9 de abr de 2012

Entre o sonho e a alegoria

C. S. Lewis foi o rei da alegoria. Mas será mesmo sinal de profundidade ser capaz de criar analogias e parábolas instigantes, ilustrações através das quais procuramos reexplicar o que já sabíamos?

Não é o que parece se pensar nos nossos dias. Alegoria ou é fantasia carnavalesca ou é coisa para crianças. Afinal, para que fantasiar se podemos andar nus?

Por outro lado, quem sabe usar as armas da alegoria facilmente consegue mudar a valência das histórias. Não foi assim que Philip Pullman escreveu a Bússola de Ouro, invertendo os valores de A Crônica de Nárnia?

Por sua vez, Freud e Jung usaram a alegoria para ensinar a sonhar, para descobrir nas imagens diluídas de um sono estranho a vastidão do nosso inconsciente. E Dalí ensinou a pintar, a plasmar em relógios derretidos, a beleza do nosso “algo desconexo” mais íntimo.

No mundo dos sonhos, mais que ambivalência, há contradições, divórcios reatados. Como o malandro que, expulso de casa pela mulher, lhe diz que irá procurar sua ex. Ela fica ainda mais revoltada, mas então ele bate imediatamente à sua porta e diz: — “Aqui estou, minha ex!”

Aqui a beleza é redundante, pois fica encerrada na própria coerência, sem fazer referência linear a quaisquer parâmetros externos previsíveis.

Mas… E o mito? Ah, o mito! O mito está entre o alegórico e o onírico. Ora pende a um, ora pende a outro. Nem Leão, feiticeira e guarda-roupa, nem O homem que foi quinta-feira.
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