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27 de ago. de 2014

Plágio sem creative commons

O plágio e seus tipos

Plágio acadêmico é a apropriação de ideias ou expressões alheias, sem referência aos seus autores. Tais referências podem ser diretas, com as devidas citações, ou indiretas, mediante a explicação e o pertinente comentário das fontes consultadas.

O plágio mais grosseiro é o integral, que reproduz a fonte de pesquisa como se fosse oriunda da própria lavra. Contudo, também são plágios duas formas mais sutis. Por um lado, há o plágio parcial, que mescla locuções de diversa procedência; por outro, há o plágio conceitual, que consiste na reprodução das ideias com a mera substituição das palavras.

Implicações éticas do plágio

A palavra define o homem. Ο homem é alguém que fala e que escuta. Seu universo discursivo baliza sua compreensão do mundo. O domínio da linguagem não só lhe permite entender seu entorno como interagir com as outras pessoas e atuar sobre elas. De fato, a interação com os demais comporta duas dimensões: o mimetismo e a influência, reproduzir ou produzir.

A Universidade tem uma missão especial: introduzir o homem na autonomia, conduzi-lo à capacidade autoral, à produção intelectual, para além da simples imitação.

Não obstante, o plágio acadêmico, tão facilitado pelos hipertextos, pela fragmentação do conhecimento e sua difusão massiva da informação, apresenta-se como uma chaga da produção intelectual universitária. Afinal, o plágio elude a responsabilidade pelo cultivo do saber e priva de autenticidade a produção acadêmica.

O conhecimento, tanto o gerado quanto o transmitido, comporta, portanto, uma dimensão ética. Não é inócua a forma de lidar com as palavras nem de criar pontes com elas. A proteção do direito autoral, reconhecida por lei, demonstra e expressa juridicamente a existência de exigências morais na gestão do conhecimento.

***

A UFF tem publicada uma cartilha bem interessante sobre o plágio acadêmico que merece a leitura: http://www.proppi.uff.br/portalagir/sites/default/files/cartilha_autoria_-_digital.pdf.

8 de jul. de 2013

Dez tipos de estudante


Depois de falar do estudo em si, parece interessante classificar os estudantes conforme seu estilo.

  1. Estudante oficial. Rato de biblioteca, para ele o essencial é o dez, adquirido com o pouco esforço de engolir a matéria enlatada proporcionada pelo professor. Se a lata é grande, pode vir o desespero, a pressa, a impaciência, o nervosismo.
  2. Estudante conformista. Totalmente moldado ao esquema da sua escola, sem voos intelectuais, que nem com o dez se preocupa. Por semana gasta sete cuecas, usa sete pares de meias e tira sete nas provas. Falta-lhe espírito de sacrifício.
  3. Estudante satisfeito. Considera já realizado todo o esforço necessário. Esquece-se que o que lhe oferecem é o ensino vulgar, nivelado pelos valores médios e que o esforço até então desenvolvido nada tem de extraordinário. Precisa de uma injeção de ânimo, se não virá inevitavelmente o tédio, a sensação de que a escola é uma prisão, o professor é o carrasco e a escola, uma tortura. Sonha com as férias como os bois da história sonhavam com verdes pastos aprazíveis enquanto o dono sonhava com um longo carregamento de feno. É o típico estudante que mata aula estando na aula.
  4. Estudante kamikaze. Fracassado de antemão, que vai às provas como a ovelha ao matadouro.
  5. Estudante aloprado. Entra em regime de exceção quando chegam as provas, abandonando todos os demais compromissos.
  6. Estudante poeta. A lei do gosto fez com que até os livros didáticos sejam cheios de fotografias, as aulas sejam apresentações pirotécnicas e tudo se queira aprender sem esforço. Quem estudar sob a ditadura do gosto fatalmente reduzirá seus campos de interesse e se tornará monotemático.
  7. Estudante espertalhão. Adepto da linha do mínimo esforço, para quem ser honrado é ingenuidade. O que lhe importa é pegar o bizu da prova, colar e chorar para passar.
  8. Estudante kantiano. Encara o estudo como um dever, um imperativo categórico, do qual não há como fugir. Falta-lhe amor!
  9. Estudante autossuficiente. Orgulhoso como ele só, acha que não precisa saber mais do que considera importante.
  10. Estudante bem dotado. Orgulho da mamãe, elogiado em classe, modelo dos colegas. Sente-se instigado a novos conhecimentos? Procura pôr suas capacidades a serviço dos amigos? Só assim vencerá o egoísmo, que poderia afastá-lo das pessoas.
E você? Como é que estuda?

4 de jul. de 2013

Passar, saber ou mudar?

Havia uma universidade particular em São Paulo cujo lema, estampado na fachada, dizia: “Forma com Conteúdo para Excelência”. Prescindindo de um juízo jocoso sobre a frase em questão, poderíamos dizer que seria muito bom se nosso estudo fosse assim:

  • excelência buscada e manifestada nas metas de rendimento;
  • conteúdo de saberes acumulados na memória;
  • forma mentis adquirida mediante a transformação da afetividade pelos saberes adquiridos.
O primeiro é o menos profundo. Tanta gente estuda para passar, fingindo excelência.

O passo intermediário é ambivalente. Muitas vezes torna-se a erudição vazia: ou máscara de um coração torto, ou justificativa para a curiosidade inútil.

O último passo é essencial. Poucos modificam sua conduta, preferências e interesses, por causa do conhecimento adquirido.

Há quem brinque que “pensar fede”. Na verdade, pensar exige método, cria hábitos intelectuais de apreensão, juízos e raciocínios (de modo a distinguir as afirmações fundadas das gratuitas, os fatos das opiniões, a verdade do erro). Ou seja, estudar é uma atitude de vida, um modo de estar aberto à realidade. O que fede é a inveja dos molengas.

15 de mai. de 2013

Bode emo que acha que é galinha

O que mata é o despreparo da intelectualidade brasileira… Afirmo isso em função da conferência ministrada neste mês na Cândido Mendes pelo filósofo canadense Charles Taylor sobre o processo contemporâneo de secularização.

(Os professores podem receber salário com atraso, mas pelo menos há verba para uma lufada de pensamento em nosso deserto acadêmico!)

Apareceu tanta gente que os organizadores precisaram transferir a palestra para o teatro. Além da breve exposição do convidado, em língua inglesa, os assistentes tivemos de aguentar os discursos vazios dos anfitriões. Um deles expandia-se em clichês politicamente corretos; o outro, afetava erudição juntando alhos com bugalhos pseudofilosóficos.

Um terceiro membro da mesa, convidado a acompanhar a conferência, clérigo sem veste talar, falou com propriedade, mas com “excesso” de pontaria: foi tão vasto e penetrante que necessitaria de um curso para explicar tudo o que ele tinha em mente.

Após hora e meia de blá-blá-blá, quando todos estávamos cansados e com fome, nossos “intelectuais” começaram a divagar, a lançar pedras a esmo e a expor as feridas da própria ignorância. Fiquei penalizado por ouvir tão pouco de Charles Taylor e tanto dos acadêmicos tupiniquins. Foi como levar gato por lebre.

No fim, quando o ataque se voltou contra o papado, metade do público começou a gritar: — Viva o Papa! — Eu nunca tinha visto final tão glorioso numa discussão universitária!

Coisas pitorescas à parte, tentarei traçar um resumo em quatro pontos das ideias de Taylor sobre a secularização na época pós-moderna, que curiosamente descrevem o circo armado na Cândido Mendes e do qual — ele próprio! — era a principal atração:

1) Perda das ideias compartilhadas. Sem uma base comum, um conjunto conceitual de referências, facilmente a religião é questionada na vida pública, mesmo que ela esteja no substrato dessa mesma vida pública.

2) Demarcação identitária. Quando não há mais entendimento entre as partes, também desaparece o sentido de pertença à comunidade. Consequentemente, as pessoas tentam evidenciar-se por peculiaridades e ocorre a inflação das minorias.

3) Ruptura entre crença e vida. Como a cultura cristã ainda subjaz na sociedade vitimada de ignorância religiosa, as pessoas continuam participando de ritos que não entendem mais. Daí para a falta de fé, não vai senão um só passo. Da incoerência rapidamente se passa à bandalha.

4) Abuso laicista. O último patamar é a institucionalização da bandalha, quando, em nome da autenticidade, pretende-se excluir todo substrato cultural cujo significado tenha se perdido. No caso, a religião é vista como câncer a ser extirpado do tecido social.

Em determinado momento da conferência, um dos presentes indagou como devemos reagir diante dos que se dizem tolerantes mas nos impingem seus preconceitos. Houve um sonoro aplauso da plateia; contudo, os professores brasileiros pareceram não entender o porquê. Na verdade, o aplauso era contra eles mesmos, que tinham sido tão pouco respeitosos para com a fé católica.

Charles Taylor apenas negou que a tolerância seja um valor com o qual se construa a sociedade. Com efeito, tolerar significa apenas contornar o incômodo causado por quem faz o mal, mas cujo combate nos seria ainda mais prejudicial. O ideal da nossa sociedade deve ser dar oportunidades para todos se desenvolverem humana e espiritualmente.

Espero que esse recado seja captado por nossos criadores de opinião, que me soam como esse bode emo que pensa que é galinha:

1 de abr. de 2012

Soluções de longo, médio e curto prazos

Vira e mexe algum amigo se queixa da péssima educação, dos preconceitos, da intolerância laicista e dos maus bofes.

São questões como: Por que sendo o Brasil um país católico, recebe tão pouca acolhida um filme como Homens e Deuses, sobre os mártires da Argélia (vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes em 2010)? Por que o incrível pontificado de Bento XVI recebe tão pífia cobertura jornalística? Por que todo mundo se abstém de carne na Sexta-feira Santa mas quebra o jejum prescrito com um lauto banquete de bacalhau?

Sábado à noite, quando a cabeça já não funcionava direito, veio-me à cabeça uma resposta que tentarei transcrever abaixo. Acho que o amigo que me ouvia (conhecido de outras postagens) ficou satisfeito e espero que lhe seja igualmente útil, independentemente do credo que você professe.

Três armadilhas

É óbvio que essa cristalização na ignorância provém de um longo processo cultural.

Em primeiro lugar, foram sendo acumulados sufocantes sedimentos ideológicos sobre a filosofia cristã, que é nossa matriz cultural originária, estabelecida em solo brasileiro pelos jesuítas. Tais ideologias foram o cientificismo materialista da reforma de Pombal, o liberalismo do século XIX, o materialismo evolucionista da Escola do Recife e o positivismo.

Ainda se poderia acrescentar, em período mais recente, o câncer deletério de Teilhard de Chardin e do marxismo, que afetou a própria teologia.

Em segundo lugar, no batalhão de intelectuais brasileiros (médicos, advogados e assemelhados com nível superior) encontram-se poucas inteligências. Por isso, nossos atuais “clerks” (“clérigos”, letrados, homens de escol, elite acadêmica) não passam de eternos estudantes especializados em investigações sem resposta. Muitos dos assim chamados pensadores brasileiros são meros repetidores enfadonhos de ideias importadas.

Em último lugar, crescemos achando que aprendizado é treino, que ter dúvidas é feio e que estudar é chato. O mapa da ignorância superior brasileira é proporcional às dimensões do país. Para dizer que o Brasil tem problema de memória, é preciso afirmar que antes tenha tentado decorar alguma coisa.

Solução de longo prazo

Para séculos de secularização e engodos filosóficos, serão necessárias algumas gerações aplicadas à reformulação intelectual do país. Esse será um projeto de longo prazo.

Virtude aplicável? Longanimidade. Para longos projetos, início imediato!

Solução de médio prazo

A renovação do quadro docente não se faz da noite para o dia. Enquanto não se formam novos professores desintoxicados, o campo continuará a ser arado pelos bois que leram Marcuse, Jacques Derrida, Nietzsche, Foucault, Simone de Beauvoir, etc.

Enquanto isso, resta-nos obstaculizar democraticamente os projetos nascidos dos juristas (mormente gaúchos) deformados pelo direito criativo aprendido na faculdade.

Solução de curto prazo

Estudar. Estudar. Estudar.

Não há outra fórmula para libertar-se da paralisia intelectual. Questão de tempo, questão de dedicação, questão de prioridade.

*****

E a você? Que temas o espicaçam? O que você tem estudado?

12 de dez. de 2011

Sabedoria mórbida

O conhecimento é um valor que todos desejam, ainda que alguns o dissimulem: quando aprendemos algo novo logo vamos contar aos amigos e queremos que eles participem da nossa descoberta.

Já a curiosidade é o desvio dessa tendência: ao invés de nos fixarmos no que é importante, deixamos de lado os nossos deveres e gastamos tempo com futilidades (por exemplo, trocar a verdadeira cultura dos livros e da arte por um verniz diário de videoshow).

A curiosidade é sinal de total esterilidade e desenraizamento, de incapacidade de habitar em si próprio. É a fuga de si, pelo tédio da aridez interior. É trilhar caminhos baldados num angustioso egoísmo, em vez de aceitar o sacrifício. Heidegger qualifica-a como ficção de vida intensamente vivida.

1. Se a curiosidade entra na vida alheia, dá-se pasto à maledicência, calúnia, bajulação, adulação, complacência, jactância, ironia, mentira, violação de segredos, juízo temerário, falso testemunho, perjúrio. Ou seja, uma turminha da pesada.

2. Se a curiosidade entra na vida religiosa, recorre‑se à magia, ao ocultismo, ao esoterismo, ao fantástico. Não se deve perder de vista que temas como “4.º Segredo de Fátima”, interpretações atuais do Apocalipse, “profecias de Nostradamus”, parapsicologia, “brincadeira do copo”, horóscopo, método Silva de Controle Mental, autoajuda através da Bíblia, etc., além de estarem bem próximos à heresia, em nada ajudam a piedade e alienam pessoas crédulas.

Um saldo positivo da curiosidade pode ser a erudição. A sabedoria, contudo, exige ir além, mediante dois passos ulteriores: a instrução e a cultura.

Instrução é saber sistematizado, coerentemente estruturado. A insuficiência da instrução como remédio da curiosidade fica comprovada quando a descrição da realidade produz um sistema fechado e inservível, que apenas gera contraste de opiniões sem nunca conduzir à verdade. Caso típico das ideologias.

Cultura é saber assimilado, pensamento sobre conhecimentos. As ideias próprias nascem quando chegamos às mesmas produtos de outros (conhecimentos adquiridos) através de nossos próprios processos (pensamento).

Portanto, para adquirir conhecimento, sistematizá-lo e assimilá-lo, precisamos percorrer esses três passos:

1. Lembrar: reter, colecionar, ampliar.

2. Pensar: considerar, discernir, aprofundar.

3. Estudar: duvidar, idealizar, solucionar.

Cada nível supõe o anterior. E, para chegar a tanto, é preciso aguçar a inteligência com ordem e aproveitamento do tempo.

15 de nov. de 2011

Sete jeitos de ganhar experiência


A sabedoria é como um conhecimento de que se “degusta o sabor”; um conhecimento do qual se vive, pois não é mera erudição. É como um amor que se possui, não platônico como o de Dom Quixote.

Ninguém guarda um conhecimento que não lhe toca, agrada, atiça ou consola. Por isso são inócuos tantos cursos de inglês, ou se esquecem os nomes dos ministros enquanto ficam impressos na memória os personagens de Guerra nas Estrelas.

Um bom caminho para a sabedoria é entesourar experiência. Pensei em sete formas de fazer isso.



1. Fareje o sentido das coisas. Até o nonsense tem sua lógica!





2. Aceite as injustiças. O melhor conhecimento é o moral. Não há lógica que o explique!




3. Reconheça suas melhoras. Mesmo que sejam ridículas! Conquistas pequenas conduzem a grandes vitórias.






4. Sistematize o aprendizado. Fazer listas ajuda muito a pensar.





5. Sistematize a prática. Nada é tão prático quanto uma boa teoria.









6. Não exagere. Afinal, a experiência é um pente que a vida nos dá quando ficamos carecas. Muita coisa se resolve com feeling.



7. Aproveite os erros. Muitas vezes eles são a solução perfeita.


24 de mai. de 2010

Seis indícios de inteligência

Noutras ocasiões, já discorri acerca da formação intelectual. Por exemplo, ao falar do estudo e das leituras. Contudo, sinto necessidade de tornar ao tema, complementando-o relativamente ao que deva entender por “ser inteligente” e ao itinerário para a conquista dessa habilidade.

1. Amor à verdade

Reconheço sem pejo que excluo do meu conceito de “pessoas inteligentes” as que renegam a verdade. Afinal, “ter um problema” com a verdade, para usar o jargão pop-psicológico, não significa que a verdade seja um problema. Por outro lado, devo admitir que haja formas diversas de encarar o “problema da verdade”.

Com efeito, muitos gostam de discutir indefinidamente. Embora tenham por ilustres predecessores a Sócrates e Platão, correm o perigo de ficarem aprisionados pelo prurido de indagar sem contentar-se com as respostas ou sem tirar conclusões ulteriores. A maiêutica socrática torna-se um parto perpétuo.

Vejo duas possíveis causas para essa atitude dubitativa: imaturidade ou superficialidade. Imaturidade, porque é típico do adolescente evidenciar-se pela contestação. Superficialidade, porque a pessoa se surpreende com uma obviedade: que a realidade transcende nossas pobre percepção. Em ambos os casos, a “mentira” e a “incerteza” são erigidas em categorias de um pensamento ilustrado, vedado aos convictos e dogmáticos.

Outros tantos, porém, tendem à sistematização em vez de à indagação. Criam uma suma de conhecimentos, elaboram um modelo explicativo do universo e chegam a conclusões novas com base em suas aquisições. Ainda que tenham a Aristóteles por precursor, seu pensamento pode ser enfadonho assim como, reducionista, a sua compreensão da realidade.

Forçosa consequência: mais do que propor um contínuo revisionismo dos sistemas especulativos, é aprender a perguntar. Modelo engessado e dúvida metódica são extremos que demonstram a carência de um pensamento robusto.

2. Classificar, problematizar, argumentar

Antes de aprender algo, é preciso aprender a aprender. Classicamente, a formação intelectual visava, antes de tudo, aguçar as ferramentas de que dispomos para conhecer, descrever e persuadir: a lógica, a gramática e a retórica.

Seria simplório afirmar que hoje não se busca transmitir tais capacidades. Mas é patente que a falta de rigor, expressividade e coerência têm invalidado o mérito de qualquer esforço nesse campo.

3. Liberdade e prudência intelectual

Mente livre difere de mente independente. Esta crê-se isenta de influências. Aquela, sem desprezar as luzes recebidas de outrem, caminha pelos próprios passos.

A braço dado com a liberdade vai a prudência, isto é, uma saudável desconfiança de si mesmo, associada ao recato da autoestima. O homem inteligente confere suas descobertas com os sábios e preserva seu pensamento dos contágios viciosos.

Em resumo: ele não se faz de mestre nem é controlado por mestres, antes elege seus mestres.

4. Memória e abrangência

A erudição constitui-se num tesouro de referências que enriquece a mente com analogias e desenvolve a expressão com exemplos.

Memória é exercício intelectual que atualiza o sabido e o conecta com nossa história, enchendo de significado nossas impressões.

Inteligência divorciada da memória no máximo é esperteza, nunca penetração na realidade.

5. Saber outras línguas, especialmente um idioma clássico

O melhor fundamento para uma educação humanística é o domínio da gramática geral. Tanto o grego quanto o latim têm a vantagem de, por seu vocabulário e sua estrutura, servirem de chave para a terminologia científica e para toda a literatura e história ocidentais, além de facilitarem a iniciação em muitíssimas outras línguas.

Sem tais rudimentos, é de se duvidar do condão intelectual dos que se lançam à busca da verdade.

6. Abertura à transcendência

A sensibilidade ao mistério indica capacidade de autoconhecimento. É inteligente reconhecer que a mente humana estaca no umbral de outras descobertas que lhe são vedadas na medida em que a superam.

Contudo, diante da intuição de uma riqueza existencial superior, não basta a admiração. Quem não dá o salto da entrega religiosa, ou nela não persevera, desconhece ou não compreende a lógica interna da fé: a palavra do mistério, que é dirigida a cada homem, exige-lhe conversão, pois é uma palavra interpeladora.

Justamente em circunstâncias de prova, quando a mente sente a necessidade de compreender o que ocorre e não encontra solução, o homem inteligente, que é um homem de fé, encontrará aí a expressão da fragilidade humana, da humana insegurança e um convite à confiança em Deus.

Então nascem a verdadeira liberdade e a verdadeira ciência: quando se abre mão de querer entender tudo, quando se purifica o desejo de apoiar-se em teorias, quando se abre mão da vaidade de triunfar através de uma retórica vazia, mais baseada na experiência da própria miséria do que na experiência de se ter encontrado misericórdia.

Quais dessas qualidades você tem? Quais lhe faltam?

4 de fev. de 2010

Centos de livros para ler

Após tantas postagens sobre leitura, deixo aqui uma lista dos “obrigatórios” em minha modesta opinião.

Repare que tento fazer um apanhado geral, com base em gêneros, assuntos e culturas. Portanto, as obras seriam substituíveis por outras similares, conforme o gosto do freguês.

Como somos lusoparlantes, penso que livros de nossa lavra são também essenciais.

Bon appétit!

TEATRO
  • Ésquilo, Oresteia
  • Sófocles, Trilogia Tebana
  • William Shakespeare: Hamlet, Macbeth
POESIA
  • Dante Alighieri, Vita nuova
  • T. S. Eliot
  • Carlos Drummond de Andrade
  • Manuel Bandeira
  • Fernando Pessoa
  • Bocage
EPOPEIA
  • Homero, Odisseia
  • Virgílio, Eneida
  • Anônimo, Beowulf
  • Anônimo, A Canção dos Nibelungos
  • Dante Alighieri, Divina Comédia
  • Camões, Os Lusíadas
  • John Milton, Paraíso Perdido
ÉPICO
  • Dom Quixote
  • Anônimo, Lazarillo de Tormes
LITERATURA EM GERAL
  • Machado de Assis: os livros da segunda fase (a partir de 1881)
  • Raimundo Lúlio, O livro das bestas
  • Jonathan Swift, Viagens de Gulliver
  • Jane Austen, Orgulho e preconceito
  • Lewis Carroll: Alice no País das Maravilhas, Através do espelho
  • Leon Tolstoi, Ana Karenina
  • Fiodor Dostoievsky: Crime e castigo, Os irmãos Karamazov
  • Joseph Conrad, O coração das trevas
  • Eugene Ionesco, O rinoceronte
  • Thomas Mann, Doktor Faustus
  • Constantin Virgil Gheorghiu, A vigésima-quinta hora
  • Michael Ende, A história sem fim
  • João Guimarães Rosa: Sagarana, Grande sertão: veredas
  • Antoine de Saint-Éxupéry: O pequeno príncipe, Cidadela
  • J.R.R.Tolkien: Silmarillion, O senhor dos anéis
ENSAIOS
  • T. S. Eliot, Ensaios
  • G.K.Chesterton, Ortodoxia
BIOGRAFIAS
  • Agostinho de Hipona, As confissões
  • John Henry Newman, Apologia pro vita sua
  • Salvador de Madariaga, Hernán Cortés
  • Marcelle Auclair, Santa Teresa de Ávila
  • Stephan Zweig: Magalhães, Maria Stuart, Fouché, Maria Antonieta
  • Emil Ludwig, Napoleão
  • David Downing, C. S. Lewis, o mais relutante dos convertidos
FILOSOFIA
  • Aristóteles: Metafísica, Ética a Nicômaco
  • Platão: Fédon, Banquete
  • São Tomás de Aquino: Suma contra os gentios, Suma Teológica
  • Edith Stein: Ser finito e ser eterno, A mulher
  • Miriam Joseph, O Trivium: As Artes Liberais da Lógica, Gramática e Retórica
ANTROPOLOGIA
  • C.S.Lewis: Os quatro amores, Dor
  • Viktor E. Frankl, Psicoterapia e sentido da vida
TEOLOGIA
  • Bíblia (especialmente Gn 1–Ex 20; Livros Sapienciais, especialmente Jó, Sb e Eclo; Novo Testamento)
  • Confúcio, Analectos
  • Catecismo da Igreja Católica (especialmente a parte IV)
  • Concílio Vaticano II, Gaudium et spes
  • João Paulo II: Fides et ratio, Veritatis splendor, Centesimus annus; Cruzando o limiar da esperança, Memória e Identidade
  • Bento XVI: Deus charitas est, Spe salvi, Charitas in veritate; Jesus de Nazaré (2 vol.); Fé, verdade e tolerância

HISTÓRIA E SOCIOLOGIA
  • Régine Pernoud, Idade Média, o que não nos ensinaram
  • Johann Huizinga, O declínio da Idade Média
  • Christopher Dawson, A formação da Europa
  • Jakob Burckhardt, A cultura do Renascimento na Itália
  • Thomas More, Utopia
  • A. Moorehead, A revolução russa
  • Gilberto Freire, Casa grande e senzala
  • Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil
Conto com sua ajuda para aprimorar esta lista!

24 de out. de 2009

Livros bons versus livros inúteis


Bacon dizia que a leitura torna o homem completo, a conversação o torna ágil, o escrever o torna preciso. Quem não se cultiva um pouco, parece que não sabe desfrutar das satisfações inerentes à nossa condição de seres inteligentes. É lastimoso conhecer gente incapaz de sustentar sequer por uns minutos uma conversa sobre algo alheio à sua especialidade, porque nunca leu nada com um pouco mais de conteúdo.

Ao mesmo tempo que fomentamos a aquisição de uma cultura ampla e profunda, mediante o aproveitamento dos tempos dedicados ao espargimento e ao oportuno descanso, precisamos nos resguardar com prudência de tudo aquilo que ataque nossa fé ou seja moralmente perigoso.

Diante do perigo do excesso, da absorção contínua e indiscriminada de informação, deve‑se reconhecer que nem toda publicação, filme ou programa colabora na formação cultural. Faz falta ler mais e ler melhor. Sêneca dizia que não é preciso ter muitos livros, mas que sejam bons. Além da capacidade de leitura é necessário desenvolver a capacidade de discernimento, porque as propagandas publicitárias das editoras e o atrativo das encadernações não são garantia de qualidade.


Nesse sentido, vale a pena lembrar as seguintes palavras de João Paulo II, do seu livro “Levantai-vos, vamos!” (na altura da página 100):

Sempre tive este dilema: o que devo ler? Buscava escolher aquilo que fosse mais essencial. A produção editorial é tão vasta! Nem todos oslivros têm o mesmo valor e utilidade. É preciso saber escolher e pedir conselho a respeito do que merece ser lido. (...) Na leitura e no estudo, tentei unir sempre de maneira harmônica as questões de fé, de pensamento e de coração. Não são campos separados. Cada um deles se adentra e anima os outros.

10 de set. de 2009

8 de set. de 2009

Três considerações antes de aprender latim


Um método?

Gosto de imersão.

Para imergir, ouvir noticiários em latim, utilizar o software Rosetta Stone (procure no Google, OK?) e ouvir áudios.

Imersão é ouvir, viver, falar latim.

OU SEJA, TENTAR AO MÁXIMO ESTAR PRÓXIMO DELE DE MANEIRA PASSIVA.

Para facilitar as coisas:
Gramática?

Gramática não é a mesma coisa que método.

Gramática não é bom método de aprender uma língua.

Evite as que misturam as duas coisas. As crianças primeiro falam, depois estudam gramática, certo?

Em minha opinião, a melhor gramática de latim já publicada no Brasil é a Gramática da língua latina, de Ernesto Faria (2ª edição revista por Ruth Junqueira de Faria), publicada em Brasília pelo MEC/FAE em 1995.

Últimas observações

Vocês devem estar se perguntando se o latim eclesiástico é diferente do latim clássico. Basicamente, só na pronúncia. Os áudios acima seguem a pronúncia restaurada.

Mas… o latim da Nova Vulgata, por exemplo, é calcado no hebraico e no grego, o que lhe confere um estilo bisonho.

E o latim da liturgia? Algumas orações e outros hinos renascentistas são superdifíceis porque os autores foram mais estilosos, resgatando o estilo clássico. Afinal, poesia é sempre mais difícil.

Curioso é que o latim bisonho, por ser mais literal, é mais fácil de pegar. Por isso, ler a Bíblia em latim pode ser um bom começo. Já se conhecendo as histórias, entende-se o texto mais facilmente.

Em resumo: não há “vários latins”. Há um só, com duas pronúncias. Um só, com textos mais estilosos ("clássicos"), outros mais “povão” e outros “medianos”.

22 de jul. de 2009

Debate em torno a Tales de Mileto

Para ilustrar a postagem anterior, apresento o livro-debate que fiz sobre a parca doxografia existente de Tales de Mileto (vide, por exemplo, na coleção Os Pensadores):

APRESENTAÇÃO:

Tales foi o fundador do pensamento filosófico no Ocidente ao ter buscado o arqué: «aquilo de que todos os entes são constituídos e de que primeiro são gerados e em que por fim se dissolvem» ou «princípio de movimento». Com Hipão, afirmava ser a água (ilimitada), indo de encontro às explicações mitológicas da época que punham-na entre os entes mais antigos (teologia). Ora, um único princípio supera a percepção sensível do particular e aponta para o universal, do qual procede toda a realidade (isto é filosofia). O erro foi não ver a água como também coisa singular (domínio da ciência).

QUESTIONÁRIO:



  • Qual é, segundo Tales de Mileto, o arqué, seu efeito no mundo e suas características?
  • Exatamente onde errou, Tales de Mileto iniciou a filosofia (cosmologia). Qual o seu erro e o seu acerto na caracterização do seu princípio?
  • Enquanto físico, qual a relação aduzida por Tales entre sensação (percepção) e realidade?
  • A água «é» alma ou «tem» alma?
  • Como se harmoniza a tese de Tales com a religião de seu tempo? Pode‑se falar de uma teologia subjacente ao seu pensamento?

  • DOXOGRAFIA:

    1. Aristotóles, Metafísica, I, 3. 983 b 6 (DK 11 A 12). A maior parte dos primeiros que filosofaram considerava que os únicos princípios de todas as coisas são materiais. Aquilo de que todos os entes são feitos, de que no princípio foram gerados e em que, enfim, se dissolvem, embora permaneça a essência e mudem apenas as exterioridades, tal é, para eles, o elemento [στοιχεῖον], tal é o princípio [ἀρχή] dos entes. E por isso pensam que nada se gera nem destroi, como se tal natureza subsistisse sempre…

    Pois deve haver uma natureza qualquer, ou mais do que uma, da qual as outras coisas se originam, salvaguardando a primeira. Quanto ao número e à forma destes princípios, nem todos dizem o mesmo. Tales, o criador de tal filosofia, afirma ser a água. Por isso ele também afirmou que a terra está fundada sobre a água. Sem dúvida, foi levado a esta concepção por ver que o alimento de todas as coisas é úmido e que o próprio quente dele procede e dele vive. Ora, aquilo do que se procede, é o princípio de todas as coisas. E então, por isso, adotou ele esta concepção, também porque a semente de todas as coisas terem a natureza úmida. E a água é o princípio da natureza para as coisas úmidas.

    E há alguns que pensam que também os mais antigos, bem anteriores à nossa geração, e os primeiros a fazer teologia, teriam a respeito da natureza formado a mesma concepção. Pois colocam Oceano e Tétis como pais da geração e, como o juramento dos deuses, a água, chamada pelos poetas de Estige. Pois o mais venerável é o mais antigo; ora, o juramento é o mais venerável.


    2. Simplício, Física, 23, 21 (DK 11 A 13).

    Alguns dos que afirmam um só princípio de movimento — aos quais [Aristóteles] chama “físicos” — consideram que ele é limitado.

    Assim, Tales, filho de Examias milésio, e Hipão, que parece ter sido ateu, afirmavam que a água é o princípio, tendo sido levado a isto pelos fenômenos e sensações.

    Pois o quente vive com o úmido, as coisas mortas ressecam-se, as sementes de todas as coisas são úmidas e todo alimento é suculento. Donde procede cada coisa, de lá naturalmente se alimenta. A água é o princípio da natureza úmida e tudo contém. Por isso supuseram que a água é o princípio de tudo e afirmaram que a terra jaz sobre ela.

    Os que supõem um só elemento afirmam-no ilimitado em extensão, como Tales diz da água.


    3. Aristóteles, Da Alma, 5, 411 a 7 (DK 11 A 22).

    E afirmam alguns que ela [a alma] está misturada com o todo, razão pela qual talvez Tales também pensou que as coisas estão cheias de deuses. Parece também que Tales, pelo que se conta, supôs que a alma é algo que se move, se de fato disse que o ímã tem alma porque move o ferro.

    Foi Tales quem primeiro esclareceu que a alma é uma natureza sempre em movimento ou que se move a si mesma.

    Livro-debate

    Uma forma interessante de dirigir leituras pode ser realizar livros-debate. Apresento a dinâmica que sigo:
    1. O orientador apresenta de forma telegráfica o tema do texto, o autor, os dados básicos, o argumento, os valores e desvalores, os personagens etc., e passa um questionário aos participantes.
    2. Divididos em grupos, os participantes fazem a leitura crítica do texto em foco, tendo em mente as perguntas do questionário.
    3. Cada grupo procura resumir suas conclusões, a modo de respostas ao questionário.
    4. O orientador conduz o debate, procurando que um grupo confronte o outro, até que se chegue a um consenso coletivo.
    5. Consigna-se num quadro as respostas consensuais para cada questão, de preferência numa única palavra ou frase.
    É interessante esse método porque obriga a fundamentar o raciocínio, evita divagações e produz breves sínteses conclusivas acerca do tema, que servem de fichamento para a matéria.
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