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5 de mai. de 2014

Entender para crer

Narrativa e verdade

Ariano Suassuna contava um caso engraçado, de um homem que, narrando um fato divertido, era interpelado por seu ouvinte por causa de uma inconsistência da historieta. O contador lhe retorquiu: — Você quer saber a história ou quer saber a verdade?

Entre o texto e a memória, entre a imaginação e a história: o que é possível encontrar aí? Sem dúvida, seria ingênuo esperar alcançar o próprio objeto da narrativa, tal e qual, isento de interpretações. Mas também seria doentio pensar que o objeto de estudo é uma mera tela em que se projetam ideias pré-concebidas.

Razão e crença

Na maioria das vezes, os argumentos contra a historicidade de algum testemunho antigo advém da ignorância do contexto ou do estilo, e da desconfiança na fonte.

Nossa racionalidade está, em alguma medida, baseada em conhecimentos de cunho probabilístico; portanto, não faz sentido opor razão e crença. Afinal, o conhecimento humano é todo baseado em crenças razoáveis.

Mito e filosofia

O mito é um caso particular nessa problemática. Sem autor nem data, o mito explica a realidade, mas não se explica a si mesmo. A crítica filosófica pretende acabar com a referência mítica, atitude que pode causar fragmentação e degenerar no relativismo filosófico e moral. A partir daí, torna-se crime de opinião voltar a buscar referenciais absolutos. Nasce a batalha entre a filosofia mítica e os mitos filosóficos. É o que vemos, por exemplo, na pós-modernidade decepcionada com as caducas profecias modernas de prosperidade através da ciência.

Logos e história

O cristianismo apropriou-se do discurso filosófico, mas os cristãos terão conseguido superar tal ruptura entre tradição e razão? Com efeito, é muito frequente deparar-se com católicos incertos quanto às suas raízes históricas e empedernidos em sua incoerência intelectual.

Enquanto discurso, a história sagrada tem cunho literário parecido ao mitológico; enquanto síntese teológica, a profissão de fé tem caráter comunitário e normativo. A articulação desses polos tem sofrido bastante diante de uma cultura cética e descrente da razão.

Tradição e teologia

Faz-se necessário resgatar a confiança na razão. Carl Rahner dizia que o homem é um ouvinte da Palavra: de fato, de nada adianta Deus falar se não houvesse alguém capaz de ouvir. Portanto, a missão da fé é compreender o que ouviu, explicitar seu fundamento.

Se o objeto da fé é racional, a teologia consiste no esforço de compreensão do objeto da fé. Não há razão para o medo protestante de que a teologia seja uma racionalização indevida da fé, uma construção idolátrica que falseie a verdadeira face de Deus.

20 de abr. de 2014

Crer para entender

Feliz Páscoa, queridos leitores!

Ontem, na solene Vigília Pascal, tive a oportunidade de novamente ouvir os relatos fundamentais — ou, melhor dito, fundantes — da visão cristã do mundo: a criação e o êxodo. Enquanto escutava o Hino dos Seis Dias (Gn 1,1–2,2) e a descrição da Travessia do Mar Eritreu (Ex 14,15–15,1), passaram-me pela cabeça muitas lembranças de conversas que já tive com pessoas céticas, as quais, imbuídas de um racionalismo superlativo, tropeçam escandalizadas no cunho mitográfico das primeiras páginas bíblicas.

Tal tipo de conversa tem crescido à minha volta nos últimos tempos. Por um lado, por causa do filme “Não É — a incrível história do homem que não é Noé” (esse midrash mal feito do Aronofsky sobre a história de Noé); por outro, devido à minha pós-graduação em arqueologia, ambiente favorável tanto para a crendice no caráter probatório dos achados arqueológicos quanto para a desconfiança doentia de tudo o que não seja empírico.

O dilema é simples: o Pentateuco é histórico ou é mitologia?

A resposta, porém, não é simples. Vejo o Pentateuco como narrativa de memória, não história. Ao mesmo tempo, vejo o Pentateuco como mitografia, não mitologia.

Geralmente, a história pretende rigor, precisão, método, na descrição de fatos passados. Ora, o Pentateuco pretende estabelecer para Israel a sua origem, não a sua história. E sua origem remonta à protologia, não à história! O mundo foi criado tendo em vista Israel, pois o mesmo ato criador de Deus que dominara o Oceano primordial é o ato que expõe o dorso do Mar “Limítrofe” (hebraico Sof)! Segundo a concepção antiga, o Mar Vermelho (egípcio Suf) seria a borda do mundo!

Uma comparação bem próxima a nós: os combatentes da Batalha de Guararapes (brancos, negros e índios) nunca imaginariam que, séculos depois, seriam considerados os fundadores do Exército Brasileiro e que à sua época teria nascido a alma brasileira, fusão das três raças. Ou seja, a batalha ocorreu de fato, mas seu significado só foi reconhecido e aplicado muito posteriormente. Isso é história? Isso é mito?

Geralmente, a mitologia conta a biografia dos deuses: seu nascimento (teogonia) e suas lutas (teomaquia). Não é o caso da Bíblia, em que Deus antecede as vicissitudes do cosmo e impera sobre ele. Se a cosmogonia bíblica fosse uma teogonia, não seria uma criação, mas uma emanação. A diferença entre essas concepções é grande.

Emanação significa que o mundo é “magma”, na expressão de Cornelius Castoriadis, cuja ordem lhe vem imposta de fora. Para Platão, seria a obra do demiurgo sobre o caos; para Aristóteles, influxo do motor imóvel.

Criação significa afirmar que Deus não precisa de causalidade material para atuar. Significa que seu Logos possibilita e funda a existência. Significa que a natureza não é só natureza, mas criação, isto é, está fundamentada na lógica do criador. A ciência moderna é fruto dessa fé. Não haveria ciência moderna sem o cristianismo, pois a razão sem fé enlouquece, fica cega.

Assim, para o homem moderno em sua cegueira, quem põe ordem no caos “sou eu”, pois num mundo pluriversal e fragmentário, a verdade é criada “por mim” e “para mim”. Adorno e Horkheimer analisaram o Iluminismo e reconhecem que ele se nutre da divinização da verdade. Contudo, se a verdade é um construto humano, não pode haver luz. Se não há metafísica, se não há fé, se não há transcendência, a razão é irracional.

O reducionismo da razão implica afirmar que só seria racional o que pode ser reproduzido como experiência. Assim, renuncia-se à verdade para ficar com a certeza, mas morre-se na dúvida cartesiana.

A missão da razão é abeirar-se ao mistério, não negá-lo.

Se não acreditardes, não compreendereis! (cf. Is 7, 9)

20 de out. de 2013

Dinâmica do pensamento arqueológico

Em meados do século XX, a arqueologia migrou da certeza positivista para a dúvida acerca da objetividade própria pesquisa, ao perceber o quanto o meio social determina as questões e suas respostas. Assim, a tensão entre a interpretação arqueológica e a história do pensamento cresceu, muito embora esta última pareça ganhar vantagem na medida em que oferece um posto de observação privilegiado desde o qual os méritos das diversas interpretações podem ser avaliados.

Além dessa análise interna do pensamento arqueológico, também convém ter presente o quanto ele interage com o contexto social. Por um lado, a arqueologia já foi tida por quem a contempla externamente como disciplina esotérica irrelevante, como fascínio romântico, como instrumento totalitário de reinterpretação da história, etc. Por outro lado, no seio da própria arqueologia muito já se especulou sobre a influência recebida do seu contexto social, já que é comumente aceito que nenhum fato é estabelecido fora de um marco teórico.

Nesse âmbito — seguindo Thomas Kuhn —, costuma-se falar de mudanças de paradigma (que seria o cânon consensual de prática científica), embora uns sustentem que essas transformações se dão a modo de revolução ou, segundo outros, gradualmente. No contexto das revoluções científicas, alguns atribuem essas mudanças a sucessivos inovadores (acumulação linear), enquanto outros buscam suas causas em novas ideias das ciências sociais ou em novos dados arqueológicos (processo não linear).

Não obstante, a par de quem aplique tais entendimentos ao pensamento arqueológico, há quem duvide que os conceitos teóricos da arqueologia tenham mudado significativamente ao longo dos períodos, pois é possível detectar ideias que se repetiram independentemente do contexto. O que efetivamente parece afetar o pensamento arqueológico é o enfoque regional ou, antes, a orientação política (colonialista, nacionalista, imperialista), ainda que isso não tenha impedido um frutuoso intercâmbio intelectual entre as escolas. Na mesma linha, as diversas especializações, com suas respectivas interações com as outras ciências afins, também parecem ter influenciado a interpretação arqueológica.

Em resumo, pode-se dizer que a arqueologia assistiu a ondas de inovação que se combinaram, sobrepuseram e interagiram, produzindo linhas de interpretação dos fatos para além dos marcos geográfico ou cronológico; linhas, porém, que se harmonizam graças a laços históricos e interesses metodológicos comuns.

5 de out. de 2013

Quem foi Jeremias

Jeremias, oriundo de família sacerdotal, consagrado por Deus desde antes de nascer para uma missão precisa de eficácia comprovada (Jr 1,1.5.9), é o tipo mais perfeito de Cristo.

Biografia

Tendo recebido a vocação em 627 aC, passou a denunciar a apostasia do seu povo (Jr 2–6). Diante da morte prematura de Joacaz, que quisera continuar a reforma religiosa de seu pai, dedicou-lhe sentida elegia (Jr 22,10-12).

Durante o reinado de Jeconias (609-598 aC), títere do Egito, Jeremias legou-nos as confissões (Jr 11,18-23; 12,1-6; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18) de seu desalento e solidão, em que encarnou o sofrimento de Judá. Desse período é a declaração de seu celibato (Jr 16,1-9). Como pronunciara um duro discurso contra o Templo aquando da coroação de Joaquim (Jr 7; 26), foi decidida sua morte, depois evitada; de qualquer jeito, nunca mais pôde entrar no Santuário.

Tendo alertado o perigo do império neobabilônico (Jr 25) em 605 aC, acabou assistindo à primeira deportação oito anos depois. Nesse período já o vemos acompanhado por Baruc, seu fiel secretário (Jr 36; 45).

Como a nação se dividisse entre recorrer ao novo faraó egípcio ou aceitar Sedecias como rei enquanto Jeconias vivia no exílio, Jeremias advoga por submeter-se à Babilônia (Jr 24). Aos exilados, envia uma carta desenganando acerca das promessas de retorno iminente dos falsos profetas (Jr 29).

A paixão de Jeremias

Quando em 588 aC Nabucodonosor cercou Jerusalém, os fatos deram razão a Jeremias, o qual prenunciou a derrota (Jr 34), embora também sinalizando a restauração (Jr 32,4-14). Contudo, ele caiu em desgraça e sofreu a sua “Paixão” (Jr 38,14-28) — lançaram‑no a um suplício concebido para ser mortal —: confinado num tanque de lodo no subsolo de uma cisterna, não pôde ali nem sequer esperar o pão da miséria que se joga aos condenados, pois já não havia pão na cidade.

Um justo de origem estrangeira, oficial da casa do rei, chamado Abdemelec, conseguiu obter deste a ordem furtiva de tirar o prisioneiro de lá antes que expire. Retornou a uma detenção menos desumana no pátio da guarda do palácio real, quando o exército babilônio se preparava para o assalto decisivo. Quando cai Jerusalém, o profeta é protegido pelas autoridades babilônicas.

Tendo permanecido ao lado de Godolias (Jr 40,2-6), Jeremias se viu obrigado a acompanhar para o Egito os sediciosos que assassinaram o administrador ao cabo de três meses. Continuou sua pregação ali (Jr 42-44), até que, segundo uma tradição cristã, foi lapidado em Tafnes pelos mesmos cuja conduta merecera suas rigorosas reprovações.

Perene memória

Sua memória sobreviveu como de ardente defensor do Deus único (Eclo 49,8s). Diz-se que escondeu a arca da aliança, o altar dos perfumes e a Tenda da Reunião no monte Nebo enquanto Deus não reúne o seu povo, para que as vicissitudes da história de Israel não interrompesse a tradição litúrgica oriunda de Moisés (2Mc 2,1ss).

Ainda apareceu como protetor dos irmãos séculos depois, ao entregar em sonhos a Judas Macabeu, cheio de glória, a espada da vitória sobre os selêucidas (2Mc 15,13-16). Mesmo o povo no tempo de Cristo cogitará ser Jesus Jeremias ressuscitado (Mt 16,14). A matança dos inocentes e a compra do campo do oleiro são profecias a ele atribuídas (Mt 2,7s; 27,9s).

Obra literária

O livro dos Trenos se entende como um segundo epílogo a Jeremias, não necessariamente de sua autoria. Na Bíblia Católica, sempre na sequência de Jeremias (Jr) e Trenos (Lm) vêm o livro de Baruc (Br 1–5) e a chamada “Epístola de Jeremias” (Br 6). Discute-se se esta teria mesmo estado nos arquivos do profeta (2Mc 2,1a), pois o autor parece ter vivido na Babilônia: conhece pessoalmente seus costumes e práticas, particularmente o fausto cultual estimulado por Alexandre o Grande (tempo da 7ª geração: Br 6,2; dentre os que ficaram livremente na terra do exílio, após o edito de Ciro: Esd 1,5; cf. 7,16; 8,25; Ne 1,1; cf. 2,1.5-6).

A composição e a transmissão de Jr são bastante acidentadas. No século XX proliferaram hipóteses explicativas, que podem ser assim resumidas: a) O livro procederia de diversas fontes. b) O texto hebraico (massorético) seria uma atualização de um livro já terminado do qual possuiríamos a versão grega (dos LXX).

2 de out. de 2013

Quem foram os profetas

Profetas não escritores

Depois de Moisés, Aarão e Maria, o Pentateuco refere-se a Balaão, o qual, embora adivinho estrangeiro contratado para amaldiçoar Israel, profetizou quatro oráculos a seu favor. Uma inscrição em Tell Deir Alla, na Transjordânia (1986), dá pé a supor que existia um “livro de Balaão, filho de Beor, o homem vidente dos deuses”; além disso, consta ter havido um famoso rei vidente arameu muito antigo.

Posteriormente, Samuel surge à frente de um dos grupos — aparecidos no seu tempo — dos fervorosos “filhos dos profetas” (1Sm 19,20). Eram comunidades religiosas que viviam de esmola (2Rs 1,8; 4,42; 5,22) e se vestiam com mantos de pelo e cíngulo de couro. Arrebatados pelo Espírito Santo, entravam em transe extático, provocado frequentemente pela música (2Rs 3,15) e bebidas fermentadas. Expressavam‑se mais pelas danças e cantos do que pela palavra, lançando gritos e invocações, e às vezes se faziam incisões (1Rs 18,28), tiravam as vestes e acabavam amiúde em estado de prostração (1Sm 19,24), pelo que chegavam a ser tachados de loucos (cf. 2Rs 9,11; Jr 29,26; Os 9,7).

Natã é o mais famoso profeta áulico, cortesão de Davi. Esse tipo de profeta foi comum no reino do Norte, e teve grande influência nos assuntos políticos e sociais.

Elias e Eliseu foram profetas carismáticos, desvinculados tanto da corte quanto do Templo. Elias é considerado o “pai dos profetas”, pois foi o mais valente defensor do javismo, quando o sincretismo dos omríadas devastava a fé de Israel. Eliseu o sucede após a assunção do seu mestre, destacando-se sua taumaturgia e sua intervenção nos assuntos públicos.

Profetas escritores

Do século VIII aC em diante, os principais profetas deixaram escritos recebidos no cânon bíblico. É razoável admitir que os oráculos de cada profeta tenham sido compilados ou completados por discípulos que escreveram integralmente (cf. Is 8,16). Contudo, parece muito mais enriquecedor aprofundar no alcance teológico refletido na ordem dos livros dentro do cânon e na ordem das diversas seções dentro de cada livro do que se imbricar na questão das ipsissima verba dos profetas.

Os hagiógrafos têm mais interesse em transmitir as palavras proféticas que em expor a biografia de quem as pronunciou. Por isso, há duas formas de intitular os livros proféticos. A mais antiga, quando os profetas ainda não tinham a auréola de mestres, diz: “Palavra do Senhor dirigida a…” (Os 1,1; Sf, 1,1; Jl, 1,1; Jr 1,1 LXX). A mais recente simplesmente aduz o magistério autêntico dos profetas reconhecidos (cf. Am 1,1; Jr 1,1 TM).

10 de set. de 2013

O escudo untado de sangue

A eleição real recaíra sobre Saul: um valoroso jovem de uma rica família benjaminita — a tribo menos importante de Israel — com um ardente anelo de grandeza e um profundo desejo do transcendente.

Não obstante, quando o inimigo acossa e cresce o clamor do povo, Saul sente medo… O ferro enfrenta o bronze numa guerra antiga… Mas na alma do rei trava-se uma batalha ainda mais violenta: eis a emocionante biografia de um homem dividido entre interesses contraditórios e a batalha por sua própria alma.

Todos deveríamos agradecer de não estar em seu lugar… Mas, embora o rei Saul tenha sido, aparentemente, “um passo em falso de Deus”, uma escolha equivocada, nada desmerece o seu heroico fim.

Uma péssima consulta

Partindo da concentração de Afec, o exército filisteu se dirigiu para a fértil planície de Esdrelão. O plano dos filisteus era conquistá‑la a fim de cortar em dois o território de Israel e controlar também as montanhas de Efraim pelo norte. Enquanto isso, acamparam em Sunam.

A fim de conter o avanço dos inimigos, Saul conduziu seu exército para a mesma área, nas proximidades de Jezrael; mas as forças eram desiguais. Saul consultou a Deus a respeito da sorte da guerra; não recebendo nenhuma resposta do efod, as sortes sagradas estabelecidas por Moisés, resolveu recorrer aos adivinhos e necromantes, superstição que ele mesmo banira de Israel.

De noite, em jejum o dia inteiro, dirigiu‑se disfarçado a Endor, diante das encostas do Tabor, à casa de uma mulher necromante, vestido com roupas modestas, acompanhado por dois homens. Chegou à sua casa e, jurando por Deus, disse‑lhe: “Como é certo que Deus vive, nenhuma culpa cairá sobre ti”. A bruxa de Endor falou: “A quem invocarei?” Saul respondeu: “Invoca‑me Samuel” (1Sm 28,10s).

Enchendo a medida da cólera de Deus, a mulher fez alguns passes, murmurou palavras especiais, e eis que Samuel surgiu da terra. Ela percebeu que o consulente era Saul, o qual se prostrou ao ver Samuel.

Saul explicou ao espectro que precisava de uma resposta de Deus acerca da sorte na guerra. Samuel lhe respondeu:

— “Por que ainda me consultas, quando YHWH se retirou de ti, tornando-se teu adversário? YHWH cumpriu o que tinha falado por meu intermédio. YHWH arrancou da tua mão a realeza e a deu ao teu companheiro Davi. Já que não obedeceste a YHWH e não levaste a cabo a sua cólera ardente contra Amalec, por isso YHWH hoje te fez isto. YHWH entregará contigo também a Israel nas mãos dos filisteus, e amanhã tu e teus filhos estareis comigo. YHWH entregará nas mãos dos filisteus também o exército de Israel” (1Sm 28,16-19).

Saul caiu como fulminado, profundamente apavorado. Depois de servido com uma vitela, retomou o caminho do acampamento.

A batalha de Gelboé

Saul tomou seus três filhos, Jônatas, Abinadab e Melquisua, e partiu com eles para a luta, ciente da morte certa e aguardando com frieza a fatalidade. Saul se sabia abandonado por Deus e deu início à batalha no furor do desespero.

O exército de Israel foi repelido; e o rei, com as forças que ainda sobravam em condições de lutar, recuou para o monte Gelboé, onde o ataque dos filisteus se tornara mais violento. Neste lugar, seus três filhos maiores caíram no combate.

Saul, ferido e desesperado, se lançou sobre sua espada para não cair com vida em mãos dos inimigos. Em seguida, não só os combatentes de Israel se dispersaram, mas também os habitantes da região fugiram de suas cidades, que foram ocupadas pelos filisteus.

No dia seguinte, a cabeça de Saul foi carregada como troféu pelas cidades da Filisteia, enquanto o corpo foi pendurado na muralha de Betsã. Na noite seguinte, porém, os habitantes de Jabes de Galaad, lembrando‑se de que, quarenta anos antes, tinham sido salvos por Saul, atravessaram o Jordão e, após retirar às escondidas seu cadáver, deram‑lhe piedosa sepultura sob seu terebinto.

O canto do arco

Ao terceiro dia, um estranho amalecita levou a Davi, que vivia acastelado em Siceleg, a coroa e o bracelete reais e lhe contou que Saul só conseguira cair morto por ter pedido sua ajuda. Davi ao sabê‑lo, mandou executá‑lo por ter levantado a mão contra o ungido do Senhor.

Depois, chorou amargamente e fez esta elegia, então consignada no atualmente perdido Livro do Justo (2Sm 2,19-27):

“A glória de Israel jaz ferida de morte nas tuas alturas!
Como caíram os bravos!

Não o conteis em Gat.
Não o proclameis pelas ruas de Ascalon,
para que não se alegrem as filhas dos filisteus
nem se rejubilem as filhas dos incircuncisos!

Montes de Gelboé, jamais caia orvalho nem chuva sobre vós
nem haja campos férteis!
Pois lá foi aviltado o escudo dos bravos:
O escudo de Saul, não untado de óleo,
mas com o sangue dos feridos, com a gordura dos bravos.

O arco de Jônatas não recuava
e a espada de Saul não voltava sem efeito.
Saul e Jônatas, amados e queridos,
nem a vida, nem a morte os pôde separar:
mais rápidos que águias, mais fortes que leões!

Filhas de Israel, vertei lágrimas sobre Saul,
ele que vos vestia de púrpura encantadora,
ele que pregava ornatos de ouro nos vossos vestidos!
Como caíram os bravos em plena batalha!

Jônatas, sobre tuas alturas ferido de morte!
Quanto estou dolorido por ti, Jônatas, meu irmão!
Quanto me eras caro e querido!
Tua amizade me era mais maravilhosa
que o amor de mulheres!

Como caíram os bravos
e pereceram as armas de guerra!”

Saul foi um herói?

Vale a pena recolher na íntegra o belo comentário de Flávio Josefo acerca da morte de Saul (Antiguidades Judaicas, VI, 15, 253):

“Julgo dever acrescentar outra reflexão, que pode ser útil a todos e particularmente aos reis, aos príncipes, aos grandes, aos magistrados, às outras pessoas constituídas em dignidade e a todos os que em qualquer condição estejam, têm a alma grande e nobre, a fim de inflamá‑los de tal modo ao amor da virtude que não haja penas nem tribulações que eles não aceitem, nem perigos que eles não desprezem e até mesmo a morte, para conquistar uma reputação imortal, dando sua vida pelo bem da pátria.

Nós vemos o que Saul fez, pois, ainda que Samuel o tivesse avisado de que ele seria morto com seus filhos na batalha, ele preferiu perder a vida a fazer uma ação indigna de um rei, para conservá‑la, abandonando seu exército, o que seria como entregá‑lo nas mãos dos inimigos. Assim, não hesitou em se expor com seus filhos a uma morte certa, mas julgou que seria melhor e muito mais feliz terminar gloriosamente seus dias, com estes, combatendo pela salvação da pátria e merecendo viver perenemente na memória da posteridade, do que o sobreviver à sua infelicidade, não ter mais uma posição e ser ainda tido em pouco na opinião de todos. Não poderia, pois, deixar de considerar já esse soberano, neste ponto, como muito justo, muito sensato, e muito generoso. E, se algum outro fez antes dele ou fizer no futuro a mesma coisa, não haverá elogios de que não seja digno. Pois ainda que aqueles que fazem a guerra na esperança de obter a vitória, merecem que os historiadores elogiem suas ações e seus feitos grandiosos, parece‑me que somente devem ser tidos como provectos na coragem os que, à imitação de Saul, preferem de tal modo sua honra à própria vida, que desprezam perigos certos e inevitáveis.

Nada é mais comum do que empreender aquilo cujo desfecho é duvidoso e de que, se houver sorte favorável, podem se auferir grandes vantagens. Mas nada poder prometer senão coisas funestas, estar mesmo certo de que se perderá a vida no combate e ir com coragem intrépida afrontar a morte, é o que se pode dizer o cúmulo da generosidade e da coragem. Foi isso que admiravelmente fez Saul; foi o exemplo que ele deu a todos os que desejam eternizar sua memória pela glória de suas ações, mas principalmente aos reis, aos quais a nobreza da própria condição, não somente não permite abandonar o cuidado de seus súditos, mas os toma mesmo dignos de censura se tiverem por eles apenas um a medíocre afeição.”

25 de mai. de 2013

As três montanhas de Moisés

O monte da Fé

Moisés foi apascentar as ovelhas do sogro madianita e chegou no Planalto do Sinai, no deserto de mesmo nome. Segundo uma tradição, alcançou o pico do Salgueiro (gebel Serbal), de 2.054 m de altura, que está quase a pique sobre um planalto a 1.500 m sobre o nível do mar, rico em águas.

Deus então lhe fala, através de seu Anjo, desde uma sarça que ardia sem se consumir. Se era uma variedade de ditamo branco (que segrega uma essência facilmente inflamável com calor intenso sem consumir as plantas donde emana), ou uma lorantácea (parasita das árvores desses climas, cujas flores vermelhas parecem brasas sob o sol pleno), não importa. O fato é que Deus lhe comunica que se tinha lembrado de seu povo oprimido no Egito e o chama a ser o seu libertador.

De pés descalços, Moisés ousa indagar pelo Nome de Deus e obtém em resposta o que torna esse episódio a teofania fundamental de toda a história da salvação: Deus lhe revela — com uma aparente recusa, reveladora ao mesmo tempo que ocultando, a santidade e a transcendência divinas — o seu Nome inefável: “Eu Sou Aquele Que Sou”: JAVÉ (YaHWeH).

A noção divina que o Nome JAVÉ representa é distinta e elevada, superior ao nome com o qual Deus se revelara a Abraão (Gn 17,1; 28,3; 35,11; Ex 6,3; 1Rs 20,23; Ez 1,24; 10,5), pois “Ele é” significa primariamente “Ele vive”, contraposto aos ídolos mortos; “Ele é” o Deus presente que “será” com Moisés e com o povo, como o foi com os patriarcas ((Ex 3,6.12.15).

O monte do Amor

Enfim o povo chegou ao monte Sinai, também chamado Horeb pelas tradições eloísta e deuteronomista, termo que significa “árido, seco”. É o “Pico de Moisés” (gebel Musa), com 2.285 m de altura, até onde Egéria peregrinaria em 383 AD.
Ao terceiro dia do mês de Sivã, Deus comunicou ao povo as suas “Dez Palavras” e transmitiu a Moisés o “Código da Aliança” (Ex 20,22–23,19), pacto selado com solene sacrifício de sangue (Ex 24,3-8) e Comunhão (Ex 24,9-11).

Aí nasceu Israel como povo livre (Lv 26,42-45; Dt 4,31; Eclo 44,21-23) e comprometido a observar os mandamentos e a Lei (Ex 20,1; 20,22–23,33; Dt 5,1-21). Em contrapartida, Deus prometeu fazê-lo seu povo particular e cercá-lo com sua proteção (Ex 19,4-8; Dt 11,22-25; 28,1-14).

A Lei de Deus (Js 24,26) é, pois, o conjunto das prescrições religiosas e civis colecionadas no Pentateuco, o qual, porém, contêm coleções (Ex 25–31; 36–40; Lv 1–16; 23–27; Nm 1–10; 17–19) diacronicamente incompatíveis que foram sendo acrescentadas pela tradição à legislação mosaica a fim de acomodá-la às novas circunstâncias da nação.

O monte da Esperança

“No final do caminho do Êxodo, destaca-se outro lugar elevado, o monte Nebo, donde Moisés pôde contemplar a Terra Prometida (cf. Dt 32, 49), sem a alegria de poder pisá-la, mas com a certeza de a ter finalmente alcançado. Aquele seu olhar a partir do monte Nebo é o próprio símbolo da esperança. Daquele monte, ele podia constatar que Deus tinha mantido as suas promessas. Uma vez mais, porém, devia confiadamente abandonar-se à omnipotência divina quanto ao pleno cumprimento do desígnio preanunciado.” (Bem-aventurado João Paulo II, Carta sobre a peregrinação aos lugares relacionados com a história da salvação, 6).

16 de fev. de 2013

Quo vadis, Papa?

Estava correndo contra o relógio a 140 km/h quando chegou o torpedo com que me comunicavam a renúncia de Bento XVI. Por sorte a surpresa não me causou um acidente, pois uns cones na pista tinham me feito reduzir a velocidade. 

Em duas semanas, dois chefes de Estado renunciaram: Beatrix da Holanda e Bento XVI da Santa Sé. A primeira pode se dar a esse luxo sem grandes polêmicas, mas o segundo… Quais seriam seus motivos? 

Sempre espere o inesperado. Nunca despreze os conceitos que costumam fazer visita a ritmo de cometa. Renuncie a julgar com ligeireza eventos surpreendentemente singulares. Mas não foi isso que vi na imprensa. Sem dúvida, há pressa em noticiar, em explicar, em comentar, em interpretar. Contudo, quanta pena senti diante da superficialidade de Luís Felipe Pondé, ou da amargura despeitada de Genézio (Leonardo) Boff, ou das teorias conspiratórias de tantos outros críticos acerbos. 

Mais uma vez, o Papa se apresentou como “sinal de contradição”, revelando o segredo de tantos corações que descarregam na Igreja o fel da própria consciência. Após um luminoso pontificado, repleto de conquistas sem precedentes, ainda há quem teime em considerá-lo um fracasso. Ou até quem acuse Bento XVI de ter traído Santo Agostinho e passado para o partido de Pelágio: com efeito, a graça não é mais importante que a mera força humana? 

Quando li a notícia, logo me veio à cabeça a famosa frase apócrifa dos Atos de Pedro, inspirada em Jo 16,5, e imortalizada pela obra de Henryk Sienkiewicz: Quo vadis, Papa? — Papa, aonde vais?

O texto do martírio de São Pedro conta como o velho pescador, informado da cruel perseguição, partiu solitário de Roma a fim de servir o Senhor, mas permanecendo vivo. Ao sair, encontra o próprio Cristo no caminho, a quem pergunta: “Senhor, aonde vais?” (Quo vadis, Domine?

E o Mestre lhe responde: “Vou a Roma para ser crucificado”. Ao que Pedro perguntou: “Serás crucificado novamente?” Mas Jesus lhe respondeu: “Não, Pedro, agora mesmo já estou sendo crucificado”. Então Pedro caiu em si e, vendo que o Senhor subia ao céu, retornou a Roma feliz de saber que seu destino seria o mesmo que o do seu Mestre.

Uma rápida analogia levaria a julgar a renúncia ao sólio pontifício com o mesmo rigor adotado por Dante Alighieri diante da abdicação de Celestino V, o santo papa medieval que o poeta afirma encontrar logo à entrada do Inferno (III, 58-60): 


Alguns já distinguira: eis, de repente,
Olhando, a sombra conheci daquele
Que a grã renúncia fez ignobilmente. 


Ao que parece, São Celestino — conhecido por Dante em 1294 — renunciou perante o Consistório após cinco meses de pontificado por causa de uma astuta campanha do cardeal Gaetani, destinado a sucedê‑lo com o nome de Bonifácio VIII. Desterrado e mantido praticamente prisioneiro em condições desumanas, Celestino veio a morrer dois anos depois. 

Mas o juízo dantesco foi paradoxalmente superado pelo juízo eclesiástico, que elevou à glória dos altares o pobre pontífice acorrentado pelas malhas da intriga. 

A única presunção cabível no caso de Bento XVI, um pastor consciente da gravidade do seu ato, um homem santo, dado à oração e à reflexão, é que ele sofreu muito para chegar a tal decisão e que viu mais benefícios do que prejuízos na mesma. Numa atitude franca e humilde, explicou suas razões aludindo à saúde física e espiritual que estão aquém das necessidades da Igreja neste concreto momento histórico. Portanto, mais do que indagar acerca das debilidades de Bento XVI, é preciso investigar a vulnerabilidade especial que sofre a Igreja de hoje, a ponto de o Papa optar por uma solução tão inusitada. 

Já se disse com muito boa intuição que, com essa renúncia, Bento XVI coroou o ciclo de abnegações que norteou a sua vida de entrega a Deus. Sem dúvida, à pergunta quo vadis, Papa?, ele poderia nos responder como o próprio Senhor: “vou a Roma para ser crucificado” ou — por que não? — “agora mesmo já estou sendo crucificado”. 

***
Transcrevo a passagem original do apócrifo:

Ὡς δὲ ἐξῄει τὴν πύλην, εἶδεν τὸν κύριον εἰσερχόμενον εἰς τὴν Ῥώμην.
Καὶ ἰδὼν αὐτὸν εἶπεν· Κύριε, ποῦ ὧδε;
Καὶ ὁ κύριος αὐτῷ εἶπεν· Εἰσέρχομαι εἰς τὴν Ῥώμην σταυρωθῆναι.
Καὶ ὁ Πέτρος εἶπεν αὐτῷ· Κύριε, πάλιν σταυροῦσαι;
Εἶπεν αὐτῷ· Ναί, Πέτρε, πάλιν σταυροῦμαι.
Καὶ ἐλθὼν εἰς ἑαυτὸν ὁ Πέτρος καὶ θεασάμενος τὸν κύριον εἰς οὐρανὸν ἀνελθόντα,
ὑπέστρεψεν εἰς τὴν Ῥώμην ἀγαλλιώμενος καὶ δοξάζων τὸν κύριον,
ὅτι αὐτὸς εἶπεν· Σταυροῦμαι· ὃ εἰς τὸν Πέτρον ἤμελλεν γίνεσθαι.
(Atos de Pedro, XXXV, 9-16) 

21 de out. de 2012

A chamada de Abraão

Conforme prometi por ocasião do início do Ano da Fé, passarei a comentar acerca de alguns personagens importantes para nossa compreensão da fé como resposta do homem aos apelos de Deus.

Começo obrigatório é evocar a figura de Abraão, nosso pai na fé, de quem já pude escrever alguma coisa. A descrição abaixo baseia-se numa harmonização de dados bíblicos, historiográficos e arqueológicos.

***

Para fazer frente à vaga de invasores arianos, Hammurabi (1728-1686 a.C.) buscou a unificação dos semitas amorreus: pôs Babilônia por capital, propugnou Marduc como único deus, promulgou suas “decisões de justiça” (um código moral talhado em pedra) e sufocou as insurreições locais. Por essa causa, Mári seria totalmente destruída e a região de Ur seria perturbada por agitações políticas e bélicas, até a deportação de seus habitantes.

Nessa época, nos arredores de Ur vivia acampado, à maneira dos seminômades, um clã arameu oriundo de Harã, cidade da Mesopotâmia Setentrional. Taré, o patriarca, tinha três filhos: Abrão, Nacor e Sarai. A família praticava a agricultura, mas se deslocava a cada estação, com sua pequena grei e seus jumentinhos, às zonas incultas em que as chuvas abundavam e os poços de água eram mais numerosos. Serviam às divindades sumérias locais, semelhantes às de Harã: o deus Lua Sin e a deusa Lua Nin‑gal.

Taré gerou outro filho, Arã, o qual morreu lá mesmo em Ur, talvez por conta das pilhagens sofridas pela cidade, deixando órfãos seus filhos Melca, Jesca e Lot. Melca foi desposada por Nacor e Abrão adotou seu sobrinho Lot, pois sua esposa e meia‑irmã Sarai era estéril.

Como a cidade não garantia segurança e a religião do novo império estava sendo imposta, Taré sentiu‑se forçado a deixar Ur.

A partir daí Abrão começou a ouvir a palavra do Deus vivo, que o arrancava da sua terra, do seu povo e, em certo sentido, de si próprio. Contudo, ainda era meramente uma palavra que o interpelava desde as vicissitudes da vida aldeã: acaso até Ilu, o abstrato Deus supremo dos semitas, que na mitologia se hipostasiava em Ea, pai de Marduc, deveria inclinar‑se diante do próprio filho, que segundo a vontade de um imperador usurparia o posto da única suprema divindade? A partir de então, Abrão abandonou os ritos de seus ancestrais que honravam múltiplas divindades e passou a adorar o Deus único do céu.

Então toda a família partiu rumo ao norte com seus rebanhos, seguindo o curso do Eufrates, cobrindo um percurso de mais de mil quilômetros, com o intuito de depois chegar a Canaã, já fora do domínio babilônico.

Chegaram à sua cidade natal, Harã, em Padã‑Aram. O empório babilônico — entroncamento obrigatório das caravanas nas colinas próximas aos Montes Tauros —, que tinha bons pastos irrigados, de flora exuberante, apresentou‑se‑lhes, contudo, muito propício para a instalação. Lá se adorava o deus Lua Nanna.

Mas em Harã Abrão ouviu uma chamada explícita e exigente de Deus, o início do desígnio divino salvador, que lhe reclamou uma resposta de fé: “Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrar. Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem; todas as famílias da terra serão benditas em ti” (Gn 12,1ss).

Tomando a esposa e o sobrinho Lot, seguiu ao sul, indo buscar na terra dos cananeus mais do que uma pátria, a voz que o chamava. Passando por Damasco, onde talvez tenha encontrado seu mais fiel e antigo criado, Eleazar, atravessou o Jordão junto ao Jaboc.

Morou no Negueb, imensa região de estepe, própria para pastagem periódica, junto ao carvalho de Mambré, passando por Siquém e Betel, onde erigira um altar. Os altares de terra ou pedras, que em geral serviam para oferecer sacrifícios, tornaram‑se também monumentos comemorativos dessas experiências religiosas dos patriarcas. Siquém ficaria na memória como o primeiro santuário onde Abrão recebe a promessa de posse da terra em Canaã.

Mas além das dificuldades impostas pelos povos locais a respeito de pastagens, poços d’água e assaltos, parecia que até o Deus da sua vocação não lhe facilitava as coisas: a fome o levou a uma estadia no Egito, que quase lhe custou a esposa e ainda a própria vida, quando o faraó quis fazer de Sarai sua concubina. Essas viagens ao Egito eram comuns naquela época e sabe‑se que um tal de Ibsha com seu clã inquietou os funcionário da XII dinastia. Por intervenção divina, Abrão voltaria a Canaã com Sarai sã e salva. Provavelmente traria de lá Agar, a escrava.

Chegando de novo a Betel, o novo clã de Abrão já sofre sua primeira divisão, indo seu sobrinho Lot habitar junto ao Mar Morto, próximo às cinco cidades cananeias não muito afamadas devido à imoralidade e corrupção geral: Sodoma, Gomorra, Adama, Seboim e Segor.

Após tantos reveses, Deus lhe recompensa prometendo‑lhe a posse da terra de Canaã. Com a bênção divina e com a terra prometida, falta-lhe apenas uma descendência.

15 de set. de 2012

A Sibila do Reno

Hildegarda com sua pupila Richardis, no filme Vision

Novos Doutores

Em outubro próximo, iniciará o Ano da Fé. Por essa ocasião, Bento XVI proclamará doutores a São João de Ávila, “Mestre de Santos e a figura de maior destaque num século de gigantes”, e Santa Hildegarda de Bingen, “a Sibila do Reno e Profetiza dos Teutões”.

Os requisitos para que se proclame um Santo como Doutor da Igreja são: eminens doctrina, insignis vitæ sanctitas, Ecclesiæ declaratio (doutrina eminente, santidade insigne e declaração eclesiástica). Em termos práticos, a declaração como Doutor torna obrigatório para a Igreja universal o ofício e a Missa do Santo em questão, cujos ensinamentos são apresentados como uma referência.

Portanto, a decisão de inscrevê-lo nessa lista tão exígua (35 no total) é — eminentemente — pastoral. Essa intenção fica ainda mais patente com a escolha de Hildegarda, que nem mesmo tinha sido solenemente canonizada, embora seu culto fosse estendido na Alemanha. Com efeito, a Sibila do Reno cai nas graças de todo mundo, desde adeptos da New Age às feministas mais ideologizadas.

Nada melhor do que resgatar a mística medieval para o conhecimento dos nativos virtuais do nosso século.

Mulher polímata

Hildegard Von Bingen (1098-1179) é uma personagem muito peculiar: a mestra do mosteiro beneditino de Rupertsberg foi mística, fundadora, teóloga, pregadora, naturalista, médica, escritora, poetisa, dramaturga e compositora. Criou inclusive uma lingua ignota, com alfabeto igualmente desconhecido, com a qual descrevia suas fantásticas visões.

Além de algumas referências esparsas, Bento XVI já lhe dedicou duas audiências, e o Bem-aventurado João Paulo II escreveu uma breve carta sobre ela, que foi uma das mulheres mais importantes da Idade Média e cujas obras podem ser lidas em latim (e em espanhol).

Dentre as suas obras enumeram-se também peças musicais, compostas por revelação divina. É possível encontrar na Internet uma boa seleção:


A Profetisa nas telas

Em 2010, foi lançado o filme Vision: from the live of Hildegard Von Bingen. A diretora, Margarethe Von Trotta, realizou um belo trabalho, doutrinal e moralmente ortodoxo, o qual vem maculado, contudo, por personagens caricaturescos e estereótipos sobre o feminismo, o naturalismo, a época medieval e as práticas penitenciais. A fotografia e o figurino são excelentes; há inclusive alguns pequenos trechos das músicas de Hildegarda. O resultado final é um tanto heterogêneo: o filme pode parecer pesado a alguns, mas vale a pena.

Em compensação, a TV alemã ZDF produzira em 2008 uma série de documentários sobre as 20 maiores personalidades da história germânica, dedicando à Sibila do Reno um dos episódios. Estão disponíveis para download, mas sem legenda.

O verdadeiro feminismo cristão

A figura de Hildegarda é muito apropriada hoje para contestar a difundida falácia feminista de que a mulher teria sido humilhada e maltratada no decurso dos séculos cristãos. É fora de dúvida que, nas antigas civilizações (exceto em parte entre os judeus e os epicuristas), a mulher foi sujeita ao despotismo do varão, era moeda de troca, era vitimada por divórcios arbitrários, submetia-se à prostituição sagrada, etc.

Pelo contrário, no seio do Cristianismo, a mulher encontrou uma defesa de seus direitos, obteve a proteção do matrimônio indissolúvel, recebeu um status até então inimaginável, e foi proposta como o mais sublime dos modelos na figura de Maria.

Hildegarda não é figura isolada. Helena e Teodora II, Teodolina, Clotilde e Radegunda, Catarina de Sena e Teresa de Ávila, entre tantas outras, exerceram mais influência do que qualquer mulher dos tempos modernos. Essa visão distorcida do desprezo cristão pela mulher provém da tendência atual a denegrir a Igreja histórica.

Curiosamente, os mesmos que atribuem à Igreja as “antigas faltas da Cristandade” também lhe atribuem as crises atuais, oriundas justamente do abandono que fizeram da mesma Igreja. Em suma: se para muitos não houve filosofia antes de Kant, para tantos outros não houve história antes da Revolução Francesa…

25 de jun. de 2012

Três estertores da história

O historiador Carlos Guilherme Seroa da Mota fez uma preleção na Academia Brasileira de Letras a 10/4/12, na qual explicou que, durante os setenta anos entre 1929 e 1989, assistiu-se à crise da paideia ocidental. E que, de lá para cá, com a queda das Torres Gêmeas e a recente crise econômica, assiste-se ao “fim da história”, embora isso nada tenha de nostradâmico.

Tem sido recorrente falar de crises e de pós-alguma-coisa. E, enquanto uns soltam rojões pelas conquistas, outros choram pelas perdas. Triste embate entre visões de vanguarda e valores remanescentes. Mas nenhum tempo é melhor que outro: penso que seria preferível simplesmente depurar os arroubos de ambos os lados e trabalhar em conjunto na busca do equilíbrio.

Mas, retornando às ideias do palestrante… ele apontava três aspectos da crise da história:

1. Abandono da historiografia. Os clássicos nacionais esquecidos por uma transição marcada pela ruptura, pela revolução, pelas mudanças de paradigma.

2. Dessacralização dos personagens. Mesmo que haja um positivo resgate do papel das mulheres, o protagonismo do ser humano foi substituído pela “estrutura”.

3. Invasão de outras áreas. Os anos 70 estudaram, por exemplo, a história quantitativa, de cunho econômico. Por outro lado, conceitos tão alheios quanto obsoletos, vagos quão impróprios, deformam o discurso do historiador: “reflexo” (da psicanálise), “influência”, “raça”, etc.

De fato, quadros mentais são prisões de longa duração. E o texto, tão dócil às leituras, torna qualquer fonte passível de manipulação.

13 de abr. de 2012

A noiva do Chucky

A intelligentsia brasileira é prisioneira de doxas. Segundo o Houaiss, doxa é “o sistema ou conjunto de juízos que uma sociedade elabora em um determinado momento histórico supondo tratar-se de uma verdade óbvia ou evidência natural, mas que para a filosofia não passa de crença ingênua, a ser superada para a obtenção do verdadeiro conhecimento”.

Um reflexo do doxa feminista radical ficou patente na recente decisão do STF quanto aos anencefálicos (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54). A ocasião faz o ladrão e nada mais oportuno que aproveitar o ensejo para analisar retrospectivamente a evolução do pensamento feminista.

Origem no século XIX

Mary Wollstonecraft
Embora tenha iniciado com anterioridade (vide, por exemplo
Uma Defesa dos Direitos da Mulher, de Mary Wollstonecraft, publicada em 1790), é possível localizar no século XIX o nascimento do feminismo, cujas origens ideológicas provêm de cinco princípios:

• a razão igualitária iluminista;
• a visão progressista da história;
• o socialismo utópico;
• o liberalismo;
• o cristianismo.

Rapidamente, o movimento assumiu duas derivações:

O feminismo igualitário: visava à imitação do status masculino na sociedade. Ou era liberal, da linha de John Stuart Mill, ou era socialista.

O feminismo reivindicatório: propunha um programa para elevar o nível cultural e profissional das mulheres.

No âmbito católico sublinhou-se o direito ao voto (temido pelos anticlericais e socialistas, pois as mulheres eram conservadoras) e o direito a uma melhor educação, a mais oportunidades profissionais e a um sistema jurídico protetor das famílias e da maternidade.

Contudo, o acesso aos campos de trabalho masculinos às vezes foi defendido desprezando-se o trabalho doméstico e, no bojo das reivindicações, foram incluídas exigências no âmbito da sexualidade. Nessa linha, o liberalismo propunha mormente o divórcio e a contracepção, enquanto o socialismo postulava o fim da família e o amor livre.

Evolução da questão no início do século XX

Simone de Beauvoir
O início do século XX trouxe forçosamente as mulheres ao mercado de trabalho por causa das Guerras. E as ideias neomalthusianas difundiram a opinião de que a exclusão do aspecto procriador da relação sexual seria um “progresso” a ser almejado.

Com tal background, encontraram forte eco a partir dos anos 60 a psicologia freudiana e as teorias sociológicas da Escola de Frankfurt. O ícone desse tempo foi Simone de Beauvoir (1908-1986), companheira de Sartre. Ela defendia o rompimento das algemas biológicas que oprimem as mulheres através da contracepção e do aborto, levando-as à mesma liberdade sexual dos homens. É paradoxal, mas seu igualitarismo considera, portanto, o modelo masculino como normativamente superior.

As cinco correntes atuais

Sulamith Firestone
As principais correntes feministas, agora de índole revolucionária, passam a ser, desde os anos 60:

Kate Millet
Feminismo radical: centrado na sexualidade, afirma que “o pessoal é político”. Sulamith Firestone fará uma interpretação marxista, segundo a qual as mulheres devem controlar os meios de reprodução. Kate Millet defenderá a destruição do patriarcado e das instituições. Muitas feministas radicais rechaçarão a heterossexualidade e defenderão o lesbianismo.

Nancy Chorodov
Feminismo psicanalítico: centrado no combate ao complexo de Édipo, que relegaria a mulher a um posto secundário na sociedade. Nancy Chodorov advogará pela participação das mulheres em trabalhos masculinos. Linhas mais radicais também verão o lesbianismo como principal forma de escapar às consequências do complexo de Édipo.

Juliet Mitchell
Feminismo marxista-socialista: a opressão feminina seria causada simultaneamente pela classe social e pelo sexo. Por isso, Juliet Mitchell defenderá a derrota do homem e de suas estruturas patriarcais e capitalistas.

Betty Friedan
Feminismo liberal-reformador: trabalha dentro das instituições, na linha do antigo feminismo reivindicatório do século XIX, em prol de pretensos “direitos sexuais”. Betty Friedan fará sucesso com sua crítica desapiedada da dona de casa, que compara a um prisioneiro de um “confortável campo de concentração”.

Gertrud von Le Fort
Feminismo teológico: oriundo do meio protestante, quis depurar o alegado “machismo” da tradição bíblica e defender o sacerdócio das mulheres, tornando-se bastante forte em algumas comunidades. Chegou até a propor uma “religião da deusa”, pós-cristã. Produziu seus reflexos negativos na teologia católica germânica e anglo-saxã, mas a Igreja soube reagir com firmeza doutrinal; entre outras coisas, figuras como a santa filósofa Edith Stein, a escritora Gertrud von Le Fort e São João Paulo II apontaram caminhos positivos para a mulher. (Abstenho-me de fazer aqui a necessária menção à problemática muçulmana, bem diversa da ocidental.)

Novas facetas

A ideologia de gênero é a nova cara do feminismo radical. Distingue sexo (biológico) de gênero (papel na sociedade). Transfere as funções femininas tradicionais (maternidade, etc.) para o gênero, que não é visto como algo natural, mas manifestação cultural “biologizada”, passível de evolução histórica.

Daí a defesa das “famílias alternativas” e a releitura heterodoxa dos direitos humanos. Segundo a metáfora leninista, todo comportamento seria mero papel cujo atores são intercambiáveis como as engrenagens de uma máquina.

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Essa postagem nasceu depois desse tweet:

18 de jan. de 2012

Leopoldina é que era mulher de verdade

A leitura das cartas da Imperatriz Leopoldina me fez saber de forma mais significativa que os príncipes eram preparados para o Estado mediante uma educação tão esmerada que faz parecer nossas melhores escolas uma brincadeira de criança.

Com efeito, a futura Imperatriz brasileira, da casa dos Habsburgos, aprendeu enquanto jovem as lides do campo e da pecuária, foi treinada para vencer a timidez através da oratória e da dramaturgia, capacitou-se para a diplomacia mediante o estudo de diversas línguas, compreendeu a importância das artes e das ciências pelo contato direto com seus métodos, etc.

Ao casar-se com Dom Pedro I, Leopoldina ressentiu-se da inferioridade da educação na corte portuguesa, agravada pela precariedade que supôs a vinda ao Brasil. Além disso, penou com a artificialidade que os lusos revestiam inclusive a piedade e a liturgia.

O fim da monarquia trouxe consigo o rechaço pela pompa. Mas não parou na repulsa à ostentação: seguiu-se uma gradativa diminuição do requinte, do esmero, da delicadeza, do tom.

Sem dúvida, a simploriedade, a pressa e a informalidade tornaram-se as indesejáveis companheiras das liberdades modernas.

18 de set. de 2011

Jihad da palavra

Batismo do jornalista Magdi Allam
No quinto ano do discurso de Ratisbona.


“Se o 11 de setembro representou o cume da «jihad do terror», com o mais sanguinolento atentado ao coração da superpotência mundial, o 12 de setembro de 2006 constitui o nível mais alto da «jihad da palavra», através do mais insidioso ataque verbal ao líder espiritual que hoje, mais do que ninguém, encarna os valores e os ideais do Ocidente. A «jihad da palavra» tem o seu fundamento na convicção de que todos nós (incluindo aqueles que, neste momento, irresponsavelmente dão apoio aos fundamentalistas islâmicos) — ou seja, o inimigo — seremos derrotados quando nos autocensurarmos voluntariamente, quando formos dominados pelo medo de dizer o que pensamos e de sermos aquilo que somos, quando o medo àquilo que poderá acontecer nos dilacerar interiormente e paralisar totalmente”.

Com tais palavras, Magdi Cristiano Allam, vice-diretor do jornal italiano Corriere della Sera, comentava o período histórico em que vivemos no livro da sua conversão do Islã ao catolicismo. Constatamos, com efeito, um embate entre o terrorismo islâmico por um lado e o niilismo ocidental por outro. E no centro do ringue, Bento XVI.

A mordaça que se tem procurado aplicar ao Pontífice, aparentemente eficaz em alguns momentos, é uma derrota do princípio de liberdade de expressão, eixo da civilização ocidental. O “politicamente correto” está dando passo agora ao “islamicamente correto”.

O que têm em comum o niilismo relativista ocidental e o fundamentalismo islâmico? A negação da racionalidade. Aí se estriba a conjunção de forças tão contrárias em um único objetivo: calar a Palavra.

10 anos do terror. 5 anos da mordaça. Mas tanto faz. A Palavra nunca está acorrentada. Fala mesmo em silêncio. E quem faz teologia também sabe fazer teodiceia; é até um exercício interessante.

27 de mar. de 2011

Onfalópsicos sem peias


Os onfalópsicos estão à solta. Mais do que barrigas à mostra, isso quer dizer que a preguiça tem sido o álibi dos apáticos.

Os onfalópsicos eram membros de uma antiga seita quietista dos séculos XI e XII, cujos sectários se acreditavam iluminados e achavam que, contemplando e fixando o umbigo, podiam comunicar-se com a divindade e ver aquilo a que chamavam luz do Tabor.

O quietismo é uma forma de misticismo que sustenta poder a alma, conservando-se na mais total passividade de coração e de atitudes, atingir um estado contínuo de amor e de união com Deus.

Por esses tais de “onfalópsicos”, vê-se que o quietismo do século XVII — comum na Espanha, França e Itália de então —, fora uma tentação recorrente ao longo da história. Mesmo hoje, quem não se imagina ingenuamente justo e bom só porque experimenta um sentimento religioso que lhe faz cosquinhas, apesar de levar uma vida em flagrante contradição com o sentido da transcendência?

3 de set. de 2010

Maniqueísmo em pleno século XXI

Esta é a parte
1 | 2 | 3
Como eu dissera numa postagem anterior, certas formas populares de opinar sobre a Bíblia parecem-me uma manifestação de puro maniqueísmo. Na próxima postagem veremos como demonstração um pequeno elenco de lugares-comuns.

Por agora, detenhamo-nos na história dessa seita curiosa.

Origem do maniqueísmo

O maniqueísmo surgiu no século III, na Pérsia. Seu mentor, Manes, criou uma suma sincretista, uma amálgama heteróclita das doutrinas mais díspares: heresias cristãs, gnosticismo de forte cunho helênico, crença indiana na transmigração das almas e dualismo zoroastriano.

Para completar, diz-se que o pai de Manes fora alexaíta, isto é, pertencente à degenerada seita fundada por um tal Aleixo entre os judeu-cristãos do tempo de Trajano, o qual misturava aos dogmas algumas observâncias judaicas e certas práticas de magia.

Manes consolidou seus ensinamentos numa bíblia pessoal em que verteu sua esmerada caligrafia, seu pendor poético e sua arte em miniaturizar. Seus discípulos traduziram os textos para o grego, o latim, o chinês, o turco e o árabe.

A doutrina maniqueia

Sua doutrina tentava explicar a coexistência do bem e do mal como dois princípios opostos desde toda a eternidade. Jesus Cristo teria sido um mensageiro da luz. Contudo, rechaçava todo o Antigo Testamento, assim como grande parte do Novo.

Manes também escolheu doze apóstolos e 72 bispos, assim como estabeleceu uma hierarquia com presbíteros e diáconos. Administravam o Batismo, a Eucaristia e um sacramento especial para a hora da morte.

A moral maniqueia consistia em selar a mão para não derramar sangue, em selar a boca para não mentir nem comer coisas impuras, e em selar o seio para não gerar a matéria, corrupta obra da carne. Só os "puros" seriam capazes disso; os homens comuns, em contrapartida, se beneficiavam de extrema tolerância moral.

E o maniqueísmo sobrevive…

Em toda parte o maniqueísmo foi perseguido: em Roma, a partir de Diocleciano; a Índia e a China livraram-se dele; na Mongólia, desde a conquista islâmica no século IX.

Apesar da oposição de Santo Agostinho e de São Leão Magno, o maniqueísmo permaneceu inoculado entre os cristãos, vindo a ressurgir como paulicianismo na Armênia (século VII) e catarismo na França (século XIII).

A alma moderna apresenta traços pronunciados da velha doença, pois cede com facilidade à tentação dualista.

Influxo do maniqueísmo na visão popular da Bíblia

Retornando à Bíblia, é evidente que o maniqueísmo aceitou integralmente a interpretação que dela fazia a heresia marcionita.

Entretanto, acho difícil nos dias de hoje alguém conscientemente se dizer discípulo das ideias do gnóstico Marcião, rechaçando em bloco o Antigo Testamento e todos os escritos não-paulinos.

A maior parte das atuais distorções na leitura do texto sagrado parecem proceder mais do dualismo maniqueu do que do marcionismo. Veremos com detalhe na próxima postagem.

26 de ago. de 2010

Sequestro da Europa


Ideias brutas de um olhar mais abrangente…

Europa conceito cultural, não geográfico

No século V a.C., surgira na Grécia o mito do sequestro de Europa. Evoca a superioridade da pólis grega sobre os povos belicosos do norte e os sensuais do sul. O polo cultural, transferido posteriormente a Roma, deu ao Cristianismo nascente seu canal de expansão.

A Europa herdou, portanto, a fé de Israel e a razão da Grécia. Isso se torna mais patente através do contraste com o catolicismo do Oriente (especialmente na Rússia), o qual criou um mundo próprio, em que não se separam Igreja e Estado. — Logo, a Europa é cristã, mas não é o Cristianismo.

A relação entre tais extremos europeus, a fé e a razão — que, contudo, não têm de necessariamente se oporem — acabou em divórcio. O início da Modernidade vivenciou duas rupturas: as teses do heresiarca Lutero e a descoberta da América. Já no seu final, durante a Ilustração, forjou-se uma teoria sobre o Estado e a história, negando sua origem sacra. No lugar da visão tradicional, propôs-se um Estado laico racional kantiano.

Consequências dessa evolução foram a separação entre Igreja e Estado, os direitos humanos e a democracia. O Cristianismo esteve sempre presente ao longo desse caminho, mas hoje é visto como “mal a ser extirpado” da cultura europeia.

Por isso, Bento XVI sempre sugere que o conceito de “racionalidade” seja ampliado. Com efeito, a Ilustração foi um momento de manipulação e reconstrução semântica dos conceitos.

Sequestradores da Europa

Embora muitos pensem no Cristianismo como o raptor da Europa, os verdadeiros inimigos da Europa são:

1) O Islã, pois não aceita a razão grega e a separação entre fé e lei.

2) O Iluminismo kantiano, pois, ao renegar o acesso à verdade, criou uma cultura de utopia, messianismos e ideologias.

3) O nacionalismo fragmentador, especialmente o nacional-socialismo.

*****

O quanto isto nos afeta?

20 de jul. de 2010

Santos incômodos

Politicamente incorreto

Perdi as estribeiras, furei as algibeiras, calei as carpideiras. Sinceramente? Estou pouco me lixando. Adoro ser politicamente incorreto.

Farei aqui uma lista de Santos. Dos incômodos Santos que podem causar um santo incômodo para essa sociedadezinha hipócrita que se diz liberal e amoral, mas que aponta o dedo em riste na cara dos convictos — porque o único crime vigente é não ser relativista.

Nuvem de testemunhas

Carlos Lwanga e companheiros mártires (†1886): foram queimados vivos, após horríveis torturas, porque se negaram a praticar pederastia a mando do torpe rei de Uganda. Aparecem num interessante filme/livro de Frank Cottrell Boyce, dirigido por Danny Boyle, sobre um assalto a banco, chamado Caiu do Céu (título original: Millions).

Acho que não é preciso dizer que intenções lhe recomendo.

Bem-aventurados protomártires brasileiros André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, sacerdotes, e Mateus Moreira e outros 27 leigos, seus companheiros (†1645): cruelmente assassinados pelos calvinistas, soldados holandeses e indígenas coligados no Rio Grande do Norte, que lhes arrancaram o coração pelas costas durante a celebração da Santa Missa.

Recomendo-lhes uma maior coerência religiosa dos brasileiros, que vá de braços dados com o autêntico diálogo ecumênico.

São Pedro de Alcântara (†1562): padroeiro do Império Brasileiro, foi esquecido como patrono da nação. A catedral de Petrópolis é a ele dedicada, assim como um altar lateral da velha Capela Real, atual igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, no Centro da Capital fluminense. O místico castelhano era tão penitente que, ao andar, se podia ouvir o tilintar dos seus cilícios. Tendo-se proposto por anos não olhar o rosto de nenhuma mulher, já tanto lhe faziam as divas e beldades. Comia um naco de pão a cada três dias e dormia somente uma hora por noite (mesmo assim, sentado, com a cabeça apoiada numa tora de madeira).

Recomendo a ele a reconstrução da alma nacional: menos ócio e mulata pelada, mais trabalho e justiça social. — Ah! E que seja incluído de volta no nosso calendário litúrgico!

Bem-aventurado José de Anchieta, Apóstolo do Brasil (†1579): fundou a cidade de São Paulo, fez a primeira gramática em língua indígena, converteu inúmeros índios.

Recomendo-lhe os povos indígenas, a fim de que se vejam livres dos estrangeiros, das ONGs e ideologias. Também lhe peço pelos professores de história, a fim de que se libertem do ranço marxista. — E espero que os brasileiros se esforcem mais por sua canonização.

Bem-aventurado Pedro Jorge Frassati (†1925): alpinista, fumante, filho de um ateu, fundador do jornal italiano maçon e anticatólico La Stampa. Desprezado pela família porque era de Missa diária, surpreendeu os pais e a high society de Turim quando, por ocasião da morte prematura, seu féretro foi seguido por uma multidão de pobres que tinham sido beneficiados por sua caridade.

Recomendo a ele essa rapazeada sarada que fuma maconha mas é contra o cigarro, que faz esporte mas não reza, que gasta dinheiro nas noitadas mas não dá esmola, que comunga mas não se confessa.

São Thomas More (†1535): humanista, estadista, autor de Utopia, chanceler do reino inglês sob Henrique VIII. O monarca queria que seu casamento fosse declarado nulo por Roma, a fim de se casar com a amante. Ao se autoproclamar cabeça da Igreja na Inglaterra, Henrique VIII foi arrancando dos ombros alheios outras ilustres cabeças, entre elas a da própria amante, feita rainha, Ana Bolena. Thomas More tinha sido o primeiro decapitado, pois se negara a endossar o cisma perpetrado pelo reizete.

Recomendo-lhe o fim do cisma anglicano, assim como o amor à verdade e a probidade administrativa dos nossos governantes.

Uma lista enorme

O elenco poderia ser ampliado indefinidamente. Na verdade, qualquer Santo poderia ser citado, pois todos foram pedra de tropeço para seus contemporâneos, na medida em que estavam à frente do seu tempo.

Suas qualidades, inatas e adquiridas, são parecidas e dessemelhantes: todos se configuraram a Cristo sem, contudo, se constituírem cópias em série. Antes, suas peculiaridades foram realçadas, produzindo personalidades de grande envergadura, simpáticas e amáveis, cujos traços postos em relevo são estímulo para os imitarmos.

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Deixe eu lhe perguntar: quais são seus modelos preferidos?
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