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5 de jun. de 2011

Em busca do sociologismo

Ciência e método

O termo “sociologia” foi empregado pela primeira vez por Augusto Comte (Cours de philosophie positive, vol. 4) em 1839.

Posto que a sociedade já tivesse sido estudada por Platão (A República), Aristóteles (A Política), Santo Agostinho (Cidade de Deus), Maquiavel (Discursos) e Vico (Ciência Nova), até então recebia tratamento filosófico e normativo. A sociologia enquanto tal nasceu como método experimental.

O método é lícito se não se perde de vista seus limites e sua dependência da Filosofia Social, Antropologia e Ética. Mas Augusto Comte, em seu reducionismo (equiparar as ciências do comportamento humano às ciências da natureza), a considerava a última das ciências a libertar-se das ataduras da teologia e da metafísica.

O positivismo conferiu à sociologia suas características: objetivo fenomênico, pressupostos deterministas, conclusões amorais, afinalísticas e acríticas.

Enfoques sociológicos

Existem diversos enfoques sociológicos: marxista (a vida social é práxis, ação); positivista (de Durkheim, que discutiu a compenetração entre indivíduo e sociedade); da “compreensão” (de Weber, que parte de tipos-ideais e tem caráter probabilístico); formalista (de Simmel, inspirado nas interações); estrutural-funcionalista (de Parsons, que procura fazer uma teoria sociológica sintetizadora, mas de caráter protestante); fenomenológico (de Scheler, de tendência subjetivista); interacionista simbólico (sociedade como representação).

Todos esses enfoques negam a natureza humana e apresentam as instituições como produtos de interações. Consequentemente, tudo deriva da ação e se constitui por regras; os polos da dinâmica social são o totalitarismo e o contingentismo.

“Sociologismo” seria, portanto, a atitude radical dos que procuram explicar o social somente com o social.

7 de set. de 2010

Visões de Aristóteles

O pensamento aristotélico

Existem duas visões acerca de Aristóteles: A primeira busca organicidade holística em seu pensamento. Pode ser atribuída a Franz Brentano (século XIX). A segunda detecta distinções em razão dos métodos adotados por Aristóteles. Procede de Werner Jaeger (século XX), que defendeu a evolução biográfica de seu pensamento.

É preciso conciliar as perspectivas, compensar a relativização historicista e prevenir os vieses das ciências humanas. Ora, se o tempo fosse referência máxima, o pensamento aristotélico sempre estaria incompleto. Por outro lado, é natural uma evolução entre os fragmentos que remanesceram de suas obras de juventude e os tratados sistemáticos extraídos das apostilas de seus alunos.

Um remédio para a crise

Aristóteles vem bem a calhar no atual cenário de crise da razão, pois explorou diversas formas de racionalidade, a despeito da opinião que comumente se tinha dele até os anos 1960. Desde Francis Bacon e Jacopo Zabarella, reconhecia‑se em Aristóteles apenas uma lógica silogística-dedutiva. Ao seu método indutivo era normal contrapor as “mais sensatas experiências” de Galileu ou o “rigor” cartesiano. Mesmo Hegel — e também os manuais da escolástica — desprezaram a lógica aristotélica, como se fosse mera ciência do pensamento abstrato.

A crise pós‑moderna pôs em juízo o valor e os limites da razão. Buscam-se outras formas de racionalidade. Os elementos que deflagaram tal crise foram o historicismo, a moda nietzscheano-heideggeriana e a crença de que as categorias epocais condicionam a compreensão.

Embora a reflexão ético-política antiga tenha sido aceita no mundo germânico e anglo-saxão como contraponto enriquecedor à reflexão contemporânea, o mesmo não se deu no eixo França–Itália. Com efeito, o mundo latino costuma retroceder a razão clássica somente até à filosofia e à ciência modernas. Ora, essa redução da razão ao racionalismo (típico desde Descartes até Leibniz) e a repulsa cultural pela Igreja levam muitos autores latinos a rechaçar a priori a harmonia entre fé e razão.

Atualmente, porém, a contribuição de Aristóteles foi revalorizada, tanto por aristotelistas, quanto por militantes de outras filosofias. Dentre os primeiros, destaca‑se Jean Marie Le Blond, que em 1939 distinguiu lógica de método, embora sua descoberta só tenha coalhado 20 anos depois, nos Symposia Aristotelica.

O grupo dos filósofos não-aristotélicos que publicaram livros sobre o Estagirita reúne personalidades díspares: Aubenque (heideggeriano), Perelman (teórico da argumentação), Gadamer (hermeneuta), Ritter (hegeliano). Mesmo os pós‑modernos Derrida e Lyotard recorreram a Aristóteles para justificar a “polissemia do ser”.

Afinal, quem foi Aristóteles?

Nasceu em Estagira em 384 a.C., e morreu em Calcis em 322: viveu 64 anos. Dos 18 aos 38 anos, o Filósofo foi um acadêmico, no sentido primitivo da palavra: discípulo perfeito de Platão. Retórico e polemista, especialmente contra os epicuristas.

Permaneceu depois, dos 38 aos 49 anos, na escola de retórica de Atarna. Desde então, abriu o Liceu, empreendimento desvirtuado por dez gerações sucessivas de fracos escoliarcas.

Nos séculos III e IV, chegou a ser considerado um filósofo adequado aos pensadores cristãos; porém, após a edição de suas obras por Andrônico de Rodes e a apresentação empirista que dele fez Estratão de Lampsaco, ficou em segundo plano no pensamento medieval até sua reabilitação por São Tomás de Aquino.

29 de ago. de 2010

Amigo especial, único, ímpar, singular

Esta é a parte
1 | 2 | 3 | 4

Sejam numerosos os que te saúdam,
mas teu conselheiro, um entre mil.
(Eclo 6,6)

Amizade na Antiguidade

O mundo antigo era organizado por relações de parentesco e soberania. Por isso, as afinidades escolhidas espontaneamente eram coisa excepcional e tida, inclusive, como subersiva: Davi amava Jônatas apesar da resistência de Saul; Aquiles era mais sensível à sina de Pátroclo do que à causa grega.

Tanto para Aristóteles quanto Cícero, a amizade era um chamamento elevado que exigia qualidades extraordinárias de caráter, virtudes sólidas, desejo do bem. Como a amizade fosse vista igual ou superior ao matrimônio, sua expressão muitas vezes alcançava intensidade erótica. Por exemplo, fez-se famoso o Cântico do Arco, em que Davi afirma ter sido o amor de Jônatas “mais caro que o amor das mulheres” (2Sm 1,26).

Interpretações ligeiras e ideológicas procuraram aí uma justificativa para a patologia homossexual. Contudo, embora amigos como Aquiles e Pátroclo não pudessem viver separados, a ponto de dividir a mesma tenda, era com concubinas que dividiam suas camas.

Amizade no Medievo

O advento do Cristianismo eclipsou o ideal clássico da amizade ao transferir a dedicação do coração para o Deus Encarnado, para o amor a Jesus Cristo. Depois, com o surgimento do monaquismo, as “amizades particulares” seriam vistas como perigosas para a coesão da comunidade monástica.

Na sociedade medieval, a amizade revestiu-se de específicas expectativas e obrigações, muitas vezes formalizadas com juramentos: suseranos e vassalos empregavam o mesmo jargão da amizade nas suas relações. Mais especificamente nas sociedades católicas, o compadrio funcionou para estabelecer alianças entre famílias, às vezes mais do que entre afilhados e padrinhos, a ponto de compadre se ter virado sinônimo de amigo.

Amizade depois da Renascença

A noção clássica de amizade foi restaurada na Renascença, ao lado de outras formas antigas de sentimento. A virtuosidade das relações de amizade voltou a ser colocada acima de tudo: do matrimônio, da união sexual, até da paternidade. Afinal, a amizade não seria pautada pelo critério do interesse ou da necessidade: sobressairia diante do oportunismo por ser algo raro. Eis o pano de fundo para personagens como Horácio, de Shakespeare, e Sancho Pança, de Cervantes.

Este estado de coisas perdurou durante o Romantismo. Famosos amigos românticos foram Goethe e Schiller, Byron e Shelley, Emerson e Thoreau, entre outros. Mas o desenvolvimento da sociedade comercial fez com que tal ideal perdesse espaço novamente. David Hume e Adam Smith apontarão como o capitalismo tornou impessoais as relações comerciais, relegando as afinidades para a esfera privada: na vida econômica, contam pouco os vizinhos, os companheiros de paróquia, os colegas de escola e trabalho, os pais dos amigos dos filhos, os concidadãos, etc.

Somos o que escolhemos ser para os outros durante o tempo das nossas escolhas, nesta sociedade blasé.

28 de mai. de 2010

A arte como criadora de âmbitos

Desde Fracis Bacon, impôs-se a convicção de que saber é poder. Logo, só importariam os conhecimentos práticos. Consequentemente, a vida torna-se um problema a ser resolvido, perdendo-se o sentido das relações humanas.

Com efeito, a compreensão do sentido das relações humanas não é um conhecimento prático, não é redutível a esquemas.

As crianças não têm sentido das relações. Problematizam tudo. Quando a vida é vista como um problema, torna-se um dilemaA maturidade, porém, não bipolariza as situações, pois aceita os contrastes. Quando a vida é vista como um âmbito de relações, passa a ser encarada como um conjunto de contrastes.

Aristóteles enumerava a relação entre as categorias do ser. Mas é um modo de ser que depende de outro. Ora, os objetos adquirem maior “personalidade” na medida em que entrem no âmbito das relações humanas (âmbito familiar, profissional, quotidiano, físico, histórico, etc.).

A melhor postura diante dos objetos consiste em contemplá-los e entendê-los, mais do que em lucrar com eles ou dominá-los. Cabe à arte transformar os objetos em âmbitos de relações.

Mas o avanço da técnica levou a considerar suspeitos a arte, a beleza, a estética, os sentimentos. Desde Kant, tem-se feito discriminação entre ciência e cultura, entre exatas e humanas.

Os sentimentos são as primeiras respostas e os primeiros caminhos entre o homem e a realidade. A educação dos sentimentos é feita primariamente pela família, onde se deve ensinar a ter as reações adequadas diante da vida. A escola, que também deveria educar subsidiariamente os sentimentos, tem-nos desprezado e se especializou em educar meros técnicos.

24 de mai. de 2010

Seis indícios de inteligência

Noutras ocasiões, já discorri acerca da formação intelectual. Por exemplo, ao falar do estudo e das leituras. Contudo, sinto necessidade de tornar ao tema, complementando-o relativamente ao que deva entender por “ser inteligente” e ao itinerário para a conquista dessa habilidade.

1. Amor à verdade

Reconheço sem pejo que excluo do meu conceito de “pessoas inteligentes” as que renegam a verdade. Afinal, “ter um problema” com a verdade, para usar o jargão pop-psicológico, não significa que a verdade seja um problema. Por outro lado, devo admitir que haja formas diversas de encarar o “problema da verdade”.

Com efeito, muitos gostam de discutir indefinidamente. Embora tenham por ilustres predecessores a Sócrates e Platão, correm o perigo de ficarem aprisionados pelo prurido de indagar sem contentar-se com as respostas ou sem tirar conclusões ulteriores. A maiêutica socrática torna-se um parto perpétuo.

Vejo duas possíveis causas para essa atitude dubitativa: imaturidade ou superficialidade. Imaturidade, porque é típico do adolescente evidenciar-se pela contestação. Superficialidade, porque a pessoa se surpreende com uma obviedade: que a realidade transcende nossas pobre percepção. Em ambos os casos, a “mentira” e a “incerteza” são erigidas em categorias de um pensamento ilustrado, vedado aos convictos e dogmáticos.

Outros tantos, porém, tendem à sistematização em vez de à indagação. Criam uma suma de conhecimentos, elaboram um modelo explicativo do universo e chegam a conclusões novas com base em suas aquisições. Ainda que tenham a Aristóteles por precursor, seu pensamento pode ser enfadonho assim como, reducionista, a sua compreensão da realidade.

Forçosa consequência: mais do que propor um contínuo revisionismo dos sistemas especulativos, é aprender a perguntar. Modelo engessado e dúvida metódica são extremos que demonstram a carência de um pensamento robusto.

2. Classificar, problematizar, argumentar

Antes de aprender algo, é preciso aprender a aprender. Classicamente, a formação intelectual visava, antes de tudo, aguçar as ferramentas de que dispomos para conhecer, descrever e persuadir: a lógica, a gramática e a retórica.

Seria simplório afirmar que hoje não se busca transmitir tais capacidades. Mas é patente que a falta de rigor, expressividade e coerência têm invalidado o mérito de qualquer esforço nesse campo.

3. Liberdade e prudência intelectual

Mente livre difere de mente independente. Esta crê-se isenta de influências. Aquela, sem desprezar as luzes recebidas de outrem, caminha pelos próprios passos.

A braço dado com a liberdade vai a prudência, isto é, uma saudável desconfiança de si mesmo, associada ao recato da autoestima. O homem inteligente confere suas descobertas com os sábios e preserva seu pensamento dos contágios viciosos.

Em resumo: ele não se faz de mestre nem é controlado por mestres, antes elege seus mestres.

4. Memória e abrangência

A erudição constitui-se num tesouro de referências que enriquece a mente com analogias e desenvolve a expressão com exemplos.

Memória é exercício intelectual que atualiza o sabido e o conecta com nossa história, enchendo de significado nossas impressões.

Inteligência divorciada da memória no máximo é esperteza, nunca penetração na realidade.

5. Saber outras línguas, especialmente um idioma clássico

O melhor fundamento para uma educação humanística é o domínio da gramática geral. Tanto o grego quanto o latim têm a vantagem de, por seu vocabulário e sua estrutura, servirem de chave para a terminologia científica e para toda a literatura e história ocidentais, além de facilitarem a iniciação em muitíssimas outras línguas.

Sem tais rudimentos, é de se duvidar do condão intelectual dos que se lançam à busca da verdade.

6. Abertura à transcendência

A sensibilidade ao mistério indica capacidade de autoconhecimento. É inteligente reconhecer que a mente humana estaca no umbral de outras descobertas que lhe são vedadas na medida em que a superam.

Contudo, diante da intuição de uma riqueza existencial superior, não basta a admiração. Quem não dá o salto da entrega religiosa, ou nela não persevera, desconhece ou não compreende a lógica interna da fé: a palavra do mistério, que é dirigida a cada homem, exige-lhe conversão, pois é uma palavra interpeladora.

Justamente em circunstâncias de prova, quando a mente sente a necessidade de compreender o que ocorre e não encontra solução, o homem inteligente, que é um homem de fé, encontrará aí a expressão da fragilidade humana, da humana insegurança e um convite à confiança em Deus.

Então nascem a verdadeira liberdade e a verdadeira ciência: quando se abre mão de querer entender tudo, quando se purifica o desejo de apoiar-se em teorias, quando se abre mão da vaidade de triunfar através de uma retórica vazia, mais baseada na experiência da própria miséria do que na experiência de se ter encontrado misericórdia.

Quais dessas qualidades você tem? Quais lhe faltam?

4 de fev. de 2010

Centos de livros para ler

Após tantas postagens sobre leitura, deixo aqui uma lista dos “obrigatórios” em minha modesta opinião.

Repare que tento fazer um apanhado geral, com base em gêneros, assuntos e culturas. Portanto, as obras seriam substituíveis por outras similares, conforme o gosto do freguês.

Como somos lusoparlantes, penso que livros de nossa lavra são também essenciais.

Bon appétit!

TEATRO
  • Ésquilo, Oresteia
  • Sófocles, Trilogia Tebana
  • William Shakespeare: Hamlet, Macbeth
POESIA
  • Dante Alighieri, Vita nuova
  • T. S. Eliot
  • Carlos Drummond de Andrade
  • Manuel Bandeira
  • Fernando Pessoa
  • Bocage
EPOPEIA
  • Homero, Odisseia
  • Virgílio, Eneida
  • Anônimo, Beowulf
  • Anônimo, A Canção dos Nibelungos
  • Dante Alighieri, Divina Comédia
  • Camões, Os Lusíadas
  • John Milton, Paraíso Perdido
ÉPICO
  • Dom Quixote
  • Anônimo, Lazarillo de Tormes
LITERATURA EM GERAL
  • Machado de Assis: os livros da segunda fase (a partir de 1881)
  • Raimundo Lúlio, O livro das bestas
  • Jonathan Swift, Viagens de Gulliver
  • Jane Austen, Orgulho e preconceito
  • Lewis Carroll: Alice no País das Maravilhas, Através do espelho
  • Leon Tolstoi, Ana Karenina
  • Fiodor Dostoievsky: Crime e castigo, Os irmãos Karamazov
  • Joseph Conrad, O coração das trevas
  • Eugene Ionesco, O rinoceronte
  • Thomas Mann, Doktor Faustus
  • Constantin Virgil Gheorghiu, A vigésima-quinta hora
  • Michael Ende, A história sem fim
  • João Guimarães Rosa: Sagarana, Grande sertão: veredas
  • Antoine de Saint-Éxupéry: O pequeno príncipe, Cidadela
  • J.R.R.Tolkien: Silmarillion, O senhor dos anéis
ENSAIOS
  • T. S. Eliot, Ensaios
  • G.K.Chesterton, Ortodoxia
BIOGRAFIAS
  • Agostinho de Hipona, As confissões
  • John Henry Newman, Apologia pro vita sua
  • Salvador de Madariaga, Hernán Cortés
  • Marcelle Auclair, Santa Teresa de Ávila
  • Stephan Zweig: Magalhães, Maria Stuart, Fouché, Maria Antonieta
  • Emil Ludwig, Napoleão
  • David Downing, C. S. Lewis, o mais relutante dos convertidos
FILOSOFIA
  • Aristóteles: Metafísica, Ética a Nicômaco
  • Platão: Fédon, Banquete
  • São Tomás de Aquino: Suma contra os gentios, Suma Teológica
  • Edith Stein: Ser finito e ser eterno, A mulher
  • Miriam Joseph, O Trivium: As Artes Liberais da Lógica, Gramática e Retórica
ANTROPOLOGIA
  • C.S.Lewis: Os quatro amores, Dor
  • Viktor E. Frankl, Psicoterapia e sentido da vida
TEOLOGIA
  • Bíblia (especialmente Gn 1–Ex 20; Livros Sapienciais, especialmente Jó, Sb e Eclo; Novo Testamento)
  • Confúcio, Analectos
  • Catecismo da Igreja Católica (especialmente a parte IV)
  • Concílio Vaticano II, Gaudium et spes
  • João Paulo II: Fides et ratio, Veritatis splendor, Centesimus annus; Cruzando o limiar da esperança, Memória e Identidade
  • Bento XVI: Deus charitas est, Spe salvi, Charitas in veritate; Jesus de Nazaré (2 vol.); Fé, verdade e tolerância

HISTÓRIA E SOCIOLOGIA
  • Régine Pernoud, Idade Média, o que não nos ensinaram
  • Johann Huizinga, O declínio da Idade Média
  • Christopher Dawson, A formação da Europa
  • Jakob Burckhardt, A cultura do Renascimento na Itália
  • Thomas More, Utopia
  • A. Moorehead, A revolução russa
  • Gilberto Freire, Casa grande e senzala
  • Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil
Conto com sua ajuda para aprimorar esta lista!

17 de out. de 2009

O legado de Dante Alighieri

Gênio literário
O período mais sombrio da vida de Dante Alighieri seria também o melhor de sua criação, testemunhando uma viravolta de sua juvenil padronizada visão trovadoresca do amor como aflição para sua madura invenção do amor como nobilitante, aprazível e aberto à eternidade.
Nos primeiros anos do exílio, deixou inacabadas as obras Convivio De vulgari eloquentia. Na primeira, acusou‑se de ter traído Beatriz com a “Dama Filosofia”, ainda que alguns autores sustentem ter sido uma infidelidade carnal. A segunda é um tratado que abriu as portas à cultura popular, ao nascimento das línguas modernas e ao desenvolvimento do italiano literário.
Dante percebera a inconveniência da intromissão do poder espiritual sobre o temporal. Por isso, escreveu De Monarchia em 1313, sobre a separação dos poderes da Igreja. Antecipando‑se a seu tempo, comparou tanto o governo civil quanto o eclesiástico a dois sóis que iluminam, respectivamente, a ordem política e a escatológica. Até então, fora mais usual representar o poder secular pela Lua, que reflete no mundo civil toda a luz da sociedade espiritual. Suas experiências políticas tinham‑no levado a afastar‑se da tese guelfa de que o papa livraria cidades como Florença do domínio germânico. Sem fazer‑se gibelino — o que suporia aceitar as reivindicações dos antigos nobres feudais —, Dante passou a ver o imperador medieval como um equivalente do imperador romano, contrapondo‑se à usurpação que também o papa poderia perpetrar no domínio temporal.
Inspiração anagógica
Com efeito, a organização do Império Romano permitira a difusão do Cristianismo. Ainda que as pequenas comunidades políticas garantissem grande participação dos cidadãos e um conseqüente vigor da vida pública, não podiam superar as limitações das invejas locais. Apresentava‑se aos olhos de Dante como necessário um limitado poder central para unificar longos territórios e impedir as disputas intestinas.
Não à toa, Virgílio, grande expoente do Império Romano, foi a figura escolhida para guiá‑lo pelo inferno e pelo purgatório. O maior épico latino, Æneida, de sua autoria, conta a história dos legendários heróis que escaparam da batalha de Tróia para fundar a cidade de Roma, deixando entrever grande penetração filosófica e espiritual. No livro sexto, Enéas viaja pelo orco, o que deu muitas idéias a Dante para seu Inferno, assim como a Descida de Menipo ao Inferno, narrativa composta por Luciano. Por outro lado, o afamado espírito profético de Virgílio, que teria anunciado o advento de Cristo numa de suas Éclogas, recomendava‑o como arauto da nova tese de Dante, segundo a qual o imperador seria um instrumento providencial para a boa ordem da Igreja e do Estado. Para Dante, a política era uma importante dimensão da espiritualidade.
Além disso, sua paixão pela filosofia era serva de sua poesia: Virgílio foi preferido a Platão, Aristóteles, Boaventura, Tomás de Aquino, pois o poeta florentino via as idéias em suas imagens do mundo: apesar de pensar ética, política e estética, sua vocação era a poesia. E Dante atribuía sua distinção poética ao estilo romano, que explorava os temas da guerra, amor e virtude.
Outras obras medievais sobre a vida póstuma também tiveram grande difusão na Europa e influência em Dante, como a anglo‑saxônica Saint Patricks Purgatory, a peregrinação completa descrita na legenda irlandesa Tundale ou os poemas sobre o inferno e o paraíso de frei Jacomino, companheiro de São Francisco.
O poeta igualmente aprendeu da poesia épica a criação de mitos. Em sua Commedia, o ponto mais controvertido é o do Veltro, personagem que utilizou para exprimir sua intuição ou pressentimento de uma provável ocorrência futura: símbolo libertador que soergueria a Itália, purificaria os costumes e venceria a loba, ao qual o próprio Dante pode ter se visto tentado a acreditar eventualmente encarnado naquelas conjunturas incertas e amigos malfadados de seu exílio (Inferno, I):

100 Com bestas numerosas se acasala;
e mais serão, até que por final
o Veltro surja para aniquilá‑la.
A obra‑prima
Dante é eclético, o homem‑síntese da Idade Média: faz uso de todas as correntes de pensamento vivas no seu tempo, sem discriminação, desde os gregos aos árabes, dos clássicos aos místicos. Rios de tinta foram gastos para falar do poeta, político e homem florentino. Contudo, a definição indiscutivelmente mais próxima à íntima verdade de sua vida intensa, transida de grandes paixões, sonhadas, vividas e perdidas, é o seu grande “retrato”: a Commedia, verdadeira “Suma Poética”, e uma das mais importantes da literatura universal, escrita entre 1307 e 1320. Já muito conhecida, durante a vida do poeta, difundiu‑se, após sua morte, com crescente fortuna: atesta‑o as numerosas cópias manuscritas, sua menção em representações da época e os muitíssimos comentários.
O primeiro exemplar parece que foi o preparado pelos mesmos filhos de Dante, Jacobo e Pedro, enviado em 1322 a Guido Novello de Polenta. Entre os antigos manuscritos, o mais autorizado é o da biblioteca florentina Laurenziano, redigido em 1343 por F. Villani. A mais antiga edição de imprensa é a de Folino, que remonta a 1472.
Entre os comentários mais próximos, cronologicamente, à apresentação original, recorda‑se o do já citado filho do poeta, Jacobo, e o latino de Graziuolo de’ Bambagliuoli, limitados somente ao Inferno; o de Jacobo della Lana, completo, composto antes de 1330, sumamente interessante pelas informações históricas; o comumente chamado “O Ótimo” (talvez do trecentista Andrés Lancia); os de Benvenuto de Ímola e de Francisco Buti, doutos “expositores” do poema, respectivamente nas universidades de Bolonha e Pisa.
Giovanni Boccaccio (1313-1375) recebeu da prefeitura de Florença o encargo de uma “pública exposição” da Commedia na igreja de Santo Estêvão da Badia: mas apenas apresentou os primeiros dezessete cantos do Inferno, “pela má saúde e pelo despreparo do auditório”. Foi quem deu à obra pela primeira vez o título Divina, nome recolhido pela edição veneziana de 1555, de Gabriel Giolito de Ferrari, o qual se consagrou.
Commedia exerceu grande influência em poetas, músicos, pintores, cineastas e outros artistas nos últimos 700 anos. Desenhistas e pintores como Gustavo Düre, Sandro Botticelli, Salvador Dali, Michelangelo e Willian Black estão entre os ilustradores de sua obra. Os compositores Robert Schumann e Gioacchino Rossini traduziram partes de seu poema em música e o compositor húngaro Franz Liszt usou a Commedia como tema de um de seus poemas sinfônicos. O escultor Auguste Rodin inspirou‑se nela para suas principais obras, entre elas, O Pensador, que representa o próprio Dante, O Beijo, inspirada no drama de Paulo e Francisca e Ugolino e seus filhos, que retrata a tragédia do Conde. Todas compõem sua obra-prima Porta do Inferno.
Em sua XVII epístola, a um de seus patronos no exílio, Cangrande della Scala de Verona, Dante recomendava alguns princípios para se ler com proveito a Commedia: ter em conta os quatro possíveis sentidos textuais (literal, alegórico, moral e anagógico) e sua intenção moralista (mostrar a justiça remunerativa implicada no drama humano, o qual consiste no esforço por praticar as virtudes cardeais e teologais, superando as fraquezas e atrações terrenas).

6 de out. de 2009

Xenófanes de Cólofon, pseudo-eleata

Autor controverso, Xenófanes de Cólofon é enumerado por Platão, Aristóteles e Teofrasto entre os filósofos pré-socráticos, mas é evocado como poeta pela tradição literária (Estrabão, Apuleio, Ateneu e outros).

Xenófanes abandonou sua terra natal e percorreu o mundo grego até o Ocidente, durante os muitos anos que lhe permitiu sua afamada longevidade. Nos seus escritos, satisfez interesses díspares: cantou a fundação de Cólofon e sua emigração para Eleia (em versos hoje perdidos), lançou veementes invectivas à tradição homérica, deu conselhos acerca dos banquetes, especulou sobre a unidade dos contrários, criticou o conhecimento humano, satirizou a crença na reencarnação, defendeu a unicidade divina. Xenófanes teve enorme influência no desenvolvimento religioso posterior.

Ao que parece, foi a poesia o seu emprego principal nos anos anteriores à sua ida para Eleia; e continuou a servi-lo depois, transmitindo ao seu pensamento a elevação e o entusiasmo próprios da linguagem épica.

Entrementes, como já vivesse os últimos anos da Época Arcaica grega, vociferou sátiras acerbas tanto aos heróis dos jogos quanto aos deuses. Àqueles, objetou lhes que as vitórias esportivas fossem superestimadas em comparação com as conquistas intelectuais; a estes, que seus mitos estivessem contaminados de imoralidade.

Sua violenta reação de repulsa pela proeminência de Homero e o arquétipo poético e operou a primeira manifestação da discórdia entre poetas e filósofos, cuja veemência ainda seria grande no tempo de Platão. Apesar disso, seu rechaço ao influxo educativo dos grandes poetas gregos não o impediu de valer se dos mesmos expedientes literários de Homero e Hesíodo. Sua veia polêmica não é, portanto, em si mesma desconstrutiva; antes se constitui numa invectiva moral, em cinismo crítico diante das ideias tradicionais.

22 de jul. de 2009

Debate em torno a Tales de Mileto

Para ilustrar a postagem anterior, apresento o livro-debate que fiz sobre a parca doxografia existente de Tales de Mileto (vide, por exemplo, na coleção Os Pensadores):

APRESENTAÇÃO:

Tales foi o fundador do pensamento filosófico no Ocidente ao ter buscado o arqué: «aquilo de que todos os entes são constituídos e de que primeiro são gerados e em que por fim se dissolvem» ou «princípio de movimento». Com Hipão, afirmava ser a água (ilimitada), indo de encontro às explicações mitológicas da época que punham-na entre os entes mais antigos (teologia). Ora, um único princípio supera a percepção sensível do particular e aponta para o universal, do qual procede toda a realidade (isto é filosofia). O erro foi não ver a água como também coisa singular (domínio da ciência).

QUESTIONÁRIO:



  • Qual é, segundo Tales de Mileto, o arqué, seu efeito no mundo e suas características?
  • Exatamente onde errou, Tales de Mileto iniciou a filosofia (cosmologia). Qual o seu erro e o seu acerto na caracterização do seu princípio?
  • Enquanto físico, qual a relação aduzida por Tales entre sensação (percepção) e realidade?
  • A água «é» alma ou «tem» alma?
  • Como se harmoniza a tese de Tales com a religião de seu tempo? Pode‑se falar de uma teologia subjacente ao seu pensamento?

  • DOXOGRAFIA:

    1. Aristotóles, Metafísica, I, 3. 983 b 6 (DK 11 A 12). A maior parte dos primeiros que filosofaram considerava que os únicos princípios de todas as coisas são materiais. Aquilo de que todos os entes são feitos, de que no princípio foram gerados e em que, enfim, se dissolvem, embora permaneça a essência e mudem apenas as exterioridades, tal é, para eles, o elemento [στοιχεῖον], tal é o princípio [ἀρχή] dos entes. E por isso pensam que nada se gera nem destroi, como se tal natureza subsistisse sempre…

    Pois deve haver uma natureza qualquer, ou mais do que uma, da qual as outras coisas se originam, salvaguardando a primeira. Quanto ao número e à forma destes princípios, nem todos dizem o mesmo. Tales, o criador de tal filosofia, afirma ser a água. Por isso ele também afirmou que a terra está fundada sobre a água. Sem dúvida, foi levado a esta concepção por ver que o alimento de todas as coisas é úmido e que o próprio quente dele procede e dele vive. Ora, aquilo do que se procede, é o princípio de todas as coisas. E então, por isso, adotou ele esta concepção, também porque a semente de todas as coisas terem a natureza úmida. E a água é o princípio da natureza para as coisas úmidas.

    E há alguns que pensam que também os mais antigos, bem anteriores à nossa geração, e os primeiros a fazer teologia, teriam a respeito da natureza formado a mesma concepção. Pois colocam Oceano e Tétis como pais da geração e, como o juramento dos deuses, a água, chamada pelos poetas de Estige. Pois o mais venerável é o mais antigo; ora, o juramento é o mais venerável.


    2. Simplício, Física, 23, 21 (DK 11 A 13).

    Alguns dos que afirmam um só princípio de movimento — aos quais [Aristóteles] chama “físicos” — consideram que ele é limitado.

    Assim, Tales, filho de Examias milésio, e Hipão, que parece ter sido ateu, afirmavam que a água é o princípio, tendo sido levado a isto pelos fenômenos e sensações.

    Pois o quente vive com o úmido, as coisas mortas ressecam-se, as sementes de todas as coisas são úmidas e todo alimento é suculento. Donde procede cada coisa, de lá naturalmente se alimenta. A água é o princípio da natureza úmida e tudo contém. Por isso supuseram que a água é o princípio de tudo e afirmaram que a terra jaz sobre ela.

    Os que supõem um só elemento afirmam-no ilimitado em extensão, como Tales diz da água.


    3. Aristóteles, Da Alma, 5, 411 a 7 (DK 11 A 22).

    E afirmam alguns que ela [a alma] está misturada com o todo, razão pela qual talvez Tales também pensou que as coisas estão cheias de deuses. Parece também que Tales, pelo que se conta, supôs que a alma é algo que se move, se de fato disse que o ímã tem alma porque move o ferro.

    Foi Tales quem primeiro esclareceu que a alma é uma natureza sempre em movimento ou que se move a si mesma.

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