A misantropia de certo amigo meu desaparece diante de certas garotas. Por isso, já lhe disse, brincando, que ele não é misantropo, mas misândrico.
Contudo, ele tem algo de razão quando critica tanta invasão de privacidade.
— “Sai do meu quadrado!”
De fato, no quadrado do Facebook todo mundo é amigo. Tanto o colega de infância que o esqueceu, quanto a ex-namorada que bem conhece seus defeitos, assim como o chefe intratável e nossa querida genitora.
A culpa do uso tão elástico do conceito de amizade não é exclusiva do Facebook. Pais querem ser amigos dos filhos, maridos de suas mulheres, professores de alunos, políticos de eleitores, etc.
Seria o fim da solidão? Ou a diluição das relações? Lembre-se que, para a mãe do feminismo, Mary Wollstonecraft, a amizade é o termo chave para a renegociação do contrato sexual e para a nova democracia doméstica!
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19 de set. de 2013
30 de mai. de 2013
A ilusão das próprias contradições
A bandeira dos direitos humanos é um salvo-conduto no discurso da vanguarda política, mesmo à custa da coerência.
Bom exemplo é o artigo da promotora Fabiana Dal’Mas Rocha Paes, publicado em O Globo no dia 30/5/2013, que reúne todas as contradições cuidadosamente organizadas como o baralho de um castelo de cartas.
Em primeiro lugar, alude a uma “verdadeira democracia” que protege os interesses de militantes da “diversidade sexual”, mas ridiculariza o massivo protesto da sociedade francesa — liderado inclusive por um homossexual —, o qual foi ignorado pelos parlamentares daquele país.
Em seguida, afirma que a interpretação do artigo 226 da Constituição brasileira deve fugir da literalidade (casamento entre “homem e mulher”). Ora, tal princípio nos faria reféns da insegurança jurídica e permitiria ulteriores desdobramentos, como equiparar ao matrimônio a poligamia, a pedofilia, etc.
Na mesma linha, afirma que impedir o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo feriria o artigo 5º da Constituição, o qual veda a discriminação. Mas incapacidade equivale à privação de direito?
Curioso é que logo depois a promotora ousa dizer que todo o pensamento contrário é necessariamente religioso e, como tal, deve ser excluído do debate. Assim ela acaba de ferir esse mesmo artigo 5º da Constituição e os mais elementares princípios da racionalidade.
Finalmente, declara que o objetivo da militância é a instauração de um ideário de vanguarda tão alheio aos valores brasileiros que se poderia qualificar de totalitário.
Gostaria apenas de indagar à missivista: O que é o matrimônio? O que é a família? — Somente buscando uma resposta cabal a essas perguntas poder-se-á fortalecer a nossa sociedade e valorizar os verdadeiros direitos civis.
Bom exemplo é o artigo da promotora Fabiana Dal’Mas Rocha Paes, publicado em O Globo no dia 30/5/2013, que reúne todas as contradições cuidadosamente organizadas como o baralho de um castelo de cartas.
Em primeiro lugar, alude a uma “verdadeira democracia” que protege os interesses de militantes da “diversidade sexual”, mas ridiculariza o massivo protesto da sociedade francesa — liderado inclusive por um homossexual —, o qual foi ignorado pelos parlamentares daquele país.
Em seguida, afirma que a interpretação do artigo 226 da Constituição brasileira deve fugir da literalidade (casamento entre “homem e mulher”). Ora, tal princípio nos faria reféns da insegurança jurídica e permitiria ulteriores desdobramentos, como equiparar ao matrimônio a poligamia, a pedofilia, etc.
Na mesma linha, afirma que impedir o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo feriria o artigo 5º da Constituição, o qual veda a discriminação. Mas incapacidade equivale à privação de direito?
Curioso é que logo depois a promotora ousa dizer que todo o pensamento contrário é necessariamente religioso e, como tal, deve ser excluído do debate. Assim ela acaba de ferir esse mesmo artigo 5º da Constituição e os mais elementares princípios da racionalidade.
Finalmente, declara que o objetivo da militância é a instauração de um ideário de vanguarda tão alheio aos valores brasileiros que se poderia qualificar de totalitário.
Gostaria apenas de indagar à missivista: O que é o matrimônio? O que é a família? — Somente buscando uma resposta cabal a essas perguntas poder-se-á fortalecer a nossa sociedade e valorizar os verdadeiros direitos civis.
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16 de out. de 2012
Ração diária de pornografia
O coração da mulher encerra desejos de amor, de carinho, cuidado, beleza, entrega, confiança. A pornografia, por sua vez, é uma grande rival do sonho e da esperança de amor, pois os transforma em pura fantasia. E, como em todo carnaval, quando caem as máscaras, sobram apenas cinzas.
A pornografia pode ser experimentada de diversas formas, mas não importa como, sempre assusta e machuca.
Sinto-me empurrado a escrever isso por causa duas tristes coincidências: a frequência com que me deparei, recentemente, com mulheres adictas à pornografia, da qual sorvem tragos diários; e a difusão de formas sofisticadas de erotismo, como, por exemplo, a altporn (“baixaria alternativa” que inclui tatuagens, piercings, etc.).
É evidente que isso decorre da cultura permissiva, do feminismo mal entendido, das mentiras propaladas sobre a sexualidade, das facilidades da Internet, etc. Não cabe fazer aqui uma pesquisa de conjuntura ou averiguar o alastramento do problema. Gostaria apenas de traçar quatro linhas para análise.
Em primeiro lugar, estão livros como Comer, rezar, amar. Esse tipo de literatura vazia escorrega facilmente para coisas ainda mais deletérias, como a trilogia dos Tons de cinza. Para quem não sabe, é um romance sobre sadomasoquismo e bondage (tem gente que é amarrada em “amarração”, no sentido literal).
O último grito foi a recém-lançada obra de Regina Navarro Lins sobre o amor, em dois volumes, que é um muito mal intencionado monumento à ignorância. Em minha opinião, aqui se cumpre à letra a definição de Thomas Kuhn para mudança de paradigma, segundo a qual, quando se muda a mentalidade, incapacita-se para a compreensão da mentalidade anterior. Com efeito, a sexóloga reinterpreta toda a história da humanidade com a lente distorcida da libertinagem.
Com base na artificial distinção filosófica entre amor e sexo, a autora projeta essa altercação ao longo do tempo como um embate entre força ou fraqueza, virtude ou pecado, glória ou perdição, domínio ou liberdade, etc. Como não podia faltar, a Igreja sai chamuscada na fogueira inquisitorial da autora, que lhe atribui um pretenso rechaço da sexualidade.
O segundo volume do livro alcança o século XXI, ao abordar o sexo virtual ensejado pela revolução tecnológica.
Aqui nos deparamos com outra linha do problema. A camuflagem virtual pode levar a dedicar muito tempo a estranhos. Lindos avatares escondem carência de virtudes; e singelas trocas de mensagens podem se tornar intermináveis discussões inúteis e possessivas. A webcam tornou-se para muitos uma “webcama”. Desnecessário descer a detalhes a respeito.
Por fim, é forçoso afirmar que sexo não é arte. Com a desculpa da estética, dos sentimentos, da contracultura, dos diabos, gente que se diz inteligente teima em apresentar a falta de pudor como algo natural.
Sexo não é arte porque o amor não é arte. Na verdade, esse tipo de comportamento irresponsável acaba encarando a maternidade e a família como arte mesmo, como peças de museu.
Para terminar de forma positiva, convém deixar aqui uma luz sobre os caminhos para a recuperação. A castidade é uma virtude belíssima, que enche de alegria o coração e purifica o olhar.
Um dos seus mais saborosos frutos é a amizade. Por isso, o altruísmo, a generosidade, o serviço, a criatividade operosa, etc., tudo isso pode ter caráter terapêutico na jornada rumo à harmonização do corpo, da mente e do espírito.
A pornografia pode ser experimentada de diversas formas, mas não importa como, sempre assusta e machuca.
Sinto-me empurrado a escrever isso por causa duas tristes coincidências: a frequência com que me deparei, recentemente, com mulheres adictas à pornografia, da qual sorvem tragos diários; e a difusão de formas sofisticadas de erotismo, como, por exemplo, a altporn (“baixaria alternativa” que inclui tatuagens, piercings, etc.).
É evidente que isso decorre da cultura permissiva, do feminismo mal entendido, das mentiras propaladas sobre a sexualidade, das facilidades da Internet, etc. Não cabe fazer aqui uma pesquisa de conjuntura ou averiguar o alastramento do problema. Gostaria apenas de traçar quatro linhas para análise.
I
Em primeiro lugar, estão livros como Comer, rezar, amar. Esse tipo de literatura vazia escorrega facilmente para coisas ainda mais deletérias, como a trilogia dos Tons de cinza. Para quem não sabe, é um romance sobre sadomasoquismo e bondage (tem gente que é amarrada em “amarração”, no sentido literal).
O último grito foi a recém-lançada obra de Regina Navarro Lins sobre o amor, em dois volumes, que é um muito mal intencionado monumento à ignorância. Em minha opinião, aqui se cumpre à letra a definição de Thomas Kuhn para mudança de paradigma, segundo a qual, quando se muda a mentalidade, incapacita-se para a compreensão da mentalidade anterior. Com efeito, a sexóloga reinterpreta toda a história da humanidade com a lente distorcida da libertinagem.
Com base na artificial distinção filosófica entre amor e sexo, a autora projeta essa altercação ao longo do tempo como um embate entre força ou fraqueza, virtude ou pecado, glória ou perdição, domínio ou liberdade, etc. Como não podia faltar, a Igreja sai chamuscada na fogueira inquisitorial da autora, que lhe atribui um pretenso rechaço da sexualidade.
II
O segundo volume do livro alcança o século XXI, ao abordar o sexo virtual ensejado pela revolução tecnológica.
Aqui nos deparamos com outra linha do problema. A camuflagem virtual pode levar a dedicar muito tempo a estranhos. Lindos avatares escondem carência de virtudes; e singelas trocas de mensagens podem se tornar intermináveis discussões inúteis e possessivas. A webcam tornou-se para muitos uma “webcama”. Desnecessário descer a detalhes a respeito.
III
Quanto ao consumo feminino de pornografia, é preciso apontar algumas especificidades bastante perversas.
A exploração do corpo (somatolatria) é algo que abala especialmente a mulher, pois lhe é inerente a preocupação pela aparência.
A ausência de contexto das cenas eróticas também lhe ferem mais a sensibilidade, que tenderia naturalmente à percepção das referências que dão suporte à relação amorosa.
E a imoralidade desse consumo amplia a vulnerabilidade da mulher, conduzindo-a a uma necessidade doentia de aprovação masculina.
IV
Por fim, é forçoso afirmar que sexo não é arte. Com a desculpa da estética, dos sentimentos, da contracultura, dos diabos, gente que se diz inteligente teima em apresentar a falta de pudor como algo natural.
Sexo não é arte porque o amor não é arte. Na verdade, esse tipo de comportamento irresponsável acaba encarando a maternidade e a família como arte mesmo, como peças de museu.
***
Para terminar de forma positiva, convém deixar aqui uma luz sobre os caminhos para a recuperação. A castidade é uma virtude belíssima, que enche de alegria o coração e purifica o olhar.
Um dos seus mais saborosos frutos é a amizade. Por isso, o altruísmo, a generosidade, o serviço, a criatividade operosa, etc., tudo isso pode ter caráter terapêutico na jornada rumo à harmonização do corpo, da mente e do espírito.
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21 de set. de 2012
Três formas de falar da JMJ
Nesse contexto, é sintomática, embora não é surpreendente, a pouca ênfase que se tem dado à próxima Jornada Mundial da Juventude na mídia, que atrairá no mínimo um milhão e meio de pessoas de todos os países para ficarem quatro dias na cidade. Ou seja, um evento de impacto muito maior, tanto numérico quanto em termos de valores.
Não surpreende. Como também não surpreendem as estatísticas sobre a redução do número de católicos no país. A redução é evidente. Contudo, “evidente” significa aparente. Explico-me.
Vivemos num mundo de aparência. Todos tentamos aparentar ser melhores do que somos; o que não é mau, já que por causa desse esforço, talvez realmente melhoremos um pouco. E quem vende tenta fazer sua oferta aparentar qualidade, e quem pechincha tenta aparentar desinteresse, etc.
E a Globo tenta de modo cínico aparentar respeito pela Igreja Católica exibindo o recém-lançado hino da Jornada na despedida do Fantástico. E os “católicos engajados” tentam de modo artificial manifestar uma penetração social que não possuem mediante #hashtags no Twitter e curtições no Youtube.
Nada disso é mau. Tudo isso é sim uma maravilhosa oportunidade de descobrir a paixão por comunicar.
Nesse aprendizado tão curto — pois a JMJ está às portas! —, é urgente levar em conta três coisas ao explicar a JMJ para nossos amigos:
1) A JMJ é para todo mundo, justamente porque é “católica”, universal. Enquanto cismarem em etiquetá-la de “coisa de igreja”, será mesmo um fiasco. Ninguém hoje em sã consciência suporta esse ar rarefeito de sacristia.
2) Os “católicos engajados” precisam abdicar de demarcar território midiático. A população brasileira continua sendo católica, ainda que a maioria seja de católicos à deriva. Uma análise meramente sociológica, de observação externa, que nivela denominações de fundo de quintal com a Igreja é uma aberração estatística. Por isso, ser “missionário” fazendo guetos cibernéticos é contraproducente: apenas aprofunda o sentimento de alheamento dos que estão longe. Portanto, encantar com a JMJ, sem “panfletar” a JMJ.
3) O verdadeiro apostolado se realiza através da amizade, que é comunhão de vida, não de linguagem. As mídias não são a “linguagem dos jovens”, mas a linguagem de todos. É ridículo achar que se tem penetração social apenas porque se criou um site, por exemplo. O que falta de verdade é lançar boias aos que estão à deriva, ou ir ao encontro dos que não querem retornar. Por isso, o eventual “fiasco” a que eu fazia referência é a eventual perda de uma oportunidade ímpar de resgatar os que estão perdidos por aí. Mas talvez, dado o nosso terceiro-mundismo, essa oportunidade não seja nossa mesmo, e a JMJ já tenha valido só por remexer as águas.
Sem dúvida, a JMJ será um sucesso para os “engajados” brasileiros, para os estrangeiros e para os que abrirem os olhos quando virem o mar de gente confluindo para a Cidade Maravilhosa. Quem sabe então muitos dos que estão à deriva começarão a perceber que há um farol no meio desse mar da vida… ainda que não lhes tenhamos mostrado a tempo essa luz.
O negócio é trabalhar e confiar! Afinal, o efeito JMJ será mais fruto da graça do que dos esquemas.
E você? Em que poderia melhorar a sua forma de comunicar?
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Rosa de Saron
20 de ago. de 2012
Livros destrutivos
Engordar, idolatrar, fornicar
A gula, a ignorância religiosa e os desejos mais primitivos.
A bizarra aventura de uma mulher recalcada que, apesar de bem-sucedida e realizada, resolveu largar tudo e viajar para o fim do mundo, só para encontrar o que poderia conseguir na esquina: gastronomia, gurus e sexo.
Escrito com ironia, humor e esperteza, o best seller é um relato sobre a importância de colocar o próprio contentamento acima das responsabilidades familiares e profissionais e ao mesmo tempo declarar-se vítima da sociedade. É um livro para qualquer pessoa sem referências, ou que pensa que qualquer merda que fizer sempre será o caminho melhor, só por ser diferente.
Aclamado pelo The New York Times como um dos 100 livros mais rentáveis de 2006 e apontado pela Entertainment Weekly uma das mais lidas obras de não-ficção do ano, Engordar, idolatrar, fornicar originou o roteiro do filme homônimo.
Na margem do rio Piedra eu sentei e…
Quem se deixa levar pela paixão é vitorioso, mesmo que traia a Deus e o mundo. A verdadeira paixão leva ao suicídio moral. Este livro trata da importância desse suicídio. Os personagens fictícios simbolizam os muitos conflitos que nos acompanham na busca da Outra Parte (não me pergunte Parte do quê). Cedo ou tarde, temos de vencer nossos medos, já que o caminho espiritual se faz através da experiência diária da luxúria. — o Autor
A obra segue a linha esotérica cuja relação com o Caminho de Santiago de Compostela ainda não foi esclarecida. É um belo panfleto panteísta e feminista, no qual o protagonista masculino é tão mal descrito que se lhe atribuem três profissões diferentes ao longo da narrativa.
O relato flui como um rio de simplicidade: certo sujeito bem intencionado, que por acaso tem o dom de curas, resolve pedir à Virgem Maria que lhe retire o dom. Seu objetivo é ficar com a garota com quem ele dormiu, embora não se saiba o que tem a ver a cama com o dom medicinal. Letras grandes, gravuras sugestivas, transa bem contada. Digna obra de um Imortal da Academia!
O relato flui como um rio de simplicidade: certo sujeito bem intencionado, que por acaso tem o dom de curas, resolve pedir à Virgem Maria que lhe retire o dom. Seu objetivo é ficar com a garota com quem ele dormiu, embora não se saiba o que tem a ver a cama com o dom medicinal. Letras grandes, gravuras sugestivas, transa bem contada. Digna obra de um Imortal da Academia!
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4 de jun. de 2012
Prosa comum
Ideia sem patente
Li certa vez:
Não dependa de ninguém para ser feliz. Aos poucos perdemos a esperança nas pessoas. Elas sempre podem machucar. Por isso, dependa sempre de você.
— Nathália Diniz outubro 23, 2011
Comentei que já tinha ouvido isso de outras pessoas antes, mas que não havia problema, pois ideia não tem patente.
@_nathaliadiniz Ideia não tem patente!
outubro 23, 2011
Mesmo sendo prosa comum, usada por diversas pessoas e, portanto, isenta de plágio; e talvez justamente por ser comum, acho que merece ser desmontada. Nesse sentido, transcrevo abaixo uma conversa a esse respeito que tive com a @Bia_designer.
Confiar ou suspeitar?
Eu: Não existe maior alegria que a compartilhada. É melhor ser enganado por 1 em 100 do que desconfiar de 99 em prol de 1.Bia: O “confiar e desconfiar” já indica dependência. Eu não confio nem desconfio. Eu vivo a minha vida. Simples assim.
Eu: Como falei, prefiro sofrer uma traição do que morrer na solidão.
Bia: Então amigo, isso é escolha sua. Cada um tem suas escolhas. Uns preferem sofrer, outros preferem morrer, eu prefiro viver feliz. :)
Eu: A felicidade é uma sala cuja porta abre para fora. Não posso ser feliz de costas para os outros.
Bia: A realidade é um dado que cada um vê do seu lado. O lance é ver direito, para não ser atropelado.
Eu: Justamente porque podemos errar nas avaliações é que devemos contar com a opinião dos que nos amam.
Bia: O meu certo pode não ser o certo? Quem determina isso? O meu errado pode ser o certo, e aí? É a sociedade que determina minha vida?
Eu: A sociedade não, a realidade. Você achar que é certo não quer dizer que está certo. A gente faz tanta coisa da que depois se arrepende…
Bia: Não acho fácil nada que dependa de segundos ou terceiros. Como não vivo em prol de ser entendida por ninguém, então estou sempre BEM. Responda: quem você tem CERTEZA que o AMA?
Eu: Caraca, você desconfia até da mãe!
Bia: AHAUHUAHAUHAUHUHAHU eu não desconfio!!! Já disse: eu não estou preocupada com as pessoas, mas sim COMIGO e com a minha vida.
Eu: Ah, não!!! Não somos mônadas! Todos dependemos de alguém. O que você comeu hoje, vestiu, escreveu, etc., dependeu de alguém!
Bia: É claro que existe uma interdependência entre humanos, mas lhe digo: no que eu puder me bastar em termos de felicidade e alegria, eu farei.
Eu: Tu te bastas? Também não acho fácil depender me mim mesmo. Entre o EU entender e o EU conseguir vai distância.
Bia: Eu me basto! \o/ É simples: eu faço o que EU acho certo, então o resto é sempre o resto! Depender de qualquer um é roubada amigo!
*****
Pois bem, meu caro leitor: o que você acha disso tudo? Sua ideias têm patente ou são lugar-comum? Você confia ou desconfia das pessoas? Dá para ser feliz sozinho, sem compartilhar a felicidade?
De minha parte, só digo uma coisa:
Confiança é não ter medo da última palavra.
outubro 19, 2011
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21 de mai. de 2012
Um rábula quixotesco
Dando uma de rábula, gostaria de comentar cinco argumentos (em carmim) que colhi da pena de juristas em discussões recentes de que participei na Internet:
1. O Supremo Tribunal Federal é o intérprete da Constituição Federal, seu porta-voz; em outras palavras, a Constituição Federal é, sem mais, sem menos, o que o Supremo diz que ela é.
— Se a Constituição Federal fosse o que o Supremo diz que ela é, então teria sido mais fácil pedir que os 11 preclaros ministros a tivessem redigido em vez de se convocar uma Assembleia Constituinte.
2. O Poder Judiciário tem entre os seus deveres também o de implementar o Estado onde este está ausente. Bom exemplo disso é o mandado de injunção. Assim, colocado um caso concreto à apreciação do Judiciário, por meio do Supremo Tribunal Federal, pelo alcance nacional da decisão, o que faz a corte suprema é decidir como melhor lhe aprouver. Sendo os ministros do Supremo, pelo menos em tese e por ficção, os donos de todo o conhecimento jurídico nacional, bem assim donos de destacado bom senso e elevada consciência política, dão sua interpretação sobre parte do texto da lei que não possui clareza suficiente. A partir da decisão do Pleno do Tribunal, tal “insuficiência” do texto é suprida, papel maior do Tribunal.
— Se os ministros decidem como melhor lhes aprouver, então estamos no reino da tirania e da arbitrariedade. Os alegados donos de destacado bom senso e elevada consciência política também podem errar rotundamente. Aliás, qualquer juiz pode errar, assim como Pilatos e o Sinédrio erraram com Jesus Cristo.
3. Sob a exegese da ética é que decisões são tomadas, pois a norma também deve ter a sua função social, embora o que tenha sido escrito pelo legislador ipsis literis não tivesse o mesmo ensejo que a sociedade hoje pede e conclama. Por isso, trago a questão para esse aspecto da interpretação de acordo com aquilo que a sociedade espera que o Estado concretize em suas vidas.
— Ora, ora: por um lado, a norma procede da natureza, não das reivindicações. Por outro, não é dever do Estado oficializar ou regulamentar tudo o que se faz.
4. Seria competência do Supremo Tribunal legislar? Penso que não. No entanto, por reivindicação tão digna, sofro a tentação de abandonar o que aprendi na faculdade e sair em protesto pela aprovação! De fato, quem legisla é o Congresso. Nisso, meu lado advocatício diz que você tem razão, mas meu lado cidadão discorda. Quando se decide o destino da nação, tudo é importante!
— É bastante questionável a afirmação de que “a sociedade reclama” esse tipo de coisa. Mais: o destino da nação vai por água abaixo quando o direito é sacrificado em nome de “urgências” desse teor. Sem direito não há justiça e sem justiça não há prosperidade.
5. Se a questão não fosse polêmica, não seria um pedido da sociedade. Resultado de manobra de uma suposta elite intelectual ou não, vejo mais adeptos à ideia que opositores.
— Há na atitude do Supremo Tribunal um mix de soberba com imprudência. Por um lado, os deuses do Olimpo se consideram capazes de expressar a pretensa vontade popular (leia-se o lobby da “elite intelectual” brasileira, que não deixa de ser massa de manobra). Pior, em vez de suspenderem o juízo em questões tão inusitadas e controversas, dão guinadas que contradizem séculos de consenso.
*****
A questão me parece clara: vivemos em tempos de grande insegurança jurídica, em que os debates são farsas midiáticas, os textos legais estão sujeitos a interpretações arbitrárias e a coisa pública está à mercê da opinião da elite de plantão.
O direito hoje sofre duplamente: primeiro, porque é equiparado a mera burocracia jurídica para validar as vontades dos cidadãos; segundo, porque é exigido sem a contrapartida da assunção dos deveres.
1. O Supremo Tribunal Federal é o intérprete da Constituição Federal, seu porta-voz; em outras palavras, a Constituição Federal é, sem mais, sem menos, o que o Supremo diz que ela é.
— Se a Constituição Federal fosse o que o Supremo diz que ela é, então teria sido mais fácil pedir que os 11 preclaros ministros a tivessem redigido em vez de se convocar uma Assembleia Constituinte.
2. O Poder Judiciário tem entre os seus deveres também o de implementar o Estado onde este está ausente. Bom exemplo disso é o mandado de injunção. Assim, colocado um caso concreto à apreciação do Judiciário, por meio do Supremo Tribunal Federal, pelo alcance nacional da decisão, o que faz a corte suprema é decidir como melhor lhe aprouver. Sendo os ministros do Supremo, pelo menos em tese e por ficção, os donos de todo o conhecimento jurídico nacional, bem assim donos de destacado bom senso e elevada consciência política, dão sua interpretação sobre parte do texto da lei que não possui clareza suficiente. A partir da decisão do Pleno do Tribunal, tal “insuficiência” do texto é suprida, papel maior do Tribunal.
— Se os ministros decidem como melhor lhes aprouver, então estamos no reino da tirania e da arbitrariedade. Os alegados donos de destacado bom senso e elevada consciência política também podem errar rotundamente. Aliás, qualquer juiz pode errar, assim como Pilatos e o Sinédrio erraram com Jesus Cristo.
3. Sob a exegese da ética é que decisões são tomadas, pois a norma também deve ter a sua função social, embora o que tenha sido escrito pelo legislador ipsis literis não tivesse o mesmo ensejo que a sociedade hoje pede e conclama. Por isso, trago a questão para esse aspecto da interpretação de acordo com aquilo que a sociedade espera que o Estado concretize em suas vidas.
— Ora, ora: por um lado, a norma procede da natureza, não das reivindicações. Por outro, não é dever do Estado oficializar ou regulamentar tudo o que se faz.
4. Seria competência do Supremo Tribunal legislar? Penso que não. No entanto, por reivindicação tão digna, sofro a tentação de abandonar o que aprendi na faculdade e sair em protesto pela aprovação! De fato, quem legisla é o Congresso. Nisso, meu lado advocatício diz que você tem razão, mas meu lado cidadão discorda. Quando se decide o destino da nação, tudo é importante!
— É bastante questionável a afirmação de que “a sociedade reclama” esse tipo de coisa. Mais: o destino da nação vai por água abaixo quando o direito é sacrificado em nome de “urgências” desse teor. Sem direito não há justiça e sem justiça não há prosperidade.
5. Se a questão não fosse polêmica, não seria um pedido da sociedade. Resultado de manobra de uma suposta elite intelectual ou não, vejo mais adeptos à ideia que opositores.
— Há na atitude do Supremo Tribunal um mix de soberba com imprudência. Por um lado, os deuses do Olimpo se consideram capazes de expressar a pretensa vontade popular (leia-se o lobby da “elite intelectual” brasileira, que não deixa de ser massa de manobra). Pior, em vez de suspenderem o juízo em questões tão inusitadas e controversas, dão guinadas que contradizem séculos de consenso.
*****
A questão me parece clara: vivemos em tempos de grande insegurança jurídica, em que os debates são farsas midiáticas, os textos legais estão sujeitos a interpretações arbitrárias e a coisa pública está à mercê da opinião da elite de plantão.
O direito hoje sofre duplamente: primeiro, porque é equiparado a mera burocracia jurídica para validar as vontades dos cidadãos; segundo, porque é exigido sem a contrapartida da assunção dos deveres.
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28 de abr. de 2012
Discussão intrauterina
A mídia e o Supremo apresentam ao público e ao povo uma altercação na barriga de Rebeca: Esaú e Jacó discutem quem deve prevalecer: o poder de Esaú ou a consagração de Jacó.
Falando sério, penso que não é preciso ter útero para falar de aborto. A não ser que útero aqui se refira a entranhas, à capacidade de se compadecer.
Não é preciso ser mulher para falar de aborto porque o aborto afeta a vida, o ser humano, a esposa, o outro lado do varão. Sendo assunto humano, é prerrogativa tanto da mulher quanto do varão.
Indo além dessa contestação, entendo que essa forma de colocar a questão — a de que a mulher tem no seu útero um fardo que lhe tolhia a liberdade, mas do qual conseguiu se libertar nos últimos decênios através da revolução sexual — é completamente indevida.
Fazendo uma comparação porca, é como alguém que sofre de obesidade botar a culpa na comida, quando na verdade o problema advém da sua gula ou de uma eventual disfunção digestiva.
Pois basta lembrar que a maioria absoluta das mulheres sente-se orgulhosa de ser um sacrário da vida. A maternidade é um dom. A defesa do aborto, porém, torna-a sepulcro da morte, além de apresenta a gravidez como uma doença.
Uma gravidez indesejada, ou forçada, ou arriscada, ou sofrida, não tira à maternidade aquilo que ela tem de misterioso, de participação no poder criador.
Se há mulheres que recorrem ao aborto, nada posso fazer senão lamentar e tentar ajudar. Mas nunca direi que fazer isso é certo, pois estaria sendo um cúmplice e um mentiroso.
A questão é cientificamente simples: qual é a diferença entre o nascituro e o nascido? Ambos têm 46 cromossomos, como nós. Mas o nascituro foi confiado à mulher. Portanto, que grande responsabilidade!
Voltemos à barriga de Rebeca. Cada vez que vejo um bispo do lado da vida (Jacó) e um jurista ou médico abortista de outro (Esaú), constato que nossa mídia laicista continua sendo extremamente clerical. Ponha-se dois médicos (um a favor e outro contra) ou dois juristas (um a favor e outro contra) para discutir lado a lado, ora bolas! E então veremos quem “ganha”.
Falando sério, penso que não é preciso ter útero para falar de aborto. A não ser que útero aqui se refira a entranhas, à capacidade de se compadecer.
Não é preciso ser mulher para falar de aborto porque o aborto afeta a vida, o ser humano, a esposa, o outro lado do varão. Sendo assunto humano, é prerrogativa tanto da mulher quanto do varão.
Indo além dessa contestação, entendo que essa forma de colocar a questão — a de que a mulher tem no seu útero um fardo que lhe tolhia a liberdade, mas do qual conseguiu se libertar nos últimos decênios através da revolução sexual — é completamente indevida.
Fazendo uma comparação porca, é como alguém que sofre de obesidade botar a culpa na comida, quando na verdade o problema advém da sua gula ou de uma eventual disfunção digestiva.
Pois basta lembrar que a maioria absoluta das mulheres sente-se orgulhosa de ser um sacrário da vida. A maternidade é um dom. A defesa do aborto, porém, torna-a sepulcro da morte, além de apresenta a gravidez como uma doença.
Uma gravidez indesejada, ou forçada, ou arriscada, ou sofrida, não tira à maternidade aquilo que ela tem de misterioso, de participação no poder criador.
Se há mulheres que recorrem ao aborto, nada posso fazer senão lamentar e tentar ajudar. Mas nunca direi que fazer isso é certo, pois estaria sendo um cúmplice e um mentiroso.
A questão é cientificamente simples: qual é a diferença entre o nascituro e o nascido? Ambos têm 46 cromossomos, como nós. Mas o nascituro foi confiado à mulher. Portanto, que grande responsabilidade!
Voltemos à barriga de Rebeca. Cada vez que vejo um bispo do lado da vida (Jacó) e um jurista ou médico abortista de outro (Esaú), constato que nossa mídia laicista continua sendo extremamente clerical. Ponha-se dois médicos (um a favor e outro contra) ou dois juristas (um a favor e outro contra) para discutir lado a lado, ora bolas! E então veremos quem “ganha”.
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24 de fev. de 2012
Choque de qualidade ou choque de ordem?
A Prefeitura do Rio de Janeiro adora essa história de choque de ordem. É choque de ordem na orla, nos bairros, nas ruas, nos estacionamentos, no banheiro, no carnaval…
Muito já se falou também que o Brasil precisa de um choque de gestão. Um chacoalhão administrativo, desburocratizante, moralizante.
Que seja. No entanto, talvez o que mais seja necessário é um choque de qualidade. Pensemos nessa picaretagem de muitas faculdades de humanas e inclusive de exatas, em que os professores começam a aula mais tarde porque os alunos sempre chegam atrasados. De que adiantaria obrigá-los a chegar na hora se a aula for aquela enrolação de sempre?
Mais eficaz seria um choque de qualidade nas aulas. Bons professores não precisam exigir pontualidade, pois sua qualidade se encarrega de fazer os alunos deixarem o bar mais cedo.
Ordem não traz progresso; ordem traz tranquilidade. A Suíça organizada é exemplo para a confecção de relógios cuco e chocolates, enquanto a Itália bagunçada é exemplo de cultura, arte e criatividade.
Por isso, em vez de “Ordem e Progresso”, nosso moto deveria ser “Qualidade e Progresso”, o que traria a vantagem adicional de sacudir o jugo intelectual do positivismo que tanta miopia conferiu ao país.
Organizar a pouca vergonha nacional equivale a uma mulher safada comer cosmético numa tentativa desesperada de se tornar bonita por dentro.
Muito já se falou também que o Brasil precisa de um choque de gestão. Um chacoalhão administrativo, desburocratizante, moralizante.
Que seja. No entanto, talvez o que mais seja necessário é um choque de qualidade. Pensemos nessa picaretagem de muitas faculdades de humanas e inclusive de exatas, em que os professores começam a aula mais tarde porque os alunos sempre chegam atrasados. De que adiantaria obrigá-los a chegar na hora se a aula for aquela enrolação de sempre?
Mais eficaz seria um choque de qualidade nas aulas. Bons professores não precisam exigir pontualidade, pois sua qualidade se encarrega de fazer os alunos deixarem o bar mais cedo.
Ordem não traz progresso; ordem traz tranquilidade. A Suíça organizada é exemplo para a confecção de relógios cuco e chocolates, enquanto a Itália bagunçada é exemplo de cultura, arte e criatividade.
Por isso, em vez de “Ordem e Progresso”, nosso moto deveria ser “Qualidade e Progresso”, o que traria a vantagem adicional de sacudir o jugo intelectual do positivismo que tanta miopia conferiu ao país.
Organizar a pouca vergonha nacional equivale a uma mulher safada comer cosmético numa tentativa desesperada de se tornar bonita por dentro.
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26 de dez. de 2011
Deus e o sexo
O sexo, descontraído
e sedutor, quis saber se a submissão da mulher ao homem fora uma maldição
paradisíaca ou, na verdade, um decreto divino.
Afinal, os decretos
foram feitos para serem desobedecidos e a presença subversiva de mulheres como
Míriam, Débora, Jael, Raab, Rute, Abigail, Abisag, Ester, etc. parecia
contradizer a tese feminista de que a Bíblia fosse um panfleto machista. Logo,
a dúvida era pertinente.
Deus não respondeu,
mas lhe perguntou quais tinham sido as “conquistas” do feminismo e de outras
ideologias semelhantes. O sexo respondeu citando — a par da igualdade de
direitos civis com os homens e outros avanços políticos — o aborto, a
contracepção, o divórcio, o adultério, a fornicação, a prostituição e o
homossexualismo.
Então Deus perguntou
ao sexo se, por causa disso, ele achava a Bíblia distante, anacrônica e
alienada com relação à modernidade. Com efeito, é um livro proveniente de um
longínquo país da Antiguidade.
O sexo gostou da
pergunta, pois percebeu a malandragem, e retrucou: “Ora, essas coisas não são
um problema bíblico. São um problema mundano”.
Então Deus
concordou, afirmando que, de fato, a Bíblia apenas traz uma Palavra iluminadora acerca
desses mesmos temas que também aparecem nas Escrituras: aborto, contracepção,
divórcio, adultério, fornicação, prostituição e homossexualismo.
E o sexo ficou mais
confuso do que no começo. Nos dois sentidos.
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2 de jun. de 2011
A mulher, paradoxo e esperança
Nenhum premiado as acusou
ainda de imorais,
como ninguém tachou de má a boceta de Pandora,
por lhe ter ficado a esperança no fundo;
em alguma parte há de ela ficar.
(…)
Quando a loteria e Pandora me aborrecem,
ergo os olhos para eles,
e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica.
(Machado de Assis, Dom Casmurro, capítulo 7)
como ninguém tachou de má a boceta de Pandora,
por lhe ter ficado a esperança no fundo;
em alguma parte há de ela ficar.
(…)
Quando a loteria e Pandora me aborrecem,
ergo os olhos para eles,
e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica.
(Machado de Assis, Dom Casmurro, capítulo 7)
A sedução do fogo
Ao lado da figura de Lilit (mulher como mera “invenção”), também é útil recordar a descrição que Hesíodo faz de Pandora, a fim de tentar realizar uma mínima demarcação a alma feminina.
O
poeta grego estabelece o tecido labiríntico da existência humana sob o signo da
ambiguidade. Mais do que outra máscara da mulher, Pandora é, em si mesma, o “belo mal” (καλὸν κακόν· Teogonia,
585), uma fantasia criada pelos deuses para ser presenteada aos homens
(παν-δωρα: todos os dons). As deusas
a instruem e adornam: Atena com as lides domésticas, Afrodite com o desejo
devorador.
Prometeu
roubara o fogo dos deuses e o entregara aos homens. Às tramas e rapinas de
Prometeu, Zeus respondeu com um presente de grego: a mulher. Substituta do fogo natural, a mulher é compreendida por
Hesíodo como a cultura em lugar da natureza. É o preço do fogo.
A
mulher é um paradoxo porquanto imitação do já existente. Ambígua, porque ao
mesmo tempo frustra e presenteia. Deleuze diz que a mulher é um simulacro no
sentido de que põe em questão as noções de cópia e de modelo.
A sedução da palavra
Por sua aparição é que os homens se tornam varões. E pelo artifício sedutor da fala articulada (αὐδέν), dom de Hefesto à mulher, fica substituída a linguagem expressiva (φονέν):
πατὴρ
ἀνδρῶν τε θεῶν τε·
Ἥφαιστον
δ' ἐκέλευσε περικλυτὸν ὅττι τάχιστα
γαῖαν
ὕδει φύρειν, ἐν δ' ἀνθρώπου θέμεν αὐδὴν
καὶ
σθένος, ἀθανάτῃς δὲ θεῇς εἰς ὦπα ἐίσκειν
παρθενικῆς
καλὸν εἶδος ἐπήρατον·
…o pai dos homens e dos deuses
ordenou então ao ínclito Hefesto muito velozmente
terra à água misturar e aí pôr humana voz [αὐδέν] e
força, e assemelhar de rosto às deusas imortais
esta bela e deleitável forma de virgem…
(Os Trabalhos e os Dias, 59-63).
ordenou então ao ínclito Hefesto muito velozmente
terra à água misturar e aí pôr humana voz [αὐδέν] e
força, e assemelhar de rosto às deusas imortais
esta bela e deleitável forma de virgem…
(Os Trabalhos e os Dias, 59-63).
A sedução do futuro
A esperança é desnecessária aos deuses imortais, assim como aos animais, que se ignoram mortais. Para os homens, contudo, constitui alento nos trabalhos. Ora, restou na caixa de Pandora apenas a esperança (ἐλπίς) que, porém, também é ambígua, pois os homens podem errar no que esperam.
O
homem, na sucessão dos dias, tem muitas esperanças — menores ou maiores —
distintas nos diversos períodos da sua vida. Às vezes pode parecer que uma
destas esperanças o satisfaça totalmente, sem ter necessidade de outras. Na juventude,
pode ser a esperança do grande e fagueiro amor; a esperança de uma certa
posição na profissão, deste ou daquele sucesso determinante para o resto da
vida. Mas quando estas esperanças se realizam, resulta com clareza que na
realidade, isso não era a totalidade. Torna-se evidente que o homem necessita
de uma esperança que vá mais além. Vê-se que só algo de infinito lhe pode
bastar, algo que será sempre mais do que aquilo que ele alguma vez possa
alcançar. Neste sentido, a época moderna desenvolveu a esperança da instauração
de um mundo perfeito que, graças aos conhecimentos da ciência e a uma política
cientificamente fundada, parecia tornar-se realizável. Assim, a esperança
bíblica do reino de Deus foi substituída pela esperança do reino do homem, pela
esperança de um mundo melhor que seria o verdadeiro «reino de Deus». Esta
parecia finalmente a esperança grande e realista de que o homem necessita.
Estava em condições de mobilizar — por um certo tempo — todas as energias do
homem; o grande objetivo parecia merecedor de todo o esforço. Mas, com o passar
do tempo fica claro que esta esperança escapa sempre para mais longe. Primeiro
deram-se conta de que esta era talvez uma esperança para os homens de amanhã,
mas não uma esperança para mim. E, embora o elemento « para todos » faça parte
da grande esperança — com efeito, não posso ser feliz contra e sem os demais —
o certo é que uma esperança que não me diga respeito a mim pessoalmente não é
sequer uma verdadeira esperança. E tornou-se evidente que esta era uma
esperança contra a liberdade, porque a situação das realidades humanas depende
em cada geração novamente da livre decisão dos homens que dela fazem parte. Se
esta liberdade, por causa das condições e das estruturas, lhes fosse tirada, o
mundo, em última análise, não seria bom, porque um mundo sem liberdade não é de
forma alguma um mundo bom. Deste modo, apesar de ser necessário um contínuo
esforço pelo melhoramento do mundo, o mundo melhor de amanhã não pode ser o
conteúdo próprio e suficiente da nossa esperança. E, sempre a este respeito,
pergunta-se: Quando é «melhor» o mundo? O que é que o torna bom? Com qual
critério se pode avaliar o seu ser bom? E por quais caminhos se pode alcançar
esta «bondade»?
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21 de mai. de 2011
Qualquer semelhança é mera coincidência
Desde que o mundo saiu do ovo, sempre houve
ladrões sob o Sol. A tendência a apropriar-se do alheio é minoritária, porém difusa.
Talvez por sua capilaridade, a cleptomania vem
conseguindo impor-se como normal, ainda que sua frequência fuja à curva de
Gauss da sociedade.
Ora, a cobiça do
alheio cresceu tanto à época da “denúncia da burguesia proprietária” dos anos
60, que os cleptomaníacos criaram um lobby de
adeptos. Sua primeira conquista foi conseguir retirar esse fenômeno psiquiátrico da Classificação Internacional de Doenças em
1973. Posteriormente, a cleptomania também foi excluída da lista de enfermidades da OMS em
1990.
Ao mesmo tempo, era preciso
dar uma roupagem intelectual para a bandeira ladra.
Pseudointelectuais ficaram repetindo balelas como “o rei Davi era ladrão” —
com apoio em sua fase de bandoleiro —, ou “Pátroclo era larápio” —
só porque utilizou as armas emprestadas de Aquiles. No final das contas, todo
mundo teria sido bandido, fato ocultado nos livros de história: Tiradentes, Napoleão,
Hitler, Abraham Lincoln, William Shakespeare, Michelangelo, Alexandre o Grande; e, acima de todos,
Oscar Wilde.
Da pretensa elite intelectual
— como se os universitários e os filhinhos de papai politicamente
corretos não fossem a melhor massa de manobra —, o movimento ganhou as
ruas. Várias cidades passaram a ter sua Parada Clepto, com
notável afluência de incautos e curiosos. A partir de então, começou um grande patrulhamento
ideológico contra seus oponentes, em nome do pluralismo.
A ideologia
do compartilhamento procede de uma perspectiva
dualista que nega o direito à propriedade e ao
mesmo tempo exalta a destinação universal dos
bens. A última fronteira a ser transposta
pelo homem moderno seria a libertação dos seus próprios condicionamentos proprietários.
Além disso, vivemos na época das reivindicações e das minorias: como não
afirmar que surrupiar faz parte dos Direitos
Humanos?
Um fator complicador é que a cleptomania
apresenta diversas variantes. Gente que poderia ser
tratada para vencer essa tendência não encontra mais respaldo médico e é
incentivada a assumi-la como algo normal.
Além disso, a aceitação
social de suas formas mais crônicas induz muitos jovens a afanar desde
cedo, como se fosse uma legítima opção proprietária.
Dentre os transtornos de propriedade mais graves, bons livros de
medicina apontam, por exemplo:
a) Transtorno
do papel ou rol proprietário, que
leva o cleptômano a vestir-se como um mafioso italiano, um antigo malandro da
Lapa ou a encapuzar-se como um assaltante de bancos.
b) Transtorno
de orientação proprietária, que
faz o cleptônomo entregar a outrem o que rouba,
como o fazia Robin Hood.
c) Transtorno
de inclinação proprietária, pelo
qual o pivete sofre desejos pervertidos de posse, como guardar compulsivamente
tampas de garrafa, embalagens de leite e outros objetos sem valor.
d) Transtorno
de identidade proprietária, que
leva a querer ser espoliado.
Se não fosse suficiente a
aceitação da rapina na medicina e nos costumes, o lobby prosseguiu buscando
respaldo legal. Seus ideólogos seguiram
perfeitamente a cartilha e fingiram seguir
o mote da tolerância. O Executivo já
estava ganho para a causa, pois nele pupulavam
os corruptos.
Para a difusão da ladroagem ser maior, começaram inclusive a trabalhar na criação de
um kit muamba a ser distribuído nas
escolas.
Por outro lado, como no
Brasil a via legislativa é extremamente dificultosa, os propugnadores da roubalheira
recorreram ao Supremo Tribunal Federal, bastante acostumado a suprir as
omissões do Congresso. E assim, por unanimidade, o STF reconheceu a equiparação
da rapina à compra. A decisão, com efeito vinculante para toda sociedade, foi puro
ativismo judicial que tornou a Suprema Corte superior ao Poder Legislativo,
eleito por 130 milhões de brasileiros — e não por um homem só.
Ato contínuo, para comemorar
a conquista, um grupo de gatunos organizou um roubaço na escadaria da Catedral de uma cidade
catarinense, pois para eles a Igreja Católica encarna muito bem o que chamam de
preconceito.
Um dos que ajuizaram a ação
no Supremo Tribunal foi certo governador. Atualmente, ele está empenhado em
transformar seu Estado e a Capital (cujo epíteto é “Leal e Heroica”, a qual tem
por padroeiros dois viris soldados mártires) numa referência do esbulho. Com
o apoio de certa deputada que roubara o sobrenome do ex-marido e se apresenta
como proprietóloga, pretendem agora — mediante 125 metas de gatunagem até 2014 — superar o preconceito proprietário, mesmo que seja à força de
amordaçar quem não pensa como eles.
Desde então, o lobby clepto
pretende cada vez mais “problematizar a propriedade” e
discutir a “idionormatividade”, a fim de retirar os proprietários
da “zona de conforto”. Um dos seus representantes, que chegou a
ganhar roubado um
reality
show, e se tornou parlamentar na base da solércia, disse: “precisamos desenvolver estratégias que lidem mais diretamente
com o campo da cultura, a exemplo de ações nas escolas, na mídia e nas
artes. Assim, o projeto Escola sem Propriedade não correria o risco de
apenas interessar a professores e alunos LGBTTTs (Larápios, Gatunos, Bilontras, Trambiqueiros, Traficantes e
Trombadinhas)”.
Sendo bem franco: a um ladrão devo
reconhecer os direitos humanos. Um ladrão posso
admirar por suas qualidades. Mas a um ladrão nunca
o terei por padrão de conduta. Inveja quase
todos sentem, mas dar-lhe vazão a ponto de roubar já é
demais!
Já dizia o profeta: O
crime da tua irmã Sodoma era este: opulência,
glutoneria, indolência, ociosidade; eis como vivia ela, assim como suas filhas,
sem tomar pela mão o miserável e o indigente (Ez
16,49). Porém, no ritmo que a coisa vai, é capaz de quererem até censurar esta
frase da Escritura… para não dizer outras!
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21 de out. de 2010
Querer o mal é fazer o bem?
Ditaduras modernas
Temos sofrido as consequências de duas graves tendências culturais: o subjetivismo, que coloca o interesse ou enfoque pessoais acima da necessidade objetiva; e o relativismo, que nivela a importância e as diferenças das coisas.Ambos apoiam‑se em aspectos parciais da realidade, que são verdadeiros: sem dúvida, a pessoa é mais que suas circunstâncias; e todas as coisas são relativas entre si.
Mas também ambos partem de um erro de fundo acerca do pluralismo, na compreensão do mundo e do posicionamento do homem no mundo.
Medos e confusões
Existem duas corrupções do pluralismo. A primeira é a pluralidade relativista. Não consegue fazer o discernimento de que plural significa muitos, não todos.A segunda corrupção é a dogmatização da peculiaridade. Aspectos secundários ou minoritários são defendidos como fundamentais, em nome de uma pretensa liberdade e do direito à “diversidade”. Ao mesmo tempo, as opiniões contrárias são rudemente patrulhadas.
Ora, nem todas as opiniões têm o mesmo valor: o que tem o mesmo valor são as pessoas (e os fracos merecem maior respeito!).
Um novo critério
O diabo conseguiu meter em boa parte do povo cristão o temor de parecer intolerante, reacionário, pouco aberto ou fechado (São Josemaria Escrivá, Carta, 19/3/1967, n.º 45). Como resposta a esse problema, fez‑se famosa a homilia do então cardeal Ratzinger pronunciada na Missa Pro Eligendo Romano Pontifice, celebrada a 18 de abril de 2005:Todos os dias nascem novas seitas e cumpre-se assim o que São Paulo disse sobre o engano dos homens, sobre a astúcia que tende a induzir ao erro (cf. Ef 4, 14). Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, é frequentemente catalogado como fundamentalismo, ao passo que o relativismo, isto é, o deixar-se levar ao sabor de qualquer vento de doutrina, aparece como a única atitude à altura dos tempos atuais. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que usa como critério último apenas o próprio “eu” e os seus apetites.
Nós, pelo contrário, temos outro critério: o Filho de Deus, o verdadeiro homem. É ele a medida do verdadeiro humanismo. Não é “adulta” uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade; adulta e madura é antes uma fé profundamente enraizada na amizade com Cristo. É essa amizade que se abre a tudo aquilo que é bom e que nos dá o critério para discernir entre o que é verdadeiro e o que é falso, entre engano e verdade.O verdadeiro pluralismo, portanto, tem uma referência: Jesus Cristo. Contudo, aos ouvidos de muitos, Jesus soa a divisão. Como falar dele numa sociedade laica?
Voltarei à diferença entre laicidade e laicismo. Por hora, basta distinguir laicidade de mundanismo.
Secularidade e humanismo
São Josemaria Escrivá — que dedicou sua vida a “abrir os caminhos divinos da Terra” — sugeria: Com a tua conduta de cidadão cristão, mostra às pessoas a diferença que há entre viver triste e viver alegre; entre sentir‑se tímido e sentir‑se audaz; entre agir com cautela, com duplicidade – com hipocrisia! —, e agir como homem simples de uma só peça. — Numa palavra, entre ser mundano e ser filho de Deus (Sulco, n.º 306).Secularidade, portanto, é amor ao mundo redimido. Mundanismo, porém, é amor ao pecado. Mas o verdadeiro homem não precisa pecar para ser homem (cf. Bento XVI, Homilia, 8/12/2005):
Manifesta-se em nós a suspeita de que uma pessoa que não peque de modo algum, no fundo, seja tediosa; que falte algo na sua vida: a dimensão dramática do ser autônomo; que faça parte do verdadeiro ser homem, a liberdade de dizer não, o descer às trevas do pecado e o desejar realizar sozinho; que somente então seja possível desfrutar até ao fim toda a vastidão e a profundidade do nosso ser homens, do ser verdadeiramente nós mesmos; que devemos pôr à prova esta liberdade também contra Deus, para nos tornarmos realmente nós próprios. Em síntese, pensamos que o mal no fundo seja bem, que dele temos necessidade, pelo menos um pouco, para experimentar a plenitude do ser. Julgamos que Mefistófeles, o tentador, tem razão, quando diz que é a força “que deseja sempre o mal e realiza sempre o bem” (J.W. v. Goethe, Fausto I, 3). Pensamos que pactuar com o mal, reservando para nós mesmos um pouco de liberdade contra Deus, em última análise, seja um bem, talvez até necessário.
Contudo, quando olhamos para o mundo à nossa volta, podemos ver que não é assim, ou seja, que o mal envenena sempre, que não eleva o homem mas o rebaixa e humilha, que não o enobrece, não o torna mais puro nem mais rico, mas o prejudica e faz com que se torne menor.
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14 de jul. de 2010
Trending topics
Mesmos macacos de imitação
Antes eu já escrevera que o mundo vive de trending topics. Os elos da corrente da vida são notícias de variada procedência que, por um misterioso querer do destino, sobem à crista da informação.Desde Mick Jagger ao Polvo Paul, da queda do avião no Atlântico ao terremoto no Chile, a opinião pública é conclamada a volver sua atenção à última epifania jornalística.
É forçoso também recordar que tanto a campanha da #fichalimpa quanto o #calabocagalvão fizeram o itinerário ao contrário: da opinião pública à mídia. Sem dúvida, tal novidade é louvável, pois demonstra a força independente do público diante dos produtores de notícia. O protagonismo foi transferido a novos promotores de mobilização.
Os neomobilizadores são os que dominam a nova estética da comunicação de rede, o que ainda é prerrogativa de uns poucos. A massa continua repetindo, seguindo, retwittando, obedecendo ao que seu mestre mandar, ainda que seja um mestre difuso.
Novo calendário de interesses
Em maio, quando faltava assunto na mídia, o Papa tornara-se seu alvo constante. Já se tinham esgotado os temas do Haiti, das enchentes, do Michael Jackson, etc. Mas era óbvio que deixariam o Papa em paz com o início da Copa do Mundo.Agora, com o fim da Copa, o foco é o esquartejamento da amante de um futebolista, o que em breve dará lugar às eleições. A menos que de permeio aconteça um tsunami no Maranhão ou se descubra que a Lady Gaga é homem.
Certamente, a história se desenvolve ao longo do tempo mediante fatos candentes. Nosso noticiário, porém, parece-se mais a uma saga (compilação de histórias, colcha de retalhos narrativos), cujas partes são concatenadas de acordo com o humor do aedo de plantão.
Pode-se afirmar que os eventos substituíram os tempos. Os trending topics são um novo tipo jubileu na era da informação. O jubileu era a solene comemoração de um aniversário redondo. Semelhante às bodas, o jubileu torna memoráveis os eventos fundantes de uma cultura, etnia, nação ou família. Os fatos significativos do passado são celebrados porque possibilitaram o presente e condicionaram o futuro, que são as coordenadas da liberdade.
Os trending topics, pelo contrário, são arbitrários. São monumentos dedicados ao efêmero. São tão ocos que podem servir para contar o passar do tempo da mesma forma como, na época de Roma, o nome dos cônsules servia para a datação, antes de Dionísio o Exíguo instituir a numeração cardinal da Era Cristã.
Enquanto jubileu ao contrário, um trending topic nada traz à memória. Pelo contrário, apenas atiça a curiosidade e forja personalidades pautadas mais por novidades do que por experiências e convicções. Não abre espaço à liberdade construtiva, somente à ironia mordaz.
*****
Responde-me ou te devoro: quem de manhã lê quatro e-mails, ao meio-dia dois tweets e à tarde três feeds?
Agora é sério: qual o seu trending topic para o dia de hoje?
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23 de jun. de 2010
Sexo red bull, amor cachorro morto
Um estimulante
Todos corremos o risco de “sexualizar” nossas necessidades. Com efeito, o sexo é um intensificador. É uma das mais intensas experiências pelas que passamos. E tudo o que é marcado pelo sexo se torna mais vívido.O sexo potencia os sentimentos. Torna mais colorido o mundo e sensíveis as impressões. Não à toa, aparece nas propagandas apelativas associado aos produtos mais díspares, desde óleo de soja até chumbinho de espingarda.
O sexo é uma experiência relacional. Carrega consigo uma promessa de realização e remédio para a solidão. Seu apelo é grande, entre outras razões, porque nossas necessidades são fundamentalmente relacionais.
O sexo tem caráter semiótico. Evoca qualidades simbólicas mediante um simples toque, a representação do controle sobre outra pessoa e o cultivo de uma relação.
Contudo, em vez de suprir carências, o sexo reduzido a um estimulante produz um vazio ainda maior. Isso ocorre tanto através da pornografia quanto através da exacerbação do aspecto “mecânico” da relação sexual, passando pela ânsia de maximizar o prazer e desfrutar de todas as possibilidades.
Algumas pessoas conseguem, após experiências turbulentas, reconhecer que tinham sexualizado suas necessidades existenciais. Outras tantas, porém, prosseguem adictas, penetrando cada vez mais fundo num deserto interior.
Viver a sexualidade à margem do compromisso matrimonial, de costas para o amor ou cegando as fontes da vida, equivale a comprar um título podre, dar chocolate belga pro hamster, pôr um vaso Ming no banheiro.
Dependência
Pode parecer excessivo falar de “dependência” sexual, como se o sexo fosse um narcótico. Mas é preciso admitir que os sintomas são bastante semelhantes: fantasia acentuada, emoções fortes, sensação de autocontrole, tendência à autodosagem e, finalmente, autodegradação.A pornografia não é má apenas porque mostra muito. Sua ruindade é complexa: além de exibir demais, também não mostra o suficiente: apresenta o sexo sem o contexto. Falta a referência às pessoas envolvidas e ao comprometimento amoroso que tornaria real e significativo o encontro sexual. Pelo contrário, transforma as pessoas em objetos úteis ao deleite privado.
A pornografia, portanto, deforma a visão que se tem dos demais. A cerração da nuvem pornográfica impede ver as necessidades alheias e conduz, invariavelmente, ao desprezo das pessoas de carne-e-osso com quem se convive e à violência.
Castidade
A quem ficou preso nesse charco, o caminho para a libertação é reconhecer que se tem tal problema, contar com a ajuda de outra pessoa de confiança, eliminar todo tipo de conteúdo inconveniente, rezar pela cura e ter paciência com os retrocessos. Afinal, se a dependência levou tempo para se desenvolver, levará outro tanto para ser superada.Por outro lado, não basta desfazer a ligação artificial entre o sexo e as necessidades existenciais. Tais anseios subsistem e exigem resposta. — Mas isso já é assunto para outra postagem!
A castidade torna o homem viril e audaz; enche o coração de compreensão e misericórdia; permite concentrar-se no trabalho e garante a disciplina; atrai as pessoas e facilita a amizade; possibilita a oração. Esta virtude, que é uma afirmação gozosa de amor, precisa ser revalorizada e reproposta com urgência, pois o amor anda doente.
Via: Online MBA
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18 de mai. de 2010
Ser civilizado numa cultura beligerante
Retórica branca ou negra
Tática comum de campanhas eleitorais, de análises políticas, avaliações históricas, balanço de instituições e confronto de personalidades é o xingamento. Mais prático, eficaz e imediato que a conversação, que o diálogo isento, que o debate.Lado a lado com os xingamentos estão: etiquetas, rótulos, epítetos, apelidos, qualificativos e determinativos.
Há praticantes assíduos desse recurso retórico por toda parte. Talvez o tipo mais gritante seja Michael Moore. Contudo, além de na mídia em geral, o espécime é muito comum mesmo entre intelectuais. Afinal, a refutação dá mais trabalho que a afirmação, e a crítica é mais veloz que o pensamento.
Uma artimanha do monólogo ideológico
Abundam exemplos da estratégia subliminar de desqualificação dos oponentes: se alguém levantar sérias objeções à exibição e aceitação pública da sodomia, será tachado de “homofóbico” (por sinal, neologismo equívoco e desnecessário). Quem se opuser à segmentação racial artificialmente imposta ao Brasil será qualificado de “racista”. Quem afirmar que uma gestante carrega no seio uma pessoa humana será tido por “extremista religioso”. Quem admitir participação pública a elementos religiosos organizados será acusado de atentar à laicidade. Se você objetar um dogma feminista, será apontado como “sexista”. Se você propuser combater a sexualização do clima social, provavelmente você é um “retrógrado”.Em resumo: Todo oponente ideológico é sempre um estúpido e deve ser calado. Na verdade, ainda que seja possível ser ao mesmo tempo um retrógrado racista, extremista, etc., os adjetivos só seriam aplicáveis com base em sólidas evidências. Mas o que tem imperado é o ânimo do freguês…
Consagração do tabuísmo
Existem duas formas de xingar que revelam um bocado da cultura de um país. A primeira é o xingamento escatológico (vá à m.) e a segunda, o xingamento sexual (vá tomar...). Entre outras coisas, aquele tipo de ofensa demonstra que a honra abrange a vida toda; o último tipo indica que a honra está associada à virilidade.Quando esse jargão cai na boca dos geradores e disseminadores de cultura, pode também ser usado como arma ideológica para silenciar os oponentes. Ora, a obscenidade, a irreverência blasfema e as palavras duplas tornaram-se recorrentes na boca de estrelas, cantores, comediantes, atores, etc. O humor se faz cada vez menos compassivo e muito mais corrosivo. A própria arte tem sido incapaz de reproduzir a beleza do rosto humano.
A par dos erros gramaticais, tornou-se cool a qualquer um meter um palavrão em cada frase, fazer referências desrespeitosas a nomes sagrados (vira e mexe escuto alguma piadinha sobre Jesus ou a Virgem Maria) e consagrar vulgaridades.
A raiz do fenômeno
O que se oculta em tal depauperamento linguístico? Acredito que duas atitudes concatenadas.A primeira, é que o atual discurso “civilizado” apoia-se em generalidades, em expressões como choque de gestão, redução de juros, mais empregos, desaparelhamento. Coisa aprendida desde a escola, praticada nos insossos seminários feitos por um aluno e papagaiado por vários vagais para a desatenta turma de um professor preguiçoso.
A segunda vem a ser corolário necessário da anterior: o mundo vive da mentira. Frases feitas, clichês e chavões são engodos simpáticos. Mas ligeireza na fala é falta de conteúdo. Por exemplo, certo amigo de faculdade costumava evitar reprimendas por não ter feito os trabalhos dizendo que tivera de levar a avó à musculação. Com isso arrancava risos da turma (e do mestre) e tudo acabava em pizza.
*****
O título da postagem é uma pergunta a você, meu caro leitor:
Como reagir à mentira, à superficialidade, à vulgaridade, à “estereotipia”?
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31 de mar. de 2010
Sibaritismo
Faz uns anos saiu na capa da Veja São Paulo um Super-Homem em carne e osso: “engenheiro poderoso, triatleta e um sucesso entre as mulheres”.
O tal “homem de ferro” já tinha se casado, separado, noivado, rompido, ficado, paquerado: só beldades, promoters, modelos e apresentadoras. O esportista tinha então 6,8% de gordura corporal, mesmo índice do nadador Michael Phelps. Tendo participado de 16 ironmans, tinha por hábito acordar às 4h30 e estava se preparando para subir o Everest. Depilava‑se inteiramente com cera quente a cada dois meses e raspava a cabeça toda a semana; alimentava‑se a cada três horas com frutas desidratadas, biscoitos integrais e suprimentos, gotas de azeite, cinco castanhas‑do‑pará, fora uma batida de leite de soja com proteína em pó a cada seis horas. Profissionalmente, além de famoso por obras importantes, destacava-se por ser um construtor agressivo: apostara o patrimônio pessoal que construiria um Shopping em tempo recorde.
Sinceramente? Que ridículo e artificial modelo, proposto de forma tão despropositada! À época, achei a reportagem tão besta que anotei esses dados só por diversão. Culto ao corpo, preocupação excessiva pela aparência externa, pela saúde, pela comida, pelo descanso. Coisas novas com cheiro de coisa velha.
O tal “homem de ferro” já tinha se casado, separado, noivado, rompido, ficado, paquerado: só beldades, promoters, modelos e apresentadoras. O esportista tinha então 6,8% de gordura corporal, mesmo índice do nadador Michael Phelps. Tendo participado de 16 ironmans, tinha por hábito acordar às 4h30 e estava se preparando para subir o Everest. Depilava‑se inteiramente com cera quente a cada dois meses e raspava a cabeça toda a semana; alimentava‑se a cada três horas com frutas desidratadas, biscoitos integrais e suprimentos, gotas de azeite, cinco castanhas‑do‑pará, fora uma batida de leite de soja com proteína em pó a cada seis horas. Profissionalmente, além de famoso por obras importantes, destacava-se por ser um construtor agressivo: apostara o patrimônio pessoal que construiria um Shopping em tempo recorde.
Sinceramente? Que ridículo e artificial modelo, proposto de forma tão despropositada! À época, achei a reportagem tão besta que anotei esses dados só por diversão. Culto ao corpo, preocupação excessiva pela aparência externa, pela saúde, pela comida, pelo descanso. Coisas novas com cheiro de coisa velha.
Pode parecer que eu me contradigo, já que para conseguir tal saúde o “coitado” tem de dar um duro danado. Ora, para que acumulamos senão para curtir depois?
Sibaritismo hoje — o desejo de luxo e prazeres físicos, voluptuosidade excessiva, requinte e indolência, inclinação à obscenidade — continua sendo bastante semelhante ao estilo de vida dos antigos ricos habitantes de Síbaris, antiga cidade da Magna Grécia… A natureza humana não muda, ainda que os relativistas sintam um frio na espinha ao ouvir falar de natureza.
Sibaritismo hoje — o desejo de luxo e prazeres físicos, voluptuosidade excessiva, requinte e indolência, inclinação à obscenidade — continua sendo bastante semelhante ao estilo de vida dos antigos ricos habitantes de Síbaris, antiga cidade da Magna Grécia… A natureza humana não muda, ainda que os relativistas sintam um frio na espinha ao ouvir falar de natureza.
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19 de mar. de 2010
Arte da guerra para quem não quer briga
Devido a alguma estranha razão, que ainda tento
desvendar, um não pequeno número de mulheres costuma queixar-se dos seus relacionamentos. Mesmo do posto elevado em que me situo nessa guerra, acredito ser causa perdida tentar entender os embates
travados pelo coração no campo de batalha do romantismo.
Tantas questões intrincadas, terríveis e desagradáveis
quantas são suas protagonistas desafortunadas!… Contudo, o heterogêneo rol de
temperamentos, caracteres, idades e histórias de vida, tem por denominador,
apesar da multiplicidade de cenários e amores, o mesmíssimo discurso da
decepção: “por que sempre escolho a pessoa errada?”
Sem dúvida existem malandros, golpistas, vaidosos e
aventureiros; mas somos exceção [não se esqueça que sou fake]. Mas o que ocorre no dia-a-dia dos normais bem-educados e
bem-intencionados emancipados é uma sucessão de enganos, convencionalismos, falhas de comunicação e incapacidade de compreensão.
Estamos mais vizinhos, extrovertidos e conectados, porém
mais distantes, tímidos e solitários. Circunstância propícia para deformar a
percepção da vida real, estimular perigosas especulações, encorajar falsas
idealizações, inspirar juízos temerários, elevar as expectativas a níveis
fantásticos e embrulhar num pacote de preconceitos toda a malha das relações
humanas.
A par das tradicionais armas de se-dução (literalmente “conduzir à separação”) — máscara (boia),
aparente firmeza (chumbo), lábia (isca), brandura esperta (sabor) e prudente
paciência (cansar o peixe) —, seria útil às mulheres aprenderem uma atitude de
fundo: aceitar o outro pelo que ele é e reconhecer seus esforços de melhora, os
quais, afinal, são envidados por causa delas.
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18 de mar. de 2010
Notícias de um blog
![]() |
| Imagem de http://www.weno.com.br/blog/ |
Triste notícia: reabriu a clínica da rua Dona Mariana
Não teria havido flagrante quando da batida policial. Como se não houvesse indícios. (O túnel de fuga deve ser um encanamento da NET.)Alguns dos que agora me leem só encontraram este blog porque procuraram por aborto no Google. Outro indício.
Saia dessa, mas não pelo túnel, que ele não tem saída.
Vi um homem saindo de lá pela porta da frente, com um enorme saco preto na mão e a alma no chão.
O bingo da rua Dona Mariana continua funcionando a todo vapor
Com vizinhos assim, eu mesmo poderei ser preso por engano se não pagar arrego.A ditadura do desejo prossegue no governo
Sendo o que há de mais volúvel, é de admirar tamanha permanência.Tudo é questão de saber comprar o voto.
Alerta a Jason Bourne
Para ser católico faz falta ser catequizado pelo Olavo de Carvalho.Seu curriculo o avaliza: pretenso assessor do Papa, censor do Vaticano II, modelo de caridade pastoral.
Lugar para (quase) todas as opções intelectuais
O relativismo pós-moderno nivela com desempenadeira todas as cabeças: Dawkins, Obama, Hilary, Silas Malafaia. A do Papa está a prêmio.De #TGIF a #MusicOnMonday
A isto se chama weekend ou servilismo idiomático?Contracultura é inverter: Thanks Gosh It’s Monday e Music on Friday. A atitude diante do trabalho transforma seu rendimento.
Buraco na Lagoa quebra cubo da bicicleta
Em vez de a Prefeitura do Rio ficar mudando a cor das lixeiras, garis, caminhões, uniformes escolares, placas, etc., para azul, a fim de apagar a memória abóbora do prefeito anterior, invista esse dinheiro nas ciclovias.Quem paga o cubo da bicicleta que peguei emprestada?
Sérgio Cabral faz sucesso no teatro.
Assista à peça Não adianta chorar pelo petróleo derramado.Uma ética Global para homens-massa
A neutralidade Global consiste em dedicar vários minutos do seu noticiário a um bloco policial ou sobre saúde, mas citar por apenas alguns segundos graves questões políticas nacionais.Informar assim gera uma massa de pessoas sem opinião.
É preciso resgatar a cultura do debate em nosso país. Parece que, para o brasileiro, debate equivale a altercação! Seria bom aprender o velho estilo socrático ou o escolástico de disputa: antes de emitir minha opinião, reproduzo a sua com as minhas palavras e lhe pergunto se a expressei bem. Só então poderei lhe expor minha visão da questão, de forma racional e desapaixonada.
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