Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens

2 de jun. de 2014

Conexão & Química

Química é expectativa. Altura, cor de cabelo. Simpatia e atração recíprocas. Instinto. Desnecessária, puro bônus. 

Conexão foi soldada com a emoção. Convicção esculpida no coração. Segurança. Cumplicidade. Laço.

Química embriaga. Conexão abraça. Química destrói reputações. Conexão forja relações.

O livro Silmarilion descreve as joias nas quais foram encerrados os raios das árvores de luz. Da árvore solar e dourada em seu entardecer e da árvore lunar argêntea em seu alvorecer.

Química e Conexão concorrem juntas na confecção de uma joia rara que é o amor, como o brilho dessas árvores mitológicas.


16 de jan. de 2014

A viagem de Bunyan

O Peregrino, de John Bunyan (1628-1688), é considerado o segundo livro mais vendido da história (antes mesmo do Corão). A razão do estranho sucesso advém de que costumava vir publicado como apêndice nas bíblias protestantes inglesas. Se não fosse assim, sua difusão teria sido infinitamente menor.

O drama consiste na descrição dos dez estágios pelos quais um cristão migra da Cidade da Destruição até a Jerusalém Celestial.

Do ponto de vista literário, o resultado final é bastante inferior à narrativa de peregrinação descrita na Commedia de Dante Alighieri, a qual também guarda uma conotação espiritual.

O mérito de Bunyan foi reabilitar a alegoria como instrumento catequético moral, valendo-se de passagens bíblicas como urdidura. Não obstante, suas alegorias são muito menos sutis que as de outro autor anglicano, C. S. Lewis.

Bunyan era batista calvinista, dissidente do anglicanismo oficial. Portanto, é esperado que sua obra contenha alguns inconvenientes doutrinais. Saltaram-me à vista os seguintes:

a) Critica Moisés acerbamente.

b) Apresenta a vida cristã como uma conquista individual.

c) Afirma a absoluta corrupção da natureza humana, mas…

d) … quanto à salvação, valoriza totalmente o livre-arbítrio e omite a predestinação (?!?).

e) Blasfema contra o Papa.

Pessoalmente, achei o livro triste. O caminho do cristão pode ser estreito, mas é repleto de alegria.

30 de nov. de 2013

O Natal e o Antinatal


O amargo escritor Curzio Malaparte, falecido em 1957, escreveu palavras duríssimas contra o Natal, quando — já então! — essa festa perdera muito de sua compreensibilidade para a cultura do século XX:

Dentro de poucos dias será Natal, e as pessoas já se preparam para a suprema hipocrisia. Por que nenhum de nós tem a coragem de dizer a si mesmo que o século, o mundo, nunca foi tão pouco cristão como nesses anos? Por que nenhum nós ousa reconhecer que a retórica dos políticos, o grande desfile de sentimentos evangélicos, as procissões de falsos devotos só servem para esconder uma terrível verdade: que as pessoas não são mais cristãs, que Cristo morreu na alma de seus filhos, que a hipocrisia desceu da política até a vida social, familiar e individual? Não nos importamos com quem sofre; nada fazemos para impedir o sofrimento, a miséria, o mal, o crime, a violência, a destruição; permanecemos quietos, calados, e festejamos o santo Natal.

E prossegue:

Gostaria que, no dia de Natal, o panetone se tornasse carne dolente sob a faca, e o vinho se transformasse em sangue; que por um instante todos sentíssemos o horror do mundo na boca. Queria que, no dia de Natal, nossas crianças subitamente aparecessem como serão amanhã, dentro de alguns anos, se não ousarmos nos rebelar contra o mal que nos ameaça. Pobres corpos estraçalhados, abandonados na lama vermelha de um campo de batalha. Queria que na noite de Natal, em todas as igrejas do mundo, um pobre padre se levantasse e gritasse: fora desse berço, hipócritas, mentirosos; vão para suas casas chorar sobre os berços dos seus filhos. Se o mundo sofre, é também por culpa de vocês, que não ousam defender a justiça e a bondade, e têm medo de serem cristãos até o fundo. Fora desse berço, hipócritas. Este menino, que nasceu para salvar o mundo, tem horror a vocês.

Esse texto atormentado foi escrito três anos antes de seu batismo, por sua vez ocorrido um mês antes da morte. Faltando pouco para deixar essa vida, disse ao padre que o assistia: “Vamos!” — “Para onde?”, indagou o sacerdote — respondeu‑lhe: “Para o céu!” (cf. COMASTRI, Angelo, Tu És Trindade, p. 28)

***

Pergunto o mesmo agora: “Vamos!”

— Para onde? — vocês me perguntam.

— Preparar o Natal! Vamos para Belém! Adeste, fideles, læti triunfantem, venite, venite ad Betlehem! Belém é o nosso céu, onde podemos ver a face de Deus.


O primeiro traço é que Deus é frágil. Por exemplo, o Todo‑Poderoso obedece a um imperador que ordena um recenseamento.

O segundo, é que Deus é pobre. Nasceu precariamente, sobre fatne, isto é, sobre “esterco e palha”!

O terceiro, é que Deus é amor. Amor é dom, entrega, e Deus é dom infinito: dá tudo, dá‑se, fica pobre para nos enriquecer; “aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Deus é humilde porque não vive para si, mas vive para nós!

12 de out. de 2013

Rosa Aparecida

Só tu és a rosa, 
que com várias cores 
floresces, rainha 
no reino das flores. 

Pois só tu, Maria, 
és multiplicada 
nos mil e um nomes 
por nós invocada. 

Dos nossos momentos 
assumes as cores: 
Senhora da Glória 
Senhora das Dores. 

Em Lourdes, Salete, 
na Cova da Iria, 
vieste às crianças, 
ó Virgem Maria! 

Que os homens ouvissem 
teu filho, pediste, 
e ao cabo de um tempo 
de novo partiste. 

A nós, brasileiros, 
vieste em imagem 
ficando conosco 
não só de passagem. 

Das águas de um rio 
quiseste brotar, 
e lá pobres homens 
te foram pescar. 

Só peixes buscavam 
e, nada apanhando, 
de novo lançaram 
as redes, rezando. 

E eis que entre as malhas 
pesada aparece 
estátua de barro, 
que o tempo enegrece! 

“Que linda (eles clamam): 
só falta a cabeça! 
Lancemos as redes, 
talvez apareça…”

Milagre, milagre!, 
pois surge em seguida, 
e juntam-na ao corpo 
da Aparecida. 

Capela farão 
naquele lugar 
no qual a Senhora 
nos quis visitar. 

Com um manto a vestiram 
de ouro e de azul, 
que abriga os romeiros 
do Norte e do Sul. 

O cântico cumpre-se: 
“Sou negra e formosa!” 
Em cores escuras, 
de novo eis a rosa… 

Dom Marcos Barbosa, Poemas para crianças e alguns adultos.

11 de jun. de 2013

Estrelas feitas com o pó da sombra

Ya-Lit

A chamada Literatura Young Adults tem crescido no Brasil, abordando temáticas mais apropriadas para leitores entre 14 e 21 anos. Frequentemente, descrevem o primeiro confronto do adolescente com os problemas pessoais e sociais.

Acabei a leitura de duas obras do gênero, com muitos pontos de contato entre ambas, mas enormes diferenças. A primeira delas foi A Culpa É das Estrelas, de John Green. A última, Branca como o Leite, Vermelha como o Sangue, de Alessandro d'Avenia.

Green é autor consagrado; d'Avenia, novato. Os dois livros saltaram para as telas do cinema. Os dois livros falam de amor e morte. Os dois livros abordam o conflito de gerações. Os dois livros falam da força da literatura.

Mas como divergem na abordagem e no propósito!

De quem é a culpa?

Alessandro d'Avenia é professor helenista, enquanto Green ostenta menos títulos nessa seara. Eis um evidente divisor de águas. Com efeito, senti um grande incômodo lendo A Culpa É das Estrelas: um pedagogo não deve só descrever, mas também orientar. Acredito que o escritor é um pedagogo, quanto mais para adolescentes.

D'Avenia conduz magistralmente seu personagem à maturidade, Green, porém… Em se tratando de adolescentes, isto é, de gente que ainda está se situando na vida, o educador (no caso, o escritor) não pode presumir capacidade de reserva crítica por parte de seus ouvintes.

E assim, Green descreve uma mecanizada relação sexual com a mesma naturalidade com que narraria um banho num cachorro. O sexo é apresentado como uma afanosa exploração a dois de uma realidade reservada aos adultos. E os exploradores em questão são extremamente imaturos.

Por outro lado, os personagens adolescentes e adultos de Green são incapazes de se comunicar. Fica difícil distinguir na sua história quem é mais imaturo ou quem é mais surdo: se os mais jovens ou os mais velhos.

Referências clássicas num mundo de vazios

Enquanto a obra americana cria um literato fictício, o livro italiano delicia ao trazer à tona uma constelação de textos clássicos, entre os quais destacam-se Vita Nuova de Dante Alighieri, a Bíblia e até alguns versos da poetiza Safo de Lesbos.

E ensina a encontrar respostas onde tornou-se costume tropeçar na preguiça: “A gente não está habituado a resolver certos questionamentos que o Sonhador apresenta. Não tem a cabeça preparada para certas coisas. Não sabe nem de onde tirar as respostas. Porque essas perguntas que ele faz não são daquelas que você encontra no Google se digitar”.

Em Bianca come il latte, rossa come il sangue, os catalizadores dessas descobertas literárias e amorosas são os adultos. D'Avenia é isento da visão de mundo de um Roald Dahl ou de um Mark Twain, para quem os jovens são sempre vítimas inocentes.

Amor acrisolado na dor

O realismo de d'Avenia fica por conta da sublimação da pulsão sexual adolescente pelas exigências sacrificantes do amor, numa solução diametralmente oposta à de John Green. D'Avenia pode não esconder a intimidade dos personagens, a ponto de ser um tanto desbocado, mas não finge uma “normalidade” desinteressada.

Seus personagens têm a consistência da covardia, dos azares, do pranto. E genialidade suficiente para descobrir a ambivalência desses momentos: “O pó da minha sombra é poeira de estrelas”, chega a afirmar o protagonista.


22 de abr. de 2013

Sheherazade popozuda

Novamente, Rachel Sheherazade caiu na boca do povo de mente aberta e punhos fechados. Dessa vez, a musa do conservadorismo conseguiu bater ao mesmo tempo nos funkeiros, em certo tipo de feministas, na falta de critério da universidade, …e numa acadêmica que dissertou sobre a cultura pelviana.

Curioso é que a loirinha do SBT recebeu de mulheres engajadas até ataques do estilo slut-shaming, pondo em dúvida se ela era bem resolvida; uma verdadeira afronta desde a perspectiva feminista.

Se a Sheherazade sabe fazer o quadradinho de quatro, ou até o de oito, eu não sei. O fato é que a contundência da paraibana tem deixado exasperado todo mundo. Confesso que eu mesmo já escrevi para ela reprovando uma das suas afirmações. Justiça seja feita, porém: a Rachel quase sempre diz o óbvio tantas vezes ignorado por pessoas ilustradas e de “boa reputação”.

Só os profetas veem o óbvio. Mas os jornalistas conseguem transformá-lo num cavalo de batalha. O duro é que a sociedade precisa menos disso e mais de verdadeiros acadêmicos que contribuam positivamente para a nossa cultura.

Enquanto tantos idealizam subculturas, levantam bandeiras ideológicas, transformam a permissividade em ciência, poucos resgatam valores, propõem metas, estudam as fontes da moralidade.

Penso que a denúncia da Rachel faz sentido, mas atropela as devidas nuances. E mais uma vez constato que a massa que se diz intelectual atua em bloco procurando desclassificar quem não compartilha do seu pensamento tolerante.

Espero que ao cabo dessas Mil e Uma Noites de funk cultural, o rei Xariar não pretenda matar Sheherazade por causa da galinhagem de outras popozudas.


16 de fev. de 2013

Quo vadis, Papa?

Estava correndo contra o relógio a 140 km/h quando chegou o torpedo com que me comunicavam a renúncia de Bento XVI. Por sorte a surpresa não me causou um acidente, pois uns cones na pista tinham me feito reduzir a velocidade. 

Em duas semanas, dois chefes de Estado renunciaram: Beatrix da Holanda e Bento XVI da Santa Sé. A primeira pode se dar a esse luxo sem grandes polêmicas, mas o segundo… Quais seriam seus motivos? 

Sempre espere o inesperado. Nunca despreze os conceitos que costumam fazer visita a ritmo de cometa. Renuncie a julgar com ligeireza eventos surpreendentemente singulares. Mas não foi isso que vi na imprensa. Sem dúvida, há pressa em noticiar, em explicar, em comentar, em interpretar. Contudo, quanta pena senti diante da superficialidade de Luís Felipe Pondé, ou da amargura despeitada de Genézio (Leonardo) Boff, ou das teorias conspiratórias de tantos outros críticos acerbos. 

Mais uma vez, o Papa se apresentou como “sinal de contradição”, revelando o segredo de tantos corações que descarregam na Igreja o fel da própria consciência. Após um luminoso pontificado, repleto de conquistas sem precedentes, ainda há quem teime em considerá-lo um fracasso. Ou até quem acuse Bento XVI de ter traído Santo Agostinho e passado para o partido de Pelágio: com efeito, a graça não é mais importante que a mera força humana? 

Quando li a notícia, logo me veio à cabeça a famosa frase apócrifa dos Atos de Pedro, inspirada em Jo 16,5, e imortalizada pela obra de Henryk Sienkiewicz: Quo vadis, Papa? — Papa, aonde vais?

O texto do martírio de São Pedro conta como o velho pescador, informado da cruel perseguição, partiu solitário de Roma a fim de servir o Senhor, mas permanecendo vivo. Ao sair, encontra o próprio Cristo no caminho, a quem pergunta: “Senhor, aonde vais?” (Quo vadis, Domine?

E o Mestre lhe responde: “Vou a Roma para ser crucificado”. Ao que Pedro perguntou: “Serás crucificado novamente?” Mas Jesus lhe respondeu: “Não, Pedro, agora mesmo já estou sendo crucificado”. Então Pedro caiu em si e, vendo que o Senhor subia ao céu, retornou a Roma feliz de saber que seu destino seria o mesmo que o do seu Mestre.

Uma rápida analogia levaria a julgar a renúncia ao sólio pontifício com o mesmo rigor adotado por Dante Alighieri diante da abdicação de Celestino V, o santo papa medieval que o poeta afirma encontrar logo à entrada do Inferno (III, 58-60): 


Alguns já distinguira: eis, de repente,
Olhando, a sombra conheci daquele
Que a grã renúncia fez ignobilmente. 


Ao que parece, São Celestino — conhecido por Dante em 1294 — renunciou perante o Consistório após cinco meses de pontificado por causa de uma astuta campanha do cardeal Gaetani, destinado a sucedê‑lo com o nome de Bonifácio VIII. Desterrado e mantido praticamente prisioneiro em condições desumanas, Celestino veio a morrer dois anos depois. 

Mas o juízo dantesco foi paradoxalmente superado pelo juízo eclesiástico, que elevou à glória dos altares o pobre pontífice acorrentado pelas malhas da intriga. 

A única presunção cabível no caso de Bento XVI, um pastor consciente da gravidade do seu ato, um homem santo, dado à oração e à reflexão, é que ele sofreu muito para chegar a tal decisão e que viu mais benefícios do que prejuízos na mesma. Numa atitude franca e humilde, explicou suas razões aludindo à saúde física e espiritual que estão aquém das necessidades da Igreja neste concreto momento histórico. Portanto, mais do que indagar acerca das debilidades de Bento XVI, é preciso investigar a vulnerabilidade especial que sofre a Igreja de hoje, a ponto de o Papa optar por uma solução tão inusitada. 

Já se disse com muito boa intuição que, com essa renúncia, Bento XVI coroou o ciclo de abnegações que norteou a sua vida de entrega a Deus. Sem dúvida, à pergunta quo vadis, Papa?, ele poderia nos responder como o próprio Senhor: “vou a Roma para ser crucificado” ou — por que não? — “agora mesmo já estou sendo crucificado”. 

***
Transcrevo a passagem original do apócrifo:

Ὡς δὲ ἐξῄει τὴν πύλην, εἶδεν τὸν κύριον εἰσερχόμενον εἰς τὴν Ῥώμην.
Καὶ ἰδὼν αὐτὸν εἶπεν· Κύριε, ποῦ ὧδε;
Καὶ ὁ κύριος αὐτῷ εἶπεν· Εἰσέρχομαι εἰς τὴν Ῥώμην σταυρωθῆναι.
Καὶ ὁ Πέτρος εἶπεν αὐτῷ· Κύριε, πάλιν σταυροῦσαι;
Εἶπεν αὐτῷ· Ναί, Πέτρε, πάλιν σταυροῦμαι.
Καὶ ἐλθὼν εἰς ἑαυτὸν ὁ Πέτρος καὶ θεασάμενος τὸν κύριον εἰς οὐρανὸν ἀνελθόντα,
ὑπέστρεψεν εἰς τὴν Ῥώμην ἀγαλλιώμενος καὶ δοξάζων τὸν κύριον,
ὅτι αὐτὸς εἶπεν· Σταυροῦμαι· ὃ εἰς τὸν Πέτρον ἤμελλεν γίνεσθαι.
(Atos de Pedro, XXXV, 9-16) 

13 de nov. de 2012

Os nove grandes Doutores

Na abside da Basílica de São Pedro, em Roma, encontra-se o monumento à Cátedra do Apóstolo, obra adulta de Bernini, realizada em forma de um grande trono de bronze, sustentado pelas imagens de quatro Doutores da Igreja, dois do Ocidente, Santo Agostinho e Santo Ambrósio, e dois do Oriente, São João Crisóstomo e Santo Atanásio. 

A Cátedra de São Pedro faz referência a um antigo costume romano. Estes celebravam seus defuntos em fevereiro, concluindo suas comemorações a 22 desse mês. Junto aos túmulos, tomavam um repasto sagrado, deixando uma cadeira vazia em representação do antepassado falecido. Rapidamente, o dia 22 de fevereiro passou a recordar a “cátedra” de seu defunto mais ilustre — São Pedro —, junto de cujo túmulo tomavam a refeição eucarística.

A partir do século IV, a expressão “cátedra” também passou a significar a sede fixa do Bispo, posto na igreja matriz de uma diocese, que por isso é chamada de catedral, e constitui o símbolo da autoridade e do magistério do Bispo. 

A presença dessas quatro figuras de Bernini, sustentando a cátedra petrina, evoca a importância que esses homens tiveram — e têm — para a fé da Igreja.

Ambrósio, Gregório, Agostinho e Jerônimo
Agostinho e Ambrósio já figuravam como as grandes luminárias do Ocidente, desde 1298, ao lado de Jerônimo e Gregório I, o Grande. A partir de 1568, São Pio V juntou-lhes outras quatro personalidades eminentes do Oriente: Atanásio, João Crisóstomo, Basílio, o Grande, e Gregório Nazianzeno.

No mesmo ano, Tomás de Aquino foi associado à companhia tão seleta, na qualidade de único Doutor até então não pertencente à Antiguidade. É Doctor Communis, tanto para o Ocidente quanto para o Oriente. 

Atanásio
Aqui seria excessivo falar de todos eles detalhadamente. Mas faço questão de pinçar uma frase de cada um, colhidas do livro Os Doutores da Igreja, de Jean Huscenot:

1) Atanásio, Patriarca de Alexandria (298-373), cinco vezes exilado, responde aos policiais que perguntavam por ele: “Vi Atanásio sim. Ele está pertíssimo!”

2) Basílio Magno, Bispo de Cesareia (330-379): criador de um hospital, advertia os que se despreocupam do próximo: “Não há dúvida de que oprimes tantas pessoas quantas as que poderias ajudar.”

Os amigos Basílio e Gregório
3) Gregório Nazianzeno, Arcebispo de Constantinopla (329-373): amicíssimo de Basílio, confessa: “Cada qual tem o seu ponto fraco; o meu é a amizade!” 

4) Ambrósio, bispo de Milão (340-397): apelidado de Doutor da Virgindade, dirá a quem não preza o matrimônio: “Quem condena o vínculo conjugal condena também os filhos e a sociedade.”

5) João Crisóstomo, Arcebispo de Constantinopla (347-407): sem papas na língua, acabaria sendo perseguido por todos os lados. Dentre suas invectivas, destaca-se esta contra os avarentos: “Ide ao altar da avareza e lá sentireis um cheiro forte de sangue humano. (…) É que a avareza quer a alma da vítima e também a do seu sacrificador.”

Crisóstomo
6) Jerônimo (347-420): após ter sua casa incendiada pelos invejosos hereges pelagianos, escreve: “Vale mais mendigar o pão do que perder a fé.”

7) Doctor gratiæ Agostinho, bispo de Hipona (354-430): a humildade intelectual da maior inteligência do Mundo Antigo o levou a revisar sua vasta obra: “Quero submeter a um escrupuloso exame tudo o que escrevi — livros, cartas ou tratados — e assinalar severamente as suas faltas… Julgar-me a mim próprio, na presença do único Mestre, é o meu único recurso para escapar ao rigores dos seus juízos.”

8) Gregório I Magno, Papa de Roma (540-604): considerado o último dos romanos, transmitiu à Idade Média a herança da Antiguidade que naufragava. Homem versátil e capaz, reivindicava para si o título exclusivo de “Servo dos servos de Deus”, reconhecendo que lhe coubera estar na transição das épocas: “Sacudido pelas vagas das questões, sinto a tempestade roncar por cima da minha cabeça.”

Tomás
Para finalizar, um conselho do Doctor Angelicus, Tomás de Aquino (1225-1274), acerca do presente tema:

“Ora, Deus comunica a verdade pelo brilho da sua natureza;
os doutores são apenas seus ministros,
os quais, portanto, devem ser puros, inteligentes, fervorosos e dóceis.
Por si mesmos, não têm nenhuma suficiência, 

mas podem esperar tudo de Deus”.

25 de out. de 2012

Pitada de ódio

Discussão é como flash no escuro: mais cega do que ilumina. E também já escrevi alguma vez que nossas palavras são facas.

Amar é saber olhar. Amar é atribuir valor. Cortesia é amor que leva a distrair-se de si. Mas quem nunca passou pela experiência de odiar o que ama, desviar-lhe o olhar, esquecer dele?

Explico-me.

Thomas Mann escreveu no terceiro capítulo de Carlota em Weimar: “Certas coisas só são ditas porque alguém penetrou mais profundamente que qualquer outro e porque o objeto se mantém facilmente diante delas; então o entusiasmo fala a linguagem da maledicência e a crítica se transforma em uma espécie de adoração.”

Isso é fácil de constatar, pensando-se em times de futebol. Difícil de viver sem ferir, referindo-se aos relacionamentos.

16 de out. de 2012

Ração diária de pornografia

O coração da mulher encerra desejos de amor, de carinho, cuidado, beleza, entrega, confiança. A pornografia, por sua vez, é uma grande rival do sonho e da esperança de amor, pois os transforma em pura fantasia. E, como em todo carnaval, quando caem as máscaras, sobram apenas cinzas.

A pornografia pode ser experimentada de diversas formas, mas não importa como, sempre assusta e machuca.

Sinto-me empurrado a escrever isso por causa duas tristes coincidências: a frequência com que me deparei, recentemente, com mulheres adictas à pornografia, da qual sorvem tragos diários; e a difusão de formas sofisticadas de erotismo, como, por exemplo, a altporn (“baixaria alternativa” que inclui tatuagens, piercings, etc.).

É evidente que isso decorre da cultura permissiva, do feminismo mal entendido, das mentiras propaladas sobre a sexualidade, das facilidades da Internet, etc. Não cabe fazer aqui uma pesquisa de conjuntura ou averiguar o alastramento do problema. Gostaria apenas de traçar quatro linhas para análise.

I

Em primeiro lugar, estão livros como Comer, rezar, amar. Esse tipo de literatura vazia escorrega facilmente para coisas ainda mais deletérias, como a trilogia dos Tons de cinza. Para quem não sabe, é um romance sobre sadomasoquismo e bondage (tem gente que é amarrada em “amarração”, no sentido literal).

O último grito foi a recém-lançada obra de Regina Navarro Lins sobre o amor, em dois volumes, que é um muito mal intencionado monumento à ignorância. Em minha opinião, aqui se cumpre à letra a definição de Thomas Kuhn para mudança de paradigma, segundo a qual, quando se muda a mentalidade, incapacita-se para a compreensão da mentalidade anterior. Com efeito, a sexóloga reinterpreta toda a história da humanidade com a lente distorcida da libertinagem.

Com base na artificial distinção filosófica entre amor e sexo, a autora projeta essa altercação ao longo do tempo como um embate entre força ou fraqueza, virtude ou pecado, glória ou perdição, domínio ou liberdade, etc. Como não podia faltar, a Igreja sai chamuscada na fogueira inquisitorial da autora, que lhe atribui um pretenso rechaço da sexualidade.

II

O segundo volume do livro alcança o século XXI, ao abordar o sexo virtual ensejado pela revolução tecnológica.

Aqui nos deparamos com outra linha do problema. A camuflagem virtual pode levar a dedicar muito tempo a estranhos. Lindos avatares escondem carência de virtudes; e singelas trocas de mensagens podem se tornar intermináveis discussões inúteis e possessivas. A webcam tornou-se para muitos uma “webcama”. Desnecessário descer a detalhes a respeito.

III

Quanto ao consumo feminino de pornografia, é preciso apontar algumas especificidades bastante perversas.

A exploração do corpo (somatolatria) é algo que abala especialmente a mulher, pois lhe é inerente a preocupação pela aparência.

A ausência de contexto das cenas eróticas também lhe ferem mais a sensibilidade, que tenderia naturalmente à percepção das referências que dão suporte à relação amorosa.

E a imoralidade desse consumo amplia a vulnerabilidade da mulher, conduzindo-a a uma necessidade doentia de aprovação masculina.

IV

Por fim, é forçoso afirmar que sexo não é arte. Com a desculpa da estética, dos sentimentos, da contracultura, dos diabos, gente que se diz inteligente teima em apresentar a falta de pudor como algo natural.

Sexo não é arte porque o amor não é arte. Na verdade, esse tipo de comportamento irresponsável acaba encarando a maternidade e a família como arte mesmo, como peças de museu.

***

Para terminar de forma positiva, convém deixar aqui uma luz sobre os caminhos para a recuperação. A castidade é uma virtude belíssima, que enche de alegria o coração e purifica o olhar.

Um dos seus mais saborosos frutos é a amizade. Por isso, o altruísmo, a generosidade, o serviço, a criatividade operosa, etc., tudo isso pode ter caráter terapêutico na jornada rumo à harmonização do corpo, da mente e do espírito.

20 de ago. de 2012

Livros destrutivos

Engordar, idolatrar, fornicar
A gula, a ignorância religiosa e os desejos mais primitivos.
A bizarra aventura de uma mulher recalcada que, apesar de bem-sucedida e realizada, resolveu largar tudo e viajar para o fim do mundo, só para encontrar o que poderia conseguir na esquina: gastronomia, gurus e sexo.
Escrito com ironia, humor e esperteza, o best seller é um relato sobre a importância de colocar o próprio contentamento acima das responsabilidades familiares e profissionais e ao mesmo tempo declarar-se vítima da sociedade. É um livro para qualquer pessoa sem referências, ou que pensa que qualquer merda que fizer sempre será o caminho melhor, só por ser diferente.
Aclamado pelo The New York Times como um dos 100 livros mais rentáveis de 2006 e apontado pela Entertainment Weekly uma das mais lidas obras de não-ficção do ano, Engordar, idolatrar, fornicar originou o roteiro do filme homônimo.

Na margem do rio Piedra eu sentei e…
Quem se deixa levar pela paixão é vitorioso, mesmo que traia a Deus e o mundo. A verdadeira paixão leva ao suicídio moral. Este livro trata da importância desse suicídio. Os personagens fictícios simbolizam os muitos conflitos que nos acompanham na busca da Outra Parte (não me pergunte Parte do quê). Cedo ou tarde, temos de vencer nossos medos, já que o caminho espiritual se faz através da experiência diária da luxúria. — o Autor
A obra segue a linha esotérica cuja relação com o Caminho de Santiago de Compostela ainda não foi esclarecida. É um belo panfleto panteísta e feminista, no qual o protagonista masculino é tão mal descrito que se lhe atribuem três profissões diferentes ao longo da narrativa.
O relato flui como um rio de simplicidade: certo sujeito bem intencionado, que por acaso tem o dom de curas, resolve pedir à Virgem Maria que lhe retire o dom. Seu objetivo é ficar com a garota com quem ele dormiu, embora não se saiba o que tem a ver a cama com o dom medicinal. Letras grandes, gravuras sugestivas, transa bem contada. Digna obra de um Imortal da Academia!

11 de jun. de 2012

Quatro sintomas literários

Reúno algumas ideias expostas por Alcir Pécora na Academia Brasileira de Letras a 3/4/12.

Segundo Bill Readings, autor de A Universidade em Ruínas, a literatura ocupava na virada do século XVIII para o XIX um posto central na cultura, entre outros motivos em virtude dos nacionalismos e do seu enfrentamento com a ciência.

Na era do pós-Estado (já que estamos na pós-era: a pós-modernidade é isso!), não há mais porquê a literatura manter tal centralidade. Por exemplo, desde os anos 60, a literatura vem marcada pela crítica da representação, pela crítica dos paradigmas. Ela sofre uma espécie de sanha iconoclasta, graças à esterilidade do relativismo literário que desautoriza a crítica literária.

Quatro são as consequências desse estado de coisas:

1. “Epifania linguageira”: centralidade da linguística no diálogo cultural, com um ufanismo míope e repetitivo. É o neossubstancialismo da linguagem, que a apresenta como mais um objeto entre as demais coisas.

2. Viver à época dos estudos culturais: rechaço da tradição normalizadora, com seus cânones dependentes da hierarquia política (raça, gênero, religião, etc.). Aceitação da literatura de testemunho, em que o trauma é nuclear e se faz, paradoxalmente, a última esperança ontológica do escritor. Interpreta-se a sustentação de cânones como tradicionalismo não revisionista. Cultura e minoria tornam-se os personagens de uma nova épica.

3. Doença do “presentismo”: a crítica do cânone inflacionou o corriqueiro e levou ao apogeu do arquivo, pois tudo parece valer a pena. “Se Vieira não anotar a profecia, ela ocorrerá antes de ser dita”. É o “museu de tudo”. Todos se sentem na necessidade de profetizar a própria experiência. Os eventos são patrimonializados. Sofre-se a vontade de mapear. É a abolição da hierarquia. O passado deixa de ser a infância do presente para se tornar a oportuna rapina do hoje. Enseja-se a positivação da multiplicidade e da diversidade. O coetâneo se justifica sem argumento e debate.

4. Literatura feita mera ilustração da teoria literária: impõe-se aos pesquisadores a química porca de ter de ler as obras com lentes pré-concebidas. A alienação se faz tamanha que se pensa poder extrair de grupos de obras “poéticas” e “teorias”.

Para superar tal fim de linha intelectual, é preciso dramatizar os aspectos dessa crise. O democratismo, em que cada um se faz artista de si mesmo, tem na internet uma aliada e na indústria cultural uma fonte de desvarios.

Por isso, abdicar de juízos de valor implica perder-se ao começar. Literatura é noética, sem o que só merece riso e patrocínio. Não se deixe levar pela indústria de sequestros literários. Seja crítico, mas um crítico exigente.

11 de mai. de 2012

A fêmea do tisiu

Algo parecido ao que me referia quando falei do meu tweet mais sincero tem ocorrido no Facebook. Tenho visto postados cartazes com dizeres inspiradores ou atribuídos a personalidades importantes, mas faltos de conteúdo e deveras enganadores.

Por exemplo, um desses cartazes dizia que se o plano A der errado, fique tranquilo, pois ainda haveria outras 26 letras. Logo, o alfabeto teria 27 letras?!?

Outro, ainda pior, afirmava:

“Os animais do mundo existem para seus próprios propósitos. Não foram feitos para os humanos, do mesmo modo que os negros não foram feitos para os brancos, nem as mulheres para os homens” (Alice Walker, premiada escritora americana, ativista feminista e vegetariana).

Pergunto-me: bichos, negritude e mulheres pertencem à mesma categoria? Fora o idioma dyirbal, dos aborígenes australianos de Queensland (em que as mulheres pertencem ao mesmo gênero de água, fogo e correlatos, violência, criaturas e fenômenos perigosos), desconheço onde mais será feita em sã consciência tão bizarra analogia. 

(Uma digressão: por isso mesmo, gostaria de ler o livro de George Lakoff: Women, Fire and Dangerous Things, sobre as categorias mentais.) 

Mais: animais têm “propósitos”? Ou ainda: os mesmos homens que defendem a escravidão negra (ainda existem?) pretendem mesmo “usar” as mulheres?

Em suma, aquela afirmação feminista-ativista-vegetariana estabelece uma analogia, presumindo uma inferência de baixíssima probabilidade.

Nessas horas sinto vergonha alheia.

9 de abr. de 2012

Entre o sonho e a alegoria

C. S. Lewis foi o rei da alegoria. Mas será mesmo sinal de profundidade ser capaz de criar analogias e parábolas instigantes, ilustrações através das quais procuramos reexplicar o que já sabíamos?

Não é o que parece se pensar nos nossos dias. Alegoria ou é fantasia carnavalesca ou é coisa para crianças. Afinal, para que fantasiar se podemos andar nus?

Por outro lado, quem sabe usar as armas da alegoria facilmente consegue mudar a valência das histórias. Não foi assim que Philip Pullman escreveu a Bússola de Ouro, invertendo os valores de A Crônica de Nárnia?

Por sua vez, Freud e Jung usaram a alegoria para ensinar a sonhar, para descobrir nas imagens diluídas de um sono estranho a vastidão do nosso inconsciente. E Dalí ensinou a pintar, a plasmar em relógios derretidos, a beleza do nosso “algo desconexo” mais íntimo.

No mundo dos sonhos, mais que ambivalência, há contradições, divórcios reatados. Como o malandro que, expulso de casa pela mulher, lhe diz que irá procurar sua ex. Ela fica ainda mais revoltada, mas então ele bate imediatamente à sua porta e diz: — “Aqui estou, minha ex!”

Aqui a beleza é redundante, pois fica encerrada na própria coerência, sem fazer referência linear a quaisquer parâmetros externos previsíveis.

Mas… E o mito? Ah, o mito! O mito está entre o alegórico e o onírico. Ora pende a um, ora pende a outro. Nem Leão, feiticeira e guarda-roupa, nem O homem que foi quinta-feira.

6 de mar. de 2012

Leituras maçantes

O livro Lição Final primava por sua ausência entre minhas prioridades. Contudo, forçosas viagens de carro me levaram a “lê-lo” através de sua versão em audiolivro. Quanto mais avançava nos mp3, mais desejava que — de fato — aquilo fosse a lição final.

Numa dessas viagens, fiz um amigo ouvir comigo um pedaço. Ao chegarmos ao destino, ele declarou:

— Esse cara é fundamentalmente um chato!

Que Deus o tenha

Sem dúvida, o professor Randy Pausch foi uma pessoa singular. Informado que teria apenas seis meses de vida devido a um câncer, compareceu a Carnegie Mellon University para sua palestra final, intitulada Concretizando realmente seus sonhos de criança. Apenas cinquenta dias depois, mais de 25 milhões de pessoas já se tinham tornado seus admiradores. No livro em questão, ele deixa um legado para sua família e seus leitores.

Pode parecer chocante chamá-lo de chato, mas sinto a necessidade de concordar com meu amigo. Que eu reze por seu eterno descanso não me proíbe de afirmar que o livro foi um petardo.

Indícios da chatice

Chatice pode ser algo relativo. De qualquer modo, aponto alguns aspectos do livro que levaram a tal veredito:

Em primeiro lugar, vem o American way of life. Essa visão clichê acerca dos sonhos, conquistas e sucessos é demais para a cabeça.

Depois, vem esse tom de autoajuda autorizado pela morte. Se não anima vivo, quanto mais morto.

Por fim, vem esse paradigma de uma pretensa santidade laica. Randy Pausch praticamente é canonizado sem Deus. Não há cristão que o aguente.

O fim da linha

O final do livro é melancólico por duas razões:

Primeiro, o autor se apresenta como homem que sabe curtir a vida porque, próximo à morte, comprou um conversível e fez uma vasectomia. Já se vê quais eram seus valores. Por outro lado, essa aparente paternidade responsabilidade contradiz tudo o que ele afirmou sobre os próprios filhos. É como se dissesse: caso o câncer tivesse chegado uns meses antes, o caçula não existiria.

A segunda razão é sua falta de coerência cristã. É possível inferir da leitura que ele era protestante e que frequentava sua comunidade eclesial. Contudo, faz questão de não citar a Deus. Pior, afirma categoricamente que evitou na sua palestra quaisquer referências à religião para não suscitar divisões. Só que traz uma vaga citação de Krishnamurti: “Diga a seu amigo que quando ele morrer, uma parte de você irá com ele. Aonde quer que ele vá, você também irá. Ele não estará só”. Ou seja, se ele for para o inferno, você irá com ele. Não se entende como uma pessoa que se considera cristã pode pôr entre parênteses a Cristo, renunciar ao zelo pelas almas ou atuar sem esperança na vida póstuma.

Conclusão

Sem dúvida, é possível tirar coisas boas do livro e aprender do autor muitas virtudes. Contudo, diante da profusão de livros para ler, é sempre bom relembrar a distinção entre livros bons e livros inúteis.

18 de jan. de 2012

Leopoldina é que era mulher de verdade

A leitura das cartas da Imperatriz Leopoldina me fez saber de forma mais significativa que os príncipes eram preparados para o Estado mediante uma educação tão esmerada que faz parecer nossas melhores escolas uma brincadeira de criança.

Com efeito, a futura Imperatriz brasileira, da casa dos Habsburgos, aprendeu enquanto jovem as lides do campo e da pecuária, foi treinada para vencer a timidez através da oratória e da dramaturgia, capacitou-se para a diplomacia mediante o estudo de diversas línguas, compreendeu a importância das artes e das ciências pelo contato direto com seus métodos, etc.

Ao casar-se com Dom Pedro I, Leopoldina ressentiu-se da inferioridade da educação na corte portuguesa, agravada pela precariedade que supôs a vinda ao Brasil. Além disso, penou com a artificialidade que os lusos revestiam inclusive a piedade e a liturgia.

O fim da monarquia trouxe consigo o rechaço pela pompa. Mas não parou na repulsa à ostentação: seguiu-se uma gradativa diminuição do requinte, do esmero, da delicadeza, do tom.

Sem dúvida, a simploriedade, a pressa e a informalidade tornaram-se as indesejáveis companheiras das liberdades modernas.

12 de dez. de 2011

Sabedoria mórbida

O conhecimento é um valor que todos desejam, ainda que alguns o dissimulem: quando aprendemos algo novo logo vamos contar aos amigos e queremos que eles participem da nossa descoberta.

Já a curiosidade é o desvio dessa tendência: ao invés de nos fixarmos no que é importante, deixamos de lado os nossos deveres e gastamos tempo com futilidades (por exemplo, trocar a verdadeira cultura dos livros e da arte por um verniz diário de videoshow).

A curiosidade é sinal de total esterilidade e desenraizamento, de incapacidade de habitar em si próprio. É a fuga de si, pelo tédio da aridez interior. É trilhar caminhos baldados num angustioso egoísmo, em vez de aceitar o sacrifício. Heidegger qualifica-a como ficção de vida intensamente vivida.

1. Se a curiosidade entra na vida alheia, dá-se pasto à maledicência, calúnia, bajulação, adulação, complacência, jactância, ironia, mentira, violação de segredos, juízo temerário, falso testemunho, perjúrio. Ou seja, uma turminha da pesada.

2. Se a curiosidade entra na vida religiosa, recorre‑se à magia, ao ocultismo, ao esoterismo, ao fantástico. Não se deve perder de vista que temas como “4.º Segredo de Fátima”, interpretações atuais do Apocalipse, “profecias de Nostradamus”, parapsicologia, “brincadeira do copo”, horóscopo, método Silva de Controle Mental, autoajuda através da Bíblia, etc., além de estarem bem próximos à heresia, em nada ajudam a piedade e alienam pessoas crédulas.

Um saldo positivo da curiosidade pode ser a erudição. A sabedoria, contudo, exige ir além, mediante dois passos ulteriores: a instrução e a cultura.

Instrução é saber sistematizado, coerentemente estruturado. A insuficiência da instrução como remédio da curiosidade fica comprovada quando a descrição da realidade produz um sistema fechado e inservível, que apenas gera contraste de opiniões sem nunca conduzir à verdade. Caso típico das ideologias.

Cultura é saber assimilado, pensamento sobre conhecimentos. As ideias próprias nascem quando chegamos às mesmas produtos de outros (conhecimentos adquiridos) através de nossos próprios processos (pensamento).

Portanto, para adquirir conhecimento, sistematizá-lo e assimilá-lo, precisamos percorrer esses três passos:

1. Lembrar: reter, colecionar, ampliar.

2. Pensar: considerar, discernir, aprofundar.

3. Estudar: duvidar, idealizar, solucionar.

Cada nível supõe o anterior. E, para chegar a tanto, é preciso aguçar a inteligência com ordem e aproveitamento do tempo.

19 de nov. de 2011

Nas tranças do Levítico

Tweet apologético

Nunca pensara que escreveria sobre o Levítico neste blogue. Mas senti-me forçado depois de uma recente discussão no Twitter, causada por falsas afirmações de uma revista acerca do homossexualismo na Bíblia. Concretamente, fiquei surpreso com a animosidade de que é alvo esse livro bíblico.

Confesso que a primeira leitura que fiz do Levítico, bota ano nisso, me deixou confuso, decepcionado e decidido a não retornar tão cedo às suas páginas, as quais me pareceram um aglomerado de leis obsoletas e sem conexão entre si. Na verdade, hoje posso afirmar — com a percepção que dá o tempo e com o prazer de releituras posteriores —, que a minha primeira impressão era muito equivocada e que só me ocorreu pensar assim naquela altura porque então eu era incapaz de realizar uma leitura sincrônica.

O que é isto? Explicando de forma imprópria, bem simples e aproximada, sincronia seria o princípio de que a Escritura como um todo possui um sentido comum que unifica cada uma de suas partes, posto que tem a Deus por autor e o seu Povo por destinatário.

Na prática, porém, muita gente se esquece disso. Com efeito, muitos se questionam: o que torna unitária essa coleção tão heterogênea? Quase uma centena de livros e cartas escritos em três idiomas diferentes, ao longo de mais de mil anos, pode mesmo ser considerada uma mensagem unívoca?

A resposta é simples: a revelação está materialmente contida na Bíblia e formalmente na Tradição Apostólica. Este postulado é imprescindível para evitar a destruição da própria Bíblia. Do contrário, o que me impediria de acrescentar às Escrituras os diálogos de Platão… ou dela retirar o Levítico?

Em conclusão: só a Tradição dá a chave hermenêutica necessária para se compreender a totalidade da Escritura. Exemplo disso é que Lutero, ao renegar a Tradição, retirou do cânon os livros que quis.

A destruição da Bíblia

Tirado o pilar de uma leitura sincrônica, a destruição da Bíblia ocorreria em vários níveis e sob diversas abordagens. Apontemos alguns:

1. Desprezo pelo Antigo Testamento. É coisa antiga, do século II. Mas se manifestou ao longo da história de muitas formas. Atualmente, talvez seja motivado pelo rechaço cientificista à leitura protestante fundamentalista da Bíblia.

2. Redução dos textos a meras alegorias. Típico do século XIX, quando as conquistas científicas pareciam desautorizar quaisquer descrições poéticas do cosmo, ou faziam duvidar dos relatos historiográficos alheios aos cânones acadêmicos.

3. Condenação das instituições antigas com base em convicções modernas. Tem ares de sabedoria mas oculta grande miopia. Equivale a não conseguir realizar a “osmose”, isto é, a fusão de horizontes com o passado. É a incapacidade de criar interfaces, de conjugar a “estraneidade” (o homem de hoje versus o homem de ontem) com a “copertença” (solidariedade intergeneracional).

O Levítico hoje

Não vale a pena fazer aqui um tratado para defender o Levítico, que naquela discussão levou a culpa de coisas que o livro nem afirma. Mas gostaria de explicitar alguns tópicos, demonstrando como sua doutrina é perene:

1. Lei de talião (Ex 21,23ss; Lv 24,19s; Dt 19,21): Grande princípio civilizatório da equidade nos julgamentos. É basilar para qualquer sistema jurídico. Modera a vingança. A caridade cristã é sua radicalização: “A ninguém pagueis o mal com o mal. Empenhai-vos em fazer o bem diante de todos. (…) Vence o mal com o bem” (Rm 12,17.21b).

2. Pena capital para a sodomia (Lv 20,13): Legislação vigente em todo o planeta até bem pouco tempo atrás (nunca foi exclusividade do Levítico). De qualquer modo, a Bíblia não atesta nenhum caso de aplicação dessa sanção em Israel. Recorde-se que muitas leis têm caráter meramente pedagógico.

3. Amor ao próximo (Lv 19,18): princípio de humanização, que estimulava o respeito aos estrangeiros. Embora a tradição judaica da época de Cristo admitisse uma interpretação restrita e nacionalista, o mandamento foi radicalizado no Novo Testamento: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34).

4. Costumes escravistas: a lei mosaica continha dispositivos humanitários que regulavam o regime da vida servil, comum na Antiguidade (e até recentemente). São Paulo estimularia uma atitude ainda mais generosa entre os cristãos (Fm 15-21).

***

Quanto às “tranças” do título desta postagem, só resta dizer que o Levítico proíbe confeccionar tecidos com dois tipos de fio (cf. Lv 19,19). Vai na mesma linha das dietas especiais dos judeus e das indumentárias que lhes são impostas. O que os separa ou segrega (etimologicamente, “secciona, santifica”) dos outros povos é essa série de costumes que os tornam diferentes.

A santidade cristã, porém, é interior; não está no comer, no beber ou em outras observâncias externas. Afinal, de que vale ter o corpo bem vestido, se o tecido da alma está trançado de ideias, sentimentos e vontades conflitantes?

25 de out. de 2011

Amor na berlinda

Após apresentar as 31 regras ditadas pelo Rei do Amor e as 12 regras essenciais do amor, coligidas na Summa amoris de André Capelão, penso ser o momento de pôr tal amor na berlinda.

Afinal, quem é o bendito amor??? O que é? Como é?

Amorosamente incorreto

A definição apresentada por André Capelão é: uma paixão natural que nasce da visão da beleza do outro sexo e da lembrança obsedante dessa beleza (I, I, in principio).

Nesse momento é preciso deixar bem claro que o amor só pode existir entre pessoas do sexo oposto. Não pode existir entre dois homens ou duas mulheres: duas pessoas do mesmo sexo não são absolutamente feitas para se propiciarem mutuamente os prazeres do amor ou para realizar os atos naturais que lhe são próprios. E o amor envergonha-se do que a natureza veda (I, II, in principio).

Anzol de corações

Ainda conforme André, amor vem do verbo amar, que significa ‘prender’ ou ‘ser preso’. Pois quem ama fica preso nas malhas do desejo e deseja prender o outro em seu anzol (I, III, in principio).

De fato, segundo Santo Isidoro de Sevilha, amicus vem de hamus, laço [de afeição] (cf. Etimologias, X, L, 5). No mesmo sentido, sentenciou São Pedro Damião (PL 145,965 c):

Hamat amor varios, scindit discordia iunctos.
— O amor fisga seres opostos; o ódio separa os que estão juntos.

E, na mesma linha, Pitra, abade de Solesme (Spicilège de l’abbaye de Solesme, III, 491):

Non amor, infelix, sed amo; non hamo, sed hamor;
Hamor et hoc hamo: pectus inhamat amor.
— Ai de mim! Não sou amado, mas amo; não fisgo mas sou fisgado;
sou fisgado e entendo que o amor fisga o coração.

Gradual, como a extensão do corpo

André Capelão também fala que desde a Antiguidade foram distinguidos quatro graus diferentes em matéria de amor. O primeiro consiste em dar esperanças; o segundo, na oferta do beijo; o terceiro nos prazeres das carícias; o quarto, enfim, tem por termo a doação total da pessoa (I, VI, A).

Sendo algo tão carnal, como não admitir sua obsolescência? Não à toa, Cícero afirma (Tusculanas, IV, 35), num comentário que faz jus à regra XVII do Rei do Amor:

Etiam novo quidam amore veterem amorem tamquam clavo clavum eiciendum putant.
— Acredita-se até que assim como um prego expulsa o outro, o amor novo expulsa o antigo.

14 de out. de 2011

31 regras ditadas pelo Rei do Amor

Regras do amor, lavradas em manuscrito e ditadas pelo próprio Rei do Amor (cf. Tratado do Amor Cortês, Livro II, pág. 260-2):

I. O casamento não é desculpa válida para não amar.

II. Quem não tem ciúme não pode amar.

III. Ninguém pode ligar-se a dois amores ao mesmo tempo.

IV. É certo que o amor sempre aumenta ou diminui.

V. O que o amante obtém sem assentimento da amante não tem sabor algum.

VI. O homem só pode amar depois da puberdade.

VII. Depois da morte do amante, quem sobreviver deverá esperar dois anos.

VIII. Ninguém deve ser privado do objeto de seu amor sem a melhor das razões.

IX. Ninguém pode amar de verdade se a isso não for incitado pelo amor.

X. O amor sempre abandona o domicílio da avareza.

XI. Não convém amar mulher que nos envergonhe desposar.

XII. O verdadeiro amante não deseja estar em outros braços que não sejam os de seu amante.

XIII. Quando o amor é divulgado, raramente dura.

XIV. A conquista fácil torna o amor sem valor; a conquista difícil dá-lhe apreço.

XV. Todo amante deve empalidecer em presença do amante.

XVI. Quando um amante avista de repente a mulher amada, seu coração deve começar a palpitar.

XVII. Amor novo expulsa o antigo.

XVIII. Só a virtude torna alguém digno de ser amado.

XIX. Quando diminui, o amor desaparece depressa e raramente se revigora.

XX. O enamorado sempre tem medo.

XXI. O verdadeiro ciúme sempre aumenta o amor.

XXII. Quando se suspeita do amante, aumentam o ciúme e a paixão.

XXIII. Quem é atormentado por cuidados de amor come menos e dorme pouco.

XXIV. Todo ato do amante tem como finalidade o pensamento da mulher amada.

XXV. O verdadeiro amante não acha bom nada daquilo que não lhe pareça agradar à amante.

XXVI. O amante não sabe recusar nada à amante.

XXVII. O amante nunca se sacia dos prazeres que encontra junto à mulher amada.

XXVIII. A menor desconfiança leva o amante a suspeitar do pior na bem-amada.

XXIX. Quem é excessivamente atormentado pela luxúria não ama de verdade.

XXX. O verdadeiro amante é obcecado ininterruptamente pela imagem da mulher amada.

XXXI. Nada impede que uma mulher seja amada por dois homens e um homem por duas mulheres.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...