6 de jul de 2011

Jonas causou indigestão à baleia

Continuando a série de perguntas anônimas do extinto Formspring acerca da Sagrada Escritura, exponho agora a questão das versões e sentidos do texto.

Observação preliminar

As alegadas diferenças textuais na Bíblia a que o vulgo costuma se referir não são significativas. Por exemplo, que diferença faz se o cachorro de Tobias ia atrás ou adiante dele quando regressava à casa de seu pai?

Por outro lado, o fato de coexistirem versões de um mesmo texto indica algo muito interessante: a Bíblia não é uma espécie de Corão, não é um monolito, não caiu do céu, nem é um fóssil literário.

Uma versão autorizada é tão canônica quanto outra versão autorizada, porque assim foram ambas recebidas pela Igreja. Aqui está o ponto fulcral: a Bíblia é uma modalidade da Tradição viva. Quem tenta encontrar respostas diretamente na Bíblia, fora da Tradição viva, perde-se irremediavelmente.

Reconheço que nem todas as perguntas abaixo estão bem respondidas, especialmente a do sentido literal, pois ficou em “estado bruto”, sem explicação.

Vamos às perguntas

Há tradução possível para Jonas 1, 17 que seja menos fantástica do que uma hospedagem por 3 dias na dentro de um peixe? ou vc acredita nesse conto de fadas?
Não encontrei essa citação. Imagino que você se refira à passagem de 2,1:
וַיְמַ֤ן יְהוָה֙ דָּ֣ג גָּד֔וֹל לִבְלֹ֖עַ אֶת־יוֹנָ֑ה וַיְהִ֤י יוֹנָה֙ בִּמְעֵ֣י הַדָּ֔ג שְׁלֹשָׁ֥ה יָמִ֖ים וּשְׁלֹשָׁ֥ה לֵילֽוֹת׃
Pois bem, você deu azar, pois não há variantes textuais a esse Texto Massorético que permitam traduzi-lo diferentemente.
Quanto a crer no “conto de fadas”, ainda que digam que um marinheiro britânico tenha passado por uma experiência semelhante na Primeira Guerra, sinceramente não me coloco o problema. Há coisas mais importantes para crer.

Mais claramente: há inúmeras versões de bíblias com diferenças significativas. Como apegar-se à literalidade? Ou acredita que Jonas ficado mesmo 3 dias no bucho do bicho?
Literalidade? Você precisa descobrir que há muito mais coisa entre o céu e a terra do que sua vã filosofia.

Quando você for ler qualquer livro, primeiramente entenda o seu sentido literal. Só depois você será capaz de captar seus outros sentidos.
Literalmente, Jonas ficou três dias no ventre da baleia. Pois bem, o que você acha: esse sentido literal é histórico, etiológico ou analógico?
Agora, banque o esperto e tente captar o sentido espiritual. O que você acha: é típico, moral ou anagógico?
Finalmente: qual é o sentido pleno da passagem?

Literal [Houaiss]: "conforme ao próprio e genuíno significado das palavras, por oposição ao seu sentido figurado". O que seria um "sentido literal analógico" que vc propõe?
Não sou eu que proponho, é a Tradição. Diz a Summa Theologiæ, Iª, q. 1, a. 10, ad 2:

“A história, a etiologia, a analogia pertencem a um mesmo sentido literal. Pois, como expôs o próprio Agostinho [a Escritura chamada Antigo Testamento transmite-se quadriformemente: pela história, pela etiologia, pela analogia e pela alegoria (De utilitate credendi, 3)]a história propõe algo pura e simplesmente; a etiologia assinala a causa de uma expressão, como quando o Senhor assinalou a causa por que Moisés deu licença de repudiar as mulheres, isto é, pela dureza do coração dos hebreus; a analogia mostra que a verdade de um passo da Escritura não repugna à de outro. Ora, dentre as quatro divisões propostas, só a alegoria abrange os três sentidos espirituais. E, assim, Hugo de São Vitor compreende, no sentido alegórico, também o anagógico, admitindo somente três sentidos: o histórico, o alegórico e o tropológico”. 

a pergunta "Por onde vc acha q Jesus andou dos 13 aos 30?" vc não respondeu por considerar ofensiva, ou mesmo cliché anticatólico? Mas é crucial não?

Não respondi por preguiça e falta de tempo. Além disso, estava misturada com outra pergunta que não tinha nada a ver. Não acho ofensiva, mas sim a considero um clichê (pseudobudista?).
Em minha opinião, não é uma questão crucial, se você quer descobrir aí influências ou experiências não-judaicas na vida de Jesus. Com efeito, depreende-se da leitura dos Evangelhos que Jesus permaneceu em Nazaré, trabalhando como carpinteiro, tanto que era chamado de “filho do artesão” (Mt 13,55), ou ele mesmo “artesão” (Mc 6,3) pelos seus conterrâneos. Não era um caixeiro viajante nem um místico peripatético…
Por outro lado, considero crucial o que Cristo realizou nesse tempo em Nazaré. Conferiu ao trabalho profissional e à vida familiar um valor redentor. Deu-nos exemplo de laboriosidade e fez das realidades quotidianas ocasião de encontro com Deus.

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