11 de nov de 2009

Quem é a Fake-Doll?

Uma mulher antes de Eva
Do folclore para arte e da arte para o comportamento, Lilit foi o leitmotiv de certo tipo de feministas.
Uma tardia tradição judaica personificou a mulher “libertada” na súcubo Lilit, primeira esposa de Adão, rival de Eva que lhe busca a morte dos filhos. Este demônio feminino do mito assírio‑babilônico, perfumado a enxofre, é companhia merecida dos homens maus. Estranha composição de repulsa e atração, desejo e fatalismo.
Vêmo-la em forma ofídica na Capela Sistina propiciando a primeira tentação. Descobrimos referências veladas a Lilit em obras como Nárnia (a feiticeira Branca) ou mesmo reconhecêmo-la com clareza nas descrições da poesia decadente de Alphonsus de Guimaraens (Succubus):


Às vezes, alta noite, ergo em meio da cama
O meu vulto de espectro, a alma em sangue, os cabelos
Hirtos, o torvo olhar como raso de lama,
Sob o tropel de um batalhão de pesadelos.
Pelo meu corpo todo uma Fúria de chama
Enrosca-se, prendendo-o em satânicos elos:
— Vai-te Demônio encantador, Demônio ou Dama,
Loira Fidalga infiel dos infernais Castelos!
Como um danado em raiva horrenda, clamo e rujo:
Hausto por hausto aspiro um ar de enxofre: tento
Erguer a voz, e como um réptil escabujo.
— Quem quer que sejas, vai-te, ó tu que assim me assombras!
Acordo: o céu, lá fora, abre o olhar sonolento,
Cheio da compunção dos luares e das sombras.
A mulher telúrica
É bastante conhecida a constante religiosa segundo a qual a Terra é a “mãe dos viventes” (Eclo 40,1). O paralelismo bíblico entre o ventre materno e o seio da Terra encontra complemento na percepção das divindades celestes como masculinas fertilizadoras. Daí que a mulher venha a exceler um caráter mais telúrico que o homem.
Mulher é terra incógnita. Donde lhe vem a capacidade de ser companheira, apoio e segurança? Sendo frágil, tem o dom e a felicidade de dividir a vida e participar de tudo. Auxílio necessário, mesmo para a pessoa amadurecida, possui sensibilidade e compreensão para aprofundar em assuntos que lhe são desconhecidos.
Mulher é terreno bravio. Seu risco é passar do espírito materno à possessão, da asserção à agressão, do auxílio à dominação. Ao encantar, confunde-se; ao confundir, duplica-se, ao abraçar o mundo, espartilha-se. Sendo pura receptora, carece de interpretação. Mas os homens gostam de tudo analisar.
Mulher é terra, não mapa. Não se entende, nem interpreta, nem traduz. Não deseja, mas realiza o desejo alheio.
A radicalização da imagem telúrica, a falta de inteligência de alguns pensadores e o fascínio contemporâneo pela heterodoxia estão na origem de um discurso hoje bastante recorrente: a mulher como mera invenção. O artifício feminino de dissipar e atenuar, por maquillage, pode se tornar disfarce da própria negação da natureza.
O que há antes do homem
Contudo, que consistência metafísica pode haver em assumir como valor a groundlessness humana, para usar a expressão de David Loy? Para este filósofo zen, groundlessness é a intuição de uma falta de base, a constante sensação de haver algo de errado em cada um, a amarga convicção de se ter agido mal.
A solução proposta por Loy é abdicar dos limites, por ele identificados com o mal. Daí que ele afirme: “quando eu paro de tentar me tornar algo, eu descubro que sou tudo”. A ausência de qualquer natureza presentearia a humanidade com uma liberdade radical: a possibilidade de se tornar qualquer coisa.
David Loy é apenas mais um elo da corrente que nasceu com Protágoras (πάντων μέτρον ντρωπος· “o homem é a medida de todas as coisas”), passando por Pico Della Mirandola, Maquiavel, Bacon, Locke, Nietzsche, etc. Todos esses pensadores, na ânsia de emancipar o homem, foram abolindo o conceito de natureza.
A libertação consistiria em retirar a vergonha dos desejos, em criar uma mente estritamente positiva. A suspensão da vergonha de certos desejos e a supressão de princípios universais para aproveitar-se de condições particulares prometem libertar a mente dos limites da natureza. Pois, para uma liberdade inflacionada, a concretização do real é um “não” que parece limitar a identidade.
Fake-Doll: a mulher artificial
O homem e a mulher que ingressem nesse caminho impraticável e escarpado de aventuras, riscos e impressões, que parece diluir a natureza, cairá na dependência. A relação cifrada no êxtase cria uma consulta gestual ininterrupta, faz o diálogo refém, embota a mente, produz sofisma. O amor pede uma postura ativa: somos co-autores (não vítimas) de tudo o que nos acontece.
Referindo-se ao amor cortês em carta ao filho que se aproximava do matrimônio, Tolkien alertava: ¨Meu filho, a mulher não é uma deusa. Ela é uma companheira de naufrágio¨. Ora, a “deusa boneca” romântica torna-se aqui um demônio que falsamente se apresenta como inofensivo e libertador.
Máscara ao contrário: o mal começa com a mentira. Assim impõe-se a lei do mais forte, que pode definir sua própria verdade e obrigá-la aos demais.

Dona Sofia, você é a Fake-Doll?

Copiei de uma anônima: “Não me envergonho de ser boazinha. Não ligo se sou certinha demais. Mas parece que tem gente que se importa com isso e quer me fazer mudar de qualquer jeito”.

Por enquanto só gerei entrelinhas. Falar da Eva fica para depois.
Enquanto isso, conto com sua opinião a respeito do já dito!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...