26 de abr de 2011

Fugiu de casa morando sozinho

Prossigo a discussão acerca da libertação do homem frente à natureza.

O eclipse do corpo

Graças a Descartes, introduziu-se o dualismo no pensamento ocidental. O corpo humano passou a ser visto, em contraposição ao espírito, como a “natureza” em cada homem. Sendo entendido como “pura matéria”, o corpo torna-se estranho à subjetividade e manipulável em função dos interesses individuais.

A ideologia de gênero inscreve-se nessa perspectiva dualista. Deixando a natureza de ser norma, nega-se à diferença de sexos seu significado antropológico. A ânsia de nivelar diferenças exalta a dimensão histórico-cultural, denominada gênero, em detrimento da dimensão corpórea, chamada sexo. Embora em sua origem a causa da mulher tenha sido o contexto de tal discussão, seu motivo mais profundo é a tentativa humana de libertar-se dos próprios condicionamentos biológicos.

O eclipse de Deus

A insurreição da liberdade subjetiva frente à natureza também traz consigo a competição com a ação divina. A liberdade divina tende a ser  entendida erroneamente como situada no mesmo plano da ação humana. Daí que, em nome da afirmação da liberdade e da autonomia, Deus precise se expulso da esfera da subjetividade humana.

Henri de Lubac, ao falar do advento de uma sociedade “independente” da religião, tenta descobrir a origem da ideologia moderna:
Alguns situam seu começo no “século das luzes”;
outros fazem retroceder um pouco sua aparição até as críticas de Kant;
para outros, seu grande iniciador é Hegel (
).
Também há os que sustentam que começa
com o espírito científico “positivista” (…)
ou com a aplicação exclusiva do espírito científico ao estudo do homem,
tomado como objeto de laboratório (…).
Numa palavra, uma vez mais, com a repulsa de toda reflexão metafísica,
assim como de toda religião.
Tal seria a última e definitiva conquista:
negar-se a ver no homem qualquer aspiração transcendente.
(Diálogo sobre el Vaticano II. Recuerdos y reflexiones)

Soluções perigosas

Em resumo: todo tipo de heteronomia, isto é, de referência a uma normatividade exterior (Deus, a natureza), passa a ser vista como ameaça à autonomia.

Não basta reabilitar a natureza e a corporeidade na ética. Com efeito, algumas tentativas modernas de reapresentar a lei natural descuidaram a integração hierárquica das inclinações naturais na unidade da pessoa, reduzindo o homem a uma parcela de seus impulsos: à pulsão sexual, aos sentimentos, às paixões.

Na mesma linha, a absolutização da natureza igualmente produziu deformações. A mais radical talvez seja a deep ecology, que iguala as espécies vivas e solapa a responsabilidade do homem para com a biosfera.
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