12 de nov de 2009

Utopia romântica

Consumir romance

O mercado é nossa arena. Nele ficam estampadas não apenas nossas diferenças econômicas, mas também sociais, embora a todos estejam franqueadas suas portas.

Com o amor se passa o mesmo: é acessível a todos. Mas também aqui ouvimos o eco das diferenças sociais.

Com efeito, poucos têm os recursos necessários para reduzir a distância entre o romance e a realidade, para fazer da vida um idílio.

Veja-se o cortejo tradicional: é uma característica das classes acomodadas. Visita do pretendente à família da noiva, etc.

Veja-se a atual democratização do romance: as classes inferiores o praticam em espaço público, por falta de salas, bailes e mansões. Seu aliado? O mercado, que oferece a preço módico ócio e consumo cinematográfico.

Percebem-se dois processos: a romantização das commodities e a commodização do romance. O amor se tornou o protagonista de quase todos os filmes das telas do cinema, instaurou-se como utopia visual, reconfigurou a noção de amor de sucessivas gerações.

Amor como utopia

Nos anos 30, o amor se vestia de imagens domésticas. Porém, com as Guerras, a publicidade migrou para a reafirmação do eu, vinculando, em chave hedonista, o amor às emoções, aventuras, exotismo, prazer e experiências intensas.

Mas a aventura só é possível com o consumo de certos bens e práticas de ócio. A propaganda passou a apelar para o glamour, a beleza, a fama, mudando o idioma do consumo. Um casal feliz é o que está recluído numa intimidade bucólica, em puro ócio. A estética da casa romântica ideal renega o quotidiano do trabalho e do mundo industrial urbano.

O ícone da oposição entre trabalho e romance é o turismo. Vincula o romance à escapada. Seu estereótipo é a praia deserta, símbolo do paraíso perdido.

Muitas pessoas duvidam se estão apaixonadas de tanto falar de amor. Muitas pensam não estar por carecer dessas representações.

Amorico e pós-modernidade

Para Simmel, o característico da experiência pós-moderna é a vivência do amor como aventura. A pós-modernidade trocou as histórias românticas totalizadoras e eternas por amoricos, romances episódicos que anulam o sentido de espera e eliminam do amor qualquer traço de tragédia.

Amor e romance se divorciaram. Amor é solidariedade, tolerância e estabilidade. Romance é espontaneidade, distensão, emoção e alegria. As tentativas de reconciliação são malfadadas.

As revistas femininas, por exemplo, tentam incutir nas mulheres um discurso racional: “a alma gêmea se consegue com uma busca profissional dos bons partidos”. “Falta romance porque falta empenho”. E os homens, abdicando da virilidade e das virtudes cortesãs, tentam ser ingênuos, cândidos, delicados, cuidadosos.

Assim, o romance tem servido para neutralizar as diferenças de gênero, com tendência marcadamente feminina.

Amor objeto e amor fiel

O mercado coisificou o amor. É produzido, consumido, comprado, usado, trocado, descartado. Mas o amor é algo eterno que entra no tempo. Por isso reclama fidelidade.

[Esta postagem foi inspirada no livro Consuming the romantic utopia.]

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Por que começa o amor?
Por que termina o amor?
O que o faz perdurar?
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