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5 de mai. de 2014

Entender para crer

Narrativa e verdade

Ariano Suassuna contava um caso engraçado, de um homem que, narrando um fato divertido, era interpelado por seu ouvinte por causa de uma inconsistência da historieta. O contador lhe retorquiu: — Você quer saber a história ou quer saber a verdade?

Entre o texto e a memória, entre a imaginação e a história: o que é possível encontrar aí? Sem dúvida, seria ingênuo esperar alcançar o próprio objeto da narrativa, tal e qual, isento de interpretações. Mas também seria doentio pensar que o objeto de estudo é uma mera tela em que se projetam ideias pré-concebidas.

Razão e crença

Na maioria das vezes, os argumentos contra a historicidade de algum testemunho antigo advém da ignorância do contexto ou do estilo, e da desconfiança na fonte.

Nossa racionalidade está, em alguma medida, baseada em conhecimentos de cunho probabilístico; portanto, não faz sentido opor razão e crença. Afinal, o conhecimento humano é todo baseado em crenças razoáveis.

Mito e filosofia

O mito é um caso particular nessa problemática. Sem autor nem data, o mito explica a realidade, mas não se explica a si mesmo. A crítica filosófica pretende acabar com a referência mítica, atitude que pode causar fragmentação e degenerar no relativismo filosófico e moral. A partir daí, torna-se crime de opinião voltar a buscar referenciais absolutos. Nasce a batalha entre a filosofia mítica e os mitos filosóficos. É o que vemos, por exemplo, na pós-modernidade decepcionada com as caducas profecias modernas de prosperidade através da ciência.

Logos e história

O cristianismo apropriou-se do discurso filosófico, mas os cristãos terão conseguido superar tal ruptura entre tradição e razão? Com efeito, é muito frequente deparar-se com católicos incertos quanto às suas raízes históricas e empedernidos em sua incoerência intelectual.

Enquanto discurso, a história sagrada tem cunho literário parecido ao mitológico; enquanto síntese teológica, a profissão de fé tem caráter comunitário e normativo. A articulação desses polos tem sofrido bastante diante de uma cultura cética e descrente da razão.

Tradição e teologia

Faz-se necessário resgatar a confiança na razão. Carl Rahner dizia que o homem é um ouvinte da Palavra: de fato, de nada adianta Deus falar se não houvesse alguém capaz de ouvir. Portanto, a missão da fé é compreender o que ouviu, explicitar seu fundamento.

Se o objeto da fé é racional, a teologia consiste no esforço de compreensão do objeto da fé. Não há razão para o medo protestante de que a teologia seja uma racionalização indevida da fé, uma construção idolátrica que falseie a verdadeira face de Deus.

28 de abr. de 2014

O triunfo das três feras

Freud, Marx e Nietszche são os três “mestres da suspeita”, na expressão de Paul Ricouer. Simbolizam a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e soberba da vida (cf. 1Jo 2,16), e assemelham-se às três feras que acossavam Dante na Divina Comédia: a pantera sensual, o lobo rapace e o leão orgulhoso (cf. Inferno, I, 31-60).

Terão triunfado? Ou apenas souberam exprimir o que o homem caído de todas as épocas concebeu no seu coração ferido? Sem dúvida, não fazem uma descrição da realidade, mas elegem uma dimensão humana (o sexo, a economia, o poder) como razão de transformação da realidade.

As ideias desses pensadores podem conter muita “lógica”, mas são tão “dogmáticas” quanto qualquer fideísmo. Em comum, racionalistas e fideístas afirmam que o mundo não é razoável, que o ser é caótico, que o seu sentido nós é que projetamos e plasmamos. Com efeito, Kant, em sua Crítica da Razão Pura, afirma que o ser em si é fundamentalmente não racional. Portanto, qualquer tentativa de filosofar (a nível verdadeiramente metafísico) conduziria a erros e criaria ídolos.

Daí que a metafísica tenha sido banida das escolas de filosofia, abandonada em prol de questões fragmentárias, substituída por fenomenologia, hermenêutica de textos ou análise crítica da linguagem.

Karl Barth
Daí também que o protestantismo tenha renunciado à filosofia clássica. Um de seus maiores expoentes, Karl Barth, chega a afirmar que a razão pela qual estaria errado ser católico é a aceitação da tese metafísica da analogia do ser. Para ele, qualquer analogia entre o ser divino e o ser criado seria uma falsificação de Deus.

Por isso é que o protestantismo resgatou a iconoclastia, aquela heresia empoeirada do século IX que proibia o culto de imagens. A iconoclastia protestante ataca não o gesso das estátuas, mas o simulacro de Deus que indubitavelmente conduziria o homem à idolatria. Como um namorado que fosse trocar sua namorada por uma fotografia dela.

***

A fé verdadeira exige a razão, pois a racionalidade é constitutiva do ser. Ao mesmo tempo, a razão saudável precisa do suprassensível, do transcendente, pois a verdade nos abre para algo que nos precede e nos liberta do nosso “eu” pequeno e limitado, aferrado a meras certezas, garantias e utilidades.

20 de abr. de 2014

Crer para entender

Feliz Páscoa, queridos leitores!

Ontem, na solene Vigília Pascal, tive a oportunidade de novamente ouvir os relatos fundamentais — ou, melhor dito, fundantes — da visão cristã do mundo: a criação e o êxodo. Enquanto escutava o Hino dos Seis Dias (Gn 1,1–2,2) e a descrição da Travessia do Mar Eritreu (Ex 14,15–15,1), passaram-me pela cabeça muitas lembranças de conversas que já tive com pessoas céticas, as quais, imbuídas de um racionalismo superlativo, tropeçam escandalizadas no cunho mitográfico das primeiras páginas bíblicas.

Tal tipo de conversa tem crescido à minha volta nos últimos tempos. Por um lado, por causa do filme “Não É — a incrível história do homem que não é Noé” (esse midrash mal feito do Aronofsky sobre a história de Noé); por outro, devido à minha pós-graduação em arqueologia, ambiente favorável tanto para a crendice no caráter probatório dos achados arqueológicos quanto para a desconfiança doentia de tudo o que não seja empírico.

O dilema é simples: o Pentateuco é histórico ou é mitologia?

A resposta, porém, não é simples. Vejo o Pentateuco como narrativa de memória, não história. Ao mesmo tempo, vejo o Pentateuco como mitografia, não mitologia.

Geralmente, a história pretende rigor, precisão, método, na descrição de fatos passados. Ora, o Pentateuco pretende estabelecer para Israel a sua origem, não a sua história. E sua origem remonta à protologia, não à história! O mundo foi criado tendo em vista Israel, pois o mesmo ato criador de Deus que dominara o Oceano primordial é o ato que expõe o dorso do Mar “Limítrofe” (hebraico Sof)! Segundo a concepção antiga, o Mar Vermelho (egípcio Suf) seria a borda do mundo!

Uma comparação bem próxima a nós: os combatentes da Batalha de Guararapes (brancos, negros e índios) nunca imaginariam que, séculos depois, seriam considerados os fundadores do Exército Brasileiro e que à sua época teria nascido a alma brasileira, fusão das três raças. Ou seja, a batalha ocorreu de fato, mas seu significado só foi reconhecido e aplicado muito posteriormente. Isso é história? Isso é mito?

Geralmente, a mitologia conta a biografia dos deuses: seu nascimento (teogonia) e suas lutas (teomaquia). Não é o caso da Bíblia, em que Deus antecede as vicissitudes do cosmo e impera sobre ele. Se a cosmogonia bíblica fosse uma teogonia, não seria uma criação, mas uma emanação. A diferença entre essas concepções é grande.

Emanação significa que o mundo é “magma”, na expressão de Cornelius Castoriadis, cuja ordem lhe vem imposta de fora. Para Platão, seria a obra do demiurgo sobre o caos; para Aristóteles, influxo do motor imóvel.

Criação significa afirmar que Deus não precisa de causalidade material para atuar. Significa que seu Logos possibilita e funda a existência. Significa que a natureza não é só natureza, mas criação, isto é, está fundamentada na lógica do criador. A ciência moderna é fruto dessa fé. Não haveria ciência moderna sem o cristianismo, pois a razão sem fé enlouquece, fica cega.

Assim, para o homem moderno em sua cegueira, quem põe ordem no caos “sou eu”, pois num mundo pluriversal e fragmentário, a verdade é criada “por mim” e “para mim”. Adorno e Horkheimer analisaram o Iluminismo e reconhecem que ele se nutre da divinização da verdade. Contudo, se a verdade é um construto humano, não pode haver luz. Se não há metafísica, se não há fé, se não há transcendência, a razão é irracional.

O reducionismo da razão implica afirmar que só seria racional o que pode ser reproduzido como experiência. Assim, renuncia-se à verdade para ficar com a certeza, mas morre-se na dúvida cartesiana.

A missão da razão é abeirar-se ao mistério, não negá-lo.

Se não acreditardes, não compreendereis! (cf. Is 7, 9)

18 de jan. de 2014

Rio de alegria

Rio de fé

Quando me ofereceram a oportunidade de participar das filmagens de “Rio de Fé, um encontro com Papa Francisco” — o documentário dirigido por Carlos Diegues sobre a Jornada Mundial da Juventude Rio2013 — senti um misto de lisonja, entusiasmo e expectativa. Afinal, não é todo dia que se tem a chance de representar o sentimento de milhões de pessoas.

Por um lado, eu já vinha trabalhando como voluntário nos preparativos do evento e ansiava por ver o Papa Francisco de perto pela primeira vez. A perspectiva de fazer parte do registro era, sem dúvida, cativante.

Por outro lado, havia o interesse por conhecer Carlos Diegues, o renomado cineasta brasileiro que produz, desde 1959, uma obra a cada três anos em média, várias das quais premiadas internacionalmente.

Depois de inúmeros filmes marcados de humor, crítica social, e análise política e econômica, Cacá tinha decidido realizar um documentário sobre a fé. Motivo: ao saber da eleição do Papa Francisco, sentiu-se comovido, pois fizera todos os seus estudos em instituições de ensino jesuítas.

O briefing da filmagem explicava que a Cidade Maravilhosa tem vocação à alegria e à paz, tanto por suas belezas naturais, quanto por seu povo receptivo que, mesmo diante das adversidades, é capaz de “inventar a felicidade”. Assim, não haveria melhor cenário que o Rio de Janeiro para a JMJ, pois as Jornadas são uma ode à alegria. “Com efeito — citava Bento XVI —, a alegria é um elemento central da experiência cristã. Também durante cada Jornada Mundial da Juventude fazemos a experiência de uma alegria intensa, a alegria da comunhão, a alegria de ser cristãos, a alegria da fé. É uma das características destes encontros. E vemos a grande força atrativa que ela tem: num mundo com muita frequência marcado por tristeza e preocupações, é um testemunho importante da beleza e da fiabilidade da fé cristã” (Mensagem para a XXVII Jornada Mundial da Juventude 2012).

Concluía o cineasta: “O principal objetivo de nosso filme é esse grande abraço místico e humano, peregrino e missionário, cristão e universal, que é a JMJ. E que, pela cidade onde ocorrerá, poderia chamar-se Jornada Maravilhosa”.

Cultura do encontro

Penso que não se deva tomar a citação de Bento XVI fortuitamente, pois muito se tem falado do contraste entre Francisco e seu antecessor durante o primeiro ano do novo pontificado. O que se contrastou, porém, não condiz com a realidade. Pude reparar isso ao participar do filme, ao conversar com pessoas das mais variadas linhas, ao ler os jornais, e ao participar à mesa do debate de lançamento do documentário, ocorrido na PUC-Rio (a íntegra do debate pode ser encontrada aqui).


O evento de lançamento reuniu integrantes de diferentes religiões e movimentos e tratou da necessidade de tolerância religiosa na cidade do Rio de Janeiro, pois a convivência pacífica durante a Jornada Mundial não costuma ser habitual do dia a dia de muitas localidades cariocas.


Ao longo da discussão, em que houve uma animada participação do público, duas tensões se notabilizaram.

A primeira foi uma atitude crítica, velada e subjacente, dirigida contra a Igreja Católica e suas instituições, acusadas de serem demasiadamente verticalizadas, invasivas e anquilosadas. Curiosamente, ao mesmo tempo se denunciou a falta de empenho da hierarquia eclesiástica em mobilizar os leigos para participarem da marcha pela liberdade religiosa que ocorre periodicamente em Copacabana. Traduzo noutros termos: “a liberdade para mim, e a obediência para os outros”.

A segunda tensão constatada foi a ingênua convicção de que o novo Papa é um revolucionário pelo simples fato de ser simpático (quesito em que, consequentemente, os Papas anteriores teriam deixado a desejar). Um dos presentes, que representava determinado grupo de homossexuais católicos, fez-me uma indagação justamente sobre esse ponto, pois ele tinha a impressão de que o novo pontificado auspiciava tal transformação da Igreja que permitiria a reabilitação de Leonardo Boff, posto de escanteio pelos papas anteriores.

Uma pequena digressão: sem dúvida, o Papa Francisco aposta na “cultura do encontro”. O documentário em questão demonstra isso e procura evidenciá-lo a partir de diferentes histórias de peregrinos, voluntários, cidadãos comuns, representantes de outras religiões, etc. E como diz o provérbio chinês, que para abrir uma loja o primeiro passo é sorrir, o atual Romano Pontífice oferece o seu em abundância.

Saber rir das revoluções

Mas chegara o momento de eu responder à pergunta do militante homossexual, defensor de Leonardo Boff e feliz com a saída de Bento XVI. O moderador do debate me solicitou brevidade, pois a minha resposta fecharia as discussões daquela noite.

O espaço deste artigo me permite ser mais explícito nas considerações que ora pude tecer.

Primeiramente, as pessoas se lembram de nós não pelo que dissemos, mas pelo que lhes fizemos sentir. O Papa Francisco tem-nos feito sentir aquilo que os Papas anteriores já diziam. Não há um contraponto, não há um contraste. Só nova embalagem.

A questão é: por que as embalagens anteriores foram rechaçadas pela opinião pública?

O próprio Papa Francisco já percebeu que lhe foi atribuída a aura de revolucionário. Por exemplo, em sua recente Exortação Evangelii gaudium, alude ao aborto voluntário dizendo que “não se deve esperar que a Igreja altere a sua posição sobre esta questão. A propósito, quero ser completamente honesto. Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou «modernizações». Não é opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana” (n.º 214).

Muito mais revolucionário — e visionário — foi Bento XVI ao renunciar (o que não ocorria há 700 anos). Pensando em “novidades”, não foi uma revolução a restauração do rito anglicano no Ocidente (depois de 500 anos), com a possibilidade de se admitirem sacerdotes casados? Se não bastasse, Joseph Ratzinger, antes de ser Papa, estivera por trás da composição do Catecismo da Igreja Católica (o primeiro catecismo oficial da história) e da Declaração Conjunta da Igreja católica com luteranos e metodistas sobre o tema da justificação (que fora justamente a causa da reforma protestante). A lista poderia se estender indefinidamente, mas não é o caso.

Basta frisar que essas conquistas significaram mudanças reais na vida da Igreja das últimas décadas, e são muito mais profundas do que efêmeras emoções midiáticas. Do mesmo modo, seria possível enumerar outras tantas realizações de João XXIII (convocação do Concílio), Paulo VI (reforma litúrgica), João Paulo II (por exemplo, o novo Código de Direito), etc., que repercutem até hoje no dia a dia de milhões de cristãos.

Leonardo Boff e a cultura do “reencontro”

Em segundo lugar, em minha resposta durante o debate era necessário aludir a Leonardo Boff.

O documentário de Cacá Diegues levanta controvérsias “salutares” justamente porque o filme foi considerado oficial. Às críticas das alas mais conservadoras, minha sugestão é fazer limonada com o limão alheio.

Por que o afamado Boff aparece no filme? Aparece porque é afamado. Os católicos assumirão essa culpa? Afinal, alguém deve ser o culpado de que a intelligentsia brasileira, quando pensa na Igreja, logo se lembra de um dissidente que vive a expensas de ser um outsider.

Se o documentário é um produto oficial da JMJ, ele tem necessariamente uma chave hermenêutica ortodoxa. Portanto, se o Boff ali aparece, é que está se convertendo e se reaproximando com humildade do seio da Igreja outrora rechaçada por ele. De fato, ele fala coisas sensatas no filme, embora seja discutível o tipo de relação que ele estabelece entre paz social e paz entre as religiões.
Eu rezo sinceramente por essa intenção: que Leonardo Boff se converta. Seria uma alegria que, além de dizer que não é mais um marxista (coisa que ele tem feito ultimamente), resolvesse confessar-se e voltar a ser católico de missa dominical, fiel à doutrina do Catecismo. Essa seria um verdadeiro “efeito Francisco”!

Quem é, afinal, o papa do amor?

Por fim, a terceira parte da minha resposta no debate foi sobre o amor.

O teólogo sueco Anders Nygren (1890-1978) tornou-se eminente professor da Universidade de Lund, e depois bispo luterano dessa cidade. Também foi presidente da Federação Luterana Mundial. Filósofo da religião, exegeta habilidoso, historiador versátil, teólogo genial e pastor sensível, Nygren se valeu da filosofia kantiana em sua teologia. Ativo defensor do ecumenismo e ferrenho opositor do nazismo, fez-se internacionalmente reconhecido por seu livro Agape and Eros. Essa excelente obra, entretanto, não representa o cerne de seu pensamento. No livro, Nygren explica que, segundo Platão, eros é o amor sedento do Belo transcendente, o que eleva o humano para o divino, o único capaz de saciar a ansiedade da alma aprisionada na matéria; mas, porquanto busca o êxtase da união, seria amor egocêntrico, cobiça. Com o correr dos séculos, o significado de eros teria sido abaixado até assumir notas meramente sexuais.

Tal distinção entre eros e agape, com a reserva deste último para o verdadeiro amor cristão, tornou-se lugar comum em nossa cultura. Há quem não consiga compatibilizar o erotismo com o amor oblativo, coisa bem palpável na música Amor e Sexo, de Arnaldo Jabor e Rita Lee.

Bento XVI criticou essa distinção em sua primeira Encíclica, Deus caritas est, na qual ensinou que tanto eros quanto agape são aspectos do mesmo amor divino. Naquela época, sua ousadia lhe valeu o epíteto de “Papa do Amor”. A continuação do seu fecundíssimo magistério não desmereceu o título. Ratzinger foi um grande teórico do amor. O cristianismo é a religião do Logos, da “lógica” de Deus, mas justamente a lógica de Deus é a lógica do amor.

Bento XVI e Francisco escreveram a primeira Encíclica a quatro mãos da história da Igreja. Não à toa, no magnífico texto há uma seção em que o amor é apresentado como uma forma de conhecimento. O amor tem um Logos. Isso é muito importante. Nos debates sobre a afetividade, é preciso resgatar a racionalidade do amor. Deus é amor, mas o amor não é Deus.

Uma torrente de alegria

Gostaria de concluir fazendo referência a um convite Papa Francisco, para que, a partir dessa experiência de um “Rio de Fé” que foi a JMJ, entremos num “Rio de Alegria”:

Porque não havemos de entrar, também nós, nesta torrente de alegria? (…) Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa. Reconheço, porém, que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados. (…) A tentação apresenta-se, frequentemente, sob forma de desculpas e queixas, como se tivesse de haver inúmeras condições para ser possível a alegria. Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. (…) Não me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: «Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo».
(Evangelii gaudium, nn. 5-7)

16 de jan. de 2014

A viagem de Bunyan

O Peregrino, de John Bunyan (1628-1688), é considerado o segundo livro mais vendido da história (antes mesmo do Corão). A razão do estranho sucesso advém de que costumava vir publicado como apêndice nas bíblias protestantes inglesas. Se não fosse assim, sua difusão teria sido infinitamente menor.

O drama consiste na descrição dos dez estágios pelos quais um cristão migra da Cidade da Destruição até a Jerusalém Celestial.

Do ponto de vista literário, o resultado final é bastante inferior à narrativa de peregrinação descrita na Commedia de Dante Alighieri, a qual também guarda uma conotação espiritual.

O mérito de Bunyan foi reabilitar a alegoria como instrumento catequético moral, valendo-se de passagens bíblicas como urdidura. Não obstante, suas alegorias são muito menos sutis que as de outro autor anglicano, C. S. Lewis.

Bunyan era batista calvinista, dissidente do anglicanismo oficial. Portanto, é esperado que sua obra contenha alguns inconvenientes doutrinais. Saltaram-me à vista os seguintes:

a) Critica Moisés acerbamente.

b) Apresenta a vida cristã como uma conquista individual.

c) Afirma a absoluta corrupção da natureza humana, mas…

d) … quanto à salvação, valoriza totalmente o livre-arbítrio e omite a predestinação (?!?).

e) Blasfema contra o Papa.

Pessoalmente, achei o livro triste. O caminho do cristão pode ser estreito, mas é repleto de alegria.

30 de nov. de 2013

O Natal e o Antinatal


O amargo escritor Curzio Malaparte, falecido em 1957, escreveu palavras duríssimas contra o Natal, quando — já então! — essa festa perdera muito de sua compreensibilidade para a cultura do século XX:

Dentro de poucos dias será Natal, e as pessoas já se preparam para a suprema hipocrisia. Por que nenhum de nós tem a coragem de dizer a si mesmo que o século, o mundo, nunca foi tão pouco cristão como nesses anos? Por que nenhum nós ousa reconhecer que a retórica dos políticos, o grande desfile de sentimentos evangélicos, as procissões de falsos devotos só servem para esconder uma terrível verdade: que as pessoas não são mais cristãs, que Cristo morreu na alma de seus filhos, que a hipocrisia desceu da política até a vida social, familiar e individual? Não nos importamos com quem sofre; nada fazemos para impedir o sofrimento, a miséria, o mal, o crime, a violência, a destruição; permanecemos quietos, calados, e festejamos o santo Natal.

E prossegue:

Gostaria que, no dia de Natal, o panetone se tornasse carne dolente sob a faca, e o vinho se transformasse em sangue; que por um instante todos sentíssemos o horror do mundo na boca. Queria que, no dia de Natal, nossas crianças subitamente aparecessem como serão amanhã, dentro de alguns anos, se não ousarmos nos rebelar contra o mal que nos ameaça. Pobres corpos estraçalhados, abandonados na lama vermelha de um campo de batalha. Queria que na noite de Natal, em todas as igrejas do mundo, um pobre padre se levantasse e gritasse: fora desse berço, hipócritas, mentirosos; vão para suas casas chorar sobre os berços dos seus filhos. Se o mundo sofre, é também por culpa de vocês, que não ousam defender a justiça e a bondade, e têm medo de serem cristãos até o fundo. Fora desse berço, hipócritas. Este menino, que nasceu para salvar o mundo, tem horror a vocês.

Esse texto atormentado foi escrito três anos antes de seu batismo, por sua vez ocorrido um mês antes da morte. Faltando pouco para deixar essa vida, disse ao padre que o assistia: “Vamos!” — “Para onde?”, indagou o sacerdote — respondeu‑lhe: “Para o céu!” (cf. COMASTRI, Angelo, Tu És Trindade, p. 28)

***

Pergunto o mesmo agora: “Vamos!”

— Para onde? — vocês me perguntam.

— Preparar o Natal! Vamos para Belém! Adeste, fideles, læti triunfantem, venite, venite ad Betlehem! Belém é o nosso céu, onde podemos ver a face de Deus.


O primeiro traço é que Deus é frágil. Por exemplo, o Todo‑Poderoso obedece a um imperador que ordena um recenseamento.

O segundo, é que Deus é pobre. Nasceu precariamente, sobre fatne, isto é, sobre “esterco e palha”!

O terceiro, é que Deus é amor. Amor é dom, entrega, e Deus é dom infinito: dá tudo, dá‑se, fica pobre para nos enriquecer; “aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Deus é humilde porque não vive para si, mas vive para nós!

2 de out. de 2013

Quem foram os profetas

Profetas não escritores

Depois de Moisés, Aarão e Maria, o Pentateuco refere-se a Balaão, o qual, embora adivinho estrangeiro contratado para amaldiçoar Israel, profetizou quatro oráculos a seu favor. Uma inscrição em Tell Deir Alla, na Transjordânia (1986), dá pé a supor que existia um “livro de Balaão, filho de Beor, o homem vidente dos deuses”; além disso, consta ter havido um famoso rei vidente arameu muito antigo.

Posteriormente, Samuel surge à frente de um dos grupos — aparecidos no seu tempo — dos fervorosos “filhos dos profetas” (1Sm 19,20). Eram comunidades religiosas que viviam de esmola (2Rs 1,8; 4,42; 5,22) e se vestiam com mantos de pelo e cíngulo de couro. Arrebatados pelo Espírito Santo, entravam em transe extático, provocado frequentemente pela música (2Rs 3,15) e bebidas fermentadas. Expressavam‑se mais pelas danças e cantos do que pela palavra, lançando gritos e invocações, e às vezes se faziam incisões (1Rs 18,28), tiravam as vestes e acabavam amiúde em estado de prostração (1Sm 19,24), pelo que chegavam a ser tachados de loucos (cf. 2Rs 9,11; Jr 29,26; Os 9,7).

Natã é o mais famoso profeta áulico, cortesão de Davi. Esse tipo de profeta foi comum no reino do Norte, e teve grande influência nos assuntos políticos e sociais.

Elias e Eliseu foram profetas carismáticos, desvinculados tanto da corte quanto do Templo. Elias é considerado o “pai dos profetas”, pois foi o mais valente defensor do javismo, quando o sincretismo dos omríadas devastava a fé de Israel. Eliseu o sucede após a assunção do seu mestre, destacando-se sua taumaturgia e sua intervenção nos assuntos públicos.

Profetas escritores

Do século VIII aC em diante, os principais profetas deixaram escritos recebidos no cânon bíblico. É razoável admitir que os oráculos de cada profeta tenham sido compilados ou completados por discípulos que escreveram integralmente (cf. Is 8,16). Contudo, parece muito mais enriquecedor aprofundar no alcance teológico refletido na ordem dos livros dentro do cânon e na ordem das diversas seções dentro de cada livro do que se imbricar na questão das ipsissima verba dos profetas.

Os hagiógrafos têm mais interesse em transmitir as palavras proféticas que em expor a biografia de quem as pronunciou. Por isso, há duas formas de intitular os livros proféticos. A mais antiga, quando os profetas ainda não tinham a auréola de mestres, diz: “Palavra do Senhor dirigida a…” (Os 1,1; Sf, 1,1; Jl, 1,1; Jr 1,1 LXX). A mais recente simplesmente aduz o magistério autêntico dos profetas reconhecidos (cf. Am 1,1; Jr 1,1 TM).

24 de set. de 2013

Teologia naïf

Teologia naïf é enquadrar o mistério num esquema.

Teologia naïf é nivelar matizes.

Teologia naïf é evitar as aporias.

Teologia naïf é desconhecer as lacunas.

Teologia naïf é ser mais papista que o papa.

Teologia naïf é citar Leonardo Boff.

Teologia naïf é achar óbvio.

Teologia naïf é defender o indefensável.

Teologia naïf é criticar sem moral nenhuma.

Teologia naïf é cometer erro de português na explicação.

Teologia naïf é confundir estilo com tradição.

Teologia naïf é etiquetar.

Teologia naïf é pensar que taxonomia basta.

Teologia naïf é usar a Bíblia sem saber o catecismo mais elementar.

Teologia naïf é sacrificar tudo em nome da razão pastoral.

Teologia naïf é inovar com velhas heresias.

Teologia naïf é dividir o mundo entre progressistas e conservadores.

Teologia naïf é não fazer teologia.

27 de ago. de 2013

Quatro paradoxos do Espírito

O que Chesterton denominava “paradoxo cristão” era o que Vittorio Messori explicava como “religião do e”.

De fato, o Cristianismo tem essa característica crítica: juntar aparentes opostos de forma surpreendente, de modo a causar admiração nos crentes e irrisão nos descrentes. Assim, Deus é Uno e Trino, Jesus é Deus e Homem, a Igreja reúne santos e pecadores, Maria é Virgem e Mãe, etc.

Ora, um capítulo novo em teologia (novo só por ainda carecer de uma desenvolvida sistematização), o qual Paulo VI considerava o próximo tema a ser aprofundado (cf. Audiência, 6/6/1973), é o da pneumatologia, isto é, o do estudo do Espírito Santo.

Em assunto tão elevado e inexplorado, é evidente que alguns desses paradoxos manifestem-se ainda mais surpreendentes aos nossos ouvidos. Gostaria de comentar quatro deles, resumindo algumas ideias da trilogia de Ives Congar sobre o Espírito Santo.

Penhor e Meta

“Venha teu Espírito sobre nós e nos purifique”, diz uma variante lucana ao pedido do Reino no pai-nosso. Com efeito, o Espírito é nossa “última recompensa”, como dizia São Nicolau de Flue. Ao mesmo tempo que o aguardamos, porém, ele já vive conosco e em nós.

Em paralelo, o mesmo Espírito recebido no batismo deve novamente ser recebido na crisma, semelhantemente a como os apóstolos o receberam em Pentecostes depois de já o ter recebido no dia da ressurreição.

Difícil é para o homem avaliar essas ascensões de plenitude em plenitude.

Carisma e Companheiro

É evidente que o Espírito já operava no Antigo Testamento (cf. 1Cor 10,3s). Ao mesmo tempo, só se fez presente na Igreja com o mistério pascal de Cristo (cf. Jo 7,39). Assim sendo, em que diferiu sua ação?

A tese segundo a qual no Antigo Testamento ele apenas agia nos crentes, enquanto no Novo Testamento o Espírito encheu de graça os fiéis, não foi acolhida pelos Padres Latinos, por São Tomás, nem pelos Romanos Pontífices.

O Aquinate explica que a graça era limitada pelo reato de pena do pecado original. Portanto, podemos concluir que, embora os patriarcas e profetas possuíssem a graça, o Espírito não lhes teria produzido os efeitos de filiação e habitação?

Eis uma questão aparentemente sem resposta!

Templo e Glória

Por metonímia, os targumim chamaram a glória de Deus de Shekinah (Tenda, Habitação). Essa Glória, assim como o Nome divino, residem no Santuário ou Morada de Deus.

Sabemos, contudo, que Deus não reside em casa feita por mão humana (At 17,24). O verdadeiro templo do Espírito, que ele preenche (cf. Lc 4,1), em que ele mora e permanece, é a alma humana.

Não temos, porém, certeza infalível de sua presença (cf. DS 803-805 e 823s). Como então o percebemos como Consolador? Interrega viscera tua: si plena sunt caritate, habes Spiritum Dei — indaga o teu íntimo: se tens caridade, possuis o Espírito de Deus (Santo Agostinho, In Epist. Ioann. Tract. VIII, 12).

Selo e Transcendência

Para explicar em que sentido se apropria ao Espírito Santo a justificação e a santificação dos fiéis, houve teólogos como Scheeben (+1892) que avançaram a ponto de defender uma “encarnação” do Espírito na Igreja.

Sem tal exagero, é preciso confessar, entretanto, que a alma agraciada é assimilada à divindade pela ação trinitária, segundo o exemplar de cada Pessoa divina.

A dificuldade se radica em que o exemplar transcende seu beneficiário, sem compor-se com ele. Para explicá-lo, São Paulo irá apelar à imagem do sinete (2Cor 1,22; Ef 1,13s; 4,30).

24 de jul. de 2013

Como você anda de fé?

Fratura entre fé e razão

Ser intelectualmente cristão não equivale a ser existencialmente cristão. Muitos têm cabeça cristã, mas não o têm o coração. E vice-versa.

É preciso pensar com a chave da fé, para assim como dar as razões da própria esperança.

A lógica do amor

Existe identidade de classe, numérica, de diferenciação, essencial

Ora, a identidade cristã não é mera adesão intelectual, mas imitação. Não é mero estilo ético, mas responsabilidade moral. Não é mera pertença passiva, mas participação ativa.

Faz falta pensar e atuar em caridade; comprometer-se com a verdade e amá-la.

Examinar o coração

Os principais obstáculos à transmissão da fé são:
  • uma fé vivida em modo privado e passivo; 
  • o não sentir a necessidade de uma educação da própria fé; 
  • uma separação entre a fé e a vida;
  • o consumismo e o hedonismo;
  • o niilismo cultural;
  • o fechamento à transcendência que elimina qualquer necessidade de salvação.
***

Estamos no Ano da Fé.
Como você anda de fé?
Por onde a fé o leva a andar?

15 de jul. de 2013

A obra-prima de Ratzinger

Fica evidente, especialmente para quem conhece a obra de Joseph Ratzinger, que a recém-publicada encíclica Lumen fidei, assinada pelo Papa Francisco, mais do que escrita a quatro mãos, é fruto quase exclusivo do pensamento maduro do Papa Emérito.

Talvez seja ousado ou prematuro afirmá-lo, mas a Carta Lumen fidei é, para mim, o testamento de um dos mais luminosos Papas da história bimilenar da Igreja. Combinando beleza literária, intuição bíblica, penetração patrística, versatilidade cultural e profundidade teológica, Lumen fidei (LF) é uma obra-prima.

Bento XVI nos legou mais um magnífico presente neste Ano da Fé. Ensina-nos, entre tantas coisas, quatro pontos significativos: que a fé é palavra luminosa, que a fé reside num coração que ama, que a fé se recebe por “contato”, e que a fé constrói as relações humanas.

Luz e palavra

A fé trabalha entre duas coordenadas: a escuta e a visão. Por um lado, exige assentimento a uma mensagem — palavra —, por outro, essa mensagem toma posse do homem, fazendo-o enxergar tudo sob nova ótica — luz.

Quando tantas pessoas encaram a fé como abstração teórica ou fanatismo intolerante, a Encíclica convida a entendê-la como crença no amor e, portanto, convite ao diálogo e a uma compreensão mais ampla da realidade.

Conhecimento amoroso

“O próprio amor é um conhecimento, traz consigo uma lógica nova”. Coisa inconcebível “aos olhos do homem moderno”, a quem “o amor surge, hoje, como uma experiência ligada, não à verdade, mas ao mundo inconstante dos sentimentos” (LF 27).

Pelo contrário, a sociedade científica reduz a verdade à mera utilidade técnica. Portanto, “poderá a fé cristã prestar um serviço ao bem comum relativamente à maneira correta de entender a verdade?” (LF 26) Sem dúvida, “a luz do amor, própria da fé, pode iluminar as perguntas do nosso tempo acerca da verdade: (...) o olhar da ciência tira benefício da fé: esta convida o cientista a permanecer aberto à realidade, (...) a fé desperta o sentido crítico, (...) a fé alarga os horizontes da razão” (LF 34).

O primado do amor, a lógica do amor, é algo típico do pensamento de Bento XVI, o que já ficara patente em sua primeira Encíclica, Deus caritas est. Não hesito afirmar que, por esse pensamento, ele merece o título de Doctor amoris.

Contato com a fé

“É impossível crer sozinhos” (LF 29): afirmação tão rotunda quanto surpreendente para tantos homens alienados em sua própria subjetividade.

Contudo, sem a transmissão e a recepção da memória eclesial, sem o contato “físico” com a herança de Cristo nos sacramentos e na oração da Igreja, é vedada ao crente a porta da fé.

Fundamento social

“A fé não afasta do mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos. Sem um amor fiável, nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria concebível apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjugação de interesses, o medo” (LF 51).

Nesse sentido, a família e a comunidade política necessitam do referencial da fé que as precede e sustenta. “Porventura vamos ser nós a envergonhar-nos de chamar a Deus «o nosso Deus»? Seremos por acaso nós a recusar-nos a confessá-lo como tal na nossa vida pública (...)?”(LF 55)

***

Esses ensinamentos nos apontam quatro tópicos de exame:

1) Conheço suficientemente a doutrina católica? O que tenho feito para nela me aprofundar? Ou engano-me com preconceitos que facilmente poderia superar com um mínimo de estudo?

2) Associo à doutrina teórica a prática de exercícios de piedade, de oração e de caridade? Ou a minha interioridade é fechada ao diálogo com Deus e ao serviço do próximo?

3) Reconheço na Igreja a “Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé” e pela qual podemos “beber no «verdadeiro» Jesus” (LF 38)? Ou a confundo com pessoas concretas e estruturas passageiras, imaginando que a Igreja mais atrapalha do que facilita o acesso a Deus?

4) Manifesto publicamente minha fé, não ostentando símbolos ou afetando piedade, mas com as virtudes, o desprendimento dos bens materiais e o amor ao próximo? Defendo delicadamente a verdade cristã diante das falsidades que atribuem a ela?

26 de jun. de 2013

A poesia heroica da prosa diária


Hoje é a festa de São Josemaria Escrivá, Fundador do Opus Dei. O “santo do ordinário”, na expressão do grande João Paulo II, trouxe para a nossa época, entre outras contribuições, uma visão de mundo cujo impacto de superação de dicotomias ainda não se fez sentir completamente. Gostaria de discorrer um pouco a respeito.

***

Através das circunstâncias da vida ordinária, ordenadas ou permitidas pela Providência em sua sabedoria infinita, os homens temos de nos aproximarmos de Deus (São Josemaria, Amigos de Deus, 63). O valor positivo da vida ordinária, que é própria do cristianismo, foi eclipsada pelo predomínio de uma visão caracterizada pelo afastamento do mundo como única forma eficaz de se encontrar a santidade.

Concomitantemente, as atividades profanas foram compreendidas como alheias à união com Deus, e tal união foi relegada ao “mundo eclesiástico”. Assim, a doutrina do Cristianismo, a vida da graça, passariam, pois, como que roçando o agitado avançar da história humana, mas sem encontrar-se com ela (São Josemaria, Questões Atuais do Cristianismo, 113).

São Josemaria trouxe, justamente, uma nova concepção da vida quotidiana que aporta algo realmente novo às culturas, e às práticas religiosas e profanas: consiste na superação da distinção entre sagrado e profano.

Com efeito, segundo as diversas acepções clássicas, a vida corrente não seria o lugar do “profano”, pois:

a) em chave laicista, o profano é compreendido como independente de Deus;

b) em chave espiritualista, o profano é entendido como âmbito hostil e estranho à relação com Deus, do qual seria melhor escapar;

c) para muitos, é a esfera cerrada do que possui escasso valor, e que aliena da transcendência;

d) para outros tantos, é sinônimo de vida privada, no sentido de carente de repercussão e heroísmo humano.

São Josemaria apresenta, porém, a vida ordinária como campo da santidade e da atuação caritativa, um espaço humano em que se esconde um quid divino. Se a vida quotidiana foi vista frequentemente como lugar da repetição mecânica e monótona de tarefas intranscendentes, em seu ensinamento é o âmbito da busca da finalidade última da vida mediante pequenos passos: A tua existência não é uma repetição de atos iguais, porque o seguinte deve ser mais reto, mais eficaz, mais cheio de amor que o anterior. — Cada dia nova luz, novo entusiasmo!, por Ele! (São Josemaria, Forja, 736)

Em suma: a vida quotidiana não é mero suceder de dias, mas a substância do viver. Não é χρόνος (tempo mecânico), mas καιρός (tempo oportuno).

Duas consequências dessa maravilhosa visão: ela evidencia os paradoxos da grandeza da vida corrente e do heroísmo escondido na prosa diária.

25 de jun. de 2013

O tio de São João Batista

A notícia de que São José entrou nas Orações Eucarísticas II, III e IV foi um motivo de grande alegria. E acabou confirmando a tendência dos últimos séculos de colocar o Santo Carpinteiro acima de todos os outros Santos.

A dúvida sempre ficou por conta de seu sobrinho, sobre o qual Cristo afirmou: “entre os nascidos de mulher, não houve maior que João Batista” (Mt 11,11a).

A iconografia, à direita e a esquerda de Jesus, traz às vezes Maria e João. E José, onde ficaria? Penso que  os iconógrafos comeram mosca. Afinal, Maria é a Rainha Mãe e, como tal, deve estar junto de Cristo.

A Rainha Mãe era a mulher mais importante na corte real judaica e exercia a função de conselheira. Os reis tinham muitas mulheres, mas uma só mãe, à qual deviam ouvir e venerar, pois dividia o trono com ela (1Rs 2,13-21; 2Rs 24,12; 2Cr 22,3).

Assim, à direita de Jesus e Maria ficaria José e, à esquerda, João Batista, pois “o menor no Reino dos Céus é maior do que ele” (Mt 11,11b). Ou seja: José e João seriam os máximos representantes de cada um dos Testamentos.

Alguém poderia questionar se José — do mesmo modo que João — não deveria ser classificado como personagem veteritestamentário. Contudo, João Paulo II ensinou que “no limiar do Novo Testamento, como já sucedera no princípio do Antigo, há um casal” (Redemptoris custos, nº 7), pois “José é o primeiro depositário do mistério divino, juntamente com Maria. Simultaneamente com Maria — e também em relação com Maria — ele participa nesta fase culminante da auto-revelação de Deus em Cristo; e nela participa desde o primeiro momento. Tendo diante dos olhos os textos de ambos os Evangelistas, São Mateus e São Lucas, pode também dizer-se que José foi o primeiro a participar na mesma fé da Mãe de Deus” (ib., nº 5).

***

Que nada disso diminua o culto a São João Batista! Por sinal, boa Festa Junina a todos!

21 de jun. de 2013

Suicídio espírita

A constituição da personalidade encontra-se entre a conservação da memória e a realização de um destino. A tese da reencarnação destrói tanto uma quanto a outra, ao negar a memória das vidas passadas e prever uma ineludível consumação futura.

O termo “reencarnação” é, aliás, bastante infeliz. É um neologismo (segundo o Houaiss, surgido em 1899) grosseiro, que malbarata o conceito de “encarnação” (a união da natureza divina com a natureza humana — corpo e alma — na única pessoa do Filho de Deus). De fato, a ideia da “reencarnação” supõe que o homem seja só alma, e que possa assumir diversos corpos em função de uma punição da qual não tem mais lembrança.

O nome clássico e correto para essa teoria é metempsicose, ou “transmigração das almas”. Oriunda da mentalidade grega, provavelmente a metempsicose implica a crença mais na solidariedade de vida (integração entre os viventes) do que na persistência da subjetividade.

Ou seja, a metempsicose garantiria a manutenção da vida coletiva, que rebrota como a água de vasos comunicantes. Assim, a vida dos indivíduos mortais fica relativizada. Tal crença levou Empédocles ao suicídio, lançando-se no Etna a fim dissolver a própria individualidade e integrar-se no todo, alcançando a imortalidade.

Por outro lado, como os gregos acreditavam que o saber é perene, a ascese pitagórica preferiu encontrar no conhecimento a forma de o homem assemelhar-se aos deuses e furtar-se à caducidade corporal. Solução um tanto “teórica”, mas certamente menos mortal que a de Empédocles…

27 de abr. de 2013

Quantos livros tem a sua Bíblia?

Encontrei essa tabela que ilustra muito bem como o cânon bíblico teve uma história fluida:

What's in Your Bible? Find out at BibleStudyMagazine.com

Os samaritanos (que seguem até hoje a linha conservadora dos antigos saduceus) retêm os únicos livros que são unanimidade: o Pentateuco.

Os judeus estipularam, a partir das ideias da escola rabínica de Jâmnia (que funcionou entre os anos 75 e 117 dC), um cânon em que os livros são artificialmente catalogados para dar um total de 22 (o mesmo número de letras hebraicas). Todos devem ter sido escritos em hebraico ou aramaico.

As Igrejas ainda fora da comunhão com Roma (copta, siríaca, grega, eslava) nunca oficializaram o cânon. Com isso, suas listas são testemunhos vivos da Tradição Apostólica dos primeiros momentos do cristianismo, quando ainda não havia unanimidade.

A unanimidade foi sancionada para as Igrejas em comunhão com Roma quando a Igreja Católica dogmatizou a lista fechada de livros, opondo-se aos jacobitas, que queriam incluir novas obras (1441 AD), e a Lutero, que retirara alguns (1546 AD).

Os protestantes são um caso à parte, pois criaram sua lista própria em atitude polêmica com a Igreja Católica. Eles encaram qualquer tipo de tradição como abusiva, razão pela qual rechaçaram a prática multissecular de aceitar livros escritos em grego. Para ter um mínimo de base doutrinal, seguiram o cânon judaico para o Antigo Testamento. Mas quase excluíram os deuterocanônicos do Novo Testamento.

19 de fev. de 2013

O debacle ideológico diante de uma renúncia

Nós seres humanos vivemos em tensão: entre aquilo que é perene, definitivo, estruturante; e aquilo que é dinâmico, mutável, cambiante. Se quiser, pode chamar esse dualismo de masculino – feminino, ying – yang, Cristo – Espírito Santo, etc.

Nesse sentido, para falar da Igreja, é preciso ter presente que ela é um projeto divino realizado na vida dos homens, tanto santos quanto pecadores. E que, para secundar a ação do Espírito Santo nas vicissitudes da história, quem exerce a autoridade procura proteger os carismas com uma estrutura jurídica que os potencialize.

Fazendo uma comparação, é como no amor entre um homem e uma mulher: para selar e salvaguardar os sentimentos, vem a graça do matrimônio coroar a mútua união dessas vidas.

Portanto, não faz sentido opor instituição à vida, ou o aspecto espiritual ao carnal. Isso seria como dizer que Jesus não vale, mas só o Espírito Santo, pois o Espírito traz dinamismo para o mundo, enquanto Jesus apenas fundou uma Igreja necessariamente pervertida pelos homens.

É evidente que as estruturas podem ser melhoradas para melhor realizarem em cada época os ideais que elas devem expressar. Mas isso não justifica impugná-las por princípio.

Não há como exigir da mídia fé sobrenatural para interpretar os fatos da Igreja. No entanto, quando leio nos jornais a opinião de pseudoteólogos egocêntricos ou tarados — hereges contumazes como Boff ou Küng, que se valem da renúncia de Bento XVI para falarem de si mesmos e expelir a bílis do seu fracasso religioso —, pergunto-me se seria demasiado exigir da imprensa uma pouquinho de boa-fé. Ou os jornalistas são tão incompetentes que o fato de eles teimarem anos a fio em contar com a colaboração das mesmas cartas marcadas simplesmente indica o seu completo despreparo intelectual e cultural?

O explicado acima traz à luz apenas uma parte do problema. Afinal, opor estrutura jurídica e dinamismo profético é o simples resultado de aplicar à Igreja Católica premissas protestantes. Ainda faltaria falar de premissas modernistas (dogma e revelação como mitos), e de premissas marxistas (uso do poder para oprimir pessoas carismáticas).

Liberte sua fé das amarras dessas ideologias. Do contrário, seus olhos só enxergarão o que você quiser ver.

15 de dez. de 2012

Caminho do dia e caminho da noite

A escolástica convém mais ao entendimento; a mística, à vontade.

A primeira via é positiva e luminosa, pois conduz a Deus através da captação da qualidade das coisas, enchendo a mente de razões e desejo de buscar seu autor. Porque passa pelo conhecimento do criado, a via escolástica rebaixa o olhar para a terra e o amplia na pluralidade do que se contempla.

Por outro lado, a via mística, negativa e obscura, embora mais exigente pelo esforço de recolhimento dos sentidos e pela renúncia que supõe, é mais acessível e universal, pois é a via do querer, e mesmo uma pessoa simples e ignorante pode amar.

Por uma eminência maravilhosa, nega-se a Deus as parcas perfeições das criaturas com a afirmação de perfeição mais soberana; porque se vemos um leão forte, não dizemos que Deus é forte, mas a própria fortaleza. Assim, logo cessa o trabalho da inteligência, transformando-se a reflexão em admiração, e tal surpresa em atração que dispensa o pensamento.

E, de fato, é melhor aqui não pensar, para que tanta luz não cegue os olhos da mente. Pois se a finalidade que se busca é a união, porque frear o amor com considerações intelectuais?

Fechem-se os olhos para ver melhor! Tal noite é mais clara que o dia!

13 de nov. de 2012

Os nove grandes Doutores

Na abside da Basílica de São Pedro, em Roma, encontra-se o monumento à Cátedra do Apóstolo, obra adulta de Bernini, realizada em forma de um grande trono de bronze, sustentado pelas imagens de quatro Doutores da Igreja, dois do Ocidente, Santo Agostinho e Santo Ambrósio, e dois do Oriente, São João Crisóstomo e Santo Atanásio. 

A Cátedra de São Pedro faz referência a um antigo costume romano. Estes celebravam seus defuntos em fevereiro, concluindo suas comemorações a 22 desse mês. Junto aos túmulos, tomavam um repasto sagrado, deixando uma cadeira vazia em representação do antepassado falecido. Rapidamente, o dia 22 de fevereiro passou a recordar a “cátedra” de seu defunto mais ilustre — São Pedro —, junto de cujo túmulo tomavam a refeição eucarística.

A partir do século IV, a expressão “cátedra” também passou a significar a sede fixa do Bispo, posto na igreja matriz de uma diocese, que por isso é chamada de catedral, e constitui o símbolo da autoridade e do magistério do Bispo. 

A presença dessas quatro figuras de Bernini, sustentando a cátedra petrina, evoca a importância que esses homens tiveram — e têm — para a fé da Igreja.

Ambrósio, Gregório, Agostinho e Jerônimo
Agostinho e Ambrósio já figuravam como as grandes luminárias do Ocidente, desde 1298, ao lado de Jerônimo e Gregório I, o Grande. A partir de 1568, São Pio V juntou-lhes outras quatro personalidades eminentes do Oriente: Atanásio, João Crisóstomo, Basílio, o Grande, e Gregório Nazianzeno.

No mesmo ano, Tomás de Aquino foi associado à companhia tão seleta, na qualidade de único Doutor até então não pertencente à Antiguidade. É Doctor Communis, tanto para o Ocidente quanto para o Oriente. 

Atanásio
Aqui seria excessivo falar de todos eles detalhadamente. Mas faço questão de pinçar uma frase de cada um, colhidas do livro Os Doutores da Igreja, de Jean Huscenot:

1) Atanásio, Patriarca de Alexandria (298-373), cinco vezes exilado, responde aos policiais que perguntavam por ele: “Vi Atanásio sim. Ele está pertíssimo!”

2) Basílio Magno, Bispo de Cesareia (330-379): criador de um hospital, advertia os que se despreocupam do próximo: “Não há dúvida de que oprimes tantas pessoas quantas as que poderias ajudar.”

Os amigos Basílio e Gregório
3) Gregório Nazianzeno, Arcebispo de Constantinopla (329-373): amicíssimo de Basílio, confessa: “Cada qual tem o seu ponto fraco; o meu é a amizade!” 

4) Ambrósio, bispo de Milão (340-397): apelidado de Doutor da Virgindade, dirá a quem não preza o matrimônio: “Quem condena o vínculo conjugal condena também os filhos e a sociedade.”

5) João Crisóstomo, Arcebispo de Constantinopla (347-407): sem papas na língua, acabaria sendo perseguido por todos os lados. Dentre suas invectivas, destaca-se esta contra os avarentos: “Ide ao altar da avareza e lá sentireis um cheiro forte de sangue humano. (…) É que a avareza quer a alma da vítima e também a do seu sacrificador.”

Crisóstomo
6) Jerônimo (347-420): após ter sua casa incendiada pelos invejosos hereges pelagianos, escreve: “Vale mais mendigar o pão do que perder a fé.”

7) Doctor gratiæ Agostinho, bispo de Hipona (354-430): a humildade intelectual da maior inteligência do Mundo Antigo o levou a revisar sua vasta obra: “Quero submeter a um escrupuloso exame tudo o que escrevi — livros, cartas ou tratados — e assinalar severamente as suas faltas… Julgar-me a mim próprio, na presença do único Mestre, é o meu único recurso para escapar ao rigores dos seus juízos.”

8) Gregório I Magno, Papa de Roma (540-604): considerado o último dos romanos, transmitiu à Idade Média a herança da Antiguidade que naufragava. Homem versátil e capaz, reivindicava para si o título exclusivo de “Servo dos servos de Deus”, reconhecendo que lhe coubera estar na transição das épocas: “Sacudido pelas vagas das questões, sinto a tempestade roncar por cima da minha cabeça.”

Tomás
Para finalizar, um conselho do Doctor Angelicus, Tomás de Aquino (1225-1274), acerca do presente tema:

“Ora, Deus comunica a verdade pelo brilho da sua natureza;
os doutores são apenas seus ministros,
os quais, portanto, devem ser puros, inteligentes, fervorosos e dóceis.
Por si mesmos, não têm nenhuma suficiência, 

mas podem esperar tudo de Deus”.

3 de nov. de 2012

Xadrez da Morte

Ninguém escapa

Ingmar Bergman se consagrou no cenário cinematográfico internacional em 1957 com o filme “Sétimo Selo”. O drama serve de parábola dos tempos do pós-guerra, ainda atormentados pela memória das recentes atrocidades bélicas e pelo medo das possíveis consequências da Guerra Fria. 

Antonius Block, um cruzado que sobrevivera a perigosas batalhas pela fé, tenta furtar-se à Morte que o espreitava sob a máscara da peste quando regressava à sua terra. Para isso, inutilmente joga xadrez com essa exímia estrategista, numa tentativa desesperada de adiar o desenlace. 

A certa altura, ao distrair-se da partida, a Morte lhe pergunta: 

— Você perdeu o interesse? 

— Perder o interesse? Pelo contrário! 

— Você parece preocupado. Está escondendo alguma coisa? 

— Nada lhe escapa! 

— Nada me escapa. Ninguém me escapa.

Rito de passagem

O filme costuma ser lido pelos historiadores como uma alegoria do ciclo devorador do tempo. Com efeito, no final apenas sobrevive uma família de artistas, que representaria o Renascimento sucedendo à Idade Média decadente. A Morte seria o tempo, pelo qual a história se desdobra: pois o tempo é o rito de passagem que revelaria a identidade de quem o vivencia.

Embora essa leitura seja válida, não há motivo suficiente para desviar a atenção de que a Morte alcança a cada homem em particular, a você e a mim. É um pedágio ao qual ninguém escapa. A morte, sem dúvida, é o primeiro passo desse obrigatório rito de passagem do tempo para a eternidade. Tanto mais assustadora quanto menos se conhecem os passos ulteriores.

Nesse ponto, porém, encontramos pessoas que olham para a morte de forma otimista: “Aos ‘outros’, a morte os paralisa e assusta. A nós, a morte — a Vida — dá‑nos coragem e impulso. Para eles, é o fim; para nós, o princípio” (São Josemaria, Caminho, 738).

Com efeito, a fé cristã é clara quanto à ressurreição final de todos os mortos, com a respectiva retribuição da vida ou da condenação eternas. Contudo, o que diz a fé acerca do que sucede nesse período intermediário, entre a morte e a ressurreição?

Justiça misericordiosa

O sentir da Igreja ao longo da história foi unânime em afirmar a necessidade de uma reparação por parte dos defuntos que, merecendo a salvação por terem tido uma derradeira abertura interior para a verdade, sepultaram-na sob repetidos compromissos com o mal. Nesse sentido, fala-se, no Ocidente, de um sofrimento purificador e expiatório das almas no além; no Oriente, de diversos graus de sofrimento na condição intermédia. 

A percepção da graduação da purificação ultratumular tradicionalmente admite pelo menos dois níveis de “purgatório”. Assim o atesta a Summa theologiæ: “Do lugar do purgatório nada se encontra expressamente dito na Escritura, nem se podem aduzir razões eficazes que o determinem. Contudo provavelmente, segundo o mais concorde com o ensino dos santos Padres e a revelação feita a muitos, o purgatório ocupa um duplo lugar” (Apêndice, solução ao art. 2). 

É muito provável que o primeiro nível seja o do purgatório tradicional, proclamado dogmaticamente por Bento XII em 1336, mediante a Constituição Benedictus Deus, na qual o Pontífice fala do que ocorre às almas segundo “a comum ordenação divina” (DS 1000). 

O nível inferior do purgatório corresponderia àquele das “almas penadas” ou “almas perdidas”, cuja existência é atestada pelas orações litúrgicas, pelos exorcistas e por algumas revelações privadas.

Não buscar consolo, mas ajudar

Contudo, mais importante do que essas especulações, é que podemos contribuir para o refrigério dessas almas. Talvez isso pareça inusitado ao homem de hoje, tão desligado dos seus, vitimado de individualismo e mais desejoso de encontrar nos cultos fúnebres consolo para as suas saudades do que formas de contribuir para a salvação dos que se foram. Nesse sentido, são alentadoras as palavras de Bento XVI: 

Aqui levantar-se-ia uma nova questão: se o «purgatório» consiste simplesmente em ser purificados pelo fogo no encontro com o Senhor, Juiz e Salvador, como pode então intervir uma terceira pessoa ainda que particularmente ligada à outra? Ao fazermos esta pergunta, deveremos dar-nos conta de que nenhum homem é uma mônada fechada em si mesma. As nossas vidas estão em profunda comunhão entre si; através de numerosas interações, estão concatenadas uma com a outra. Ninguém vive só. Ninguém peca sozinho. Ninguém se salva sozinho. Continuamente entra na minha existência a vida dos outros: naquilo que penso, digo, faço e realizo. E, vice-versa, a minha vida entra na dos outros: tanto para o mal como para o bem. Deste modo, a minha intercessão pelo outro não é de forma alguma uma coisa que lhe é estranha, uma coisa exterior, nem mesmo após a morte. Na trama do ser, o meu agradecimento a ele, a minha oração por ele pode significar uma pequena etapa da sua purificação. E, para isso, não é preciso converter o tempo terreno no tempo de Deus: na comunhão das almas fica superado o simples tempo terreno. Nunca é tarde demais para tocar o coração do outro, nem é jamais inútil. Assim se esclarece melhor um elemento importante do conceito cristão de esperança. A nossa esperança é sempre essencialmente também esperança para os outros; só assim é verdadeiramente esperança também para mim. Como cristãos, não basta perguntarmo-nos: como posso salvar-me a mim mesmo? Deveremos antes perguntar-nos: o que posso fazer a fim de que os outros sejam salvos e nasça também para eles a estrela da esperança? Então terei feito também o máximo pela minha salvação pessoal.” 
(Bento XVI, Encíclica Spe salvi 48). 

Sadio realismo

As comemorações com que se inicia o mês de novembro — Todos os Santos e Finados — são muito oportunas para tornar a essas ideias e pensar na única coisa de que temos certeza na vida: de que morreremos. Pois todos desejamos viver bem, mas nem todos procuram preparar-se para bem morrer

Ou, como dizia a Morte no filme de Ingmar Bergman:

— A maioria das pessoas nunca reflete, nem sobre a morte, nem sobre a futilidade da vida.

28 de jul. de 2012

A quinta fileira dos ateus

A “taxonomia de aproximação”, que utilizei para falar dos quatro tipos de ateus, nem esgota nem faz jus à complexa realidade do espírito humano. Pouco depois, já quis acrescentar um quinto tipo àquela lista.

O gênero em questão seria o do agnóstico prático. Com efeito, há pessoas que, sem negar a possibilidade de conhecer a Deus, renegam a sua influência em nossa vida. No máximo, Deus seria fonte de harmonia, ou razão das coisas. Contudo, seria tão excelso e transcendente que não faria sentido rezar-lhe ou contar com ele.

A tentação de radicalizar a transcendência divina é recorrente na história das religiões, de modo que nem sempre se soube propor uma forma conveniente de relacionar-se com Deus. O Islã, por exemplo, estabelece a “submissão” como resposta adequada a um Deus cuja arbitrariedade nos supera. Nas seitas espirítas, por sua vez, Deus é substituído pelo reino da paranormalidade, cujas entidades são objeto de culto em lugar dele.

A solução islâmica é compensada pelo seu monoteísmo radical, que preserva a soberania de Deus. Mas as outras propostas ficam a um passo de negar que Deus seja pessoal e conduzem à irreligiosidade mais crassa, afastando as pessoas da oração.

Para concluir esses reflexões, apresento a entrevista de Leah Libresco, blogueira americana recém-conversa do ateísmo ao catolicismo:

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