18 de out de 2009

Dante Alighieri: pai da língua italiana

Dante Alighieri pode ser considerado um construtor do italiano, tanto que, por mérito seu, chegou a ser considerado o idioma mais belo e nobre do mundo. O poeta idealizava estruturar uma língua literária italiana com contribuições de todos os dialetos, como fora realizado anteriormente pelos trovadores com o provençal. Com efeito, estes foram os brilhantes consagradores da langue d’oc. Muito antes dos trouvères (poetas e jograis do norte, que usavam o francês, a langue d’oil no dizer de Dante) e desvinculados dos ciclos épicos, glória do norte da França, os trovadores elaboraram uma poesia lírica extremamente refinada, tanto no conteúdo como na forma, com uma versificação e uma prosódia de grande riqueza, acompanhadas por melodias de caráter litúrgico.
Impressionado com o provençal, a coiné das cortes, Dante procurou uma forma lingüística italiana que reunisse o que de melhor houvesse nas diversas variedades da península. Pretendia que essa coiné fosse adotada como língua literária em todas as regiões da Itália, já que nenhuma das variantes correntes lhe parecia dispor das qualidades necessárias observadas no provençal. Descartou, de início, o toscano, segundo declarou no Capítulo III do Livro I em De vulgari eloquentia: “Quod in quolibet idiomate sunt aliqua turpia, sed pro cæteris tus cum est turpissimum”.
Em vários lugares já tinham despontado manifestações literárias, como na Úmbria, com São Francisco de Assis, na Toscana e em Bolonha. Contudo, nessa época, o principal centro literário formou-se na corte de Frederico lI, rei da Sicília, para o qual convergiram poetas e literatos de todas as partes da Itália; essa escola foi, de fato, a primeira tipicamente italiana, denominada “siciliana”, apesar de apenas dez dos seus vinte e nove poetas serem sicilianos; isso quia regale solium erat Sicilia.
Não tendo encontrado a coiné desejada entre os falares italianos, Dante Alighieri, quando resolveu a usar “il volgare”, lançou mão do florentino, apesar de sua relutância inicial, tanto que poucas são as formas não florentinas na Commedia e empregadas por razões estéticas na boca de não toscanos, embora haja também latinismos e galicismos. A localização geográfica central de Florença, as condições históricas da época e o uso da mesma língua por outros dois grandes nomes, Francesco Petrarca, com as conhecidas Rimas e seus clássicos sonetos, e Giovanni Boccaccio, com Decamerone, difundiram o florentino por toda a Itália como língua literária; fizeram também desaparecer a pretendida língua literária de base vêneta do norte, já com algum prestígio no século XIII.
As controvérsias da chamada “questione della lingua” se estenderam por séculos. Uma corrente pretendia que o modelo a ser seguido fosse o toscano antigo dos três grandes autores, a “florentini dade” autêntica. O principal defensor dessa posição, juntamente com Antonio Cesare, P. Giordani e G. Leopardi, foi Pietro Bembo com Prose della vulgar linglla (1525); Bembo aí propõe, como modelo, o toscano de Petrarca para a poesia e o de Boccaccio para a prosa. Opunham-se a essa corrente os que pretendiam como modelo literário o florentino falado, tais como Benedetto Varchi (1503-1565) e Giambattista Gelli (1498-1563). Em 1582, foi fundada em Florença a Accademia della Crusca (it. crusca significa “farelo”, expressão burlesca) com a finalidade de defender a língua literária dos três grandes; elaborou-se o Vocabulario degli Accademici della Crusca, baseado sobretudo em Boccacio e publicado em Veneza em 1612. Foram fixados o léxico e sua ortografia, a pronúncia e a estrutura gramatical; esse Vocabulario serviu de modelo para os de outras línguas românicas. Com isso, prevaleceu a posição dos partidários da linguagem da tríade.
Desse modo, a língua literária italiana teve sua gênese característica, diferente das demais no campo românico; nasceu de fatores meramente literários, não da supremacia política e cultural de um dialeto, como o francês e o castelhano, nem por ser a língua da chancelaria de um reino, como o catalão, nem a variante culta, poética e literária internacional, como o antigo provençal. Entretanto, a falta de unidade política da Itália, durante os séculos XVII e XVIII, não permitiu que aquele florentino literário se tornasse efetivamente a língua nacional, como aconteceu com o francês e o castelhano. Essa situação peculiar da Itália levou a língua literária a uma grande rigidez, que foi quebrada por Alessandro Manzoni ao usar o florentino falado pelas classes cultas em I promessi sposi.
O toscano literário, já no século XV, se impôs sobre o romanesco, o dialeto literário de Roma. Pelo fim do século XVI ou começo do seguinte, o antigo romanesco desapareceu, surgindo outro de caráter toscano. Depois da unificação da Itália, Roma de fato se torna o grande centro irradiador da língua nacional, sobretudo depois da Primeira Guerra Mundial. Atualmente, os meios de comunicação de massa, particularmente o cinema e a televisão, têm difundido essa língua de bases florentinas, tornando-a viva e presente em toda a Itália e reduzindo a importância dos dialetos, historicamente de grande peso.
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