O pensamento aristotélico
Existem duas visões acerca de Aristóteles: A primeira busca organicidade holística em seu pensamento. Pode ser atribuída a Franz Brentano (século XIX). A segunda detecta distinções em razão dos métodos adotados por Aristóteles. Procede de Werner Jaeger (século XX), que defendeu a evolução biográfica de seu pensamento.É preciso conciliar as perspectivas, compensar a relativização historicista e prevenir os vieses das ciências humanas. Ora, se o tempo fosse referência máxima, o pensamento aristotélico sempre estaria incompleto. Por outro lado, é natural uma evolução entre os fragmentos que remanesceram de suas obras de juventude e os tratados sistemáticos extraídos das apostilas de seus alunos.
Um remédio para a crise
Aristóteles vem bem a calhar no atual cenário de crise da razão, pois explorou diversas formas de racionalidade, a despeito da opinião que comumente se tinha dele até os anos 1960. Desde Francis Bacon e Jacopo Zabarella, reconhecia‑se em Aristóteles apenas uma lógica silogística-dedutiva. Ao seu método indutivo era normal contrapor as “mais sensatas experiências” de Galileu ou o “rigor” cartesiano. Mesmo Hegel — e também os manuais da escolástica — desprezaram a lógica aristotélica, como se fosse mera ciência do pensamento abstrato.
A crise
pós‑moderna pôs em juízo o valor e os limites da razão.
Buscam-se outras formas de racionalidade. Os elementos que deflagaram tal crise
foram o historicismo, a moda nietzscheano-heideggeriana e a
crença de que as categorias epocais condicionam a compreensão.
Embora
a reflexão ético-política antiga tenha sido aceita no mundo germânico e
anglo-saxão como contraponto enriquecedor à reflexão contemporânea, o mesmo não
se deu no eixo França–Itália. Com efeito, o mundo latino costuma retroceder a
razão clássica somente até à filosofia e à ciência modernas. Ora, essa redução
da razão ao racionalismo (típico desde Descartes até Leibniz) e a repulsa
cultural pela Igreja levam muitos autores latinos a rechaçar a priori a
harmonia entre fé e razão.
Atualmente,
porém, a contribuição de Aristóteles foi revalorizada, tanto por aristotelistas,
quanto por militantes de outras filosofias. Dentre os primeiros, destaca‑se
Jean Marie Le Blond, que em 1939 distinguiu lógica de método, embora sua
descoberta só tenha coalhado 20 anos depois, nos Symposia Aristotelica.
O
grupo dos filósofos não-aristotélicos que publicaram livros sobre o Estagirita
reúne personalidades díspares: Aubenque (heideggeriano), Perelman (teórico da
argumentação), Gadamer (hermeneuta), Ritter (hegeliano). Mesmo os pós‑modernos
Derrida e Lyotard recorreram a Aristóteles para justificar a “polissemia do
ser”.
Afinal, quem foi Aristóteles?
Nasceu em Estagira em 384 a.C., e morreu em Calcis em 322: viveu 64 anos. Dos 18 aos 38 anos, o Filósofo foi um acadêmico, no sentido primitivo da palavra: discípulo perfeito de Platão. Retórico e polemista, especialmente contra os epicuristas.
Permaneceu depois, dos 38 aos 49 anos, na escola de retórica de Atarna. Desde então, abriu o Liceu, empreendimento desvirtuado por dez gerações sucessivas de fracos escoliarcas.
Nos séculos III e IV, chegou a ser considerado um filósofo adequado aos pensadores cristãos; porém, após a edição de suas obras por Andrônico de Rodes e a apresentação empirista que dele fez Estratão de Lampsaco, ficou em segundo plano no pensamento medieval até sua reabilitação por São Tomás de Aquino.
