17 de out de 2009

O legado de Dante Alighieri

Gênio literário
O período mais sombrio da vida de Dante Alighieri seria também o melhor de sua criação, testemunhando uma viravolta de sua juvenil padronizada visão trovadoresca do amor como aflição para sua madura invenção do amor como nobilitante, aprazível e aberto à eternidade.
Nos primeiros anos do exílio, deixou inacabadas as obras Convivio De vulgari eloquentia. Na primeira, acusou‑se de ter traído Beatriz com a “Dama Filosofia”, ainda que alguns autores sustentem ter sido uma infidelidade carnal. A segunda é um tratado que abriu as portas à cultura popular, ao nascimento das línguas modernas e ao desenvolvimento do italiano literário.
Dante percebera a inconveniência da intromissão do poder espiritual sobre o temporal. Por isso, escreveu De Monarchia em 1313, sobre a separação dos poderes da Igreja. Antecipando‑se a seu tempo, comparou tanto o governo civil quanto o eclesiástico a dois sóis que iluminam, respectivamente, a ordem política e a escatológica. Até então, fora mais usual representar o poder secular pela Lua, que reflete no mundo civil toda a luz da sociedade espiritual. Suas experiências políticas tinham‑no levado a afastar‑se da tese guelfa de que o papa livraria cidades como Florença do domínio germânico. Sem fazer‑se gibelino — o que suporia aceitar as reivindicações dos antigos nobres feudais —, Dante passou a ver o imperador medieval como um equivalente do imperador romano, contrapondo‑se à usurpação que também o papa poderia perpetrar no domínio temporal.
Inspiração anagógica
Com efeito, a organização do Império Romano permitira a difusão do Cristianismo. Ainda que as pequenas comunidades políticas garantissem grande participação dos cidadãos e um conseqüente vigor da vida pública, não podiam superar as limitações das invejas locais. Apresentava‑se aos olhos de Dante como necessário um limitado poder central para unificar longos territórios e impedir as disputas intestinas.
Não à toa, Virgílio, grande expoente do Império Romano, foi a figura escolhida para guiá‑lo pelo inferno e pelo purgatório. O maior épico latino, Æneida, de sua autoria, conta a história dos legendários heróis que escaparam da batalha de Tróia para fundar a cidade de Roma, deixando entrever grande penetração filosófica e espiritual. No livro sexto, Enéas viaja pelo orco, o que deu muitas idéias a Dante para seu Inferno, assim como a Descida de Menipo ao Inferno, narrativa composta por Luciano. Por outro lado, o afamado espírito profético de Virgílio, que teria anunciado o advento de Cristo numa de suas Éclogas, recomendava‑o como arauto da nova tese de Dante, segundo a qual o imperador seria um instrumento providencial para a boa ordem da Igreja e do Estado. Para Dante, a política era uma importante dimensão da espiritualidade.
Além disso, sua paixão pela filosofia era serva de sua poesia: Virgílio foi preferido a Platão, Aristóteles, Boaventura, Tomás de Aquino, pois o poeta florentino via as idéias em suas imagens do mundo: apesar de pensar ética, política e estética, sua vocação era a poesia. E Dante atribuía sua distinção poética ao estilo romano, que explorava os temas da guerra, amor e virtude.
Outras obras medievais sobre a vida póstuma também tiveram grande difusão na Europa e influência em Dante, como a anglo‑saxônica Saint Patricks Purgatory, a peregrinação completa descrita na legenda irlandesa Tundale ou os poemas sobre o inferno e o paraíso de frei Jacomino, companheiro de São Francisco.
O poeta igualmente aprendeu da poesia épica a criação de mitos. Em sua Commedia, o ponto mais controvertido é o do Veltro, personagem que utilizou para exprimir sua intuição ou pressentimento de uma provável ocorrência futura: símbolo libertador que soergueria a Itália, purificaria os costumes e venceria a loba, ao qual o próprio Dante pode ter se visto tentado a acreditar eventualmente encarnado naquelas conjunturas incertas e amigos malfadados de seu exílio (Inferno, I):

100 Com bestas numerosas se acasala;
e mais serão, até que por final
o Veltro surja para aniquilá‑la.
A obra‑prima
Dante é eclético, o homem‑síntese da Idade Média: faz uso de todas as correntes de pensamento vivas no seu tempo, sem discriminação, desde os gregos aos árabes, dos clássicos aos místicos. Rios de tinta foram gastos para falar do poeta, político e homem florentino. Contudo, a definição indiscutivelmente mais próxima à íntima verdade de sua vida intensa, transida de grandes paixões, sonhadas, vividas e perdidas, é o seu grande “retrato”: a Commedia, verdadeira “Suma Poética”, e uma das mais importantes da literatura universal, escrita entre 1307 e 1320. Já muito conhecida, durante a vida do poeta, difundiu‑se, após sua morte, com crescente fortuna: atesta‑o as numerosas cópias manuscritas, sua menção em representações da época e os muitíssimos comentários.
O primeiro exemplar parece que foi o preparado pelos mesmos filhos de Dante, Jacobo e Pedro, enviado em 1322 a Guido Novello de Polenta. Entre os antigos manuscritos, o mais autorizado é o da biblioteca florentina Laurenziano, redigido em 1343 por F. Villani. A mais antiga edição de imprensa é a de Folino, que remonta a 1472.
Entre os comentários mais próximos, cronologicamente, à apresentação original, recorda‑se o do já citado filho do poeta, Jacobo, e o latino de Graziuolo de’ Bambagliuoli, limitados somente ao Inferno; o de Jacobo della Lana, completo, composto antes de 1330, sumamente interessante pelas informações históricas; o comumente chamado “O Ótimo” (talvez do trecentista Andrés Lancia); os de Benvenuto de Ímola e de Francisco Buti, doutos “expositores” do poema, respectivamente nas universidades de Bolonha e Pisa.
Giovanni Boccaccio (1313-1375) recebeu da prefeitura de Florença o encargo de uma “pública exposição” da Commedia na igreja de Santo Estêvão da Badia: mas apenas apresentou os primeiros dezessete cantos do Inferno, “pela má saúde e pelo despreparo do auditório”. Foi quem deu à obra pela primeira vez o título Divina, nome recolhido pela edição veneziana de 1555, de Gabriel Giolito de Ferrari, o qual se consagrou.
Commedia exerceu grande influência em poetas, músicos, pintores, cineastas e outros artistas nos últimos 700 anos. Desenhistas e pintores como Gustavo Düre, Sandro Botticelli, Salvador Dali, Michelangelo e Willian Black estão entre os ilustradores de sua obra. Os compositores Robert Schumann e Gioacchino Rossini traduziram partes de seu poema em música e o compositor húngaro Franz Liszt usou a Commedia como tema de um de seus poemas sinfônicos. O escultor Auguste Rodin inspirou‑se nela para suas principais obras, entre elas, O Pensador, que representa o próprio Dante, O Beijo, inspirada no drama de Paulo e Francisca e Ugolino e seus filhos, que retrata a tragédia do Conde. Todas compõem sua obra-prima Porta do Inferno.
Em sua XVII epístola, a um de seus patronos no exílio, Cangrande della Scala de Verona, Dante recomendava alguns princípios para se ler com proveito a Commedia: ter em conta os quatro possíveis sentidos textuais (literal, alegórico, moral e anagógico) e sua intenção moralista (mostrar a justiça remunerativa implicada no drama humano, o qual consiste no esforço por praticar as virtudes cardeais e teologais, superando as fraquezas e atrações terrenas).
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