25 de jul de 2012

Parece que há quatro tipos de ateus

Num mundo de rótulos ideologicamente atribuídos e de tribos urbanas minoritárias que demandam por espaço social, concedo-me a liberdade poética de fazer a taxonomia da irreligiosidade, tão agressiva quanto tola, que nos avassala. E assim, no reino do ateísmo, enumero quatro filos.

A grande maioria dos descrentes é a dos ateus práticos, isto é, a daqueles que, sem assumir a tese da inexistência do Absoluto, vivem do contingente como se no efêmero encontrassem a solidez da própria vida. Entrar a fazer parte desse grupo é uma tentação muito próxima para os cristãos à deriva

Em segundo lugar, vêm os ateus teóricos militantes. Multiplicam-se na mesma proporção que cresce o laicismo. Transformam a laicidade do Estado, ou a autonomia da ciência, ou as promessas da tecnologia, ou as reivindicações ideológicas, ou quaisquer outras metanarrativas, numa espécie de religião. São extremamente “clericais”, porquanto veneram bezerros de ouro feitos pelas próprias mãos, e prestam vassalagem a tristes gurus que pontificam sobre a areia movediça de vãs filosofias. A fileira desses ateus costuma ser engrossada por pessoas pouco afeitas ao estudo e com pouca capacidade especulativa, que confundem verniz cultural e ciência de jornal com erudição e sabedoria. 

Em terceiro lugar estão os agnósticos. Não têm a temeridade dos segundos para negar a existência de Deus, nem a desfaçatez dos primeiros para assumir uma vida frívola sem pensar nas consequências. Por isso, suspendem o juízo quanto à questão crucial de Deus, disfarçando a frivolidade com a máscara da ponderação e a temeridade com a máscara da tolerância. A tal grupo sentem-se atraídos aqueles que, diante do mistério de Deus — o qual sem dúvida supera a razão humana —, preferem negá-lo a aceitá-lo maior que sua própria capacidade intelectual.

Por último, existem os ateus “deslocados” ou “atormentados”. É um grupo bizarro, que pretende não ser confundido com os anteriores. Ele nasce da ganga das defecções. Advém do insucesso ascético e do desencanto espiritual. Assemelha-se à canalha que tenta limpar o local do crime. Sem dúvida, Deus não pode ser confundido com as imagens nem com os sentimentos que tenhamos dele, mas o fato de que a piedade autêntica não seja uma “piedade sensível” não implica que não deva ser uma “piedade sentida”.

Os primeiros ateus rezam ao próprio ventre; os segundos, aos próprios bofes; os terceiros, à própria vaidade; os últimos, ao próprio orgulho. Nenhum reza a Deus. Os ídolos que derrubam são o simulacro dos próprios fracassos. Tais posturas só podem ser superadas pela verdadeira oração.

Mas a verdadeira oração exige penitência:

Esse Cristo que tu vês não é Jesus. — Será, quando muito, a triste imagem que podem formar teus olhos turvos… — Purifica‑te. Clarifica o teu olhar com a humildade e a penitência. Depois… não te hão de faltar as luzes límpidas do Amor. E terás uma visão perfeita. A tua imagem será realmente a sua: Ele! (São Josemaria, Caminho, nº 212). 

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Seja franco:
A quem você tem rezado? 
Quanto você tem rezado? 
Como você tem rezado?
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