19 de out de 2011

Evangelho militante

Fides vera. | Spes firma. | Charitas perfecta.
(Medieval Latin, Kraus, Inschr. der Rheinlande II,
document 547, Back, O, 25)

Estender a mão

O voluntariado é hoje uma rede mundial que conta com milhões de colaboradores. A Internet nos deslumbra pela solidariedade com que tanta gente disponibiliza gratuitamente a informação. A filantropia é a marca registrada de uma série de grupos sociais empenhados na melhora das relações humanas, como o Rotary e o Lions Club, ou as comunidades espíritas de matriz kardecista.

O que há de comum entre essas iniciativas tão díspares? — O apreço pela alteridade. A gratuidade. A amizade como virtude chave para a construção da personalidade.

Mas essas atitudes procedem de uma raiz há muito esquecida pela consciência moderna, ou ao menos empequenecida a seus olhos. A origem extrema dessas condutas é a caridade cristã.

“Quem” é a Caridade

Etimologicamente, costuma-se referir o termo latino “caridade” (caritas, caritatis) à “carestia” e ao consequente encarecimento do custo de vida, de modo a indicar o valor elevado que uma pessoa teria para outra. Corresponde à forma grega κείρω, καρῆναι (“cortar curto, carecer”). A forma grega também pode ter o sentido mais raro de “cortar em fibras”. Κείρω , portanto, aponta para a carência, o anelo, a saudade.

Não obstante, a variante charitas parece remeter à outra forma grega, χάρις, a qual indica, segundo seu sentido mais objetivo, o semblante “gracioso” que desperta “favoritismo”.

No redemoinho da história das línguas, perdeu-se o rastro da palavra. Por isso, sinto-me no direito de ainda inventar uma terceira etimologia, mesmo que privada de fundamentação. É que caro, carnis significa em latim “carne”. Pois bem, gosto de interpretar a caridade como carnalidade, um “comungar da mesma carne”, um “fazer pacto de sangue”, um “irmanar-se”.

Se fosse real tal etimologia, seria possível dizer, com muita vivacidade, que o primeiro que viveu a caridade foi o Verbo feito carne. E o primeiro que levou a caridade ao extremo foi o mesmo Verbo cuja carne foi desfibrada na Paixão. Se “Deus é Caridade” (1Jo 4,8.16), no Verbo humanado a Caridade adquiriu um rosto: Jesus Cristo.

Mais do que ação

Voltar a dar o selo do cristianismo à identidade caritativa é urgente num momento histórico especialmente laicista e, por sorte, há muita gente trabalhando nessa seara. Em sentido contrário, porém, também existe uma necessidade premente de recuperar nos cristãos de hoje o ardor da caridade. Reconheço e aplaudo aqueles que sacrificam sua vida por amor — que são muitos, e que passam despercebidos —, mas a quantidade de braços cruzados (para não dizer algemados) ainda é tanta que surpreende.

Por desgraça, o laicismo encontra uma brecha onde menos se podia esperar. Depois de tantos anos após o Concílio Vaticano II, a visão que se tem da atuação dos leigos ainda é como a do século XIX. Só para dar um exemplo, sinto calafrios quando escuto a expressão “agente de pastoral”. Com efeito, ela oculta dois erros de fundo: a de que ser leigo é mero dado sociológico; e de que para atuar cristãmente é necessário ser um “engajado”. Nesse sentido, têm razão os laicistas quando impugnam a atuação dos “católicos oficiais”, acusando-a de ingerência eclesiástica.

Urge convencer os cristãos de que ser leigo é uma missão, não situação; e de que engajamento oficial é uma suplência de funções clericais, não ideal. Traduzindo em miúdos: a burocracia eclesiástica nunca poderá substituir a espontaneidade do amor. A caridade inventa, descobre caminhos, abre horizontes, flexibiliza, torna acessível com os braços abertos, arroupa com o calor da atenção. E quem tem de viver essa caridade é o povo cristão, não uma elite de “ortopráticos.

É claro que esperar tal atitude comprometida dos leigos supõe tê-los formado intensa e profundamente. E aqui a questão dá um nó: nada há mais distante da idolatria da práxis do que o estudo, a meditação e a oração.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...