Edith Stein me cativa por sua aguçada fenomenologia. Além de ser uma figura ímpar na história da filosofia, também me surpreende sua vida mística e seu martírio em Auschwitz. No meu modo de ver, a mais machista das profissões (a filosofia) teve de abrir uma cátedra de honra exclusiva para ela, na qual brilha sozinha.
Acho digna a menção que se costuma fazer na história feminina da filosofia à neoplatônica Hipátia, vítima do fanatismo, mas a alexandrina assassinada era mais matemática do que filósofa. Por sua vez, Edith Stein, que também foi vitimada pela intolerância, era de fato uma filósofa de mão cheia.
O filme A Sétima Morada foi uma primeira tentativa de representar sua vida, mas me parece faltar leveza a essa produção italiana. Vamos ver como ficará o próximo longa, prometido para 2012.
Faço uma confidência. Ultimamente, venho sentindo uma sorte de desgarrão, causado pelo tempo escasso e pela pouca cabeça, em minha tentativa de abraçar o mundo. Queria mais do que nunca me dedicar ao pensamento puro, algo de que me vejo tolhido por mil míseras solicitações, no entanto nobres. Fiquei contente ao ler a exata descrição do meu problema em seu livro A mulher: sua missão segundo a natureza e a graça, 2, II (EDUSC 1999, pág. 88):
“O corpo e a mente do homem estão equipados para a luta e a conquista segundo sua vocação original de submeter a terra e de tornar-se seu senhor e rei. Nele atua o impulso de sujeitá-la pelo conhecimento e assim apropriar-se dela pelo espírito, mas de adquiri-la também como posse, com os prazeres que ela tem a oferecer e, finalmente, de transformá-la em sua própria criação pela ação transformadora. (…) Quando a vontade de conhecer se revela forte e quando empenha todas as suas forças para satisfazê-la, vê-se na contingência de ter de renunciar amplamente às posses e ao desfrute dos bens da vida; quando coloca a sua vida a serviço de posses e prazeres, aproxima-se menos do conhecimento puro (…). Quando se dedica totalmente à criação de um pequeno mundo pela ação formadora (…) acaba relegando a um segundo plano o conhecimento puro e a alegria dos bens da vida. Em cada um desses campos por sua vez, o desempenho individual é tanto mais perfeito quanto mais limitada a área de ação. Desta maneira, é justamente o desejo da realização mais perfeita possível que leva à uniteralidade e ao atrofiamento de grande parte das suas possibilidades.”
