nenhum reza a Deus. Os ídolos que derrubam são o simulacro dos próprios fracassos. Tais posturas só podem ser superadas pela verdadeira oração.

Mas a verdadeira oração exige penitência:

Esse Cristo que tu vês não é Jesus. — Será, quando muito, a triste imagem que podem formar teus olhos turvos… — Purifica‑te. Clarifica o teu olhar com a humildade e a penitência. Depois… não te hão de faltar as luzes límpidas do Amor. E terás uma visão perfeita. A tua imagem será realmente a sua: Ele! (São Josemaria, Caminho, nº 212). 

***

Seja franco:
A quem você tem rezado? 
Quanto você tem rezado? 
Como você tem rezado?

25 de mai. de 2012

Masters of disaster

Li, mas não suportei, o seguinte elenco de vacas sagradas:

Quintana, o poeta. Almodóvar, o cineasta, pois joga na cara da sociedade tudo o q acontece na realidade e ela esconde hipocritamente. Nietzsche, o filósofo. Maquiavel, o pensador. Clarice e Nelson Rodrigues estão no time. Shakespeare é um emocionalmente afetado.

Acabei contestando:


Shakespeare não pode ser água com açúcar, pois tudo nele é escatológico. Em cada ato, em cada gesto, joga-se a vida. Além disso, muito provavelmente Quintana não é o maior poeta brasileiro.

Mas essa história de jogar na “cara da sociedade sua hipocrisia” é uma bela desculpa para a grosseria. Quem disse que a sociedade como um todo é hipócrita? Por que ninguém disse ainda que Almodovar joga na cara das pessoas suas próprias mazelas?

7 de mai. de 2012

Meu tweet mais sincero

A leitura do que se posta no Twitter daria uma pela tese de doutorado, como registro espontâneo do pensamento de uma parcela da população que, se não é relevante por seu número, destaca-se por pertencer àquilo que é considerado elite intelectual.

Não pretendo entrar no mérito das “bios” (a breve descrição que o twitteiro faz de si), em que aparecem afirmações tão indefinidas, lacônicas ou desestimulantes quanto “sou uma incógnita — vivo em perpétua mutação — alguém que ama a vida”.

Restrinjo-me tão somente a algumas frases que me surpreendem, sem fazer referência a seus autores, como mote para as presentes considerações. Naturalmente, sofrerão de forte viés pois cinjo-me às pessoas que sigo; por outro lado, não devem ser injustamente generalizadas.

Vira e mexe, deparo-me com frases do tipo: “basta ter fé na vida” — como se a vida resolvesse as coisas por sua conta. Ou então, numa troca de impressões entre pessoas cujo comportamento não é dos mais exemplares: “mantenha seu coração puro”.

Finalmente, há quem demonstre leitura mas faça alarde de vacas sagradas da indústria cultural (Almodóvar, Nietzsche, etc.), atribuindo-lhes o mérito de terem denunciado a hipocrisia da sociedade. Grande generalização, pois essas denúncias são aplicáveis aos hipócritas, não à sociedade como um todo. Além disso, com o que contribuíram esses autores para melhorar o nosso mundo?

Convenhamos que tais afirmações padecem de uma estranha enfermidade intelectual, assaz contagiosa: quem lê ou ouve essas singelas declarações tende a aceitá-las, sem perceber sua falácia. Não digo que haja má intenção em quem as fale, mas sim que falte profundidade, coerência e substância.

Solução? Leitura, leitura, leitura. De livros sim, não do Twitter.

Qual foi o seu tweet mais sincero?

19 de abr. de 2012

A ouvido fechado, palavra aberta

Transcrevo trechos de uma mensagem que enviei a uma pessoa cheia de dúvidas, mas que não as resolve porque reluta em conservar seu ceticismo como um troféu.

É que ainda acredito ser possível o diálogo com quem começa a conversa dizendo que nunca vai mudar de ideia.


*****

É evidente que, se digo algo, é porque penso que posso contribuir com algo para sua vida, assim como quando você me diz algo é que quer compartilhar comigo suas convicções. Não é questão de um converter o outro. A conversão, que é um desandar o caminho andado na contramão, necessita de um meia-volta-volver que só Deus pode conceder àqueles que se dispõem a procurá-lo.

Tenho a convicção de que as atuais acusações, feitas à religião em geral (e ao Cristianismo em particular), procedem em grande parte de uma reação crítica ao protestantismo. Por exemplo: chamar os islâmicos de fundamentalistas é uma impropriedade, pois o “fundamentalismo” foi uma seita protestante americana do início do século XX.

Na mesma linha, como os pseudointelectuais de hoje desconhecem a existência de filosofia antes de Kant, é bastante comum que confundam a autêntica moral cristã das bem-aventuranças com sua versão (reduzida, protestante e kantiana) dos imperativos categóricos: daí que Nietzsche se insurja, com acerto, contra uma "moral de escravos". Mas o filósofo, apesar do bom faro, errou sua pontaria…

Explico de outro modo. A moral cristã não pretende simplesmente moldar bons cidadãos: isso é muito pouco. Também não é um código de prescrições: o mero sentido do dever não arrasta ninguém.

O Estado — ainda vale a pena falar dele? afinal, estamos entrando na era pós-estatal —, o Estado gosta é da religião gnóstica e alienante, que não leva seus adeptos a atuarem socialmente em conformidade com seu credo. A gnose é religião privada, sem repercussão pública. Mas uma ação social contundente incomoda a ordem constituída. Convenhamos: a reforma deve ser o estado habitual das coisas, pois cada geração precisa assumir a situação herdada, o que não se faz sem contribuir com sua própria visão. Repare que não estou propondo que se renegue a tradição, mas que ela seja acolhida criticamente por cada geração.

Todo este assunto é muito complexo e não pretendo fazer aqui um tratado. Apenas quis frisar uns pontos para compartilhar com você meu pensamento. Já escrevi sobre alguns desses pontos e deixei algumas aulas em http://audio.narajr.net/. Confesso que, do jeito que trato esses temas, pode ser uma verdadeira indigestão. Mas é o que tenho para falar.

Por que sou católico? Acho que a resposta é simples. É a mesma que deu São Pedro no ponto de inflexão da pregação de Cristo. Você deve se lembrar que, depois de Jesus anunciar que instituiria a Eucaristia, “muitos discípulos o abandonaram e não mais andavam com ele” (Jo 6,66). Então ele se dirigiu aos próprios Apóstolos e lhes propôs que eles fossem embora também. Mas Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).

Faço minhas as palavras dele: A quem irei? A Maomé? A Lutero? A Alan Kardec? A Kant? A Marx? A Freud? A Nietzsche? A Marcuse? A Foucault? A Derrida?…

*****

Deixe-me agora lhe fazer umas perguntas:

A quem você procurou? A quem você pretende ir?

13 de abr. de 2012

A noiva do Chucky

A intelligentsia brasileira é prisioneira de doxas. Segundo o Houaiss, doxa é “o sistema ou conjunto de juízos que uma sociedade elabora em um determinado momento histórico supondo tratar-se de uma verdade óbvia ou evidência natural, mas que para a filosofia não passa de crença ingênua, a ser superada para a obtenção do verdadeiro conhecimento”.

Um reflexo do doxa feminista radical ficou patente na recente decisão do STF quanto aos anencefálicos (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54). A ocasião faz o ladrão e nada mais oportuno que aproveitar o ensejo para analisar retrospectivamente a evolução do pensamento feminista.

Origem no século XIX

Mary Wollstonecraft
Embora tenha iniciado com anterioridade (vide, por exemplo
Uma Defesa dos Direitos da Mulher, de Mary Wollstonecraft, publicada em 1790), é possível localizar no século XIX o nascimento do feminismo, cujas origens ideológicas provêm de cinco princípios:

• a razão igualitária iluminista;
• a visão progressista da história;
• o socialismo utópico;
• o liberalismo;
• o cristianismo.

Rapidamente, o movimento assumiu duas derivações:

O feminismo igualitário: visava à imitação do status masculino na sociedade. Ou era liberal, da linha de John Stuart Mill, ou era socialista.

O feminismo reivindicatório: propunha um programa para elevar o nível cultural e profissional das mulheres.

No âmbito católico sublinhou-se o direito ao voto (temido pelos anticlericais e socialistas, pois as mulheres eram conservadoras) e o direito a uma melhor educação, a mais oportunidades profissionais e a um sistema jurídico protetor das famílias e da maternidade.

Contudo, o acesso aos campos de trabalho masculinos às vezes foi defendido desprezando-se o trabalho doméstico e, no bojo das reivindicações, foram incluídas exigências no âmbito da sexualidade. Nessa linha, o liberalismo propunha mormente o divórcio e a contracepção, enquanto o socialismo postulava o fim da família e o amor livre.

Evolução da questão no início do século XX

Simone de Beauvoir
O início do século XX trouxe forçosamente as mulheres ao mercado de trabalho por causa das Guerras. E as ideias neomalthusianas difundiram a opinião de que a exclusão do aspecto procriador da relação sexual seria um “progresso” a ser almejado.

Com tal background, encontraram forte eco a partir dos anos 60 a psicologia freudiana e as teorias sociológicas da Escola de Frankfurt. O ícone desse tempo foi Simone de Beauvoir (1908-1986), companheira de Sartre. Ela defendia o rompimento das algemas biológicas que oprimem as mulheres através da contracepção e do aborto, levando-as à mesma liberdade sexual dos homens. É paradoxal, mas seu igualitarismo considera, portanto, o modelo masculino como normativamente superior.

As cinco correntes atuais

Sulamith Firestone
As principais correntes feministas, agora de índole revolucionária, passam a ser, desde os anos 60:

Kate Millet
Feminismo radical: centrado na sexualidade, afirma que “o pessoal é político”. Sulamith Firestone fará uma interpretação marxista, segundo a qual as mulheres devem controlar os meios de reprodução. Kate Millet defenderá a destruição do patriarcado e das instituições. Muitas feministas radicais rechaçarão a heterossexualidade e defenderão o lesbianismo.

Nancy Chorodov
Feminismo psicanalítico: centrado no combate ao complexo de Édipo, que relegaria a mulher a um posto secundário na sociedade. Nancy Chodorov advogará pela participação das mulheres em trabalhos masculinos. Linhas mais radicais também verão o lesbianismo como principal forma de escapar às consequências do complexo de Édipo.

Juliet Mitchell
Feminismo marxista-socialista: a opressão feminina seria causada simultaneamente pela classe social e pelo sexo. Por isso, Juliet Mitchell defenderá a derrota do homem e de suas estruturas patriarcais e capitalistas.

Betty Friedan
Feminismo liberal-reformador: trabalha dentro das instituições, na linha do antigo feminismo reivindicatório do século XIX, em prol de pretensos “direitos sexuais”. Betty Friedan fará sucesso com sua crítica desapiedada da dona de casa, que compara a um prisioneiro de um “confortável campo de concentração”.

Gertrud von Le Fort
Feminismo teológico: oriundo do meio protestante, quis depurar o alegado “machismo” da tradição bíblica e defender o sacerdócio das mulheres, tornando-se bastante forte em algumas comunidades. Chegou até a propor uma “religião da deusa”, pós-cristã. Produziu seus reflexos negativos na teologia católica germânica e anglo-saxã, mas a Igreja soube reagir com firmeza doutrinal; entre outras coisas, figuras como a santa filósofa Edith Stein, a escritora Gertrud von Le Fort e São João Paulo II apontaram caminhos positivos para a mulher. (Abstenho-me de fazer aqui a necessária menção à problemática muçulmana, bem diversa da ocidental.)

Novas facetas

A ideologia de gênero é a nova cara do feminismo radical. Distingue sexo (biológico) de gênero (papel na sociedade). Transfere as funções femininas tradicionais (maternidade, etc.) para o gênero, que não é visto como algo natural, mas manifestação cultural “biologizada”, passível de evolução histórica.

Daí a defesa das “famílias alternativas” e a releitura heterodoxa dos direitos humanos. Segundo a metáfora leninista, todo comportamento seria mero papel cujo atores são intercambiáveis como as engrenagens de uma máquina.

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Essa postagem nasceu depois desse tweet:

1 de abr. de 2012

Soluções de longo, médio e curto prazos

Vira e mexe algum amigo se queixa da péssima educação, dos preconceitos, da intolerância laicista e dos maus bofes.

São questões como: Por que sendo o Brasil um país católico, recebe tão pouca acolhida um filme como Homens e Deuses, sobre os mártires da Argélia (vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes em 2010)? Por que o incrível pontificado de Bento XVI recebe tão pífia cobertura jornalística? Por que todo mundo se abstém de carne na Sexta-feira Santa mas quebra o jejum prescrito com um lauto banquete de bacalhau?

Sábado à noite, quando a cabeça já não funcionava direito, veio-me à cabeça uma resposta que tentarei transcrever abaixo. Acho que o amigo que me ouvia (conhecido de outras postagens) ficou satisfeito e espero que lhe seja igualmente útil, independentemente do credo que você professe.

Três armadilhas

É óbvio que essa cristalização na ignorância provém de um longo processo cultural.

Em primeiro lugar, foram sendo acumulados sufocantes sedimentos ideológicos sobre a filosofia cristã, que é nossa matriz cultural originária, estabelecida em solo brasileiro pelos jesuítas. Tais ideologias foram o cientificismo materialista da reforma de Pombal, o liberalismo do século XIX, o materialismo evolucionista da Escola do Recife e o positivismo.

Ainda se poderia acrescentar, em período mais recente, o câncer deletério de Teilhard de Chardin e do marxismo, que afetou a própria teologia.

Em segundo lugar, no batalhão de intelectuais brasileiros (médicos, advogados e assemelhados com nível superior) encontram-se poucas inteligências. Por isso, nossos atuais “clerks” (“clérigos”, letrados, homens de escol, elite acadêmica) não passam de eternos estudantes especializados em investigações sem resposta. Muitos dos assim chamados pensadores brasileiros são meros repetidores enfadonhos de ideias importadas.

Em último lugar, crescemos achando que aprendizado é treino, que ter dúvidas é feio e que estudar é chato. O mapa da ignorância superior brasileira é proporcional às dimensões do país. Para dizer que o Brasil tem problema de memória, é preciso afirmar que antes tenha tentado decorar alguma coisa.

Solução de longo prazo

Para séculos de secularização e engodos filosóficos, serão necessárias algumas gerações aplicadas à reformulação intelectual do país. Esse será um projeto de longo prazo.

Virtude aplicável? Longanimidade. Para longos projetos, início imediato!

Solução de médio prazo

A renovação do quadro docente não se faz da noite para o dia. Enquanto não se formam novos professores desintoxicados, o campo continuará a ser arado pelos bois que leram Marcuse, Jacques Derrida, Nietzsche, Foucault, Simone de Beauvoir, etc.

Enquanto isso, resta-nos obstaculizar democraticamente os projetos nascidos dos juristas (mormente gaúchos) deformados pelo direito criativo aprendido na faculdade.

Solução de curto prazo

Estudar. Estudar. Estudar.

Não há outra fórmula para libertar-se da paralisia intelectual. Questão de tempo, questão de dedicação, questão de prioridade.

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E a você? Que temas o espicaçam? O que você tem estudado?

26 de mar. de 2012

Dois lados da secularização

do site http://prometheuscomic.wordpress.com/

Autonomia absoluta ou relativa?

O processo de secularização pode ser compreendido de dois modos: forte e brando.

A secularização forte refere-se a uma afirmação da autonomia absoluta do homem. É a reedição da visão prometeica do homem, em “versão revista e ampliada” pelos românticos, marxistas, nietzschianos, etc.

E assim, o século XX de fato conheceu os campos de concentração, a bomba atômica, os genocídios; e a sociedade tecnológica aprendeu a manipular a vida humana em tubos de ensaio e a produzir desastres ecológicos.

A secularização branda, por sua vez, refere-se a uma afirmação da autonomia relativa do temporal. É uma desclericalização da visão de mundo, uma abertura ao diálogo tolerante.

Deve-se reconhecer que tal abertura algumas vezes foi realizada em detrimento da própria identidade cristã, ou que se ressentiu da falta de uma linguagem comum com os secularistas.

Voltar a comunicar

Por outro lado, o atual momento cultural, considerado a “era da comunicação”, oferece uma oportunidade ímpar, graças à capilaridade da difusão das ideias, tanto de corrigir o exagero da secularização forte quanto de extrair o melhor da secularização branda.

O problema, contudo, é que o futuro da cultura não depende tanto das novas técnicas de comunicação, mas da visão de homem que tais técnicas veiculam. E, ainda que a maioria das pessoas esteja farta dos excessos ideológicos da modernidade, permanecem muitas ambiguidades no panorama cultural e o economicismo, o hedonismo e o relativismo moral continuam a ser propagandeados globalmente.

Ou seja, a globalização cultural pode significar homogeneização em torno a elementos deletérios e fragmentários caso não se faça um esforço positivo de comunicar a verdade sobre o homem.

Em outras palavras, não basta ficar no cínico grito de S.O.S. da primeira onda pós-moderna, que condenou o homem moderno sem nada propor: cabe reconstruir a identidade do ser humano, agora não mais como absolutamente autônomo, mas como ao mesmo tempo livre e dependente do Criador.

Crise presente, futuro certo

A crise do mundo contemporâneo, herdeiro de dois séculos de secularização forte, nasceu depois da Primeira Guerra Mundial e não parece ter solução imediata, pois é preciso mudar a forma de encarar o homem, renovar a antropologia. É forçoso reconhecer que essa tarefa supera o mero esforço comunicativo.

Deus é o Senhor da história, mas a história é simultaneamente o produto das livres decisões dos homens. Como se coadunam o domínio divino e a liberdade humana é um mistério. Em vez de tentar elucidá-lo ou antevê-lo, cabe-nos assumir nossa parcela de responsabilidade.

19 de mar. de 2012

Believing without belonging

Modernidade designa o período das tentativas frustradas de absolutizar o relativo e tudo explicar mediante perspectivas unilaterais.

As ideologias oferecem explicações globais até se manifestarem redondamente engadas. O desengano vem quando já conseguiram implementar suas tragédias.

Esse período já passou. Na era pós-trágica, pós-ideológica e pós-moderna resta apenas a desconfiança nas explicações globais, na moral absoluta e na verdade objetiva.

Mas isso não sufoca a sede humana de transcendente. Apenas problematiza o recorrente “retorno ao sacro”.

De fato, se a secularização é a marginalização da religião, sua exclusão dos fóruns culturais, morais e políticos, a mesma secularização é a plataforma de lançamento de religiosidades novas dispersas, que não afetam a cultura nem se afetam com ela.

Migrações confessionais, concessões sincretistas, nivelamento epistemológico entre abordagens científicas e esotéricas: são sintomas de um lento processo “exílico”.

Quanto a tal exílio, falemos dele na próxima postagem.

17 de fev. de 2012

Vida inteligente antes de Kant

Um amigo meu, professor de direito, contou-me como sentiu-se mal num debate de que participou na UniRio. Um dos debatedores — cujas ideias eram inconsistentes, ligeiras, imorais e pouco inovadoras —, a fim de desmoralizar meu amigo, acusou-o de ser kantiano.

A questão é que meu amigo não é nada kantiano. Ele simplesmente defende as virtudes.

Uma possível conclusão é que, por incrível que pareça, há quem pense nunca ter havido filosofia antes de Kant. Mas será possível que as pessoas só entendam as virtudes em termos de imperativos categóricos?

Virtude não é dever, é liberdade. Por isso, moral é a arte de viver.

Mas há quem pense que moral é viver sem arte. E que arte é ser imoral. De fato, (pouco) antes de Kant existiu o Marquês de Sade.

Quando o curador é o diabo, meu caro, a entrada pode ser gratuita, mas a saída…

9 de jan. de 2012

Para sentir é preciso pensar

Li um trecho de Teo-Logic, Truth of the World, em que Von Balthasar explicava que a vida intelectual das pessoas vulgares é prosaica.

Com efeito, da mesma maneira que vão buscar as suas ideias a uma espécie de biblioteca circulante de pensamento e as devolvem manchadas no fim da semana, assim também tentam conseguir as suas emoções a crédito, e recusam-se a pagar a conta, quando ela chega.

Um sentimentalista é uma pessoa que deseja ter o luxo de uma emoção sem pagar por ela. O sentimentalista é um cínico de coração.

Na verdade, o sentimentalismo é apenas o feriado do cinismo. E por muito delicioso que o cinismo seja do ponto de vista intelectual, nunca pode ser mais do que a filosofia perfeita de um homem sem alma.

Essa contínua inclinação a se auscultar — ou a duvidar sistematicamente, ou a permanecer do contra, ou a afetar conhecimento sem comprometer-se — é mais um sintoma da infantil estagnação intelectual dos nossos dias.

21 de nov. de 2011

Consciência não é grilo

A voz da consciência é a norma próxima da moralidade. Mas é um juízo da inteligência, não um órgão da alma. Para que esses juízos sejam justos, faz falta conhecimento e conselho, pois fora da verdade não há conduta moral.

Dois perigos extremos consistem em deformar a consciência ou tê-la farisaica. O remédio é a humildade, que não se desculpa nem inventa teorias, antes pede conselho e medita.

Só são moralmente importantes os atos deliberados. O sentido do pecado enfraqueceu na consciência do homem moderno, mas o sentimento de culpa aumentou, com manifestações que beiram a patologia. O verdadeiro sentido do pecado é deturpado pela magia, que o reduz à mera quebra de um tabu que garantiria o êxito na vida.

Por outro lado, o sentimento de culpa pode inchar, confundindo o pecado com o pondus peccati, isto é, com seus efeitos: os homens sentem excessivamente a culpabilidade por erros invencíveis. Ora, se não houve uma renúncia voluntária à nossa verdade, não terá havido pecado formal, somente material.

Eis a gangorra ética: ou remorso ou presunção. Eis o fiel da balança: a verdade, e essa nua e crua.

12 de nov. de 2011

Dupla dimensão da Palavra

Em hebraico, o termo “palavra” (דְבָּר) significa literalmente “estar por trás e empurrar”, ou seja, indica tanto a “palavra que diz” quanto a “coisa que é dita”.

Portanto, “palavra” tem duas dimensões: a lógica e a fática. Ela é tanto noética (Ex 4,15.28.30; 19,6; 20,1; 24,3s), quanto dinâmica e criadora (Sl 33,6; 147,15; Is 55,16s; Sb 18,14s; 16,12). Por isso, palavra e sabedoria foram assimiladas em Sb 9,1s.

São João traduziu דְבָּר por λόγος (de valor noético). Não pretendeu, porém, seguir a abstração não‑messiânica de Fílon, nem fez de Cristo o “princípio ordenador do universo”, segundo o pensamento de Heráclito.

O “Verbo” de São João (Jo 1,1-18) supera a confusa intuição helênica: é fonte da vida e luz sobrenaturais, Palavra “de graça e de verdade” (Jo 1,17), de bênção eficaz e sabedoria.

Finalmente, verbum em latim (que também é sinônimo res, “coisa”) resgata tanto o valor noético quanto dinâmico de דְבָּר.

Nesse mesmo sentido, Santa Teresa dirá de Deus que “suas palavras são obras” (Vida, 25, 19).

10 de out. de 2011

Amor, tempo, eternidade


Amor-Eterno é Deus. — Amor-compromisso deve ser fiel desde que foi assumido. — Amor-atração dá e passa.

Um é reflexo do outro. Um penetra no outro. Um ajuda o outro.

Eternidade é a posse total e simultânea do próprio ser. Só Deus é assim. E possuindo-se totalmente, é capaz do supremo êxtase, isto é, doar-se totalmente, ser fora de si. O céu é mergulhar nesse êxtase.

Eviternidade é a duração perpétua. O ser é possuído discursivamente, gradativamente, progressivamente. Essa falta de simultaneidade chama-se tempo. Não haveria aqui o risco do enfado? Não seria o tique-taque desse relógio infinito uma das penas do inferno?

Mas o que dura para sempre pode ter existido desde sempre? Filosoficamente, sim: é possível. Mas não acredito nisso.

Creio que Deus é Amor, mas não creio que o amor seja Deus.
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