Desde que o mundo saiu do ovo, sempre houve
ladrões sob o Sol. A tendência a apropriar-se do alheio é minoritária, porém difusa.
Talvez por sua capilaridade, a cleptomania vem
conseguindo impor-se como normal, ainda que sua frequência fuja à curva de
Gauss da sociedade.
Ora, a cobiça do
alheio cresceu tanto à época da “denúncia da burguesia proprietária” dos anos
60, que os cleptomaníacos criaram um lobby de
adeptos. Sua primeira conquista foi conseguir retirar esse fenômeno psiquiátrico da Classificação Internacional de Doenças em
1973. Posteriormente, a cleptomania também foi excluída da lista de enfermidades da OMS em
1990.
Ao mesmo tempo, era preciso
dar uma roupagem intelectual para a bandeira ladra.
Pseudointelectuais ficaram repetindo balelas como “o rei Davi era ladrão” —
com apoio em sua fase de bandoleiro —, ou “Pátroclo era larápio” —
só porque utilizou as armas emprestadas de Aquiles. No final das contas, todo
mundo teria sido bandido, fato ocultado nos livros de história: Tiradentes, Napoleão,
Hitler, Abraham Lincoln, William Shakespeare, Michelangelo, Alexandre o Grande; e, acima de todos,
Oscar Wilde.
Da pretensa elite intelectual
— como se os universitários e os filhinhos de papai politicamente
corretos não fossem a melhor massa de manobra —, o movimento ganhou as
ruas. Várias cidades passaram a ter sua Parada Clepto, com
notável afluência de incautos e curiosos. A partir de então, começou um grande patrulhamento
ideológico contra seus oponentes, em nome do pluralismo.
A ideologia
do compartilhamento procede de uma perspectiva
dualista que nega o direito à propriedade e ao
mesmo tempo exalta a destinação universal dos
bens. A última fronteira a ser transposta
pelo homem moderno seria a libertação dos seus próprios condicionamentos proprietários.
Além disso, vivemos na época das reivindicações e das minorias: como não
afirmar que surrupiar faz parte dos Direitos
Humanos?
Um fator complicador é que a cleptomania
apresenta diversas variantes. Gente que poderia ser
tratada para vencer essa tendência não encontra mais respaldo médico e é
incentivada a assumi-la como algo normal.
Além disso, a aceitação
social de suas formas mais crônicas induz muitos jovens a afanar desde
cedo, como se fosse uma legítima opção proprietária.
Dentre os transtornos de propriedade mais graves, bons livros de
medicina apontam, por exemplo:
a) Transtorno
do papel ou rol proprietário, que
leva o cleptômano a vestir-se como um mafioso italiano, um antigo malandro da
Lapa ou a encapuzar-se como um assaltante de bancos.
b) Transtorno
de orientação proprietária, que
faz o cleptônomo entregar a outrem o que rouba,
como o fazia Robin Hood.
c) Transtorno
de inclinação proprietária, pelo
qual o pivete sofre desejos pervertidos de posse, como guardar compulsivamente
tampas de garrafa, embalagens de leite e outros objetos sem valor.
d) Transtorno
de identidade proprietária, que
leva a querer ser espoliado.
Se não fosse suficiente a
aceitação da rapina na medicina e nos costumes, o lobby prosseguiu buscando
respaldo legal. Seus ideólogos seguiram
perfeitamente a cartilha e fingiram seguir
o mote da tolerância. O Executivo já
estava ganho para a causa, pois nele pupulavam
os corruptos.
Para a difusão da ladroagem ser maior, começaram inclusive a trabalhar na criação de
um kit muamba a ser distribuído nas
escolas.
Por outro lado, como no
Brasil a via legislativa é extremamente dificultosa, os propugnadores da roubalheira
recorreram ao Supremo Tribunal Federal, bastante acostumado a suprir as
omissões do Congresso. E assim, por unanimidade, o STF reconheceu a equiparação
da rapina à compra. A decisão, com efeito vinculante para toda sociedade, foi puro
ativismo judicial que tornou a Suprema Corte superior ao Poder Legislativo,
eleito por 130 milhões de brasileiros — e não por um homem só.
Ato contínuo, para comemorar
a conquista, um grupo de gatunos organizou um roubaço na escadaria da Catedral de uma cidade
catarinense, pois para eles a Igreja Católica encarna muito bem o que chamam de
preconceito.
Um dos que ajuizaram a ação
no Supremo Tribunal foi certo governador. Atualmente, ele está empenhado em
transformar seu Estado e a Capital (cujo epíteto é “Leal e Heroica”, a qual tem
por padroeiros dois viris soldados mártires) numa referência do esbulho. Com
o apoio de certa deputada que roubara o sobrenome do ex-marido e se apresenta
como proprietóloga, pretendem agora — mediante 125 metas de gatunagem até 2014 — superar o preconceito proprietário, mesmo que seja à força de
amordaçar quem não pensa como eles.
Desde então, o lobby clepto
pretende cada vez mais “problematizar a propriedade” e
discutir a “idionormatividade”, a fim de retirar os proprietários
da “zona de conforto”. Um dos seus representantes, que chegou a
ganhar roubado um
reality
show, e se tornou parlamentar na base da solércia, disse: “precisamos desenvolver estratégias que lidem mais diretamente
com o campo da cultura, a exemplo de ações nas escolas, na mídia e nas
artes. Assim, o projeto Escola sem Propriedade não correria o risco de
apenas interessar a professores e alunos LGBTTTs (Larápios, Gatunos, Bilontras, Trambiqueiros, Traficantes e
Trombadinhas)”.
Sendo bem franco: a um ladrão devo
reconhecer os direitos humanos. Um ladrão posso
admirar por suas qualidades. Mas a um ladrão nunca
o terei por padrão de conduta. Inveja quase
todos sentem, mas dar-lhe vazão a ponto de roubar já é
demais!
Já dizia o profeta: O
crime da tua irmã Sodoma era este: opulência,
glutoneria, indolência, ociosidade; eis como vivia ela, assim como suas filhas,
sem tomar pela mão o miserável e o indigente (Ez
16,49). Porém, no ritmo que a coisa vai, é capaz de quererem até censurar esta
frase da Escritura… para não dizer outras!

