Esta é a parte
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Como eu dissera numa postagem anterior, certas formas populares de opinar sobre a Bíblia parecem-me uma manifestação de puro maniqueísmo. Na próxima postagem veremos como demonstração um pequeno elenco de lugares-comuns.
Por agora, detenhamo-nos na história dessa seita curiosa.
Origem do maniqueísmo
O maniqueísmo surgiu no século III, na Pérsia. Seu mentor, Manes, criou uma suma sincretista, uma amálgama heteróclita das doutrinas mais díspares: heresias cristãs, gnosticismo de forte cunho helênico, crença indiana na transmigração das almas e dualismo zoroastriano.
Para completar, diz-se que o pai de Manes fora alexaíta, isto é, pertencente à degenerada seita fundada por um tal Aleixo entre os judeu-cristãos do tempo de Trajano, o qual misturava aos dogmas algumas observâncias judaicas e certas práticas de magia.
Manes consolidou seus ensinamentos numa bíblia pessoal em que verteu sua esmerada caligrafia, seu pendor poético e sua arte em miniaturizar. Seus discípulos traduziram os textos para o grego, o latim, o chinês, o turco e o árabe.
A doutrina maniqueia
Sua doutrina tentava explicar a coexistência do bem e do mal como dois princípios opostos desde toda a eternidade. Jesus Cristo teria sido um mensageiro da luz. Contudo, rechaçava todo o Antigo Testamento, assim como grande parte do Novo.
Manes também escolheu doze apóstolos e 72 bispos, assim como estabeleceu uma hierarquia com presbíteros e diáconos. Administravam o Batismo, a Eucaristia e um sacramento especial para a hora da morte.
A moral maniqueia consistia em selar a mão para não derramar sangue, em selar a boca para não mentir nem comer coisas impuras, e em selar o seio para não gerar a matéria, corrupta obra da carne. Só os "puros" seriam capazes disso; os homens comuns, em contrapartida, se beneficiavam de extrema tolerância moral.
E o maniqueísmo sobrevive…
Em toda parte o maniqueísmo foi perseguido: em Roma, a partir de Diocleciano; a Índia e a China livraram-se dele; na Mongólia, desde a conquista islâmica no século IX.
Apesar da oposição de Santo Agostinho e de São Leão Magno, o maniqueísmo permaneceu inoculado entre os cristãos, vindo a ressurgir como paulicianismo na Armênia (século VII) e catarismo na França (século XIII).
A alma moderna apresenta traços pronunciados da velha doença, pois cede com facilidade à tentação dualista.
Influxo do maniqueísmo na visão popular da Bíblia
Retornando à Bíblia, é evidente que o maniqueísmo aceitou integralmente a interpretação que dela fazia a heresia marcionita.
Entretanto, acho difícil nos dias de hoje alguém conscientemente se dizer discípulo das ideias do gnóstico Marcião, rechaçando em bloco o Antigo Testamento e todos os escritos não-paulinos.
A maior parte das atuais distorções na leitura do texto sagrado parecem proceder mais do dualismo maniqueu do que do marcionismo. Veremos com detalhe na próxima postagem.

