Mostrando postagens com marcador 7ª arte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 7ª arte. Mostrar todas as postagens

12 de jun. de 2013

Três coisas de que o homem tem medo

O domínio da mulher é inimigo da liberdade

A típica fantasia romântica masculina consiste no autossacrifício sentimental. Diante de um ideal que obriga, o varão abre mão de seu amor.

Ou seja, esse romantismo peculiar consiste em renunciar ao amor por uma causa nobre. É como rasgar o coração para salvar a cabeça. Exemplos são dados nos longa‑metragens Casablanca, Os Brutos Também Amam ou Homem‑aranha 2.

Mas a nobreza da autoimolação contém algo de malandragem aventureira. Afinal, porque os descobridores ficavam tanto tempo longe de casa, senão porque temiam mais as suas esposas do que os riscos das expedições?

Desaparecer na fusão amorosa

John Milton soube bem retratar o caráter destrutivo da fusão:

Porém… seja o que for! hei de contigo
Sofrer a mesma sorte, a mesma pena:
Se me é dado sofrer contigo a morte,
A morte para mim é como a vida.
Dentro em meu coração sinto com força
A vívida atração da Natureza
Para meu próprio bem que em ti reside,
Para ti que esse bem me constituis:
Não pode separar-se a sorte de ambos,
Ambos possuímos nós uma só carne;
Se te perdesse a ti… era eu perder-me!
(…)
Mas no futuro eu vejo outros sucessos:
Não morte, porém vida em grau mais alto.
Novos prazeres, novas esperanças,
Claros os olhos, paladar tão grato…
Que tudo, quanto saboreara dantes,
Insípido ou amargo lhe pareça.
Adão, descansa na experiência minha:
Dos lindos frutos livremente come.
E esse medo da morte entrega aos ventos

(Paraíso Perdido, IX, 1260-70; 1302-1310)

Não ser perdoado

O que é mais desafiador conseguir de uma mulher, seu amor ou seu perdão? Dizem que a facilidade que as mulheres têm para amar é proporcional à dificuldade que elas têm de perdoar.

Com tal temperamental senhoria, qualquer homem treme.

Era assim que eu sonhava a mulher. Era assim:
Corpo de fascinar, alma de querubim;
Era assim: fronte altiva e gesto soberano,
Um porte de rainha a um tempo meigo e ufano,
Em olhos senhoris uma luz tão serena,
E grave como Juno, e bela como Helena!

(Machado de Assis, Crisálidas, Versos a Corina, I, 19-24)

11 de jun. de 2013

Estrelas feitas com o pó da sombra

Ya-Lit

A chamada Literatura Young Adults tem crescido no Brasil, abordando temáticas mais apropriadas para leitores entre 14 e 21 anos. Frequentemente, descrevem o primeiro confronto do adolescente com os problemas pessoais e sociais.

Acabei a leitura de duas obras do gênero, com muitos pontos de contato entre ambas, mas enormes diferenças. A primeira delas foi A Culpa É das Estrelas, de John Green. A última, Branca como o Leite, Vermelha como o Sangue, de Alessandro d'Avenia.

Green é autor consagrado; d'Avenia, novato. Os dois livros saltaram para as telas do cinema. Os dois livros falam de amor e morte. Os dois livros abordam o conflito de gerações. Os dois livros falam da força da literatura.

Mas como divergem na abordagem e no propósito!

De quem é a culpa?

Alessandro d'Avenia é professor helenista, enquanto Green ostenta menos títulos nessa seara. Eis um evidente divisor de águas. Com efeito, senti um grande incômodo lendo A Culpa É das Estrelas: um pedagogo não deve só descrever, mas também orientar. Acredito que o escritor é um pedagogo, quanto mais para adolescentes.

D'Avenia conduz magistralmente seu personagem à maturidade, Green, porém… Em se tratando de adolescentes, isto é, de gente que ainda está se situando na vida, o educador (no caso, o escritor) não pode presumir capacidade de reserva crítica por parte de seus ouvintes.

E assim, Green descreve uma mecanizada relação sexual com a mesma naturalidade com que narraria um banho num cachorro. O sexo é apresentado como uma afanosa exploração a dois de uma realidade reservada aos adultos. E os exploradores em questão são extremamente imaturos.

Por outro lado, os personagens adolescentes e adultos de Green são incapazes de se comunicar. Fica difícil distinguir na sua história quem é mais imaturo ou quem é mais surdo: se os mais jovens ou os mais velhos.

Referências clássicas num mundo de vazios

Enquanto a obra americana cria um literato fictício, o livro italiano delicia ao trazer à tona uma constelação de textos clássicos, entre os quais destacam-se Vita Nuova de Dante Alighieri, a Bíblia e até alguns versos da poetiza Safo de Lesbos.

E ensina a encontrar respostas onde tornou-se costume tropeçar na preguiça: “A gente não está habituado a resolver certos questionamentos que o Sonhador apresenta. Não tem a cabeça preparada para certas coisas. Não sabe nem de onde tirar as respostas. Porque essas perguntas que ele faz não são daquelas que você encontra no Google se digitar”.

Em Bianca come il latte, rossa come il sangue, os catalizadores dessas descobertas literárias e amorosas são os adultos. D'Avenia é isento da visão de mundo de um Roald Dahl ou de um Mark Twain, para quem os jovens são sempre vítimas inocentes.

Amor acrisolado na dor

O realismo de d'Avenia fica por conta da sublimação da pulsão sexual adolescente pelas exigências sacrificantes do amor, numa solução diametralmente oposta à de John Green. D'Avenia pode não esconder a intimidade dos personagens, a ponto de ser um tanto desbocado, mas não finge uma “normalidade” desinteressada.

Seus personagens têm a consistência da covardia, dos azares, do pranto. E genialidade suficiente para descobrir a ambivalência desses momentos: “O pó da minha sombra é poeira de estrelas”, chega a afirmar o protagonista.


3 de nov. de 2012

Xadrez da Morte

Ninguém escapa

Ingmar Bergman se consagrou no cenário cinematográfico internacional em 1957 com o filme “Sétimo Selo”. O drama serve de parábola dos tempos do pós-guerra, ainda atormentados pela memória das recentes atrocidades bélicas e pelo medo das possíveis consequências da Guerra Fria. 

Antonius Block, um cruzado que sobrevivera a perigosas batalhas pela fé, tenta furtar-se à Morte que o espreitava sob a máscara da peste quando regressava à sua terra. Para isso, inutilmente joga xadrez com essa exímia estrategista, numa tentativa desesperada de adiar o desenlace. 

A certa altura, ao distrair-se da partida, a Morte lhe pergunta: 

— Você perdeu o interesse? 

— Perder o interesse? Pelo contrário! 

— Você parece preocupado. Está escondendo alguma coisa? 

— Nada lhe escapa! 

— Nada me escapa. Ninguém me escapa.

Rito de passagem

O filme costuma ser lido pelos historiadores como uma alegoria do ciclo devorador do tempo. Com efeito, no final apenas sobrevive uma família de artistas, que representaria o Renascimento sucedendo à Idade Média decadente. A Morte seria o tempo, pelo qual a história se desdobra: pois o tempo é o rito de passagem que revelaria a identidade de quem o vivencia.

Embora essa leitura seja válida, não há motivo suficiente para desviar a atenção de que a Morte alcança a cada homem em particular, a você e a mim. É um pedágio ao qual ninguém escapa. A morte, sem dúvida, é o primeiro passo desse obrigatório rito de passagem do tempo para a eternidade. Tanto mais assustadora quanto menos se conhecem os passos ulteriores.

Nesse ponto, porém, encontramos pessoas que olham para a morte de forma otimista: “Aos ‘outros’, a morte os paralisa e assusta. A nós, a morte — a Vida — dá‑nos coragem e impulso. Para eles, é o fim; para nós, o princípio” (São Josemaria, Caminho, 738).

Com efeito, a fé cristã é clara quanto à ressurreição final de todos os mortos, com a respectiva retribuição da vida ou da condenação eternas. Contudo, o que diz a fé acerca do que sucede nesse período intermediário, entre a morte e a ressurreição?

Justiça misericordiosa

O sentir da Igreja ao longo da história foi unânime em afirmar a necessidade de uma reparação por parte dos defuntos que, merecendo a salvação por terem tido uma derradeira abertura interior para a verdade, sepultaram-na sob repetidos compromissos com o mal. Nesse sentido, fala-se, no Ocidente, de um sofrimento purificador e expiatório das almas no além; no Oriente, de diversos graus de sofrimento na condição intermédia. 

A percepção da graduação da purificação ultratumular tradicionalmente admite pelo menos dois níveis de “purgatório”. Assim o atesta a Summa theologiæ: “Do lugar do purgatório nada se encontra expressamente dito na Escritura, nem se podem aduzir razões eficazes que o determinem. Contudo provavelmente, segundo o mais concorde com o ensino dos santos Padres e a revelação feita a muitos, o purgatório ocupa um duplo lugar” (Apêndice, solução ao art. 2). 

É muito provável que o primeiro nível seja o do purgatório tradicional, proclamado dogmaticamente por Bento XII em 1336, mediante a Constituição Benedictus Deus, na qual o Pontífice fala do que ocorre às almas segundo “a comum ordenação divina” (DS 1000). 

O nível inferior do purgatório corresponderia àquele das “almas penadas” ou “almas perdidas”, cuja existência é atestada pelas orações litúrgicas, pelos exorcistas e por algumas revelações privadas.

Não buscar consolo, mas ajudar

Contudo, mais importante do que essas especulações, é que podemos contribuir para o refrigério dessas almas. Talvez isso pareça inusitado ao homem de hoje, tão desligado dos seus, vitimado de individualismo e mais desejoso de encontrar nos cultos fúnebres consolo para as suas saudades do que formas de contribuir para a salvação dos que se foram. Nesse sentido, são alentadoras as palavras de Bento XVI: 

Aqui levantar-se-ia uma nova questão: se o «purgatório» consiste simplesmente em ser purificados pelo fogo no encontro com o Senhor, Juiz e Salvador, como pode então intervir uma terceira pessoa ainda que particularmente ligada à outra? Ao fazermos esta pergunta, deveremos dar-nos conta de que nenhum homem é uma mônada fechada em si mesma. As nossas vidas estão em profunda comunhão entre si; através de numerosas interações, estão concatenadas uma com a outra. Ninguém vive só. Ninguém peca sozinho. Ninguém se salva sozinho. Continuamente entra na minha existência a vida dos outros: naquilo que penso, digo, faço e realizo. E, vice-versa, a minha vida entra na dos outros: tanto para o mal como para o bem. Deste modo, a minha intercessão pelo outro não é de forma alguma uma coisa que lhe é estranha, uma coisa exterior, nem mesmo após a morte. Na trama do ser, o meu agradecimento a ele, a minha oração por ele pode significar uma pequena etapa da sua purificação. E, para isso, não é preciso converter o tempo terreno no tempo de Deus: na comunhão das almas fica superado o simples tempo terreno. Nunca é tarde demais para tocar o coração do outro, nem é jamais inútil. Assim se esclarece melhor um elemento importante do conceito cristão de esperança. A nossa esperança é sempre essencialmente também esperança para os outros; só assim é verdadeiramente esperança também para mim. Como cristãos, não basta perguntarmo-nos: como posso salvar-me a mim mesmo? Deveremos antes perguntar-nos: o que posso fazer a fim de que os outros sejam salvos e nasça também para eles a estrela da esperança? Então terei feito também o máximo pela minha salvação pessoal.” 
(Bento XVI, Encíclica Spe salvi 48). 

Sadio realismo

As comemorações com que se inicia o mês de novembro — Todos os Santos e Finados — são muito oportunas para tornar a essas ideias e pensar na única coisa de que temos certeza na vida: de que morreremos. Pois todos desejamos viver bem, mas nem todos procuram preparar-se para bem morrer

Ou, como dizia a Morte no filme de Ingmar Bergman:

— A maioria das pessoas nunca reflete, nem sobre a morte, nem sobre a futilidade da vida.

15 de set. de 2012

A Sibila do Reno

Hildegarda com sua pupila Richardis, no filme Vision

Novos Doutores

Em outubro próximo, iniciará o Ano da Fé. Por essa ocasião, Bento XVI proclamará doutores a São João de Ávila, “Mestre de Santos e a figura de maior destaque num século de gigantes”, e Santa Hildegarda de Bingen, “a Sibila do Reno e Profetiza dos Teutões”.

Os requisitos para que se proclame um Santo como Doutor da Igreja são: eminens doctrina, insignis vitæ sanctitas, Ecclesiæ declaratio (doutrina eminente, santidade insigne e declaração eclesiástica). Em termos práticos, a declaração como Doutor torna obrigatório para a Igreja universal o ofício e a Missa do Santo em questão, cujos ensinamentos são apresentados como uma referência.

Portanto, a decisão de inscrevê-lo nessa lista tão exígua (35 no total) é — eminentemente — pastoral. Essa intenção fica ainda mais patente com a escolha de Hildegarda, que nem mesmo tinha sido solenemente canonizada, embora seu culto fosse estendido na Alemanha. Com efeito, a Sibila do Reno cai nas graças de todo mundo, desde adeptos da New Age às feministas mais ideologizadas.

Nada melhor do que resgatar a mística medieval para o conhecimento dos nativos virtuais do nosso século.

Mulher polímata

Hildegard Von Bingen (1098-1179) é uma personagem muito peculiar: a mestra do mosteiro beneditino de Rupertsberg foi mística, fundadora, teóloga, pregadora, naturalista, médica, escritora, poetisa, dramaturga e compositora. Criou inclusive uma lingua ignota, com alfabeto igualmente desconhecido, com a qual descrevia suas fantásticas visões.

Além de algumas referências esparsas, Bento XVI já lhe dedicou duas audiências, e o Bem-aventurado João Paulo II escreveu uma breve carta sobre ela, que foi uma das mulheres mais importantes da Idade Média e cujas obras podem ser lidas em latim (e em espanhol).

Dentre as suas obras enumeram-se também peças musicais, compostas por revelação divina. É possível encontrar na Internet uma boa seleção:


A Profetisa nas telas

Em 2010, foi lançado o filme Vision: from the live of Hildegard Von Bingen. A diretora, Margarethe Von Trotta, realizou um belo trabalho, doutrinal e moralmente ortodoxo, o qual vem maculado, contudo, por personagens caricaturescos e estereótipos sobre o feminismo, o naturalismo, a época medieval e as práticas penitenciais. A fotografia e o figurino são excelentes; há inclusive alguns pequenos trechos das músicas de Hildegarda. O resultado final é um tanto heterogêneo: o filme pode parecer pesado a alguns, mas vale a pena.

Em compensação, a TV alemã ZDF produzira em 2008 uma série de documentários sobre as 20 maiores personalidades da história germânica, dedicando à Sibila do Reno um dos episódios. Estão disponíveis para download, mas sem legenda.

O verdadeiro feminismo cristão

A figura de Hildegarda é muito apropriada hoje para contestar a difundida falácia feminista de que a mulher teria sido humilhada e maltratada no decurso dos séculos cristãos. É fora de dúvida que, nas antigas civilizações (exceto em parte entre os judeus e os epicuristas), a mulher foi sujeita ao despotismo do varão, era moeda de troca, era vitimada por divórcios arbitrários, submetia-se à prostituição sagrada, etc.

Pelo contrário, no seio do Cristianismo, a mulher encontrou uma defesa de seus direitos, obteve a proteção do matrimônio indissolúvel, recebeu um status até então inimaginável, e foi proposta como o mais sublime dos modelos na figura de Maria.

Hildegarda não é figura isolada. Helena e Teodora II, Teodolina, Clotilde e Radegunda, Catarina de Sena e Teresa de Ávila, entre tantas outras, exerceram mais influência do que qualquer mulher dos tempos modernos. Essa visão distorcida do desprezo cristão pela mulher provém da tendência atual a denegrir a Igreja histórica.

Curiosamente, os mesmos que atribuem à Igreja as “antigas faltas da Cristandade” também lhe atribuem as crises atuais, oriundas justamente do abandono que fizeram da mesma Igreja. Em suma: se para muitos não houve filosofia antes de Kant, para tantos outros não houve história antes da Revolução Francesa…

25 de mai. de 2012

Masters of disaster

Li, mas não suportei, o seguinte elenco de vacas sagradas:

Quintana, o poeta. Almodóvar, o cineasta, pois joga na cara da sociedade tudo o q acontece na realidade e ela esconde hipocritamente. Nietzsche, o filósofo. Maquiavel, o pensador. Clarice e Nelson Rodrigues estão no time. Shakespeare é um emocionalmente afetado.

Acabei contestando:


Shakespeare não pode ser água com açúcar, pois tudo nele é escatológico. Em cada ato, em cada gesto, joga-se a vida. Além disso, muito provavelmente Quintana não é o maior poeta brasileiro.

Mas essa história de jogar na “cara da sociedade sua hipocrisia” é uma bela desculpa para a grosseria. Quem disse que a sociedade como um todo é hipócrita? Por que ninguém disse ainda que Almodovar joga na cara das pessoas suas próprias mazelas?

5 de out. de 2011

Sexo dos anjos

Detalhe inferior da tilma de Juan Diego

Os mistérios de Guadalupe

Assisti a um documentário mexicano muito interessante sobre Guadalupe, 1531. Tem a forma de depoimento, e bons atores fazem as vezes dos entrevistados, emprestando sua voz àqueles homens que vivenciaram tão estrondoso milagre no século XVI.

Um dado que me admirou foi acerca do anjo que apareceu estampado na tilma de Juan Diego: é um varão idoso, com asas de águia, que segura com a mão direita o manto celeste da Virgem e, com a esquerda, seu róseo vestido. A razão aduzida no documentário foi a pedagogia divina.

São Juan Diego
A águia era considerada pelos aztecas ave divina, que levava o sangue dos sacrifícios humanos ao deus Sol; além disso, conta a lenda que uma águia lhes indicara onde deveria ser fundada a cidade do México. Por outro lado, a águia é o símbolo de João Evangelista, que justamente profetizou a aparição de “uma mulher revestida de Sol, com a Lua a seus pés” (Ap 12,1). “Águia que fala” é também o significado do nome indígena de Juan Diego, Cuauhtlatoatzin.

Por sua vez, o homem velho representava a sabedoria indígena. Assim, o anjo indica que a sabedoria de Deus conciliou o céu e a Terra, dando fim à guerra cósmica que tanto afligia a cultura azteca.

Íncubos e súcubos

Um íncubo apoderando-se da presa
Isso me fez considerar que os anjos costumam aparecer na Escritura de forma masculina. Mesmo na estranha interpretação literalista do relato dos Gigantes, que os entende como fruto do consórcio carnal entre anjos e homens (Gn 6,1-4), os eventuais seres celestes envolvidos eram íncubos, não súcubos. Ou seja: as mulheres eram suas vítimas.

O demônio feminino Lilit
Mas, justiça seja feita, há uma única passagem em que aparece citada uma “anja”: Lilit (Is 34,14). Seria originalmente um demônio feminino do mito assírio‑babilônico. A tradição rabínica tardia apresentou-a como a primeira mulher de Adão, anterior a Eva, madrasta dos filhos de Adão, a quem tenta matar em seus ciúmes.

Essa beldade com “perfume de enxofre” (Jó 18,15) deve ser a grande paqueradora dos homens maus.

Misandria e o masculino como norma

Quando o feminismo inflaciona, a masculinidade corre o risco de ir para o saco. Existe um sadio feminismo, mas às vezes tenho a impressão de que vivemos em tempos de misandria. Se a escalada da intolerância continuar, dizer que o normal é ser homem poderá virar crime.

Espetadas à parte, tornemos a questão do sexo dos anjos. Acredito que a representação preponderantemente masculina dos anjos tenha alguma relação com a norma bíblica de só atribuir títulos masculinos a Deus. O próprio Cristo é um homem. Embora Deus diga que, “como a mãe que acaricia os filhos, assim vou dar-vos meu carinho” (Is 66,13), por outro lado nunca é chamado “Mãe”, apenas “Pai”.

Isso não é machismo, como tentam defender certas abordagens ideológicas. Em primeiro lugar, as partes do corpo humano sempre serviram para caracterizar os sentimentos. Assim, os úberes, o seio, as entranhas, o regaço femininos representam a misericórdia. Por isso essas partes podem ser usadas para descrever analogicamente as atitudes de Deus para com os seres humanos.

Quanto à representação varonil de Deus, é uma forma de evitar o risco de sua assimilação às divindades telúricas. Vale citar a explicação de Bento XVI (Jesus de Nazaré, págs. 130-1):

“Naturalmente, Deus não é nem homem nem mulher (…). As divindades maternas (…) mostram uma imagem da relação entre Deus e o mundo que é inteiramente oposta à imagem bíblica de Deus. Elas incluem sempre, e mesmo inevitavelmente, concepções panteístas, nas quais desaparece a distinção entre o Criador e a criatura. O ser das coisas e dos homens aparece deste ponto de partida necessariamente como uma emanação do seio materno do ser, o qual se temporaliza na pluralidade dos entes.

“Em contraste com esta concepção, a imagem do pai era e é adequada para exprimir a alteridade entre Criador e criatura, a soberania do ato criador. Somente por meio da exclusão das divindades maternas podia o Antigo Testamento levar à maturidade a sua imagem de Deus, a pura transcendência de Deus.”

28 de ago. de 2011

Pornochanchada intelectual

Embora frequentemente se afirme que existe uma distinção entre erotismo artístico e pornografia descarada, penso que a seguinte consideração é um bom contra-argumento: pornografia é a publicação (grafia) de qualquer conteúdo erótico, fora do seu contexto normal (porneia).

Perdoem-me uma digressão: não estou me referindo à sensualidade. Isso me parece tão banal quanto um musse de chocolate ser gostoso. Só faço este aparte para não confundir a discussão; afinal, a capacidade de atração feminina tornou-se uma “virtude” na boca de alguns pedreiros. Mas se virtude é algo perene e raras são as idosas que conservam tal prerrogativa, convenhamos que a sensualidade não deva ser virtude…

Em geral, a defesa dos pornógrafos é: “não somos puritanos”. Puritanismo é palavra mágica. Na verdade, é uma minissaia que mostra mais do que esconde acerca da inteligência e das convicções morais do interessado.

Talvez a linha de argumentação mais comum seja a seguinte: erotismo é revelar, pornografia é exibir. Mas será que há tanta diferença? O que fazemos é erotismo e o que os outros fazem é pornografia? Um é chuchu e o outro é pimenta? Ou ao contrário?

Como estamos em tempo de vale-tudo, parece que a única intenção inaceitável para certa opinião pública seria o erotismo gratuito para atrair audiência, o conteúdo vazio embalado a seio farto.

Ressalvando as mudanças históricas quanto ao pudor e as circunstâncias culturais e geográficas que influenciam a moda, dou minha opinião. O bem é condição metafísica da beleza: não vejo arte onde a técnica apurada seja serva de outras intenções. E como não é bom olhar para o que não é lícito desejar, tire o resto da conclusão.

Nada a ver, mas achei graça da definição do Houaiss para pornochanchada: subgênero de filmes popularescos de baixíssima ou péssima qualidade conceptual, formal e cultural, caracterizados por cenas de nudez, de sexo explícito e diálogos que mesclam pornofonia e humor frequentemente escatológico.

E para você, qual é a diferença entre pornografia e erotismo?

31 de jul. de 2011

Aprendendo com Edith Stein

Edith Stein me cativa por sua aguçada fenomenologia. Além de ser uma figura ímpar na história da filosofia, também me surpreende sua vida mística e seu martírio em Auschwitz. No meu modo de ver, a mais machista das profissões (a filosofia) teve de abrir uma cátedra de honra exclusiva para ela, na qual brilha sozinha.

Acho digna a menção que se costuma fazer na história feminina da filosofia à neoplatônica Hipátia, vítima do fanatismo, mas a alexandrina assassinada era mais matemática do que filósofa. Por sua vez, Edith Stein, que também foi vitimada pela intolerância, era de fato uma filósofa de mão cheia.

O filme A Sétima Morada foi uma primeira tentativa de representar sua vida, mas me parece faltar leveza a essa produção italiana. Vamos ver como ficará o próximo longa, prometido para 2012.

Faço uma confidência. Ultimamente, venho sentindo uma sorte de desgarrão, causado pelo tempo escasso e pela pouca cabeça, em minha tentativa de abraçar o mundo. Queria mais do que nunca me dedicar ao pensamento puro, algo de que me vejo tolhido por mil míseras solicitações, no entanto nobres. Fiquei contente ao ler a exata descrição do meu problema em seu livro A mulher: sua missão segundo a natureza e a graça, 2, II (EDUSC 1999, pág. 88):

“O corpo e a mente do homem estão equipados para a luta e a conquista segundo sua vocação original de submeter a terra e de tornar-se seu senhor e rei. Nele atua o impulso de sujeitá-la pelo conhecimento e assim apropriar-se dela pelo espírito, mas de adquiri-la também como posse, com os prazeres que ela tem a oferecer e, finalmente, de transformá-la em sua própria criação pela ação transformadora. (…) Quando a vontade de conhecer se revela forte e quando empenha todas as suas forças para satisfazê-la, vê-se na contingência de ter de renunciar amplamente às posses e ao desfrute dos bens da vida; quando coloca a sua vida a serviço de posses e prazeres, aproxima-se menos do conhecimento puro (…). Quando se dedica totalmente à criação de um pequeno mundo pela ação formadora (…) acaba relegando a um segundo plano o conhecimento puro e a alegria dos bens da vida. Em cada um desses campos por sua vez, o desempenho individual é tanto mais perfeito quanto mais limitada a área de ação. Desta maneira, é justamente o desejo da realização mais perfeita possível que leva à uniteralidade e ao atrofiamento de grande parte das suas possibilidades.”

2 de jul. de 2011

Síndrome de Peter Pan

O psicólogo norte-americano Dan Kiley criou, em 1983, a expressão “Síndrome do Peter Pan” para se referir ao atraso das decisões vitais como forma de evitar as responsabilidades dos adultos. Por sua vez, num artigo de The New York Times, de 10/9/07, David Brooks qualifica a entrada na maturidade como uma odisseia. Como é sabido, Odisseia é a longa viagem, descrita por Homero, que Odisseu — Ulisses — realiza de volta para sua esposa, seu filho e sua casa, após a Guerra de Troia, passando por lutas, monstros, perigos e aventuras amorosas.

O ambiente social influi, não é mera questão de imaturidade. É preciso buscar as razões. Que mudanças sociais estão por detrás dessa dilação? Do ponto de vista externo, são patentes duas conjunturas: por um lado, a democratização do ensino superior, com a consequente prolongação do tempo de estudo; e, por outro, a tendência a permanecer no ninho paterno por conta do atraso do casamento.

A indagação que parece mais candente dentre ambas é: por que atrasar o casamento?

De fato, casar-se significa entrar na vida adulta, coisa de que algumas pessoas fogem, conscientemente. Entretanto, a maioria atrasa o casamento apenas porque transformou-se, na opinião pública, a concepção que se tem do matrimônio.

Tornou-se corrente considerar o casamento não mais como a união de duas pessoas para formar um nós.
1+1=1 (família) 

Pelo contrário, instaurou-se uma nova lógica matrimonial, pela qual os cônjuges se casam sem deixarem de serem independentes.
1+1=3 (tu, eu e nós)

Há várias “justificativas” para essa mudança de paradigma: dificuldade de inserção profissional, aumento da expectativa de vida, revolução sexual. Mas isso justifica tantos concubinatos e mães solteiras?

As grandes vítimas são os filhos dessas uniões que tantas vezes não chegam a constituir família. Vale recordar uma frase (não literal) da animação Os Incríveis: Precisamos salvar nossos pais, para que não lhes ocorra algo pior do que morrer: separarem-se. Ainda por cima, esses órfãos de pais vivos frequentemente carecem do referencial masculino de um pai dentro de casa, ingressando no círculo vicioso da imaturidade afetiva.

O que sonham os filhos acerca de seu pai? Que ele, se tivesse de escolher entre os filhos e a esposa, elegesse a esposa. Esse amor viril seria um garante de estabilidade e inspiraria a confiança de que os pais nunca se separarão.

*****

Reciclo uns tweets antigos:
  • Fases da adolescência? Regressiva, agressiva, transgressiva, construtiva. 18/6/09
  • Fase regressiva da #adolescência: permanecer no ovo que é mais quentinho e seguro. Seu #bolha. 18/6/09
  • Fase agressiva da #adolescência: conquistar o espaço na pancada. Seu porco-espinho. 18/6/09
  • Fase transgressiva da #adolescência: pegar todas, experimentar tudo, quebrar os tabus. Seu inconsequente. 18/6/09
  • Fase construtiva da #adolescência: juntar os cacos para virar homem. Seu cheio de cicatrizes. 18/6/09
  • Muitos adultos ainda estão na #adolescência. Qual a sua fase? Você é um bolha? Um grosso? Um pervertido? Juntou seus cacos ou caiu na fossa? 18/6/09

26 de jan. de 2011

Feminismo bronzeado

Tudo tirado do extinto Formspring.

pq todo feminismo acaba com o primeiro pneu furado?
 Por que as mulheres são folgadas e botar a mão na graxa é teoria que se desfaz na prática da vida.

tem como enganar o coração?
 Só com outro coração.

o que vc faria se fosse mulher por um dia?
 Tentaria aprender a ter um coração mais terno.

prefere ouvir a razão ou o coração?
 Eles gostam de confabular, sabe? Um ajuda o outro, até que dão um bom casal, daqueles que conversam bastante!

Vc eh um cara passional?
 Pacas. Mas também posso ser gélido, ácido, azedo.

lei de Newton, lei de Murphy ou lady Gaga?
 Newton já dizia: se subiu tem que descer. Murphy alertou que se descer vai cair do lado errado, etc.

La Bamba ou Mambo No.5? 
 La Bamba é folclórica. Mambo Number Five é muito irritante.
 Nem uma, nem outra, nem Angela, nem Pamela, nem Sandra, nem Rita, nem Monica, nem Erica, nem Tina, nem Mary, nem Cassandra, nem Jessica. São todas muito velhas.

na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê?
 Todo lugar é bom. Por falar nisso, hoje foi na chuva. Voltei encharcado.

Faremos um musical? (duh)
 Chamar-se-á Xana-Duh. Uh! Uh!

Caraca, de onde tirou o nome Xana-Duh?  Olivia Newton-John era minha Xuxa internacional, saca? Olivia era uma musa (filha de Zeus e Mnemosine) em Xanadu.
 Como metade das perguntas que recebo são mera retórica, comecei a respondê-las de forma igualmente vazia.
 Xanadu foi uma mal-dirigida, insossa e anêmica fantasia musical de Robert Greenwald, no entender da crítica, mas é uma referências para os cults de plantão.

Ontem pavão, hoje espanador? Hoje encarnado, amanhã empalhado.

Toda mulé tem um lado paranóico? (hehehe)  Delírios de relação, ciúmes e perseguição!

Mulher de bigode nem o diabo pode?
 Passe Biondina.

mulé fala tanto, que quando vai à praia bronzeia até a língua? (hehehe)
 Mica Ioseph bin Gorion, no livro As Lendas do Povo Judeu, conta acerca das mulheres que ficaram segurando Saul, em Ramá (cf. 1Sm 9,11-13), com seu papo mole:
 “Para que essa longa conversa? Um sábio deu a seguinte resposta: O motivo é que as mulheres são tagarelas. Um outro disse: Não cansavam de olhar a formosura de Saul, por isso falaram tanto. Um terceiro relatou: Cada reinado tem seu tempo certo, e não pode ser encurtado nem que seja na largura de um fio de cabelo, em favor de um novo rei. O tempo de Samuel ainda não havia decorrido, quando Saul já caminhava ao seu encontro; as moças que apanhavam água, então, detiveram-no até que o tempo de judicatura de Samuel, previamente estabelecido, tivesse terminado” (X, 17).
 O problema não é de hoje!

15 de nov. de 2010

Elogio da culpa

Lembra-se de Superman 2? Para mim, foi um dos piores filmes a que já assisti. Contudo, alimentou abundantemente minha imaginação infantil.

Curioso é que me ficou indelevelmente gravada na memória a cena inicial, em que os juízes de Krypton condenam o general Zod e seus sequazes: enquanto uns bambolês metálicos giravam em torno dos réus, eles diziam, um de cada vez, seu veredito unânime:

— Guilty!

Já comentei sobre a negação da culpa moral e sua substituição por remorsos vãos. O tema, porém, retornou à mente — e por isso veio cair novamente a este blog —, por conta de algumas alusões recentes sobre a culpa com que travei contato.

A primeira das alusões ocorreu ao ler uma lista inusitada de certa twitteira recém-conhecida por mim. Deparei com a seguinte citação:


A segunda foi uma ideia de Bento XVI, no seu livro L'elogio della coscienza: la verità interroga il cuore: o Papa apresenta a culpa como um protesto da consciência pela vida acomodada, pela morte instalada, pela decomposição assumida.

A terceira consistiu numas conversas que tive a respeito da utilidade do exame de consciência como um salutar exercício do sentimento de culpa, mas como uma prática tida por bizarra para uma sociedade que nega a possibilidade do mal moral. Com efeito, muitos são introspectivos, poucos são humildes e penitentes.

Concluo este tema “medieval” com palavras da Baixa Idade Média (Isaac de Estrela, Sermo XI, 6 [PL 194, 1728 A]):

A Deus cabem o louvor e o perdão.
O louvor nós lhe damos,
o perdão dele esperamos.

15 de jun. de 2010

Joan é fanática. Vírgula

Nesses dias, tenho revisto o seriado americano Joan of Arcadia. Recomendo. Pena que pararam de filmar no final da segunda temporada, deixando a história inconclusa.

O argumento é criativo: as dificuldades de adaptação de uma família a uma  nova cidade, tendo por pivô a filha adolescente, Joan, a quem Deus se manifesta e encarrega de uma série de tarefas inusitadas.

Minha postagem sobre Jesus Cristo foi inspirada pelo seriado. Afinal, a música tema é One of us, de Joan Osborne.

Isso me tinha feito pensar por que tanta gente acha Jesus borring, tema tabu, pessoa inconveniente. Como não sou adepto das conveniências, resolvi fazer daquela postagem a coroação de tantas outras que escrevera sobre a fé nos últimos meses.

Talvez o gatilho para eu falar mais sobre a fé tenha sido os recentes ataques injustos ao Papa, com o que tentaram conspurcar sua imagem. Como quer que seja, bastou-me externar meu pensamento a esse respeito no blog ou entrar numas discussões tolas no Twitter para começar a receber perguntas como essa no extinto Formspring:

vc eh católico fanátio? (sic)


Confesso certa contrariedade, pelo que respondi:

Fanático? Não, só sou fanático pelo Flamengo, mas tenho andado um pouco tíbio.

Isso deve ter a ver com uma desilusão amorosa que sofri há três meses. Então resolvi transformar meu blog de variedades num recurso virtual apologético como forma de sublimar sentimentos contraditórios.

Ou pode ser uma questão de fase. Todo mundo tem suas fases: fase gay, fase notívaga, fase zen, fase maconha, fase Internet. Quando eu resolver rodar a baiana e passar da fase atual para outra, sai de baixo.

Agora, sem brincadeira: fanático é quem não vive a caridade e atua de forma irracional. Tenho fé e procuro ser coerente, o que é bem diferente.

*****

Vírgula. Entitulei assim o novo marcador sobre estética. Recorda o cachinho pega-rapaz, aquela mecha de cabelo recurvado sobre a testa ou a face.

Vírgula. A estética pode ser, com efeito, um gancho para a ética, um motivo de esperança para as exigências da vida. Além disso, o tema permite um bom aprofundamento filosófico. Escreverei mais a tal respeito a partir de agora.

Vírgula. Volto a Joan. No seriado, quando a família descobre que ela tem visões, resolve interná-la. É melhor não ver, permanecer cego. Talvez a estética nos abra os olhos. Por que não se fala de Jesus Cristo? Talvez se fale, mas sem estética, com pura ética.

Vírgula. E você? Tem olhos para ver ou só pernas para fugir?

24 de fev. de 2010

Keyser Söze

Lembra-se de Keyser Söze, a lendária figura do filme Os suspeitos?

Justiça bizarra

Sua identidade só é revelada no último segundo do filme. Ele está por trás de tudo, ameaça a todos, mas ninguém sequer saber quem ele é. Justamente porque ninguém sabe quem ele é, é pessoa mais misteriosa e perigosa que o mundo pode imaginar.

Sua ética é bizarra.

Um dia, ao chegar em casa, encontra seus filhos chorando e sua esposa violentada por uma gangue húngara que desejava tomar seu negócio e o aguardava armada até os dentes. Keyser Söze mostra àqueles homens voluntariosos o que a vontade é realmente. Ele lhes fala que prefere ver sua família morta do que viver outro dia depois daquele fatídico.

E assim, ele mata sua família na frente dos inimigos ali presentes, em seguida, mata seus inimigos, deixando apenas um deles escapar, a fim de transmitir a notícia aos mandantes do crime. Depois, vai atrás de todos eles. Mata seus filhos. Mata suas mulheres. Mata seus pais e os amigos dos seus pais. Incendeia as casas em que vivem e as lojas em que trabalham. Ele mata inclusive seus credores. E assim, vai embora.

Underground.

Desde então, ninguém mais o viu. Tornou-se um mito, uma lenda que os criminosos contam a seus filhos de noite. “Faça besteira e Keyser Söze virá pegar você”. Mas ninguém mais acredita agora.

*****

Somos os nossos medos. Do que você tem medo?

16 de jan. de 2010

Os três melhores filmes do ano passado

Faço minha lista e, como sou um cara chato, excluí os filmes de ação e ficção. Meus critérios foram os VALORES contidos nos longa-metragens.

1. Katýn (2007), de Andrzej Wajda: narra o assassinato dos oficiais poloneses (seu pai era um deles) pelo exército soviético em 1940. É uma releitura de Antígona, mostrando a luta das mulheres sobreviventes pelo direito da memória.

2. Jornada pela liberdade (2006), de Michael Apted: o quilate da vida de William Wiberforce, parlamentar abolicionista da Câmara dos Comuns.

3. Quem quer ser um milionário? (2008), de Danny Boyle: conto de fadas moderno que descreve a dura realidade de Calcutá.

Também gostaria de acrescentar o musical Once (Apenas uma vez), mas esse é praticamente do ano anterior. Vamos deixar os musicais para outra postagem! (Por sinal, você já assistiu a Brasileirinho?)

Apesar de muita gente elogiar, achei um porre Gran Torino (2008), de Clint Eastwood. Só vi clichês no filme. Talvez seja meu preconceito contra o drama hollywoodiano.

15 de jan. de 2010

Avatar: misantropia 3D


Nos últimos anos, Hollywood produziu muitos filmes em que a humanidade é uma vilã que se vale da ciência como de uma arma contra a natureza e os próprios sentimentos.

A misantropia, o estilo Alien de Cameron, evoluiu: em Avatar, o protagonista rechaça os laços com sua própria espécie Homo sapiens.

São motivos do rechaço: o genocídio explorador, a ausência de harmonia social e a falta de consciência ecológica.

A mensagem parece dirigir-se mais à massa de espectadores do que às elites supostamente responsáveis pelos abusos dos homens.

O quanto você é misantropo?

6 de jan. de 2010

Por que Jason Bourne é católico?


A questão é: por que David Webb (o nome verdadeiro de Jason Bourne) é um personagem católico? Fiquei com a impressão de que algumas figuras destacadas do cinema são católicas (Rambo rezando o rosário ou Schwarzenegger em Fim dos Dias).

Talvez seja forçação de barra minha, mas tudo bem: quero mesmo falar de três aspectos que me parece lhes vêm a calhar:

1º) Católicos são universais, protestantes são regionais. Ficaria estranho um ídolo anglicano ou um protagonista adepto do protestantismo suíço.

2º) Católicos vivem a moral das virtudes, não a moral legalista protestante. Faltaria jogo de cintura a esses personagens, capacidade de adaptação, reação instantânea. Nós falamos palavrão, bebemos e fumamos, mas praticamos as virtudes.

3º) Católicos almejam a santidade e procuram imitar os Santos, modelos de heroísmo. O convencimento protestante de que a natureza humana está completamente corrompida contradiria o perfil arrojado desses personagens.

********


Atribuíram à pena de Ludlum: um artigo definido, uma palavra comum e um epíteto exótico posposto. Tal seria a infame fórmula dos títulos de sucesso (por exemplo, O Código Da Vinci).

Naturalmente, os The Bourne XXX (Identity, Supremacy, Ultimatum, Legacy, Betrayal, etc.) não se enquadram, pois Bourne não é uma palavra comum. A não ser que se queira tomá-la como arcaísmo de boundary (fim, limite, fronteira).

2 de jan. de 2010

The Bourne Saga

Um sonho que realizo rara vez é pegar um monte de filme seriado e assisti-lo em dias seguidos para abarcar toda a história.


Quanto a Robert Ludlum, primeiro caí no laço de comprar a trilogia:
The Bourne Identity - 1980
The Bourne Supremacy - 1986
The Bourne Ultimatum - 1990


Nestes dias tranquilos de recesso, em que você twitta abóboras e ouve Eric Clapton cantando com B. B. King, a trilogia cinematográfica veio bem a calhar.


A história dos filmes é muito diferente, pois o venezuelano Carlos, o Chacal, em que se baseia a história, já estava perpetuamente preso quando saiu o primeiro filme.


Mas os longa-metragens são ótimos: têm um quê de drama (em parte tributável a Franca Potente) e estimulam a inteligência. Confesso que a minha tem estado adormecida nos últimos dias.


Após a morte de Ludlum, Eric Van Lustbader tem continuado a saga:
The Bourne Legacy - 2004
The Bourne Betrayal - 2007
The Bourne Sanction - 2008
The Bourne Deception - 2009
The Bourne Objective - prometido para 2010


Um roteiro para The Bourne Legacy está no limbo hollywoodiano. Já pensou se filmarem todos os episódios? Matt Damon provavelmente já seria vovô no The Bourne Objective.


Tenho um sonho: que Luciana Barroso convença a Universal Studios a contratar seu marido para filmar um Bourne no Rio de Janeiro.


Já pensou? Uma perseguição de carro descendo Santa Teresa a toda, virando no Aterro do Flamengo com sua soberba paisagem, mudança de pista para a contramão na altura do Morro da Viúva, carros caindo na enseada de Botafogo, ziguezague até pegar a rua São Clemente com o Corcovado dominando o fundo… Aí chegam no Humaitá, virarm à esquerda na Lagoa e vão pela praia até a Avenida Niemeyer. Mas o grande lance mesmo seriam carros despencando do Elevado do Joá e uma chegada alucinante na Barra da Tijuca…


Como em cada episódio ele perde um dos passaportes, só vai sobrar o brasileiro, que é o primeiro que aparece depois do americano no The Bourne Identity. No The Bourne Ultimatum (ganhador de três Oscars), Jason o utiliza para para entrar nos EUA, sob o nome Gilberto de Piento, pacato habitante de Osasco, São Paulo (veja mais aqui).


Já temos a Jornada Mundial da Juventude, fora a Copa e as Olimpíadas. Só falta a Expo Mundial 2020 e o Bourne.


Que tal o nome The Bourne Blooper para a versão tupiniquim?


Ouça a música do filme aqui (Extreme Ways, Moby).

24 de nov. de 2009

Apenas uma vez (Once)

Gostei de assistir ao filme irlandês Apenas uma vez, dirigido por John Carney e estrelado por Glen Hansard e Markéta Irglová.

John Carney encomendou a Glen Hansard, líder da banda The Frames, dez canções para que, a partir delas, o roteiro fosse desenvolvido. John já tinha trabalhado para Glen, o qual se sentiu honrado de poder retribuir trabalhando no musical. O trabalho rendeu o Oscar de melhor canção para Falling Slowly.

O drama fala de dois corações partidos que se unem por causa da música, mas que sabem ser fiéis a seus compromissos (Glen à namorada e Glen ao marido).

John Carney gosta de argumentos simples. Segundo ele, que caibam num selo postal. Talvez por isso o filme não tenha sido unanimidade: a singeleza do tema vai de mãos dadas com a timidez de Markéta, excelente musicista, mas péssima atriz.

As filmagens, que ocorreram em apenas 17 dias, com o custo de US$ 150 mil, renderam 85 min que parecem documentário. Tem gente que fica com impressão de estar conhecendo uma história real ou de que a dupla de músicos de fato trabalha junto. Bob Dylan gostou tanto que convidou Glen e Markéta a fazerem o show de abertura em parte de sua turnê mundial.

3 de set. de 2009

Anjos, olhos e ouvidos


Recentemente, assisti ao filme alemão In weiter Ferne, so nah! (Faraway, So Close!), de 1993, que é a sequência de Asas do Desejo, de 1987. Conquistou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes e conferiu ao U2 a indicação de Melhor Canção Original no Globo de Ouro.

Peter Falk, que representou si próprio em Asas do Desejo, volta aparecer, e o roqueiro Lou Reed (responsável pela trilha sonora) e o ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev também marcam presença no filme como eles mesmos.

A fotografia é impecável, mesclando a cor (a visão dos homens) com o preto e branco (a visão dos anjos).

Wim Wenders explorou um mundo desconhecido para nós: como os anjos nos veem. Apesar de serem incapazes de interferir diretamente na vida humana, Cassiel (Otto Sander) quebra esta regra quando uma menininha cai do terraço de um prédio e ele corre para a socorrer, tornando-se carne e osso. Damiel (Bruno Ganz), o companheiro de Cassiel que optou pela vida terrena no primeiro filme, trabalha agora numa pizzaria e vive com sua esposa, a trapezista Marion (Solveig Dommartin).

Um de vocês que me leem tinha me perguntado, na ocasião, em que o filme me fez pensar e o que ele me fez sentir. Cruel essa pergunta!

Sinceramente? Pensei na incapacidade de comunicação. Senti a tortura do silêncio. Anjos do amor que súplices contemplam homens surdos.

28 de ago. de 2009

Visão poliédrica




Assisti ao filme Ponto de Vista, que conta e reconta um fictício atentado ao presidente dos EUA. A história é vazia, mas o suspense prende e os diversos ângulos da história, sucessivamente apresentados, instigam a curiosidade. Foi um bom divertimento.

Lembrei-me imediatamente de Rashomon, de Kurosawa. A ideia de recontar o mesmo fato sob a ótica de diferentes personagens já tinha sido reaproveitada em filmes como Herói, de Zhang Yimou. De uma forma um pouco diversa, também aparece em Corra, Lola, corra, de Tom Tykwer.

Por que resolvi escrever esta postagem? Porque venho pensando em algumas coisas a respeito do mundo fake. O mundo vive da mentira. Muita gente vive de impressões, preconceitos e confusões. Máscaras tornaram-se indumentária habitual e “natural”. E o mais louco do mundo fake é que os que se consideram intelectuais são os mais massificados.

Política fake, religião fake, ética fake, amor fake, alegria fake, etc. fake.

O filme me ajudou a descortinar a gama de visões contrastantes que podemos ter sobre as mesmas realidades. Visão poliédrica, como a das moscas.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...