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13 de nov. de 2012

Os nove grandes Doutores

Na abside da Basílica de São Pedro, em Roma, encontra-se o monumento à Cátedra do Apóstolo, obra adulta de Bernini, realizada em forma de um grande trono de bronze, sustentado pelas imagens de quatro Doutores da Igreja, dois do Ocidente, Santo Agostinho e Santo Ambrósio, e dois do Oriente, São João Crisóstomo e Santo Atanásio. 

A Cátedra de São Pedro faz referência a um antigo costume romano. Estes celebravam seus defuntos em fevereiro, concluindo suas comemorações a 22 desse mês. Junto aos túmulos, tomavam um repasto sagrado, deixando uma cadeira vazia em representação do antepassado falecido. Rapidamente, o dia 22 de fevereiro passou a recordar a “cátedra” de seu defunto mais ilustre — São Pedro —, junto de cujo túmulo tomavam a refeição eucarística.

A partir do século IV, a expressão “cátedra” também passou a significar a sede fixa do Bispo, posto na igreja matriz de uma diocese, que por isso é chamada de catedral, e constitui o símbolo da autoridade e do magistério do Bispo. 

A presença dessas quatro figuras de Bernini, sustentando a cátedra petrina, evoca a importância que esses homens tiveram — e têm — para a fé da Igreja.

Ambrósio, Gregório, Agostinho e Jerônimo
Agostinho e Ambrósio já figuravam como as grandes luminárias do Ocidente, desde 1298, ao lado de Jerônimo e Gregório I, o Grande. A partir de 1568, São Pio V juntou-lhes outras quatro personalidades eminentes do Oriente: Atanásio, João Crisóstomo, Basílio, o Grande, e Gregório Nazianzeno.

No mesmo ano, Tomás de Aquino foi associado à companhia tão seleta, na qualidade de único Doutor até então não pertencente à Antiguidade. É Doctor Communis, tanto para o Ocidente quanto para o Oriente. 

Atanásio
Aqui seria excessivo falar de todos eles detalhadamente. Mas faço questão de pinçar uma frase de cada um, colhidas do livro Os Doutores da Igreja, de Jean Huscenot:

1) Atanásio, Patriarca de Alexandria (298-373), cinco vezes exilado, responde aos policiais que perguntavam por ele: “Vi Atanásio sim. Ele está pertíssimo!”

2) Basílio Magno, Bispo de Cesareia (330-379): criador de um hospital, advertia os que se despreocupam do próximo: “Não há dúvida de que oprimes tantas pessoas quantas as que poderias ajudar.”

Os amigos Basílio e Gregório
3) Gregório Nazianzeno, Arcebispo de Constantinopla (329-373): amicíssimo de Basílio, confessa: “Cada qual tem o seu ponto fraco; o meu é a amizade!” 

4) Ambrósio, bispo de Milão (340-397): apelidado de Doutor da Virgindade, dirá a quem não preza o matrimônio: “Quem condena o vínculo conjugal condena também os filhos e a sociedade.”

5) João Crisóstomo, Arcebispo de Constantinopla (347-407): sem papas na língua, acabaria sendo perseguido por todos os lados. Dentre suas invectivas, destaca-se esta contra os avarentos: “Ide ao altar da avareza e lá sentireis um cheiro forte de sangue humano. (…) É que a avareza quer a alma da vítima e também a do seu sacrificador.”

Crisóstomo
6) Jerônimo (347-420): após ter sua casa incendiada pelos invejosos hereges pelagianos, escreve: “Vale mais mendigar o pão do que perder a fé.”

7) Doctor gratiæ Agostinho, bispo de Hipona (354-430): a humildade intelectual da maior inteligência do Mundo Antigo o levou a revisar sua vasta obra: “Quero submeter a um escrupuloso exame tudo o que escrevi — livros, cartas ou tratados — e assinalar severamente as suas faltas… Julgar-me a mim próprio, na presença do único Mestre, é o meu único recurso para escapar ao rigores dos seus juízos.”

8) Gregório I Magno, Papa de Roma (540-604): considerado o último dos romanos, transmitiu à Idade Média a herança da Antiguidade que naufragava. Homem versátil e capaz, reivindicava para si o título exclusivo de “Servo dos servos de Deus”, reconhecendo que lhe coubera estar na transição das épocas: “Sacudido pelas vagas das questões, sinto a tempestade roncar por cima da minha cabeça.”

Tomás
Para finalizar, um conselho do Doctor Angelicus, Tomás de Aquino (1225-1274), acerca do presente tema:

“Ora, Deus comunica a verdade pelo brilho da sua natureza;
os doutores são apenas seus ministros,
os quais, portanto, devem ser puros, inteligentes, fervorosos e dóceis.
Por si mesmos, não têm nenhuma suficiência, 

mas podem esperar tudo de Deus”.

18 de jun. de 2012

Cinco segredos da JMJ

Como necessário complemento aos sete passos para uma bem-sucedida JMJ no Rio de Janeiro, apresento os cinco pontos auge da JMJ de Madri, analisados por Bento XVI em seu balanço de fim de ano (que vale a pena ler na íntegra).

Nova experiência de catolicidade

A JMJ é a nova evangelização ao vivo. Permite apalpar a catolicidade, isto é, a universalidade da Igreja: gente de todos os continentes que, sendo tão diferente pela língua, cultura, nação, compartilha os mesmos sentimentos e ideais. É uma verdadeira aula de pluralismo.

Nova forma de ser homem

Em Madri houve cerca de 20.000 jovens voluntários, indicando a perene vitalidade da caridade, que se reveste formas novas conforme os tempos. Através do altruísmo, da solidariedade e do serviço, muitos redescobrem o amor de Deus e do próximo, que é o verdadeiro motivo da ação humana.

Revalorização da adoração

A presença real de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento da Eucaristia é o ponto focal da JMJ. Dali se alimenta a Igreja e aí encontra forças cada fiel. É a atitude que se tem diante da Eucaristia que define se uma pessoa está ou não comprometida com Cristo.

Redescoberta da Penitência

Não seria autêntico um encontro com Cristo que descuidasse a penitência. Jesus Cristo é exigente e a proposta de vida cristã tem como meta nada menos que a santidade. Por isso, o esforço penitencial de purificação, que todo batizado envida ao longo de sua vida, necessita da graça de Deus para chegar à perfeição. A confissão sacramental dos pecados pessoais ao sacerdote é o único meio ordinário, instituído pelo próprio Cristo, para responder ao esforço humano com o perdão gratuito de Deus. Quem frequenta esse sacramento, recebendo a absolvição de sacerdotes experimentados, enche-se de alegria, de segurança, de confiança em sua luta por ser uma pessoa melhor.

Refortalecimento da alegria

Segundo São Tomás de Aquino, a alegria é “certo ato e efeito da caridade”, já que “a mesma caridade inclina a amar, a desejar o bem amado e a gozar nele” (S. Th., IIa-IIæ, q. 28, a. 5, c). Se pela caridade os cristãos são reconhecidos, em toda parte onde estiverem seu traço característico será, portanto, o sorriso da alegria.

28 de jan. de 2012

Fala aí, Doutor!

Minha singela e bem-humorada homenagem ao Doutor Angélico, o mais sábio dos santos e o mais santo dos sábios.

Art. 1 — SE É CORRETO USAR A EXPRESSÃO “SÃO TOMÁS”.
O primeiro discute-se assim — Parece que a expressão “São Tomás” está errada.

1. — Pois chama-se cacófaton à expressão acidentalmente formada pela sílaba final de uma palavra e pela inicial da seguinte. No caso, o nome do Aquinate soará para muitos “Santo Más”.

2. DEMAIS — Vieira usa SANTO Tomás, como a maioria dos autores clássicos (Frei Luís de Sousa, João de Barros, Contador de Argote).

3. DEMAIS — Alegam os protestantes que não se deve chamar os homens de santos, por mais ilustres que pareçam, pois só Deus é Santo (cf. 1Sm 2,2).

MAS, EM CONTRÁRIO — Por uma regra de adaptação morfofonêmica, o padrão da língua portuguesa é utilizar santo antes de nomes começados por vogal ou por h, e são antes dos nomes que iniciam por consoante.

SOLUÇÃO — O sistema adotado pelo castelhano é diferente do português. O Dicionário da Real Academia Española ensina que a forma santo é exclusivamente usada antes de Tomás, Toríbio, Tomé e Domingo. Em todos os demais casos, utiliza-se san (San Antonio, San Roque, San Pablo, San Andrés). Portanto, devido à proximidade entre o castelhano e o português, deve-se atribuir o prurido para com a expressão “São Tomás” a um castelhanismo difuso.

Por outro lado, o uso da expressão “Santo Tomás” produz uma espécie de aliteração ou eco que, em última análise, também poderia ser tido por cacofônico: “São Totó Más”.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O som feio, desagradável, impróprio ou com sentido equívoco, produzido pela união dos sons de duas ou mais palavras vizinhas, deve ser tido como verdadeiro cacófaton apenas quando gera expressão obscena, ridícula ou fora de contexto, o que não é o caso.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A partir do séc. XVIII o padrão de adaptação morfofonêmica portuguesa veio se firmando, notando-se hoje a nítida preferência pela expressão “São Tomás”.

RESPOSTA À TERCEIRA — O costume de chamar os cristãos de santos vem de longa data e é atestado por São Paulo em suas cartas. Conforme o testemunho de São Josemaria: “‘Saudai todos os santos. Todos os santos vos saúdam. A todos os santos que vivem em Éfeso. A todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos.’ — Que comovente esse apelativo — santos! — que empregavam os primeiros fiéis cristãos para se designarem entre si, não é mesmo?! — Aprende a tratar com os teus irmãos” (Caminho, nº 469).

25 de abr. de 2011

Como o homem se libertou da natureza


Existe lógica na natureza?

O pensamento clássico afirma que natureza é portadora de uma mensagem ética para o homem, que a natureza constitui uma norma moral implícita.

Tal visão de mundo, da que nasceu a ideia de lei natural, pressupõe a existência de uma harmonia entre Deus, o homem e a natureza. O mundo é visto como um todo inteligível, unificado por um logos divino.

Para o Cristianismo, porém, esse logos não é impessoal (como para o estoicismo, por exemplo). Pelo contrário, é uma Pessoa divina, que se fez homem: Jesus Cristo.

Rebeldia moderna

Essas concepções perderam preeminência cultural desde fins da Idade Média. Deixando a natureza de ser vista como norma, a moralidade divorciou-se da estrutura do ser. Daí que David Hume acuse a tentativa de passagem da metafísica para a moral de naturalistic fallacy (paralogismo naturalista).

A derrocada se deu em duas vertentes: a teórica e a prática. Do ponto de vista teórico, depois de São Tomás de Aquino ter apresentado o ser como analógico e não unívoco, Guilherme de Ockham radicalizou a negação da sua univocidade: reduziu o universo à mera justaposição e qualificou de ilusão linguística seu pretenso logos (nominalismo).

Desde a perspectiva prática, o crescimento do voluntarismo consolidou a ὕβρις (insolência, supremo vício para os gregos) como princípio de ação. Pensadores como Pico della Mirandola, Maquiavel, Hobbes, Locke e Nietzsche desenvolveram largamente a tese de Protágoras (o homem como medida de todas as coisas).


Em seguida, veremos algumas consequências dessa dinâmica.

29 de set. de 2010

Sete Arcanjos

Visto que a Pedra de YHWH tem “sete faces” (Zc 3,9), e que “as sete chamas são os olhos do Senhor que estão percorrendo o país” (Zc 4,10b), são igualmente sete os “Anjos da Face”, os quais assistem “diante da claridade do Senhor” e têm “acesso à sua presença” (Tb 12,15). Também são sete os entes venerados no Zoroastrismo como campeões da luta contra o mal, representantes dos sete astros maiores: o Sol, a Lua e os cinco primeiros planetas.

“YHWH, Deus dos exércitos, quem é como tu? És poderoso, YHWH, e tua fidelidade te circunda” (Sl 89[88],9). Entre esses defensores da Igreja e da doutrina da fé, a Tradição conta o arcanjo Miguel, “um dos Príncipes” (Dn 10,13), “chefe dos Exércitos do Senhor” (Js 5,14), que vai adiante do povo como líder e protetor.

O segundo é Gabriel, o Anjo da Revelação: “força de Deus” que vem nas suas asas explicar os sinais dos tempos e anunciar o nascimento do Precursor e advento do Messias. O terceiro é Rafael, o Anjo da Providência: “medicina de Deus” para os justos sofredores como Tobit; apresenta ao Senhor as orações dos piedosos e com seu poder a tradição relacionou a propriedade curativa da piscina probática de Jerusalém.

A curiosidade religiosa buscou os nomes dos demais, aliás, sem sucesso. Diz o filho de Sirac: “O nome de Deus não seja frequente em tua boca, nem o mistures aos nomes de seus anjos, pois não estarás imune de ofendê‑los” (Eclo 23,10).

Para perfazer a representação dos quatro pontos cardeais, pelo menos um arcanjo é majoritariamente reconhecido fora do cânon bíblico, encontrando aceitação inclusive na iconografia cristã e na liturgia (é celebrado pela Igreja Copta a 28 de julho). Oriundo da apocalíptica judia, tal arcanjo seria Uriel, o Anjo da Retribuição: “fogo” ou “luz de Deus” para interpretar as profecias (4Esd 4,1; 5,20). Identificado por alguns apócrifos com o querubim que guarda o Éden, também é confundido com o anjo que lutou com Jacó, talvez porque, em Henoc 40,9.17, Fanuel (cf. Gn 32,31s) tome o seu lugar. John Milton fá‑lo regente do Sol (Paraíso Perdido, III, 689).

Segundo o livro de Henoc, os demais arcanjos seriam Reguel (“desejo de Deus”), Sariel (“temor de Deus”) e Remiel (“exaltação de Deus”). Na literatura apócrifa e nas relações rabínicas ainda são nomeados muitos outros: Jerameel, Baraquiel, Judiel, Cedequiel, Selafiel, etc.

Devido a exageros na devoção aos anjos, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé proibiu que sejam designados, até na devoção particular, com nomes que se julguem ser os seus nomes autênticos, mesmo com base em presumíveis revelações privadas, exceto Miguel, Gabriel e Rafael, que aparecem na Escritura canônica. Também se mandou rechaçar a ideia errônea de que o mundo e a vida estão submetidos a tensões demiúrgicas (cf. Congregação para o Culto divino e a disciplina dos Sacramentos, Diretório sobre a piedade popular e a liturgia, 217).

Isso não impede que possa haver discrepâncias entre os anjos por motivo de custódia; nesse caso, sem serem contrárias suas vontades e interesses, consultam a Sabedoria divina acerca de méritos contrários e incompatíveis entre si dos seus protegidos (Dn 10,13; São Tomás de Aquino, Summa Theologiæ, Iª, 113, 8).

7 de set. de 2010

Visões de Aristóteles

O pensamento aristotélico

Existem duas visões acerca de Aristóteles: A primeira busca organicidade holística em seu pensamento. Pode ser atribuída a Franz Brentano (século XIX). A segunda detecta distinções em razão dos métodos adotados por Aristóteles. Procede de Werner Jaeger (século XX), que defendeu a evolução biográfica de seu pensamento.

É preciso conciliar as perspectivas, compensar a relativização historicista e prevenir os vieses das ciências humanas. Ora, se o tempo fosse referência máxima, o pensamento aristotélico sempre estaria incompleto. Por outro lado, é natural uma evolução entre os fragmentos que remanesceram de suas obras de juventude e os tratados sistemáticos extraídos das apostilas de seus alunos.

Um remédio para a crise

Aristóteles vem bem a calhar no atual cenário de crise da razão, pois explorou diversas formas de racionalidade, a despeito da opinião que comumente se tinha dele até os anos 1960. Desde Francis Bacon e Jacopo Zabarella, reconhecia‑se em Aristóteles apenas uma lógica silogística-dedutiva. Ao seu método indutivo era normal contrapor as “mais sensatas experiências” de Galileu ou o “rigor” cartesiano. Mesmo Hegel — e também os manuais da escolástica — desprezaram a lógica aristotélica, como se fosse mera ciência do pensamento abstrato.

A crise pós‑moderna pôs em juízo o valor e os limites da razão. Buscam-se outras formas de racionalidade. Os elementos que deflagaram tal crise foram o historicismo, a moda nietzscheano-heideggeriana e a crença de que as categorias epocais condicionam a compreensão.

Embora a reflexão ético-política antiga tenha sido aceita no mundo germânico e anglo-saxão como contraponto enriquecedor à reflexão contemporânea, o mesmo não se deu no eixo França–Itália. Com efeito, o mundo latino costuma retroceder a razão clássica somente até à filosofia e à ciência modernas. Ora, essa redução da razão ao racionalismo (típico desde Descartes até Leibniz) e a repulsa cultural pela Igreja levam muitos autores latinos a rechaçar a priori a harmonia entre fé e razão.

Atualmente, porém, a contribuição de Aristóteles foi revalorizada, tanto por aristotelistas, quanto por militantes de outras filosofias. Dentre os primeiros, destaca‑se Jean Marie Le Blond, que em 1939 distinguiu lógica de método, embora sua descoberta só tenha coalhado 20 anos depois, nos Symposia Aristotelica.

O grupo dos filósofos não-aristotélicos que publicaram livros sobre o Estagirita reúne personalidades díspares: Aubenque (heideggeriano), Perelman (teórico da argumentação), Gadamer (hermeneuta), Ritter (hegeliano). Mesmo os pós‑modernos Derrida e Lyotard recorreram a Aristóteles para justificar a “polissemia do ser”.

Afinal, quem foi Aristóteles?

Nasceu em Estagira em 384 a.C., e morreu em Calcis em 322: viveu 64 anos. Dos 18 aos 38 anos, o Filósofo foi um acadêmico, no sentido primitivo da palavra: discípulo perfeito de Platão. Retórico e polemista, especialmente contra os epicuristas.

Permaneceu depois, dos 38 aos 49 anos, na escola de retórica de Atarna. Desde então, abriu o Liceu, empreendimento desvirtuado por dez gerações sucessivas de fracos escoliarcas.

Nos séculos III e IV, chegou a ser considerado um filósofo adequado aos pensadores cristãos; porém, após a edição de suas obras por Andrônico de Rodes e a apresentação empirista que dele fez Estratão de Lampsaco, ficou em segundo plano no pensamento medieval até sua reabilitação por São Tomás de Aquino.

22 de mar. de 2010

História, finalidade, liberdade, destino

Fado ou futuro?

Os hebreus, ao se instalarem numa visão linear do tempo, escaparam ao mito e entregaram‑se ao λόγος, ao racional, descobrindo a historicidade ou o sentido da história: o fatalismo do tempo cedeu lugar à dimensão ética da decisão no tempo, que tem implicações extratemporais.

Assim, o problema do sentido da história se resolve, por um lado, nos termos absolutos transcendentais da história (a criação e a consumação) e, por outro, no embate entre a graça e a liberdade.

Termos absolutos da história

Diversas correntes de pensamento pretenderam identificar a finalidade das liberdades, tomadas quer individual quer conjuntamente. Surgiram, especialmente entre os clássicos gregos, as teses de que o mundo possui um fim dialético (Anaximandro de Mileto, Heráclito de Éfeso, Empédocles de Agrigento), cíclico restaurador ou purificador (Escola Pitagórica, Platão), ou de ordem (Anaxágoras de Clazômenas, Demócrito de Abdera).

Modernamente, as tendências materialista e imanentista propuseram uma esperança de paz terrenal ou um modelo temporal dialético. Inclusive, há visões existencialistas que negam qualquer finalidade.

Porém, segundo a filosofia cristã, tanto o fim quanto o princípio do universo é o Bem por essência, que lhe é extrínseco. O princípio pode ser entendido pela filosofia como criação. Metafisicamente, fica irresolvida a questão quanto a se a criação do mundo foi in tempore (cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, Summa contra gentiles, II, c. 31-38), o que as ciências se afanam em verificar. Quanto ao fim (consumação), a filosofia só é capaz de afirmar a mera possibilidade de um fim absoluto da história pelo aniquilamento das criaturas, sem poder, porém, esperar uma consumação relativa do mundo atual.

Providência e liberdade

Conhecendo a transcendentalidade do princípio e fim do universo, captando a harmonia da criação e a conservação das criaturas, é fácil admitir que a Sabedoria de Deus realiza no transcurso do tempo um desígnio eterno, que está inclusive impresso como tendência profunda em todas as coisas.

Contudo, desde a ótica imanentista, a existência de Deus e da sua providência deve ser “justificada” (daí o termo “teodiceia” de Leibniz, em oposição à “teologia”), porquanto, ao buscar uma emancipação ontológica frente à transcendência divina, toda a realidade é contraída ao ser histórico, no qual haveria uma intenção supraindividual. Cai‑se na contradição de anular a liberdade humana, apesar de querer exaltá‑la em oposição à providência divina.

“O fracasso, ao menos relativo, é lei de toda história, lugar de tantas derrotas e no que inclusive as vitórias, sempre pagas a um preço demasiado alto, são sempre parciais e precárias” (MARROU, Henri‑Irénee, Théologie de l’histoire, I, 12).

4 de fev. de 2010

Centos de livros para ler

Após tantas postagens sobre leitura, deixo aqui uma lista dos “obrigatórios” em minha modesta opinião.

Repare que tento fazer um apanhado geral, com base em gêneros, assuntos e culturas. Portanto, as obras seriam substituíveis por outras similares, conforme o gosto do freguês.

Como somos lusoparlantes, penso que livros de nossa lavra são também essenciais.

Bon appétit!

TEATRO
  • Ésquilo, Oresteia
  • Sófocles, Trilogia Tebana
  • William Shakespeare: Hamlet, Macbeth
POESIA
  • Dante Alighieri, Vita nuova
  • T. S. Eliot
  • Carlos Drummond de Andrade
  • Manuel Bandeira
  • Fernando Pessoa
  • Bocage
EPOPEIA
  • Homero, Odisseia
  • Virgílio, Eneida
  • Anônimo, Beowulf
  • Anônimo, A Canção dos Nibelungos
  • Dante Alighieri, Divina Comédia
  • Camões, Os Lusíadas
  • John Milton, Paraíso Perdido
ÉPICO
  • Dom Quixote
  • Anônimo, Lazarillo de Tormes
LITERATURA EM GERAL
  • Machado de Assis: os livros da segunda fase (a partir de 1881)
  • Raimundo Lúlio, O livro das bestas
  • Jonathan Swift, Viagens de Gulliver
  • Jane Austen, Orgulho e preconceito
  • Lewis Carroll: Alice no País das Maravilhas, Através do espelho
  • Leon Tolstoi, Ana Karenina
  • Fiodor Dostoievsky: Crime e castigo, Os irmãos Karamazov
  • Joseph Conrad, O coração das trevas
  • Eugene Ionesco, O rinoceronte
  • Thomas Mann, Doktor Faustus
  • Constantin Virgil Gheorghiu, A vigésima-quinta hora
  • Michael Ende, A história sem fim
  • João Guimarães Rosa: Sagarana, Grande sertão: veredas
  • Antoine de Saint-Éxupéry: O pequeno príncipe, Cidadela
  • J.R.R.Tolkien: Silmarillion, O senhor dos anéis
ENSAIOS
  • T. S. Eliot, Ensaios
  • G.K.Chesterton, Ortodoxia
BIOGRAFIAS
  • Agostinho de Hipona, As confissões
  • John Henry Newman, Apologia pro vita sua
  • Salvador de Madariaga, Hernán Cortés
  • Marcelle Auclair, Santa Teresa de Ávila
  • Stephan Zweig: Magalhães, Maria Stuart, Fouché, Maria Antonieta
  • Emil Ludwig, Napoleão
  • David Downing, C. S. Lewis, o mais relutante dos convertidos
FILOSOFIA
  • Aristóteles: Metafísica, Ética a Nicômaco
  • Platão: Fédon, Banquete
  • São Tomás de Aquino: Suma contra os gentios, Suma Teológica
  • Edith Stein: Ser finito e ser eterno, A mulher
  • Miriam Joseph, O Trivium: As Artes Liberais da Lógica, Gramática e Retórica
ANTROPOLOGIA
  • C.S.Lewis: Os quatro amores, Dor
  • Viktor E. Frankl, Psicoterapia e sentido da vida
TEOLOGIA
  • Bíblia (especialmente Gn 1–Ex 20; Livros Sapienciais, especialmente Jó, Sb e Eclo; Novo Testamento)
  • Confúcio, Analectos
  • Catecismo da Igreja Católica (especialmente a parte IV)
  • Concílio Vaticano II, Gaudium et spes
  • João Paulo II: Fides et ratio, Veritatis splendor, Centesimus annus; Cruzando o limiar da esperança, Memória e Identidade
  • Bento XVI: Deus charitas est, Spe salvi, Charitas in veritate; Jesus de Nazaré (2 vol.); Fé, verdade e tolerância

HISTÓRIA E SOCIOLOGIA
  • Régine Pernoud, Idade Média, o que não nos ensinaram
  • Johann Huizinga, O declínio da Idade Média
  • Christopher Dawson, A formação da Europa
  • Jakob Burckhardt, A cultura do Renascimento na Itália
  • Thomas More, Utopia
  • A. Moorehead, A revolução russa
  • Gilberto Freire, Casa grande e senzala
  • Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil
Conto com sua ajuda para aprimorar esta lista!

28 de jan. de 2010

Oito modos de partilhar experiências através da leitura


Tem gente que pensa ser o homem um poço de dilemas, uma cidade cheia de becos sem saída.

Prefiro falar de paradoxos e contrastes.

Ler pode ser uma forma de descobrir unidade, não dispersão.

Pela leitura podemos:

1. Conhecer personalidades (Hamlet, Quixote).

2. Deparar‑nos com interrogantes radicais (mitologias antigas).

3. Desfrutar o amor e a natureza (Tolkien).

4. Vivenciar dramas (Crime e Castigo).

5. Pensar (diálogos de Platão).

6. Ouvir confidências (Santo Agostinho).

7. Refletir (Pascal).

8. Fazer sínteses (Dante, São Tomás de Aquino).

Não gostaria de dar outras sugestões?

21 de jan. de 2010

Cinco motivos para ler mais

Já tinha feito anteriormente algumas considerações sobre as leituras. Nos próximos dias, que tal explorarmos outras de suas dimensões e vantagens?

1. Para ter fecundidade intelectual.
São Paulo, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino são bons exemplos. Sem muito estudo e leitura, não seria possível a veemência de seus escritos, a força de suas palavras, a penetração de seu pensamento.

2. Os homens se pescam pela cabeça.
Ninguém persevera em algo sem reflexão; do contrário, não vislumbrando seu sentido, logo o abandona.
Uma nota característica de uma pessoa não massificada é o cultivo da inteligência e a preparação cultural.

3. Responde às necessidades do nosso tempo.
Antigamente, havia universalistas, como Poincaré.
Hoje, com a extensão e a intensidade da ciência moderna, é mais comum dividir o trabalho intelectual.
Contudo, diante das crises mundiais, da resposta insuficiente das ciências e do reducionismo intelectual de tantos e tantas, surge uma nova exigência de extensão e profundidade.
É premente aproveitar melhor os tempos livres para prestar um melhor serviço intelectual.

4. É uma proposta perene para velhos problemas.
A recuperação dos estudos humanísticos é uma afirmação da primazia do espírito sobre a matéria.
As propostas materialistas e utilitárias reduzem o alcance da vida intelectual e espiritual.

5. Resgata bons hábitos.
“O nosso tempo é vivido em contínuo movimento que muitas vezes chega à agitação, caindo-se facilmente no risco de ‘fazer por fazer’. É preciso resistir a esta tentação, procurando o ‘ser’ acima do ‘fazer’” (João Paulo II, Novo Millennio Ineunte, 15).
Além de fazer, também vale a pena contemplar e meditar: adquirir hábitos de contemplação estética e intelectual.

11 de out. de 2009

A Commedia: purgatório e paraíso


O purgatório
Passando por Lúcifer, os poetas seguem por um caminho subterrâneo que os leva até o outro lado da Terra. O purgatório está separado do mundo habitado por um imenso oceano, numa ilha cujo acesso é dificultado por um mar agitado e tempestades que afundam qualquer embarcação que tente se aproximar, como o navio de Ulisses. A topografia póstuma reflete a astronomia ptolemaica: a Terra, no centro do Universo, esférica, reúne num único hemisfério os três continentes então conhecidos e, nas antípodas de Jerusalém, está a ilha da montanha do purgatório. A elevação é tão alta que ultrapassa a esfera do ar e penetra na esfera do fogo, alcançando o céu.
Entre os mundos descritos na Commedia, a concepção do purgatório como uma montanha é, até onde se sabe, uma criação original de Dante. Os outros livros, do Inferno e do Paradiso, falam de reinos comumente associados ao mundo subterrâneo ou à morada dos deuses e escolhidos. Na representação dantesca, o purgatório serve como uma escada para o céu, ligando a superfície terrestre às portas do paraíso. Chegar lá, porém, não é tão fácil quanto chegar no inferno, cujas portas estão sempre abertas.
Uma vez na ilha, é preciso ter fôlego de alpinista para escalar os rochedos que levam à entrada do purgatório. No sopé fica o ante-purgatório, dividido em duas cornijas. Na primeira, esperam os que foram excomungados (canto III); na segunda, aguardam a oportunidade de sofrer as penas purgativas aqueles que tardiamente se arrependeram dos seus pecados, ou por negligência (canto IV), ou por atrasar a penitência para a hora da morte (canto V), ou por outros interesses (canto VI).
Os poetas chegam à Porta do Purgatório (canto IX), que é estreita e fechada com duas chaves. Um anjo armado com uma espada guarda a entrada. Iniciam sua ascensão passando por sete círculos ou terraços, um mais alto que o outro. As almas sofrem períodos de tempo em um ou mais terraços de acordo com os pecados capitais que tenha cometido em vida, apresentados como formas corrompidas do Amor. As penas são terríveis, mas as almas cumprem-nas sem reclamar, na esperança de entrar no paraíso.
Em contraste com o inferno, no purgatório não há seres mitológicos. Em vez dos demônios, encontram anjos protegendo a montanha. A principal atração são personalidades conhecidas de Dante, grandes estadistas, membros do clero e artistas que narram suas histórias, profetizam o futuro e pedem orações para encurtar seu tempo de penitência.
A entrada de cada círculo do purgatório é guardada por um anjo, que purifica a alma que sobe ao próximo nível e profere uma benção tirada do sermão da montanha. Em cada círculo ocorrem representações do pecado e de sua virtude oposta de diversas maneiras diferentes, que Dante contempla intrigado. Hinos, salmos e orações são cantados pelas almas em cada cornija.
Nas três cornijas do baixo‑purgatório é purificado o amor pervertido: pelo orgulho (canto X), pela inveja (canto XIII) e pela ira e o rancor (canto XVI).
A passagem do tempo durante a viagem é rigorosamente medida a partir da posição do Sol, da Lua e das estrelas. Dante adentrara a floresta escura na Quinta‑feira Santa, chegando à ilha quando os primeiros raios de Sol iluminavam o domingo de Páscoa, terminando essa etapa de sua viagem três dias depois.
A leitura do Purgatorio é uma metáfora da obra. No médio‑purgatório purifica‑se o amor falho, isto é, o pecado da preguiça (canto XVIII). Aqui, no exato ponto central da obra — numa característica união medieval de forma e substância — Virgílio aparece fazendo uma importante digressão em que explica o fulcro do universo como um todo e em cada uma de suas partes: o amor.
91 Relembra que o Criador como a criatura
não se compreendem sem o dom do amor,
ou natural, ou de vontade pura.

94 O natural é infenso a erro ou torpor,
mas o outro se defrauda em seu efeito,
ou por excesso, ou falta de vigor.

97 Dês que ao primeiro bem tenda direito,
e se volva ao segundo moderado,
causa não pode ser de algum defeito.

100 Mas quando ao mal procede, incontrolado,
ou menos do que deve o zelo acende,
contra o Criador opera o ser criado.

103 E, pois, um tal amor, ao que se entende,
é que nos leva a toda perfeição,
como também à ação que a Deus ofende.

Ainda que Dante lance mão da mais moderna ciência de seu tempo, não confunde os acidentes materiais com as escolhas morais e sabe que todos os amores são ordenados ao Amor Subsistente, “que move o sol, como as estrelas” (Paradiso, XXXIII, 145); o Amor encaixa‑se perfeitamente num mundo físico hierarquizado.
Ao ler o Purgatorio, somos impelidos a subir a montanha porque a recompensa (o paraíso e Beatriz) encontra-se no seu cume. Não há grandes momentos dramáticos isolados na obra, como ocorre no Inferno, mas o movimento da história é impulsionado pela necessidade de se chegar ao topo da montanha. O autor não oferece uma recompensa imediata para cada encontro, mas pede que tenhamos paciência e que esperemos para ver o que ele nos oferecerá no final. à medida em que subimos, o personagem de Dante cresce, e supera o seu mestre Virgílio. Os acontecimentos dos cinco cantos finais, de fato, surpreendem, e superam qualquer “grande” momento encontrado no Inferno.
No alto‑purgatório é purificado o amor excessivo: da avareza e do esbanjamento (canto XIX), da gula (canto XXII) e da luxúria (canto XXV). Dentre os avarentos, o poeta Estácio junta‑se aos peregrinos em sua ascensão (canto XXI), explicando sua conversão ao Cristianismo e discorrendo sobre a infusão da alma no corpo. No terraço dos lascivos, apresentam‑se‑lhes os poetas Guido Guinizelli e Arnaut Daniel (canto XXVI). Este último lhe fala em provençal:

139 E sua voz se fez, então, ouvir:
“Tan m’abellis vostre cortes deman
qu’ieu no me puesc ni voill a vos cobrire.

142 Ieu sui Arnault, que plor e vau cantan:
consiros vei la passada folor
e vei jausen lo jorn qu’esper, denan.

145 Ara us prec, per aquella valor
que vos condus al som de l’escalina
sovenha vos a temps de ma dolor!”


“Tanto me penhoraste, me saudando,
que não posso, nem quero, me encobrir.

Sou Arnaldo, que choro e vou cantando:
Medito no passado e torpe ardor,
a salvação futura prelibando.

E ora te exorto, pelo grão valor
que te conduz ao cimo da escalada,
que te recordes lá de minha dor!”


No último patamar, Dante se despede de Virgílio e segue acompanhado por um anjo que o leva através de um muro fogo que separa o purgatório do paraíso terrestre ou Jardim do Éden, no topo da montanha (canto XXVII).
Finalmente, às margens do Letes, Dante reencontra Beatriz. O canto XXX do Purgatorio só se entende à luz de Vita nuova, mas percebe‑se o recrudescimento de sua velha paixão na nova emoção de ter de renunciar a Beatriz no além‑túmulo. São os cantos de maior intensidade pessoal. Beatriz é essencial ao conjunto, mas é só aqui que ela aparece também mais claramente. Depois de purificar‑se nas águas do rio Letes, Dante prossegue sua viagem, rumo às estrelas.
Purgatorio, XXXII
1 Eu tinha tanto o olhar nela embebido,
saciando, absorto, a decenária sede,
que me alheei de todo outro sentido.

4 — como se a cada lado uma parede
houvesse ali: de seu sorriso o encanto
outra vez me prendia à antiga rede!

O paraíso
O Purgatorio é mais difícil por ser transicional; o Paradiso é mais difícil enquanto conjunto. Aquele pode parecer seco; este, incompreensível ou excitante. Com exceção de Cacciaguida — perdoável exibição de orgulho pessoal —, não há outros episódios no Paradiso. É preciso ajustar a visão para acompanhar a engenhosa variação de caracteres — com as melhores credenciais — que são inusitadamente trabalhados como material poético. E pensamos que nossas canções mais doces são as que falam de tristes pensamentos…
A dificuldade do Paradiso procede de Dante, não do leitor, pois ele procura educar o sentimento deste através de raciocínios que façam alcançar os estados sentimentais. Por exemplo, a longa oração de Beatriz acerca da vontade (canto IV). Deve‑se procurar sentir o que está dito, em vez de considerá‑lo palavrório decorativo.
Do mesmo modo, antes de considerar as imagens, pequenas e grandes (a águia no canto XVIII), como recursos retóricos antiquados, é preciso entender sua estrita utilidade para tornar visível o que é espiritual. Compreender essas imagens prepara para o último canto. “Em parte alguma, na poesia, experiência tão incomum foi expressa de modo tão concreto, pelo emprego magistral daquelas imagens de luz, que vêm a ser a forma de alguns tipos de experiência mística”.
A viagem inicia‑se no paraíso terrestre, quando Beatriz olha fixamente para o sol e Dante a acompanha até que ambos começam a elevar-se. Passam pelos vários céus e encontram personagens como São Tomás de Aquino e o imperador Justiniano. O paraíso de Dante divide‑se em duas partes: uma material e outra espiritual, ou empíreo. A parte material segue o modelo cosmológico de Ptolomeu e consiste de nove círculos ou esferas formados pelos sete planetas (Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno), pelo céu de estrelas fixas e pelo Primum Mobile (que transmite o influxo de seu movimento a todas as esferas inferiores). Cada uma dessas esferas é regida por um dos nove coros angélicos.
O céu da Lua compete aos justificados que quebraram seus votos; o de Mercúrio, aos que faltaram retidão em vida, o de Vênus, aos que foram lascivos; o do Sol, aos teólogos. No céu de Marte (canto XVII), próprio dos mártires, Dante encontra seu trisavô Cacciaguida, morto numa cruzada, o qual lhe explica as profecias ouvidas no inferno e no purgatório quanto ao seu exílio e atribulações que deste lhe adviriam. Por fim, na esfera de Júpiter encontra os reis e na de Saturno as almas contemplativas.
Chegando ao céu de estrelas fixas, Dante é interrogado pelos santos sobre suas posições filosóficas e religiosas. Depois do interrogatório, recebe permissão para prosseguir. No Primum Mobile, Dante passa a compreender o mundo espiritual, onde encontra os nove coros angélicos, concêntricos, que giram em volta de Deus. Lá, ao receber a visão da Rosa Mística composta pela Comunhão de todos os Santos, separa‑se de Beatriz e tem a oportunidade de sentir o amor divino que emana diretamente de Deus, graças à intercessão de São Bernardo e Maria Santíssima.
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