24 de mai de 2010

Seis indícios de inteligência

Noutras ocasiões, já discorri acerca da formação intelectual. Por exemplo, ao falar do estudo e das leituras. Contudo, sinto necessidade de tornar ao tema, complementando-o relativamente ao que deva entender por “ser inteligente” e ao itinerário para a conquista dessa habilidade.

1. Amor à verdade

Reconheço sem pejo que excluo do meu conceito de “pessoas inteligentes” as que renegam a verdade. Afinal, “ter um problema” com a verdade, para usar o jargão pop-psicológico, não significa que a verdade seja um problema. Por outro lado, devo admitir que haja formas diversas de encarar o “problema da verdade”.

Com efeito, muitos gostam de discutir indefinidamente. Embora tenham por ilustres predecessores a Sócrates e Platão, correm o perigo de ficarem aprisionados pelo prurido de indagar sem contentar-se com as respostas ou sem tirar conclusões ulteriores. A maiêutica socrática torna-se um parto perpétuo.

Vejo duas possíveis causas para essa atitude dubitativa: imaturidade ou superficialidade. Imaturidade, porque é típico do adolescente evidenciar-se pela contestação. Superficialidade, porque a pessoa se surpreende com uma obviedade: que a realidade transcende nossas pobre percepção. Em ambos os casos, a “mentira” e a “incerteza” são erigidas em categorias de um pensamento ilustrado, vedado aos convictos e dogmáticos.

Outros tantos, porém, tendem à sistematização em vez de à indagação. Criam uma suma de conhecimentos, elaboram um modelo explicativo do universo e chegam a conclusões novas com base em suas aquisições. Ainda que tenham a Aristóteles por precursor, seu pensamento pode ser enfadonho assim como, reducionista, a sua compreensão da realidade.

Forçosa consequência: mais do que propor um contínuo revisionismo dos sistemas especulativos, é aprender a perguntar. Modelo engessado e dúvida metódica são extremos que demonstram a carência de um pensamento robusto.

2. Classificar, problematizar, argumentar

Antes de aprender algo, é preciso aprender a aprender. Classicamente, a formação intelectual visava, antes de tudo, aguçar as ferramentas de que dispomos para conhecer, descrever e persuadir: a lógica, a gramática e a retórica.

Seria simplório afirmar que hoje não se busca transmitir tais capacidades. Mas é patente que a falta de rigor, expressividade e coerência têm invalidado o mérito de qualquer esforço nesse campo.

3. Liberdade e prudência intelectual

Mente livre difere de mente independente. Esta crê-se isenta de influências. Aquela, sem desprezar as luzes recebidas de outrem, caminha pelos próprios passos.

A braço dado com a liberdade vai a prudência, isto é, uma saudável desconfiança de si mesmo, associada ao recato da autoestima. O homem inteligente confere suas descobertas com os sábios e preserva seu pensamento dos contágios viciosos.

Em resumo: ele não se faz de mestre nem é controlado por mestres, antes elege seus mestres.

4. Memória e abrangência

A erudição constitui-se num tesouro de referências que enriquece a mente com analogias e desenvolve a expressão com exemplos.

Memória é exercício intelectual que atualiza o sabido e o conecta com nossa história, enchendo de significado nossas impressões.

Inteligência divorciada da memória no máximo é esperteza, nunca penetração na realidade.

5. Saber outras línguas, especialmente um idioma clássico

O melhor fundamento para uma educação humanística é o domínio da gramática geral. Tanto o grego quanto o latim têm a vantagem de, por seu vocabulário e sua estrutura, servirem de chave para a terminologia científica e para toda a literatura e história ocidentais, além de facilitarem a iniciação em muitíssimas outras línguas.

Sem tais rudimentos, é de se duvidar do condão intelectual dos que se lançam à busca da verdade.

6. Abertura à transcendência

A sensibilidade ao mistério indica capacidade de autoconhecimento. É inteligente reconhecer que a mente humana estaca no umbral de outras descobertas que lhe são vedadas na medida em que a superam.

Contudo, diante da intuição de uma riqueza existencial superior, não basta a admiração. Quem não dá o salto da entrega religiosa, ou nela não persevera, desconhece ou não compreende a lógica interna da fé: a palavra do mistério, que é dirigida a cada homem, exige-lhe conversão, pois é uma palavra interpeladora.

Justamente em circunstâncias de prova, quando a mente sente a necessidade de compreender o que ocorre e não encontra solução, o homem inteligente, que é um homem de fé, encontrará aí a expressão da fragilidade humana, da humana insegurança e um convite à confiança em Deus.

Então nascem a verdadeira liberdade e a verdadeira ciência: quando se abre mão de querer entender tudo, quando se purifica o desejo de apoiar-se em teorias, quando se abre mão da vaidade de triunfar através de uma retórica vazia, mais baseada na experiência da própria miséria do que na experiência de se ter encontrado misericórdia.

Quais dessas qualidades você tem? Quais lhe faltam?
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...