15 de mai de 2010

O céu é o limite?

Quando nasci veio um anjo safado,
o chato de um querubim,

e decretou que eu estava predestinado
a ser errado assim…

Sobre gêneros e spins

Um amigo meu, companheiro de outras histórias já narradas aqui, veio-me com uma pergunta inusitada:

— No céu ficaremos como os serafins, que recebem na cabeça a sementinha da alegria e ficam rodando e dizendo “Holy, Holy, Holy” para sempre?

Achei graça da descrição. Afinal, nunca tinha pensado nos serafins como peões do êxtase. Quem sabe seja o spin de cada um que determine o seu sexo!

Mas a dúvida é pertinente e inclui duas questões: a eternidade não é chata? ficar apenas adorando a Deus não será muito monótono ou alienante?

Cada um espera o céu que merece

Certa feita, fui ao velório do pai de um outro amigo. Apareceu por lá, pelas 3h da manhã, um fulano simpático. Como a conversa fosse ficando animada, o que não condizia com o clima reservado do evento, propus aos que estavam mais próximos irmos à cantina tomar alguma coisa e desfrutar de um bom papo.

Pois bem, o fulano, sem dúvida inspirado pela situação, começou a especular sobre a vida póstuma e indagou de cada um o que achávamos que ocorreria com a alma dos finados.

Depois de cada qual dar seu pitaco, aquela figura impar começou a descrever vivamente o que nos espera no além: explicou que as almas vibram, que a frequência da vibração determina o nível de cada alma, que as pessoas boas vibram mais e que as pessoas más vibram menos, etc.

Como eu lhe perguntasse de onde ele tinha tirado tamanha quantidade de ideias incríveis (no sentido literal da expressão), respondeu-me estar tudo “provado cientificamente”, conforme “experiências feitas nos laboratórios da USP” e minuciosamente explanado em tal e qual livros.

Minha pergunta seguinte foi fatal, embora sem querer:

— Quem é o autor desses livros?

— Sou eu! — respondeu ele.

Aquele cara-de-pau sempre me fez pensar que, ou eu estou demorando demais a publicar algo, ou que o mercado editorial brasileiro é dirigido por mentecaptos.

A você que me lê, indago apenas uma coisa: seria o céu apenas a ressonância das nossas ondas? — Eu espero mais do que isso!

Materialismo disfarçado

Ao lado dos que negam a vida póstuma e, por conseguinte, propõem que vivamos intensamente os prazeres do momento presente, parece-me que também vão, de mãos dadas, muçulmanos e espíritas.

Com efeito, promete o Corão em An Nissá, sura 4:57, “jardins, abaixo dos quais correm rios, (...) esposas imaculadas”. E, em Ar Rahman, sura 55:56, “aquelas de olhares recatados que, antes deles, jamais foram tocadas por homem”. Conta-se ainda uma infindável lista de passagens que descrevem jardins, frutas, honras, leitos, virgens, cálices, palácios, rios, tapetes, etc.

Decerto, tudo pode ser interpretado em sentido espiritual. Mas é gritante a diferença com a concepção cristã, segundo a qual não haverá matrimônio após a ressurreição da carne.

Quanto ao espiritismo, basta recordar a descrição quase física feita do além por Chico Xavier no best-seller Nosso Lar. Não vale minimamente a pena ler a obra. Contudo, se você ficou curioso, basta-lhe assistir ao trailer do filme: é um semicéu com hospital, ruas, coletivos, etc.

Ainda que se diga que ao céu só chegará propriamente após a última transmigração, há um acordo tácito em admitir que quase ninguém já esteja preparado para chegar lá e que são necessárias várias vidas nessa Terra para conquistar o prêmio definitivo, etc.

Ora, tudo isso é um grande materialismo. Afinal, a promessa é: fique tranquilo com a morte, pois você vai voltar para cá!

Amor e eternidade

A confusão do meu amigo acerca do “motor contínuo” dos serafins pode se desvanecer com essa descrição da eternidade feita por Joseph Ratzinger:

Que é o que estimula o homem a desejar durar mais? Não é o ‘eu’ isolado, mas é a experiência do amor: o amor quer que o ser amado seja eterno e quer, por conseguinte, sê‑lo igualmente. Aqui temos, portanto, a resposta cristã à nossa pergunta: a imortalidade não está no próprio homem; ela repousa sobre uma relação: a relação com o que é eterno e com o que dá à eternidade todo o seu sentido. Este elemento durável, que é capaz de dar a vida e de preenchê‑la plenamente, é a verdade, é o amor. Se o homem pode viver eternamente, é porque ele é capaz de se manter em relação com quem dá a eternidade. Aquilo que, no homem, é capaz de conservar tais relações nós chamamos de ‘alma’. A alma nada mais é senão esta capacidade de relações que o homem pode ter com a verdade, com o amor eterno. E, agora, podemos ver o encadeamento de tais realidades: a verdade que é amor, ou seja, Deus, confere ao homem a eternidade, e, como há matéria que esteve integrada ao espírito humano, à alma humana, a matéria atinge no homem uma capacidade de aperfeiçoamento que conduz à Ressurreição” (Entre a morte e a ressurreição in Communio, edição brasileira n.º 1, pág. 85).

De fato, falar de relação é muito importante. Todas essas concepções esdrúxulas sobre o céu — descrições mitológicas, promessas sensuais, reducionismo cientificista, caldo de ectoplasmas — ignoram que Deus é mais do que uma Energia Suprema ou um Motor Imóvel. Deus é Alguém, um Ser Pessoal com quem é possível entrarmos em relação.

Vou deixar de molho o problema pendente da suposta alienação dos cidadãos da pátria celeste. Mas lanço a você que me lê uma pergunta parecida: — Você é um cidadão alienado da pátria terrestre?
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