13 de jul de 2011

Respostas em série para perguntas pré-fabricadas


Quæstiones disputatæ

Concluo a série de perguntas anônimas do extinto Formspring acerca da Sagrada Escritura, abordando as condições do diálogo com os anticatólicos.

Vamos às perguntas

Sinto muito eventual rispidez, a intenção é diálogo cordial sobre a Bíblia, na medida de 140 caracteres p pergunta, e ilimitados p resposta.
Para mim, cordialidade é mostrar a cara e não vir querer passar uma de que católico é otário.

não acho católico otário. acho, em geral, a proposta católica papista arrogante. Pe Ávila conheci pessoalmente e sua figura e legado são excelentes. Vc acha que a pressa na canonização de João Paulo II pode parecer marketing para recuperar público ?
Ótimo. Evoluí de otário para arrogante.
Ponhamos os pingos nos ii.
1) Arrogância é inventar a própria fé em vez de recebê-la com humildade.
2) Arrogância também é lançar perguntas ofensivas à fé alheia e depois dar uma de coitado.
3) “Basta ler, pinoia” é uma forma descolada de convidar meus interpeladores anônimos a lerem o texto bíblico globalmente antes de levantarem perguntas “espertinhas”.

Já disse q "sinto muito eventual rispidez", e já expus q 140 caracteres muitas vezes trunca o enunciado da pergunta, até aí foram dificuldades formais minhas, mas se vc puder especificar qual pergunta foi ofensiva me ajudaria a melhorar no diálogo.
Gosto de diálogos construtivos e perguntas que tentem descobrir pontos de contato, zonas de concordância. Isso pressupõe respeito recíproco e conhecimento mútuo, tanto do que eu penso, quanto do que você pensa. Nesse sentido, não me parecem justas perguntas anônimas “pré-fabricadas”, inspiradas em preconceitos e clichês anticatólicos, que pretendem descobrir equívocos onde não existem. Isso seria um diálogo corrosivo. Respostas a esse tipo de indagação são facilmente encontradas em manuais de apologética elementar.

Perguntas de "espertinho": Se Deus pode tudo, pode mentir? Se Deus pode tudo, pode multiplicar-se, ou seja, criar vários outros seres que sejam Deus? Deus criou o Diabo pra passarem a eternidade usando a Humanidade como objeto de disputa e/ou distração?
Se pudesse mentir, seria uma radicalização de Alá. Se pudesse multiplicar-se, seria semelhante ao mulherengo Zeus. Se caiu no dualismo, seria como Ahura Mazda do zoroastrismo. Nada disso é o Deus cristão, que é Logos e é Amor. Não confunda onipotência com onivolência.

a sua frase, sobre Deus, "Se pudesse mentir, seria uma radicalização de Alá" é bastante ofensiva a religião de terceiros, rapaz. Não daria pra vc voltar à sua proposta de "respeito recíproco"?
Absolutamente não.
Segundo أبو محمد علي بن احمد بن سعيد بن حزم‎ (Abū Muḥammad ʿAlī ibn Aḥmad ibn Saʿīd ibn Ḥazm), Alá não estaria vinculado à sua própria palavra e nada o obrigaria a revelar-nos a verdade. Se fosse a sua vontade, o homem deveria inclusive praticar a idolatria.
Embora pudéssemos fazer uma interpretação benéfica do Corão, de fato várias de suas passagens propiciam esse tipo de pensamento:
— “Alá vos julgará. Ele perdoará a quem desejar e castigará a quem lhe aprouver, porque é Onipotente” (Sura 2:284).
— “Alá também conspirou, porque é o melhor dos conspiradores” (Sura 3:54).
— “Alá desvia quem quer, e encaminha pela senda reta quem lhe apraz” (Sura 6:39).
De qualquer modo, há uma boa intenção em exaltar exageradamente a transcendência de Deus; o erro consiste em negar a “linguagem da analogia”, pela qual podemos falar de Deus, ainda que suas diferenças sejam infinitamente maiores que as nossas semelhanças.
Eis mais uma consequência nefasta da ausência de um magistério, cujo vácuo leva qualquer um a chegar a qualquer absurda conclusão, mesmo que bem intencionada.
Tal radicalismo surgiu mesmo entre os cristãos: apesar de a Igreja afirmar uma verdadeira analogia entre a razão criada e o Λόγος divino, houve na Baixa Idade Média quem seguisse o voluntarismo, afirmando que só conhecemos a liberdade arbitrária de Deus. Justamente aqui o protestantismo veio beber os fundamentos da sua “fé fiducial”, que põe entre parênteses os conteúdos.

"perguntas 'pré-fabricadas', inspiradas em preconceitos e clichês anticatólicos, que pretendem descobrir equívocos onde não existem" foi tergiversação sua, como outras. Vc toma por pessoal questionamentos à religião q vc postula "aceitar humildemente".
Ora, “tergiversar” não é meu direito? Este Formspring é meu, e o anônimo aqui é você. Penso que não tenho feito rodeios, porém. Pode ser que eu tenha sido sucinto até agora: explico-me mais pormenorizadamente então.
1) É óbvio que temos pontos de vista irredutíveis. Portanto, se quiser me perguntar algo de modo razoável, conviria dar por supostos alguns princípios. Não ficarei reinventando a roda indefinidamente. Da Torre de Babel à Besta do Apocalipse já há muita coisa escrita por aí.
2) Criar uma dicotomia entre crença e religião é um direito seu, mas degenera em esquizofrenia. Sugiro ler essa postagem. Parece-me estranho e arriscado fabricar o próprio credo a despeito da fé recebida pela tradição autorizada. Nesse sentido é que eu falava da necessidade de “humildade”. Por trás do rechaço da Tradição não está o convencimento intelectual, mas uma atitude apriorística que inviabiliza o diálogo.
3) Grande parte das perguntas que me foram feitas centra-se numa análise externa do texto bíblico, patinando em passagens que sempre serão contraditórias sem o suporte da Tradição. Com efeito, a solução literalista — salva-vidas desesperado do Sola Scriptura, inventado pelos fundamentalistas protestantes do século XIX — é das piores, pois não respeita o próprio texto, coisa que você mesmo percebeu. Logo, concordamos neste ponto!
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