Mostrando postagens com marcador reciclagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador reciclagem. Mostrar todas as postagens

12 de abr. de 2013

Cinco pressupostos da rasoura igualitária

A figura ao lado, publicada numa fanpage do Papa Francisco, foi recentemente denunciada ao Facebook como “agressiva” (pois vilipendiaria um símbolo pretensamente bom ao utilizá-lo para algo verdadeiramente bom).

Sem dúvida, todos somos iguais e temos os mesmos direitos, mas tem sido muito comum qualificar de “direito” toda sorte de reivindicação, ainda que antropologicamente falida.

Como um dos reclamantes me escreveu expondo a sua opinião contrária, recheada de críticas à Igreja — que entrou de gaiata na história —, enviei-lhe a seguinte resposta que penso ser útil reciclar aqui.

***

Primeiramente, creio ser preciso reconhecermos que você parte de alguns pressupostos “seus”. Assim, é forçoso que chegue a conclusões divergentes da doutrina da Igreja.


Pois bem, devido à solidez da doutrina católica, esses pressupostos devem ser bastante bem avaliados.

Em primeiro lugar você afirma, por exemplo, que a Bíblia “foi usada como objeto de dominação”, ou que o cristianismo justificou “atitudes horríveis”. É difícil entender a quê você se refere ao dizer isso. Afinal, a Igreja tem 2.000 anos e criou raízes em diversíssimas culturas.

Na verdade, a Igreja civilizou o Ocidente e tornou-se um referencial moral para todo o planeta, além de ser responsável por uma rede mundial caritativa, hospitalar e educativa, sem precedentes na história da humanidade. 

Outro pressuposto seu é que as instituições são obrigadas a se atualizarem de acordo com as mudanças culturais. É uma afirmação ambígua: concordo com você se essas mudanças forem boas e vinculantes. Fico em cima do muro se essas mudanças forem boas e indiferentes. Discordo de você se forem mudanças ruins. 

Seu terceiro pressuposto é que a Igreja tem sido lenta para acolher divorciados e homossexuais. Para afirmá-lo, faz referência a pastorais para separados que permitiriam a Comunhão eucarística.

Ora, não me parece cabível comparar rupturas matrimoniais com orientação sexual. 

Por outro lado, a situação dos divorciados é muito variada: há aqueles que simplesmente romperam seu casamento; outros que estão arrependidos do que fizeram; outros que foram traídos; outros que buscaram outro relacionamento afetivo; outros que contraíram responsabilidades decorrentes de novas uniões; etc. Portanto, reduzir a pastoral dos divorciados à possibilidade de comungar é um simplismo muito grande. 

Na verdade, a doutrina da Igreja é claríssima sobre isso: as pessoas que vivem ativamente em segundas núpcias não podem receber os sacramentos enquanto permanecerem nessa situação, pois suas vidas estão em desacordo com o ideal matrimonial proposto por Cristo. Mas isso não quer dizer que não possam ir à Missa, rezar, receber direção espiritual, etc. 

No fundo, a reivindicação dos sacramentos como se fossem “direitos usurpados aos fiéis” é de matriz marxista e não cristã. Quem assim pensa, não sabe o que são os sacramentos.

Seu quarto pressuposto é que a Igreja ignora o direito das pessoas a terem seus eventuais relacionamentos homossexuais reconhecidos civilmente.

Aqui percebo claramente a redução da noção de matrimônio. Se o matrimônio fosse apenas direito à sexualidade, ou tivesse uma finalidade meramente genital, ou nada tivesse a ver com filhos, ou nem tivesse seu conteúdo determinado pela natureza, então eu concordaria com você.

Por fim, seu quinto e último pressuposto é que os homossexuais seriam vistos pela Igreja como “cidadãos de segunda classe”.

Nada mais longe da verdade! Acima de tudo, a Igreja vê cada um de nós como pessoa humana. O epíteto “homossexual” é desnecessário para defender os direitos civis de qualquer um.

4 de jun. de 2012

Prosa comum

Ideia sem patente

Li certa vez:


Comentei que já tinha ouvido isso de outras pessoas antes, mas que não havia problema, pois ideia não tem patente.


Mesmo sendo prosa comum, usada por diversas pessoas e, portanto, isenta de plágio; e talvez justamente por ser comum, acho que merece ser desmontada. Nesse sentido, transcrevo abaixo uma conversa a esse respeito que tive com a @Bia_designer.

Confiar ou suspeitar?

Eu: Não existe maior alegria que a compartilhada. É melhor ser enganado por 1 em 100 do que desconfiar de 99 em prol de 1.


Bia: O “confiar e desconfiar” já indica dependência. Eu não confio nem desconfio. Eu vivo a minha vida. Simples assim.


Eu: Como falei, prefiro sofrer uma traição do que morrer na solidão.


Bia: Então amigo, isso é escolha sua. Cada um tem suas escolhas. Uns preferem sofrer, outros preferem morrer, eu prefiro viver feliz. :)


Eu: A felicidade é uma sala cuja porta abre para fora. Não posso ser feliz de costas para os outros.


Bia: A realidade é um dado que cada um vê do seu lado. O lance é ver direito, para não ser atropelado.


Eu: Justamente porque podemos errar nas avaliações é que devemos contar com a opinião dos que nos amam.


Bia: O meu certo pode não ser o certo? Quem determina isso? O meu errado pode ser o certo, e aí? É a sociedade que determina minha vida?


Eu: A sociedade não, a realidade. Você achar que é certo não quer dizer que está certo. A gente faz tanta coisa da que depois se arrepende…


Bia: Não acho fácil nada que dependa de segundos ou terceiros. Como não vivo em prol de ser entendida por ninguém, então estou sempre BEM. Responda: quem você tem CERTEZA que o AMA?


Eu: Caraca, você desconfia até da mãe!


Bia: AHAUHUAHAUHAUHUHAHU eu não desconfio!!! Já disse: eu não estou preocupada com as pessoas, mas sim COMIGO e com a minha vida.


Eu: Ah, não!!! Não somos mônadas! Todos dependemos de alguém. O que você comeu hoje, vestiu, escreveu, etc., dependeu de alguém!


Bia: É claro que existe uma interdependência entre humanos, mas lhe digo: no que eu puder me bastar em termos de felicidade e alegria, eu farei.


Eu: Tu te bastas? Também não acho fácil depender me mim mesmo. Entre o EU entender e o EU conseguir vai distância.


Bia: Eu me basto! \o/ É simples: eu faço o que EU acho certo, então o resto é sempre o resto! Depender de qualquer um é roubada amigo!

*****

Pois bem, meu caro leitor: o que você acha disso tudo? Sua ideias têm patente ou são lugar-comum? Você confia ou desconfia das pessoas? Dá para ser feliz sozinho, sem compartilhar a felicidade? 


De minha parte, só digo uma coisa:

30 de mai. de 2012

Tweet budista ou teresiano?

Certa vez, twittei as seguintes palavras de Santa Teresa:

Quem está preso a alguma coisa, é sinal que a estima; se a estima, forçosamente terá pesar de deixá-la, e deste modo já anda tudo imperfeito e perdido. É o caso de dizer: perdido anda quem anda atrás do perdido. E que maior perdição, que mais cegueira e desventura do que ter em muito o que nada é?

Aí me veio o seguinte comentário:


Não entendi o que o Buda tinha a ver com o assunto, já que seu motivo do desapego era o nirvana (isto é, a extinção definitiva do sofrimento humano alcançada por meio da supressão do desejo e da consciência individual), o que nada tem a ver com o realismo e a pobreza cristãos.

Para fazer entender melhor, completei que há dois modos de se desapegar: ou largar tudo, ou usar bem.

Acho um tão difícil quanto o outro. Negócio é descobrir nosso caminho pessoal. Uns saberão usar sem possuir; outros sentirão a necessidade de jogar tudo pela janela para conseguir plena liberdade. Pois convenhamos que a pobreza não é fácil de entrar na cabeça.


Prefiro minha querida Teresa de Ahumada, mulher mística que não fugia da luta, embora o dela não seja o meu caminho.

*****

Qual é o seu caminho? Renunciar a tudo ou usar com desprendimento?

25 de mai. de 2012

Masters of disaster

Li, mas não suportei, o seguinte elenco de vacas sagradas:

Quintana, o poeta. Almodóvar, o cineasta, pois joga na cara da sociedade tudo o q acontece na realidade e ela esconde hipocritamente. Nietzsche, o filósofo. Maquiavel, o pensador. Clarice e Nelson Rodrigues estão no time. Shakespeare é um emocionalmente afetado.

Acabei contestando:


Shakespeare não pode ser água com açúcar, pois tudo nele é escatológico. Em cada ato, em cada gesto, joga-se a vida. Além disso, muito provavelmente Quintana não é o maior poeta brasileiro.

Mas essa história de jogar na “cara da sociedade sua hipocrisia” é uma bela desculpa para a grosseria. Quem disse que a sociedade como um todo é hipócrita? Por que ninguém disse ainda que Almodovar joga na cara das pessoas suas próprias mazelas?

21 de mai. de 2012

Um rábula quixotesco

Dando uma de rábula, gostaria de comentar cinco argumentos (em carmim) que colhi da pena de juristas em discussões recentes de que participei na Internet:

1. O Supremo Tribunal Federal é o intérprete da Constituição Federal, seu porta-voz; em outras palavras, a Constituição Federal é, sem mais, sem menos, o que o Supremo diz que ela é.
— Se a Constituição Federal fosse o que o Supremo diz que ela é, então teria sido mais fácil pedir que os 11 preclaros ministros a tivessem redigido em vez de se convocar uma Assembleia Constituinte.

2. O Poder Judiciário tem entre os seus deveres também o de implementar o Estado onde este está ausente. Bom exemplo disso é o mandado de injunção. Assim, colocado um caso concreto à apreciação do Judiciário, por meio do Supremo Tribunal Federal, pelo alcance nacional da decisão, o que faz a corte suprema é decidir como melhor lhe aprouver. Sendo os ministros do Supremo, pelo menos em tese e por ficção, os donos de todo o conhecimento jurídico nacional, bem assim donos de destacado bom senso e elevada consciência política, dão sua interpretação sobre parte do texto da lei que não possui clareza suficiente. A partir da decisão do Pleno do Tribunal, tal “insuficiência” do texto é suprida, papel maior do Tribunal.

— Se os ministros decidem como melhor lhes aprouver, então estamos no reino da tirania e da arbitrariedade. Os alegados donos de destacado bom senso e elevada consciência política também podem errar rotundamente. Aliás, qualquer juiz pode errar, assim como Pilatos e o Sinédrio erraram com Jesus Cristo.

3. Sob a exegese da ética é que decisões são tomadas, pois a norma também deve ter a sua função social, embora o que tenha sido escrito pelo legislador ipsis literis não tivesse o mesmo ensejo que a sociedade hoje pede e conclama. Por isso, trago a questão para esse aspecto da interpretação de acordo com aquilo que a sociedade espera que o Estado concretize em suas vidas.

— Ora, ora: por um lado, a norma procede da natureza, não das reivindicações. Por outro, não é dever do Estado oficializar ou regulamentar tudo o que se faz.

4. Seria competência do Supremo Tribunal legislar? Penso que não. No entanto, por reivindicação tão digna, sofro a tentação de abandonar o que aprendi na faculdade e sair em protesto pela aprovação! De fato, quem legisla é o Congresso. Nisso, meu lado advocatício diz que você tem razão, mas meu lado cidadão discorda. Quando se decide o destino da nação, tudo é importante!

— É bastante questionável a afirmação de que “a sociedade reclama” esse tipo de coisa. Mais: o destino da nação vai por água abaixo quando o direito é sacrificado em nome de “urgências” desse teor. Sem direito não há justiça e sem justiça não há prosperidade.

5. Se a questão não fosse polêmica, não seria um pedido da sociedade. Resultado de manobra de uma suposta elite intelectual ou não, vejo mais adeptos à ideia que opositores.

— Há na atitude do Supremo Tribunal um mix de soberba com imprudência. Por um lado, os deuses do Olimpo se consideram capazes de expressar a pretensa vontade popular (leia-se o lobby da “elite intelectual” brasileira, que não deixa de ser massa de manobra). Pior, em vez de suspenderem o juízo em questões tão inusitadas e controversas, dão guinadas que contradizem séculos de consenso.

*****

A questão me parece clara: vivemos em tempos de grande insegurança jurídica, em que os debates são farsas midiáticas, os textos legais estão sujeitos a interpretações arbitrárias e a coisa pública está à mercê da opinião da elite de plantão.

O direito hoje sofre duplamente: primeiro, porque é equiparado a mera burocracia jurídica para validar as vontades dos cidadãos; segundo, porque é exigido sem a contrapartida da assunção dos deveres.

7 de mai. de 2012

Meu tweet mais sincero

A leitura do que se posta no Twitter daria uma pela tese de doutorado, como registro espontâneo do pensamento de uma parcela da população que, se não é relevante por seu número, destaca-se por pertencer àquilo que é considerado elite intelectual.

Não pretendo entrar no mérito das “bios” (a breve descrição que o twitteiro faz de si), em que aparecem afirmações tão indefinidas, lacônicas ou desestimulantes quanto “sou uma incógnita — vivo em perpétua mutação — alguém que ama a vida”.

Restrinjo-me tão somente a algumas frases que me surpreendem, sem fazer referência a seus autores, como mote para as presentes considerações. Naturalmente, sofrerão de forte viés pois cinjo-me às pessoas que sigo; por outro lado, não devem ser injustamente generalizadas.

Vira e mexe, deparo-me com frases do tipo: “basta ter fé na vida” — como se a vida resolvesse as coisas por sua conta. Ou então, numa troca de impressões entre pessoas cujo comportamento não é dos mais exemplares: “mantenha seu coração puro”.

Finalmente, há quem demonstre leitura mas faça alarde de vacas sagradas da indústria cultural (Almodóvar, Nietzsche, etc.), atribuindo-lhes o mérito de terem denunciado a hipocrisia da sociedade. Grande generalização, pois essas denúncias são aplicáveis aos hipócritas, não à sociedade como um todo. Além disso, com o que contribuíram esses autores para melhorar o nosso mundo?

Convenhamos que tais afirmações padecem de uma estranha enfermidade intelectual, assaz contagiosa: quem lê ou ouve essas singelas declarações tende a aceitá-las, sem perceber sua falácia. Não digo que haja má intenção em quem as fale, mas sim que falte profundidade, coerência e substância.

Solução? Leitura, leitura, leitura. De livros sim, não do Twitter.

Qual foi o seu tweet mais sincero?

1 de mai. de 2012

Qual é a sua lente?


A mensagem seguinte a enviei em resposta a uma tentativa de apresentar Jesus Cristo como mero modelo de humanidade, a Bíblia como um livro repleto de contradições e a Igreja como uma instituição perversa.

Quem usa as lentes distorcidas da própria interioridade vê o que quer.
*****

Só há contradição onde se desconhece a chave hermenêutica. A chave para a compreensão da Bíblia é, simplesmente, a fé da Igreja, que não é “oculta” como você falou, mas publicamente anunciada. Também não tem nada a ver com uma “chave dentro de nós”. Afinal de contas, quem afirmou que a Bíblia é inspirada foi a Igreja e é a Igreja que explica em que sentido ela é inspirada. Quem aceita a Bíblia mas não aceita a Igreja é um esquizofrênico. Com efeito, se eu tivesse de escolher “os meus livros inspirados”, juntaria a Divina Comédia e alguns diálogos de Platão, nunca o Levítico ou Habacuc. Se fosse assim, eu teria de concordar com você em que a Bíblia alberga em si graves contradições.

Portanto, seria um disparate querer encontrar a chave hermenêutica dentro do próprio texto, com a pouca luz do próprio critério e da própria razão. Você mencionou, porém, que as religiões costumam alegar possuir “a chave interpretativa”. Preciso discordar. Basta conhecer minimamente o Zoroastrismo, o Xintoísmo, o Confucionismo, o Budismo, o Taoísmo, o Xamanismo, etc., para constatar que tais generalizações são infelizes. Como eu tinha apontado no e-mail anterior, esse tipo de denúncia é aplicável ao protestantismo, que absolutizou a Bíblia, mas não ao Catolicismo e muito menos às demais religiões.

Achei graça você dizer que “Jesus acreditava tanto no homem”, pois é justamente o contrário o que atesta a Escritura: “Jesus, no entanto, não lhes dava crédito, porque conhecia a todos e não precisava de ser informado a respeito do ser humano. Ele bem sabia o que havia dentro do homem” (Jo 2,24s). É infantil esperar que a Igreja seja uma comunidade de perfeitos e anjinhos. E essa imagem de Jesus humanista, ou de Jesus amigo dos excluídos, me desgosta demais. Se Jesus é uma mera referência, um modelo, então deixe ele lá no pedestal e me deixe cuidar da minha vidinha.

Pelo contrário, se Jesus é o Logos divino, o Verbo de Deus, a Palavra de Deus, o Filho de Deus feito carne, então o mundo tem uma lógica, a história tem um sentido, Deus me dirigiu sua Palavra, me tornou seu interlocutor, me fez seu filho. A mudança verdadeira não é a mudança estrutural da sociedade, mas a transformação interior de cada um mediante esse contato virtual com Cristo.

Não vou entrar no mérito da necessidade de Cristo e da Igreja para a salvação, pois disso já se falou abundantemente nos últimos 50 anos (veja esse documento, por exemplo). Por motivos de espaço, também me abstenho de comentar a confusão acerca das relações Igreja e Estado, evangelização e inculturação, etc. Para cada clichê e afirmação gratuita seria necessário recorrer a parágrafos de história e erudição que, sinceramente, não vem ao caso.

19 de abr. de 2012

A ouvido fechado, palavra aberta

Transcrevo trechos de uma mensagem que enviei a uma pessoa cheia de dúvidas, mas que não as resolve porque reluta em conservar seu ceticismo como um troféu.

É que ainda acredito ser possível o diálogo com quem começa a conversa dizendo que nunca vai mudar de ideia.


*****

É evidente que, se digo algo, é porque penso que posso contribuir com algo para sua vida, assim como quando você me diz algo é que quer compartilhar comigo suas convicções. Não é questão de um converter o outro. A conversão, que é um desandar o caminho andado na contramão, necessita de um meia-volta-volver que só Deus pode conceder àqueles que se dispõem a procurá-lo.

Tenho a convicção de que as atuais acusações, feitas à religião em geral (e ao Cristianismo em particular), procedem em grande parte de uma reação crítica ao protestantismo. Por exemplo: chamar os islâmicos de fundamentalistas é uma impropriedade, pois o “fundamentalismo” foi uma seita protestante americana do início do século XX.

Na mesma linha, como os pseudointelectuais de hoje desconhecem a existência de filosofia antes de Kant, é bastante comum que confundam a autêntica moral cristã das bem-aventuranças com sua versão (reduzida, protestante e kantiana) dos imperativos categóricos: daí que Nietzsche se insurja, com acerto, contra uma "moral de escravos". Mas o filósofo, apesar do bom faro, errou sua pontaria…

Explico de outro modo. A moral cristã não pretende simplesmente moldar bons cidadãos: isso é muito pouco. Também não é um código de prescrições: o mero sentido do dever não arrasta ninguém.

O Estado — ainda vale a pena falar dele? afinal, estamos entrando na era pós-estatal —, o Estado gosta é da religião gnóstica e alienante, que não leva seus adeptos a atuarem socialmente em conformidade com seu credo. A gnose é religião privada, sem repercussão pública. Mas uma ação social contundente incomoda a ordem constituída. Convenhamos: a reforma deve ser o estado habitual das coisas, pois cada geração precisa assumir a situação herdada, o que não se faz sem contribuir com sua própria visão. Repare que não estou propondo que se renegue a tradição, mas que ela seja acolhida criticamente por cada geração.

Todo este assunto é muito complexo e não pretendo fazer aqui um tratado. Apenas quis frisar uns pontos para compartilhar com você meu pensamento. Já escrevi sobre alguns desses pontos e deixei algumas aulas em http://audio.narajr.net/. Confesso que, do jeito que trato esses temas, pode ser uma verdadeira indigestão. Mas é o que tenho para falar.

Por que sou católico? Acho que a resposta é simples. É a mesma que deu São Pedro no ponto de inflexão da pregação de Cristo. Você deve se lembrar que, depois de Jesus anunciar que instituiria a Eucaristia, “muitos discípulos o abandonaram e não mais andavam com ele” (Jo 6,66). Então ele se dirigiu aos próprios Apóstolos e lhes propôs que eles fossem embora também. Mas Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).

Faço minhas as palavras dele: A quem irei? A Maomé? A Lutero? A Alan Kardec? A Kant? A Marx? A Freud? A Nietzsche? A Marcuse? A Foucault? A Derrida?…

*****

Deixe-me agora lhe fazer umas perguntas:

A quem você procurou? A quem você pretende ir?

13 de abr. de 2012

A noiva do Chucky

A intelligentsia brasileira é prisioneira de doxas. Segundo o Houaiss, doxa é “o sistema ou conjunto de juízos que uma sociedade elabora em um determinado momento histórico supondo tratar-se de uma verdade óbvia ou evidência natural, mas que para a filosofia não passa de crença ingênua, a ser superada para a obtenção do verdadeiro conhecimento”.

Um reflexo do doxa feminista radical ficou patente na recente decisão do STF quanto aos anencefálicos (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54). A ocasião faz o ladrão e nada mais oportuno que aproveitar o ensejo para analisar retrospectivamente a evolução do pensamento feminista.

Origem no século XIX

Mary Wollstonecraft
Embora tenha iniciado com anterioridade (vide, por exemplo
Uma Defesa dos Direitos da Mulher, de Mary Wollstonecraft, publicada em 1790), é possível localizar no século XIX o nascimento do feminismo, cujas origens ideológicas provêm de cinco princípios:

• a razão igualitária iluminista;
• a visão progressista da história;
• o socialismo utópico;
• o liberalismo;
• o cristianismo.

Rapidamente, o movimento assumiu duas derivações:

O feminismo igualitário: visava à imitação do status masculino na sociedade. Ou era liberal, da linha de John Stuart Mill, ou era socialista.

O feminismo reivindicatório: propunha um programa para elevar o nível cultural e profissional das mulheres.

No âmbito católico sublinhou-se o direito ao voto (temido pelos anticlericais e socialistas, pois as mulheres eram conservadoras) e o direito a uma melhor educação, a mais oportunidades profissionais e a um sistema jurídico protetor das famílias e da maternidade.

Contudo, o acesso aos campos de trabalho masculinos às vezes foi defendido desprezando-se o trabalho doméstico e, no bojo das reivindicações, foram incluídas exigências no âmbito da sexualidade. Nessa linha, o liberalismo propunha mormente o divórcio e a contracepção, enquanto o socialismo postulava o fim da família e o amor livre.

Evolução da questão no início do século XX

Simone de Beauvoir
O início do século XX trouxe forçosamente as mulheres ao mercado de trabalho por causa das Guerras. E as ideias neomalthusianas difundiram a opinião de que a exclusão do aspecto procriador da relação sexual seria um “progresso” a ser almejado.

Com tal background, encontraram forte eco a partir dos anos 60 a psicologia freudiana e as teorias sociológicas da Escola de Frankfurt. O ícone desse tempo foi Simone de Beauvoir (1908-1986), companheira de Sartre. Ela defendia o rompimento das algemas biológicas que oprimem as mulheres através da contracepção e do aborto, levando-as à mesma liberdade sexual dos homens. É paradoxal, mas seu igualitarismo considera, portanto, o modelo masculino como normativamente superior.

As cinco correntes atuais

Sulamith Firestone
As principais correntes feministas, agora de índole revolucionária, passam a ser, desde os anos 60:

Kate Millet
• Feminismo radical: centrado na sexualidade, afirma que “o pessoal é político”. Sulamith Firestone fará uma interpretação marxista, segundo a qual as mulheres devem controlar os meios de reprodução. Kate Millet defenderá a destruição do patriarcado e das instituições. Muitas feministas radicais rechaçarão a heterossexualidade e defenderão o lesbianismo.

Nancy Chorodov
• Feminismo psicanalítico: centrado no combate ao complexo de Édipo, que relegaria a mulher a um posto secundário na sociedade. Nancy Chodorov advogará pela participação das mulheres em trabalhos masculinos. Linhas mais radicais também verão o lesbianismo como principal forma de escapar às consequências do complexo de Édipo.

Juliet Mitchell
• Feminismo marxista-socialista: a opressão feminina seria causada simultaneamente pela classe social e pelo sexo. Por isso, Juliet Mitchell defenderá a derrota do homem e de suas estruturas patriarcais e capitalistas.

Betty Friedan
• Feminismo liberal-reformador: trabalha dentro das instituições, na linha do antigo feminismo reivindicatório do século XIX, em prol de pretensos “direitos sexuais”. Betty Friedan fará sucesso com sua crítica desapiedada da dona de casa, que compara a um prisioneiro de um “confortável campo de concentração”.

Gertrud von Le Fort
• Feminismo teológico: oriundo do meio protestante, quis depurar o alegado “machismo” da tradição bíblica e defender o sacerdócio das mulheres, tornando-se bastante forte em algumas comunidades. Chegou até a propor uma “religião da deusa”, pós-cristã. Produziu seus reflexos negativos na teologia católica germânica e anglo-saxã, mas a Igreja soube reagir com firmeza doutrinal; entre outras coisas, figuras como a santa filósofa Edith Stein, a escritora Gertrud von Le Fort e São João Paulo II apontaram caminhos positivos para a mulher. (Abstenho-me de fazer aqui a necessária menção à problemática muçulmana, bem diversa da ocidental.)

Novas facetas

A ideologia de gênero é a nova cara do feminismo radical. Distingue sexo (biológico) de gênero (papel na sociedade). Transfere as funções femininas tradicionais (maternidade, etc.) para o gênero, que não é visto como algo natural, mas manifestação cultural “biologizada”, passível de evolução histórica.

Daí a defesa das “famílias alternativas” e a releitura heterodoxa dos direitos humanos. Segundo a metáfora leninista, todo comportamento seria mero papel cujo atores são intercambiáveis como as engrenagens de uma máquina.

*****

Essa postagem nasceu depois desse tweet:

21 de fev. de 2012

Pensar de um jeito e viver de outro

O que vai abaixo colhi de discussões recentes de que participei no Facebook. O tema é velho, parece-me uma múmia do século XIX passeando em pleno século XXI, mas nos últimos dias apareceu demais na minha timeline. Só participei de uma das discussões por insistência de um amigo. Considero contraproducente tocar nesses temas quando quem debate pensa ser teólogo e não é nem meio filósofo.

Reciclo aqui essas considerações — a seu modo soltas e com cara de aforismos — como um complemento aos três motivos pelos quais as pessoas têm crenças sem professar religião.

***

A fé precisa de uma instituição?

1. Em defesa de uma “fé sem religião”, muita gente vai afirmar que qualquer instituição é perversa pelo simples fato de ser instituição. Algo como: os pais são necessariamente opressores dos filhos porque são os cabeças da instituição familiar.

2. Na mesma linha, muitas pessoas defendem bons valores, mas ao mesmo tempo fazem de tudo para negar a origem eclesial desses mesmos valores.

3. Sem dúvida, o que precisamos é trabalhar em conjunto, crentes e descrentes, em prol de valores comuns. E, contudo, há gente sem fé que se desvela pelos outros, assim como gente com fé que se omite.

4. Com relação às tais omissões, porém, não faz sentido apelar a pretensos erros do passado como defesa ou a título de humildade. Que erros foram esses? Com que critério se poderia afirmar que tal ou qual episódio do que se chama história da Igreja foi um “crime histórico”?

5. Em outro plano, porém, devemos exigir respeito e melhorar o conhecimento que se tem da Igreja. A grosseria é proporcional à ignorância.

6. É urgente ajudar as pessoas a perceberem que uma fé sem suporte institucional não é fé, mas fabricação ideológica a serviço dos próprios interesses egoístas. A fé a herdamos, recebemos, transmitimos. Quem cria a própria fé à margem da Igreja é como um psicótico que transforma as próprias alucinações em fragmentos de realidade.

Por que fé sem suporte institucional não é fé?

7. Uma fé construída pelo próprio interessado, ao seu bel-prazer, é um evangelho falso, pois o assim "crente" padece do orgulho intelectual de decidir o que é certo e o que é errado.

8. Essa é mais uma manifestação do individualismo ocidental e do rechaço da tradição. Tal atitude inflacionou-se especialmente com a Reforma protestante, que reduziu a fé a mera confiança (fé fiducial), de modo que tanto faz no que você crê, desde que você confie cegamente.

9. É evidente que essa falsificação da fé só produziu efeitos nefastos: cada um interpreta a revelação a seu gosto, cada um renega a tradição segundo suas conveniências. Para piorar, os descrentes ficam com a impressão, aliás justa dentro desse contexto, de que a fé é um produto da sensibilidade humana e que, como tal, não seria racional nem objeto de especulação ou aprofundamento científico.

Não seria possível acreditar por si mesmo numa força maior?

10. Ao longo dos seus 2000 anos, a Igreja sempre transmitiu um conteúdo de fé (verdades dogmáticas e princípios morais), ao qual se dá assentimento por se confiar em quem o revela (Deus) e em quem o transmite (a Igreja). Isso não tem nada a ver com sentimentos ou impressões pessoais. A fé, portanto, se recebe da comunidade eclesial, não é um ato meramente pessoal.

11. Aqueles, porém, que pretender crer à margem da Igreja são extremamente contraditórios e pouco razoáveis, pois afirmam dar crédito a meros sentimentos e impressões acerca de assuntos gravíssimos para a vida e para a morte. Na verdade, não creem em nada, mas repetem um discurso vazio que finge isenção mas só demonstra superficialidade frívola.

12. É evidente para mim ser impossível separar a fé da religião, pois a fé sem o suporte da mediação externa não pode ser fé. A fé construída pelo próprio interessado é autorreferencial. Em outras palavras: como se pode prestar fé a si mesmo?

Isso não é mera questão de definições?

13. Sem dúvida, em tudo isso há divergência nas definições. Contudo, vários conceitos cristãos multisseculares têm sido deturpados e depois utilizados contra a Igreja. Assim, ela recebe críticas por coisas que não propõe. A fé é um deles.

14. Se eu não fosse católico, dificilmente seria alguma coisa, pois não conseguiria pautar minha vida por uma força cega que nem saberia se existe. Compreendo que o homem moderno goste de se dizer crente em algo transcendente, mas convenhamos que isso em nada o faz viver diferentemente dos ateus.

31 de jan. de 2012

Réplica à primeira carta ecumênica

Missiva que recebi em resposta à minha carta de 22 de março de 2010

São Paulo, 27 de março de 2010 

João,

Primeiro, desculpe a enorme demora em responder. Planejei lhe escrever de volta no mesmo dia em que li, mas estive meio enlouquecida de tanta coisa pra fazer, e só parei um pouco agora que uma tosse (gripe? sei lá o que é essa coisa chata que tenho) horrível me pegou. Espero que me perdoe!

Pois bem: eu realmente fiz uma confusão de palavras. Queria mesmo falar de doutrinas, e não de preceitos, como você percebeu. Mas uma das razões de eu ter gostado de ler seus comentários e correções é porque os achei todos muito equilibrados — fiquei pensando esses dias e, cá entre nós, descobri que eu não tenho muito contato com católicos assim como você. De um lado, tenho amigos carismáticos ou só mais “moderninhos”, que não se diferenciam lá tanto assim dos evangélicos. De outro, amigos da FSSPX, a quem admiro em muitas coisas, mas ainda assim não consigo achar sadio o radicalismo briguento em que acabam caindo. Já conversei com alguns sobre essas coisas, mas sempre que via que não ia dar muito certo, mudava de assunto. Eu acho até curioso e engraçado que exista gente nesse mundo que ache que eu estou seguindo uma doutrina satânica, mas chega uma hora que cansa.

Bom, peço que releve o estilo ruinzinho e confuso com o qual estou escrevendo hoje (culpemos a gripe!) e vou comentar seus comentários. Concordando ou não concordando, eu não tenho muita coisa de importante pra dizer, tão bem você definiu as coisas.

Sobre bíblia/tradição: é verdade, todos optam por algum tipo de tradição. Entendi o princípio de palavra transmitida e faz bastante sentido. Eu só não sei até onde concordo com o tipo de tradição pelo qual a igreja católica “optou”. Creio também que a Palavra só se manifesta plenamente em Jesus Cristo, o verbo que se fez carne, e concordo com você quando diz que o cristianismo não é uma religião do livro. A coisa não se resume, de forma alguma, a uma supervalorização da letra, mas à confiança de que a bíblia é o parâmetro maior, pois é por meio dela que temos conhecimento da vontade de Deus — pois foi inspirada, logo, não contém ensinamento falível (como nós humanos). Isso tudo me levou a pensar nos crentes de Bereia, também. Anyway, eu acho que agora consegui entender bem o princípio por trás da doutrina.

O ponto sobre a Comunhão dos Santos é curioso porque eu estava lendo exatamente sobre isso, no volume III da História da Vida Privada. Já devolvi o livro à biblioteca (queria tê-lo aqui agora pra citar decentemente), mas o autor, falando dos processos de individualização que estavam se dando na Renascença, citou a visão protestante, que realmente é mais individual do que a católica. Acho que você está certo mesmo, dizendo que uma grande questão da Reforma está aí. Não acredito que a nossa influência, que a influência do amor fraternal mesmo (porque pelas palavras do Papa me pareceu que esta, a fraternidade, é a base da doutrina), se dê dessa forma. Mas lendo o ponto 48 da Encíclica, consegui entender melhor também essa questão — não é idolatria, ao menos para um católico que sabe as doutrinas e sabe o que está fazendo. Não é como o senso comum diz, e saber disso faz inclusive com que o meu respeito cresça.

A Transubstanciação é um caso especial: logo que li seu comentário fiquei com vontade de dizer imediatamente “eeeei, mas eu também não acredito que é só um símbolo!”. Hahahaha! Sendo um sacramento, eu acredito sim que a Eucaristia é uma forma especial, sobrenatural, que Deus usa para manifestar Sua graça à Igreja. O pastor da minha igreja lá em Suzano sempre faz questão de dizer que não é só um símbolo, não é só pra gente lembrar, e sim que há uma presença excepcional, uma manifestação especial da graça Divina no meio da Igreja naquele momento. A diferença é que pra nós é um ato físico gerando, SIM, uma realidade espiritual, mas não sendo necessariamente modificado (fisicamente) por ela. Ai, que confusa e redundante, mas dá pra entender, né?

Autoridade da Igreja: de novo, pensei nos cristãos de Bereia. Há uma diferença de hierarquia de conceitos, acho, entre os nossos pensamentos, e esse é outro ponto que toca em muito outros também. A Igreja só é coluna enquanto estiver firmada na vontade de Deus, que é expressa por meio da Palavra. Não acredito na Igreja como instituição de importância independente ou anterior à Bíblia, pois é composta de seres humanos, todos falhos e sujeitos a milhares de erros como você e eu. É claro que creio que o Senhor cuida de nós, e que enquanto nele estivermos não será a nossa vontade mas a dele — mas o único jeito de estarmos assim é conhecendo a bíblia, conhecendo e praticando o que lá está expresso. Entende o que eu quero dizer?

Também não acredito na legitimidade de uma interpretação exclusivamente pessoal, sem comunhão com a fé comum. Já vi isso destruir muita coisa — já estive em igrejas onde uma “iluminação pessoal” de um pastor causou divisão e contenda. Tenho horror a isso, sinceramente. Como Reformada, não creio que o intuito de dar a todo cristão a possibilidade de leitura e entendimento individuais da Bíblia seja que cada um isoladamente tenha a sua, única, exclusiva interpretação. É claro que devemos trabalhar em conjunto, com fé comum, senão a igreja perde a razão de ser. Acho justo que todos possamos ler, compreender e contribuir para que a igreja — que somos nós mesmos — se mantenha de acordo com a Bíblia, que é a palavra de Deus expressa. A diferença entre nossos pensamentos é hierárquica, eu acho — vocês colocam a Bíblia ao lado da instituição e tradição, enquanto nós a enfatizamos como revelação principal da vontade Divina.

Sobre a declaração conjunta… Uau! Adorei saber disso. Eu não sei como os Calvinistas ficam nessa história, porque confesso que não sei dizer exatamente até onde nosso pensamento é igual ao Luterano. Preciso estudar mais, bem mais. Mas confesso que não me importo tanto em ficar achando diferença, porque achei incrível a iniciativa de juntar as coisas em comum. É isso que deveríamos fazer, bem mais vezes, especialmente “não oficialmente” — como indivíduos, no dia-a-dia.

Ufs, acho que escrevi demais também. Guardei o link com material dos Padres da Igreja Primitiva (obrigada!) e vou ler, com certeza, pois gosto mesmo desse tipo de coisa. Acho que foi C.S. Lewis quem disse que algumas pessoas cresciam lendo devocionais e refletindo, mas que pra ele mesmo não tinha coisa melhor do que um cachimbo aceso e um livro de teologia. Eu sou, com certeza, desse segundo tipo: não sei quase nada ainda, mas o estudo teológico (doutrinário, histórico, etc.) por mais teórico e intrincado que pareça, é o que me fascina — e não só intelectualmente, porque não há coisa mais incrível e libertadora do que contemplar, meio abismado, que tudo isso que você está lendo trata só e simplesmente da verdade — da verdade mais fundamental que há, para todo o universo —, e que há ainda muito mais coisas fantásticas que a sua mente humana simplesmente não apreende, mas o Criador de todas elas é (pasmem!) seu Pai e Senhor. Ufs! Talvez eu esteja sendo meio poética/filosófica demais, mas é bem por aí, pra mim.

E bolas, você resumiu tudo perfeitamente: rezar muito, ter muitos amigos e estudar muito. That's it. There we go! Obrigada de novo, gostei muito de conversar com você.

21 de jan. de 2012

Primeira carta ecumênica

Faz dois anos, troquei correspondência acerca de temas cristãos. Vêm bem a calhar nesta semana de oração pela unidade dos cristãos. Com a devida autorização da outra parte, irei pouco a pouco deixando aqui as missivas, com pequenas adaptações.

Rio de Janeiro, 22 de março de 2010

Estimada,

Desculpe meu abuso em lhe escrever. Não costumo conversar anonimamente, mas penso que nem tudo se deve conversar em público. Por isso, gostaria de falar — no silêncio desta carta — acerca dos “preceitos fundamentais para os católicos”, dos quais você disse que discorda.

Uma coisa são os preceitos, ou seja, as leis pelas quais a Igreja se rege, e outra coisa são as doutrinas, isto é, seus ensinamentos tradicionais. Fiquei me perguntando se você discordava das leis de jejum e abstinência, ou da obrigação de ir à Missa aos domingos, ou da regulação canônica do Matrimônio, por exemplo. Suspeitei que você não discordasse propriamente dos preceitos, mas sim dos ensinamentos.

Por outro lado, fiquei contente com seu desejo de fraternidade entre os cristãos separados e com sua simpatia pelo Papa. Mas já que você me pediu para corrigi-la no que fosse necessário, tomo agora a liberdade de lhe dar uns toques e fazer algumas sugestões.

Bíblia e Tradição

O Cristianismo não é uma religião do livro. É a religião da Palavra. Mas não de uma Palavra qualquer. É uma Palavra que se fez homem. É a religião de uma Pessoa, Jesus Cristo.

Mas essa Palavra Eterna manifesta-se também de outros muitos modos: na Bíblia é Palavra escrita, no Magistério da Igreja é Palavra ensinada, na Tradição é Palavra transmitida.

A Palavra está acima da Bíblia, pois a Bíblia não a esgota. Também está acima da Tradição e do Magistério. A Palavra só se manifesta plenamente em Jesus Cristo.

A Bíblia é uma forma da Tradição, pois a Bíblia também nos foi transmitida.

Mesmo os protestantes precisam aceitar alguma tradição: afinal, a lista de livros inspirados a recebemos por tradição. Lutero substituiu a Tradição da Igreja pela tradição judaica tardia com relação ao Antigo Testamento.

Os Santos

A única mediação de Cristo é tão poderosa que nos torna capazes de ser mediadores nele. É como uma mãe, boa cozinheira, que pede à filha pequena ajuda para fazer o bolo. A garota contribui, mas quem faz o bolo é a mãe. Nós somos os beneficiários, mas chamados a ser colaboradores.

Como você sabe, São Paulo fala do Corpo Místico de Cristo. Isso é o que chamamos de “Comunhão dos Santos”. Penso que neste dogma se encerra quase toda a questão da Reforma. Preferimos entender essa Comunhão como uma verdadeira compenetração entre os cristãos, que não se rompe nem com a morte. Sugiro ler os pontos finais de http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20071130_spe-salvi_po.html, especialmente o ponto 48.

Transubstanciação

Muitos abandonaram o Senhor quando ele prometeu a Eucaristia (Jo 6,25-71). Mas ele não fez questão de avisar às pessoas: “Gente, vocês não me entenderam, é só um símbolo!”

Sugiro dar uma lida nas cartas de Santo Inácio de Antioquia (†107) aos Filadelfos (http://cocp.50webs.com/fixas/epistfilad.htm) e aos Esmirniotas (http://cocp.50webs.com/fixas/epistesmirn.htm).

Autoridade da Igreja

Até Lutero, as pessoas pensavam assim: “O que diz a Igreja?”, e a Bíblia servia para corroborar.

Depois dele, as pessoas pensam assim: “A Igreja diz tal coisa? Então vamos ver na Bíblia se a Igreja não está errada”.

Esse princípio metodológico é destrutivo para a comunhão, põe em dúvida a fé e descredita a Igreja, “que é a coluna e o fundamento da verdade” (1Tm 3,15).

É estranho que o Povo de Deus tenha sido o autor inspirado da Bíblia, mas a sua interpretação possa recair sob indivíduos isolados: “nenhuma profecia da Escritura é objeto de explicação pessoal” (2Pd 1,20). Sem dúvida que há iluminações pessoais, mas só ganham legitimidade na comunhão com a fé comum.

Fé e obras

Sobre isso basta dizer que luteranos, metodistas e católicos já assinaram uma declaração conjunta: http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/documents/rc_pc_chrstuni_doc_31101999_cath-luth-joint-declaration_po.html, http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/documents/rc_pc_chrstuni_doc_31101999_cath-luth-official-statement_po.html e http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/documents/rc_pc_chrstuni_doc_31101999_cath-luth-annex_po.html.

***

Por fim: você não é herege não! Gosto da definição de heresia de Roberto Grosseteste (1173-1253), bispo de Londres: “Heresia é uma opinião escolhida pela percepção humana, criada pela razão humana, fundamentada nas Escrituras, contrária aos ensinamentos da Igreja, publicamente confessada e obstinadamente defendida”.

De qualquer modo, acho que você gosta disso. Já deve até ter lido os textos dos Padres da Igreja primitiva. Há abundante material em
http://cocp.50webs.com/.

O que importa sempre é rezar muito, ser e ter muitos amigos e estudar muito!

Um beijo e tudo de bom!

19 de nov. de 2011

Nas tranças do Levítico

Tweet apologético

Nunca pensara que escreveria sobre o Levítico neste blogue. Mas senti-me forçado depois de uma recente discussão no Twitter, causada por falsas afirmações de uma revista acerca do homossexualismo na Bíblia. Concretamente, fiquei surpreso com a animosidade de que é alvo esse livro bíblico.

Confesso que a primeira leitura que fiz do Levítico, bota ano nisso, me deixou confuso, decepcionado e decidido a não retornar tão cedo às suas páginas, as quais me pareceram um aglomerado de leis obsoletas e sem conexão entre si. Na verdade, hoje posso afirmar — com a percepção que dá o tempo e com o prazer de releituras posteriores —, que a minha primeira impressão era muito equivocada e que só me ocorreu pensar assim naquela altura porque então eu era incapaz de realizar uma leitura sincrônica.

O que é isto? Explicando de forma imprópria, bem simples e aproximada, sincronia seria o princípio de que a Escritura como um todo possui um sentido comum que unifica cada uma de suas partes, posto que tem a Deus por autor e o seu Povo por destinatário.

Na prática, porém, muita gente se esquece disso. Com efeito, muitos se questionam: o que torna unitária essa coleção tão heterogênea? Quase uma centena de livros e cartas escritos em três idiomas diferentes, ao longo de mais de mil anos, pode mesmo ser considerada uma mensagem unívoca?

A resposta é simples: a revelação está materialmente contida na Bíblia e formalmente na Tradição Apostólica. Este postulado é imprescindível para evitar a destruição da própria Bíblia. Do contrário, o que me impediria de acrescentar às Escrituras os diálogos de Platão… ou dela retirar o Levítico?

Em conclusão: só a Tradição dá a chave hermenêutica necessária para se compreender a totalidade da Escritura. Exemplo disso é que Lutero, ao renegar a Tradição, retirou do cânon os livros que quis.

A destruição da Bíblia

Tirado o pilar de uma leitura sincrônica, a destruição da Bíblia ocorreria em vários níveis e sob diversas abordagens. Apontemos alguns:

1. Desprezo pelo Antigo Testamento. É coisa antiga, do século II. Mas se manifestou ao longo da história de muitas formas. Atualmente, talvez seja motivado pelo rechaço cientificista à leitura protestante fundamentalista da Bíblia.

2. Redução dos textos a meras alegorias. Típico do século XIX, quando as conquistas científicas pareciam desautorizar quaisquer descrições poéticas do cosmo, ou faziam duvidar dos relatos historiográficos alheios aos cânones acadêmicos.

3. Condenação das instituições antigas com base em convicções modernas. Tem ares de sabedoria mas oculta grande miopia. Equivale a não conseguir realizar a “osmose”, isto é, a fusão de horizontes com o passado. É a incapacidade de criar interfaces, de conjugar a “estraneidade” (o homem de hoje versus o homem de ontem) com a “copertença” (solidariedade intergeneracional).

O Levítico hoje

Não vale a pena fazer aqui um tratado para defender o Levítico, que naquela discussão levou a culpa de coisas que o livro nem afirma. Mas gostaria de explicitar alguns tópicos, demonstrando como sua doutrina é perene:

1. Lei de talião (Ex 21,23ss; Lv 24,19s; Dt 19,21): Grande princípio civilizatório da equidade nos julgamentos. É basilar para qualquer sistema jurídico. Modera a vingança. A caridade cristã é sua radicalização: “A ninguém pagueis o mal com o mal. Empenhai-vos em fazer o bem diante de todos. (…) Vence o mal com o bem” (Rm 12,17.21b).

2. Pena capital para a sodomia (Lv 20,13): Legislação vigente em todo o planeta até bem pouco tempo atrás (nunca foi exclusividade do Levítico). De qualquer modo, a Bíblia não atesta nenhum caso de aplicação dessa sanção em Israel. Recorde-se que muitas leis têm caráter meramente pedagógico.

3. Amor ao próximo (Lv 19,18): princípio de humanização, que estimulava o respeito aos estrangeiros. Embora a tradição judaica da época de Cristo admitisse uma interpretação restrita e nacionalista, o mandamento foi radicalizado no Novo Testamento: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34).

4. Costumes escravistas: a lei mosaica continha dispositivos humanitários que regulavam o regime da vida servil, comum na Antiguidade (e até recentemente). São Paulo estimularia uma atitude ainda mais generosa entre os cristãos (Fm 15-21).

***

Quanto às “tranças” do título desta postagem, só resta dizer que o Levítico proíbe confeccionar tecidos com dois tipos de fio (cf. Lv 19,19). Vai na mesma linha das dietas especiais dos judeus e das indumentárias que lhes são impostas. O que os separa ou segrega (etimologicamente, “secciona, santifica”) dos outros povos é essa série de costumes que os tornam diferentes.

A santidade cristã, porém, é interior; não está no comer, no beber ou em outras observâncias externas. Afinal, de que vale ter o corpo bem vestido, se o tecido da alma está trançado de ideias, sentimentos e vontades conflitantes?

13 de jul. de 2011

Respostas em série para perguntas pré-fabricadas


Quæstiones disputatæ

Concluo a série de perguntas anônimas do extinto Formspring acerca da Sagrada Escritura, abordando as condições do diálogo com os anticatólicos.

Vamos às perguntas

Sinto muito eventual rispidez, a intenção é diálogo cordial sobre a Bíblia, na medida de 140 caracteres p pergunta, e ilimitados p resposta.
Para mim, cordialidade é mostrar a cara e não vir querer passar uma de que católico é otário.

não acho católico otário. acho, em geral, a proposta católica papista arrogante. Pe Ávila conheci pessoalmente e sua figura e legado são excelentes. Vc acha que a pressa na canonização de João Paulo II pode parecer marketing para recuperar público ?
Ótimo. Evoluí de otário para arrogante.
Ponhamos os pingos nos ii.
1) Arrogância é inventar a própria fé em vez de recebê-la com humildade.
2) Arrogância também é lançar perguntas ofensivas à fé alheia e depois dar uma de coitado.
3) “Basta ler, pinoia” é uma forma descolada de convidar meus interpeladores anônimos a lerem o texto bíblico globalmente antes de levantarem perguntas “espertinhas”.

Já disse q "sinto muito eventual rispidez", e já expus q 140 caracteres muitas vezes trunca o enunciado da pergunta, até aí foram dificuldades formais minhas, mas se vc puder especificar qual pergunta foi ofensiva me ajudaria a melhorar no diálogo.
Gosto de diálogos construtivos e perguntas que tentem descobrir pontos de contato, zonas de concordância. Isso pressupõe respeito recíproco e conhecimento mútuo, tanto do que eu penso, quanto do que você pensa. Nesse sentido, não me parecem justas perguntas anônimas “pré-fabricadas”, inspiradas em preconceitos e clichês anticatólicos, que pretendem descobrir equívocos onde não existem. Isso seria um diálogo corrosivo. Respostas a esse tipo de indagação são facilmente encontradas em manuais de apologética elementar.

Perguntas de "espertinho": Se Deus pode tudo, pode mentir? Se Deus pode tudo, pode multiplicar-se, ou seja, criar vários outros seres que sejam Deus? Deus criou o Diabo pra passarem a eternidade usando a Humanidade como objeto de disputa e/ou distração?
Se pudesse mentir, seria uma radicalização de Alá. Se pudesse multiplicar-se, seria semelhante ao mulherengo Zeus. Se caiu no dualismo, seria como Ahura Mazda do zoroastrismo. Nada disso é o Deus cristão, que é Logos e é Amor. Não confunda onipotência com onivolência.

a sua frase, sobre Deus, "Se pudesse mentir, seria uma radicalização de Alá" é bastante ofensiva a religião de terceiros, rapaz. Não daria pra vc voltar à sua proposta de "respeito recíproco"?
Absolutamente não.
Segundo أبو محمد علي بن احمد بن سعيد بن حزم‎ (Abū Muḥammad ʿAlī ibn Aḥmad ibn Saʿīd ibn Ḥazm), Alá não estaria vinculado à sua própria palavra e nada o obrigaria a revelar-nos a verdade. Se fosse a sua vontade, o homem deveria inclusive praticar a idolatria.
Embora pudéssemos fazer uma interpretação benéfica do Corão, de fato várias de suas passagens propiciam esse tipo de pensamento:
— “Alá vos julgará. Ele perdoará a quem desejar e castigará a quem lhe aprouver, porque é Onipotente” (Sura 2:284).
— “Alá também conspirou, porque é o melhor dos conspiradores” (Sura 3:54).
— “Alá desvia quem quer, e encaminha pela senda reta quem lhe apraz” (Sura 6:39).
De qualquer modo, há uma boa intenção em exaltar exageradamente a transcendência de Deus; o erro consiste em negar a “linguagem da analogia”, pela qual podemos falar de Deus, ainda que suas diferenças sejam infinitamente maiores que as nossas semelhanças.
Eis mais uma consequência nefasta da ausência de um magistério, cujo vácuo leva qualquer um a chegar a qualquer absurda conclusão, mesmo que bem intencionada.
Tal radicalismo surgiu mesmo entre os cristãos: apesar de a Igreja afirmar uma verdadeira analogia entre a razão criada e o Λόγος divino, houve na Baixa Idade Média quem seguisse o voluntarismo, afirmando que só conhecemos a liberdade arbitrária de Deus. Justamente aqui o protestantismo veio beber os fundamentos da sua “fé fiducial”, que põe entre parênteses os conteúdos.

"perguntas 'pré-fabricadas', inspiradas em preconceitos e clichês anticatólicos, que pretendem descobrir equívocos onde não existem" foi tergiversação sua, como outras. Vc toma por pessoal questionamentos à religião q vc postula "aceitar humildemente".
Ora, “tergiversar” não é meu direito? Este Formspring é meu, e o anônimo aqui é você. Penso que não tenho feito rodeios, porém. Pode ser que eu tenha sido sucinto até agora: explico-me mais pormenorizadamente então.
1) É óbvio que temos pontos de vista irredutíveis. Portanto, se quiser me perguntar algo de modo razoável, conviria dar por supostos alguns princípios. Não ficarei reinventando a roda indefinidamente. Da Torre de Babel à Besta do Apocalipse já há muita coisa escrita por aí.
2) Criar uma dicotomia entre crença e religião é um direito seu, mas degenera em esquizofrenia. Sugiro ler essa postagem. Parece-me estranho e arriscado fabricar o próprio credo a despeito da fé recebida pela tradição autorizada. Nesse sentido é que eu falava da necessidade de “humildade”. Por trás do rechaço da Tradição não está o convencimento intelectual, mas uma atitude apriorística que inviabiliza o diálogo.
3) Grande parte das perguntas que me foram feitas centra-se numa análise externa do texto bíblico, patinando em passagens que sempre serão contraditórias sem o suporte da Tradição. Com efeito, a solução literalista — salva-vidas desesperado do Sola Scriptura, inventado pelos fundamentalistas protestantes do século XIX — é das piores, pois não respeita o próprio texto, coisa que você mesmo percebeu. Logo, concordamos neste ponto!

6 de jul. de 2011

Jonas causou indigestão à baleia

Continuando a série de perguntas anônimas do extinto Formspring acerca da Sagrada Escritura, exponho agora a questão das versões e sentidos do texto.

Observação preliminar

As alegadas diferenças textuais na Bíblia a que o vulgo costuma se referir não são significativas. Por exemplo, que diferença faz se o cachorro de Tobias ia atrás ou adiante dele quando regressava à casa de seu pai?

Por outro lado, o fato de coexistirem versões de um mesmo texto indica algo muito interessante: a Bíblia não é uma espécie de Corão, não é um monolito, não caiu do céu, nem é um fóssil literário.

Uma versão autorizada é tão canônica quanto outra versão autorizada, porque assim foram ambas recebidas pela Igreja. Aqui está o ponto fulcral: a Bíblia é uma modalidade da Tradição viva. Quem tenta encontrar respostas diretamente na Bíblia, fora da Tradição viva, perde-se irremediavelmente.

Reconheço que nem todas as perguntas abaixo estão bem respondidas, especialmente a do sentido literal, pois ficou em “estado bruto”, sem explicação.

Vamos às perguntas

Há tradução possível para Jonas 1, 17 que seja menos fantástica do que uma hospedagem por 3 dias na dentro de um peixe? ou vc acredita nesse conto de fadas?
Não encontrei essa citação. Imagino que você se refira à passagem de 2,1:
וַיְמַ֤ן יְהוָה֙ דָּ֣ג גָּד֔וֹל לִבְלֹ֖עַ אֶת־יוֹנָ֑ה וַיְהִ֤י יוֹנָה֙ בִּמְעֵ֣י הַדָּ֔ג שְׁלֹשָׁ֥ה יָמִ֖ים וּשְׁלֹשָׁ֥ה לֵילֽוֹת׃
Pois bem, você deu azar, pois não há variantes textuais a esse Texto Massorético que permitam traduzi-lo diferentemente.
Quanto a crer no “conto de fadas”, ainda que digam que um marinheiro britânico tenha passado por uma experiência semelhante na Primeira Guerra, sinceramente não me coloco o problema. Há coisas mais importantes para crer.

Mais claramente: há inúmeras versões de bíblias com diferenças significativas. Como apegar-se à literalidade? Ou acredita que Jonas ficado mesmo 3 dias no bucho do bicho?
Literalidade? Você precisa descobrir que há muito mais coisa entre o céu e a terra do que sua vã filosofia.

Quando você for ler qualquer livro, primeiramente entenda o seu sentido literal. Só depois você será capaz de captar seus outros sentidos.
Literalmente, Jonas ficou três dias no ventre da baleia. Pois bem, o que você acha: esse sentido literal é histórico, etiológico ou analógico?
Agora, banque o esperto e tente captar o sentido espiritual. O que você acha: é típico, moral ou anagógico?
Finalmente: qual é o sentido pleno da passagem?

Literal [Houaiss]: "conforme ao próprio e genuíno significado das palavras, por oposição ao seu sentido figurado". O que seria um "sentido literal analógico" que vc propõe?
Não sou eu que proponho, é a Tradição. Diz a Summa Theologiæ, Iª, q. 1, a. 10, ad 2:

“A história, a etiologia, a analogia pertencem a um mesmo sentido literal. Pois, como expôs o próprio Agostinho [a Escritura chamada Antigo Testamento transmite-se quadriformemente: pela história, pela etiologia, pela analogia e pela alegoria (De utilitate credendi, 3)], a história propõe algo pura e simplesmente; a etiologia assinala a causa de uma expressão, como quando o Senhor assinalou a causa por que Moisés deu licença de repudiar as mulheres, isto é, pela dureza do coração dos hebreus; a analogia mostra que a verdade de um passo da Escritura não repugna à de outro. Ora, dentre as quatro divisões propostas, só a alegoria abrange os três sentidos espirituais. E, assim, Hugo de São Vitor compreende, no sentido alegórico, também o anagógico, admitindo somente três sentidos: o histórico, o alegórico e o tropológico”. 

a pergunta "Por onde vc acha q Jesus andou dos 13 aos 30?" vc não respondeu por considerar ofensiva, ou mesmo cliché anticatólico? Mas é crucial não?

Não respondi por preguiça e falta de tempo. Além disso, estava misturada com outra pergunta que não tinha nada a ver. Não acho ofensiva, mas sim a considero um clichê (pseudobudista?).
Em minha opinião, não é uma questão crucial, se você quer descobrir aí influências ou experiências não-judaicas na vida de Jesus. Com efeito, depreende-se da leitura dos Evangelhos que Jesus permaneceu em Nazaré, trabalhando como carpinteiro, tanto que era chamado de “filho do artesão” (Mt 13,55), ou ele mesmo “artesão” (Mc 6,3) pelos seus conterrâneos. Não era um caixeiro viajante nem um místico peripatético…
Por outro lado, considero crucial o que Cristo realizou nesse tempo em Nazaré. Conferiu ao trabalho profissional e à vida familiar um valor redentor. Deu-nos exemplo de laboriosidade e fez das realidades quotidianas ocasião de encontro com Deus.

2 de jul. de 2011

Síndrome de Peter Pan

O psicólogo norte-americano Dan Kiley criou, em 1983, a expressão “Síndrome do Peter Pan” para se referir ao atraso das decisões vitais como forma de evitar as responsabilidades dos adultos. Por sua vez, num artigo de The New York Times, de 10/9/07, David Brooks qualifica a entrada na maturidade como uma odisseia. Como é sabido, Odisseia é a longa viagem, descrita por Homero, que Odisseu — Ulisses — realiza de volta para sua esposa, seu filho e sua casa, após a Guerra de Troia, passando por lutas, monstros, perigos e aventuras amorosas.

O ambiente social influi, não é mera questão de imaturidade. É preciso buscar as razões. Que mudanças sociais estão por detrás dessa dilação? Do ponto de vista externo, são patentes duas conjunturas: por um lado, a democratização do ensino superior, com a consequente prolongação do tempo de estudo; e, por outro, a tendência a permanecer no ninho paterno por conta do atraso do casamento.

A indagação que parece mais candente dentre ambas é: por que atrasar o casamento?

De fato, casar-se significa entrar na vida adulta, coisa de que algumas pessoas fogem, conscientemente. Entretanto, a maioria atrasa o casamento apenas porque transformou-se, na opinião pública, a concepção que se tem do matrimônio.

Tornou-se corrente considerar o casamento não mais como a união de duas pessoas para formar um nós.
1+1=1 (família) 

Pelo contrário, instaurou-se uma nova lógica matrimonial, pela qual os cônjuges se casam sem deixarem de serem independentes.
1+1=3 (tu, eu e nós)

Há várias “justificativas” para essa mudança de paradigma: dificuldade de inserção profissional, aumento da expectativa de vida, revolução sexual. Mas isso justifica tantos concubinatos e mães solteiras?

As grandes vítimas são os filhos dessas uniões que tantas vezes não chegam a constituir família. Vale recordar uma frase (não literal) da animação Os Incríveis: Precisamos salvar nossos pais, para que não lhes ocorra algo pior do que morrer: separarem-se. Ainda por cima, esses órfãos de pais vivos frequentemente carecem do referencial masculino de um pai dentro de casa, ingressando no círculo vicioso da imaturidade afetiva.

O que sonham os filhos acerca de seu pai? Que ele, se tivesse de escolher entre os filhos e a esposa, elegesse a esposa. Esse amor viril seria um garante de estabilidade e inspiraria a confiança de que os pais nunca se separarão.

*****

Reciclo uns tweets antigos:
  • Fases da adolescência? Regressiva, agressiva, transgressiva, construtiva. 18/6/09
  • Fase regressiva da #adolescência: permanecer no ovo que é mais quentinho e seguro. Seu #bolha. 18/6/09
  • Fase agressiva da #adolescência: conquistar o espaço na pancada. Seu porco-espinho. 18/6/09
  • Fase transgressiva da #adolescência: pegar todas, experimentar tudo, quebrar os tabus. Seu inconsequente. 18/6/09
  • Fase construtiva da #adolescência: juntar os cacos para virar homem. Seu cheio de cicatrizes. 18/6/09
  • Muitos adultos ainda estão na #adolescência. Qual a sua fase? Você é um bolha? Um grosso? Um pervertido? Juntou seus cacos ou caiu na fossa? 18/6/09
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...