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7 de jun. de 2013

Meu Xovem!

Horrível. Pegar um funk e fazer uma paródia em preparação para a JMJ: ideia de jerico. Passa a mensagem que os católicos “xovens” gostam de funk idiota, conhecem a letra de cor e salteado, e apreciam o rebolado.

Já assistiram ao original, da catolicíssima Anitta? É “alto nível”: “Prepara que agora é a hora do show das poderosas que descem, rebolam e afrontam as fogosas, só as que incomodam. Expulsam as invejosas que ficam de cara quando toca: Prepara!”

E lá no Youtube, enquanto uns dizem que deplorar isso é heresia, outros dizem que sim está bom, embora não nos conviesse contaminar com coisas profanas. O problema não é ser profano, o problema é ser mundano! Heresia é, antes, ter um péssimo gosto desses!

Em suma, aqui há uma enorme confusão entre secularidade, mundanidade, criatividade, bom gosto, autenticidade, etc. Enquanto essa confusão persistir, pensarão que “católico” é gênero musical, ou que ser cantor era algum grau das ordens menores, entre outras aberrações.

Para a nossa “xuventude” o que faz falta mesmo é estudar o Catecismo da Igreja Católica, ouvir música erudita, aprender o que é a virtude da castidade e fazer boa Confissão sacramental.

Ah!… Quase me esqueci: faz falta participar de adorações ao Santíssimo verdadeiramente orantes, isto é, silenciosas, não essa “aeróbica do Senhor” barulhenta e alienada do sentido do sagrado.

Bizarro, bizarro.

19 de fev. de 2013

O debacle ideológico diante de uma renúncia

Nós seres humanos vivemos em tensão: entre aquilo que é perene, definitivo, estruturante; e aquilo que é dinâmico, mutável, cambiante. Se quiser, pode chamar esse dualismo de masculino – feminino, ying – yang, Cristo – Espírito Santo, etc.

Nesse sentido, para falar da Igreja, é preciso ter presente que ela é um projeto divino realizado na vida dos homens, tanto santos quanto pecadores. E que, para secundar a ação do Espírito Santo nas vicissitudes da história, quem exerce a autoridade procura proteger os carismas com uma estrutura jurídica que os potencialize.

Fazendo uma comparação, é como no amor entre um homem e uma mulher: para selar e salvaguardar os sentimentos, vem a graça do matrimônio coroar a mútua união dessas vidas.

Portanto, não faz sentido opor instituição à vida, ou o aspecto espiritual ao carnal. Isso seria como dizer que Jesus não vale, mas só o Espírito Santo, pois o Espírito traz dinamismo para o mundo, enquanto Jesus apenas fundou uma Igreja necessariamente pervertida pelos homens.

É evidente que as estruturas podem ser melhoradas para melhor realizarem em cada época os ideais que elas devem expressar. Mas isso não justifica impugná-las por princípio.

Não há como exigir da mídia fé sobrenatural para interpretar os fatos da Igreja. No entanto, quando leio nos jornais a opinião de pseudoteólogos egocêntricos ou tarados — hereges contumazes como Boff ou Küng, que se valem da renúncia de Bento XVI para falarem de si mesmos e expelir a bílis do seu fracasso religioso —, pergunto-me se seria demasiado exigir da imprensa uma pouquinho de boa-fé. Ou os jornalistas são tão incompetentes que o fato de eles teimarem anos a fio em contar com a colaboração das mesmas cartas marcadas simplesmente indica o seu completo despreparo intelectual e cultural?

O explicado acima traz à luz apenas uma parte do problema. Afinal, opor estrutura jurídica e dinamismo profético é o simples resultado de aplicar à Igreja Católica premissas protestantes. Ainda faltaria falar de premissas modernistas (dogma e revelação como mitos), e de premissas marxistas (uso do poder para oprimir pessoas carismáticas).

Liberte sua fé das amarras dessas ideologias. Do contrário, seus olhos só enxergarão o que você quiser ver.

28 de jul. de 2012

A quinta fileira dos ateus

A “taxonomia de aproximação”, que utilizei para falar dos quatro tipos de ateus, nem esgota nem faz jus à complexa realidade do espírito humano. Pouco depois, já quis acrescentar um quinto tipo àquela lista.

O gênero em questão seria o do agnóstico prático. Com efeito, há pessoas que, sem negar a possibilidade de conhecer a Deus, renegam a sua influência em nossa vida. No máximo, Deus seria fonte de harmonia, ou razão das coisas. Contudo, seria tão excelso e transcendente que não faria sentido rezar-lhe ou contar com ele.

A tentação de radicalizar a transcendência divina é recorrente na história das religiões, de modo que nem sempre se soube propor uma forma conveniente de relacionar-se com Deus. O Islã, por exemplo, estabelece a “submissão” como resposta adequada a um Deus cuja arbitrariedade nos supera. Nas seitas espirítas, por sua vez, Deus é substituído pelo reino da paranormalidade, cujas entidades são objeto de culto em lugar dele.

A solução islâmica é compensada pelo seu monoteísmo radical, que preserva a soberania de Deus. Mas as outras propostas ficam a um passo de negar que Deus seja pessoal e conduzem à irreligiosidade mais crassa, afastando as pessoas da oração.

Para concluir esses reflexões, apresento a entrevista de Leah Libresco, blogueira americana recém-conversa do ateísmo ao catolicismo:

11 de mai. de 2012

A fêmea do tisiu

Algo parecido ao que me referia quando falei do meu tweet mais sincero tem ocorrido no Facebook. Tenho visto postados cartazes com dizeres inspiradores ou atribuídos a personalidades importantes, mas faltos de conteúdo e deveras enganadores.

Por exemplo, um desses cartazes dizia que se o plano A der errado, fique tranquilo, pois ainda haveria outras 26 letras. Logo, o alfabeto teria 27 letras?!?

Outro, ainda pior, afirmava:

“Os animais do mundo existem para seus próprios propósitos. Não foram feitos para os humanos, do mesmo modo que os negros não foram feitos para os brancos, nem as mulheres para os homens” (Alice Walker, premiada escritora americana, ativista feminista e vegetariana).

Pergunto-me: bichos, negritude e mulheres pertencem à mesma categoria? Fora o idioma dyirbal, dos aborígenes australianos de Queensland (em que as mulheres pertencem ao mesmo gênero de água, fogo e correlatos, violência, criaturas e fenômenos perigosos), desconheço onde mais será feita em sã consciência tão bizarra analogia. 

(Uma digressão: por isso mesmo, gostaria de ler o livro de George Lakoff: Women, Fire and Dangerous Things, sobre as categorias mentais.) 

Mais: animais têm “propósitos”? Ou ainda: os mesmos homens que defendem a escravidão negra (ainda existem?) pretendem mesmo “usar” as mulheres?

Em suma, aquela afirmação feminista-ativista-vegetariana estabelece uma analogia, presumindo uma inferência de baixíssima probabilidade.

Nessas horas sinto vergonha alheia.

7 de mai. de 2012

Meu tweet mais sincero

A leitura do que se posta no Twitter daria uma pela tese de doutorado, como registro espontâneo do pensamento de uma parcela da população que, se não é relevante por seu número, destaca-se por pertencer àquilo que é considerado elite intelectual.

Não pretendo entrar no mérito das “bios” (a breve descrição que o twitteiro faz de si), em que aparecem afirmações tão indefinidas, lacônicas ou desestimulantes quanto “sou uma incógnita — vivo em perpétua mutação — alguém que ama a vida”.

Restrinjo-me tão somente a algumas frases que me surpreendem, sem fazer referência a seus autores, como mote para as presentes considerações. Naturalmente, sofrerão de forte viés pois cinjo-me às pessoas que sigo; por outro lado, não devem ser injustamente generalizadas.

Vira e mexe, deparo-me com frases do tipo: “basta ter fé na vida” — como se a vida resolvesse as coisas por sua conta. Ou então, numa troca de impressões entre pessoas cujo comportamento não é dos mais exemplares: “mantenha seu coração puro”.

Finalmente, há quem demonstre leitura mas faça alarde de vacas sagradas da indústria cultural (Almodóvar, Nietzsche, etc.), atribuindo-lhes o mérito de terem denunciado a hipocrisia da sociedade. Grande generalização, pois essas denúncias são aplicáveis aos hipócritas, não à sociedade como um todo. Além disso, com o que contribuíram esses autores para melhorar o nosso mundo?

Convenhamos que tais afirmações padecem de uma estranha enfermidade intelectual, assaz contagiosa: quem lê ou ouve essas singelas declarações tende a aceitá-las, sem perceber sua falácia. Não digo que haja má intenção em quem as fale, mas sim que falte profundidade, coerência e substância.

Solução? Leitura, leitura, leitura. De livros sim, não do Twitter.

Qual foi o seu tweet mais sincero?

1 de mai. de 2012

Qual é a sua lente?


A mensagem seguinte a enviei em resposta a uma tentativa de apresentar Jesus Cristo como mero modelo de humanidade, a Bíblia como um livro repleto de contradições e a Igreja como uma instituição perversa.

Quem usa as lentes distorcidas da própria interioridade vê o que quer.
*****

Só há contradição onde se desconhece a chave hermenêutica. A chave para a compreensão da Bíblia é, simplesmente, a fé da Igreja, que não é “oculta” como você falou, mas publicamente anunciada. Também não tem nada a ver com uma “chave dentro de nós”. Afinal de contas, quem afirmou que a Bíblia é inspirada foi a Igreja e é a Igreja que explica em que sentido ela é inspirada. Quem aceita a Bíblia mas não aceita a Igreja é um esquizofrênico. Com efeito, se eu tivesse de escolher “os meus livros inspirados”, juntaria a Divina Comédia e alguns diálogos de Platão, nunca o Levítico ou Habacuc. Se fosse assim, eu teria de concordar com você em que a Bíblia alberga em si graves contradições.

Portanto, seria um disparate querer encontrar a chave hermenêutica dentro do próprio texto, com a pouca luz do próprio critério e da própria razão. Você mencionou, porém, que as religiões costumam alegar possuir “a chave interpretativa”. Preciso discordar. Basta conhecer minimamente o Zoroastrismo, o Xintoísmo, o Confucionismo, o Budismo, o Taoísmo, o Xamanismo, etc., para constatar que tais generalizações são infelizes. Como eu tinha apontado no e-mail anterior, esse tipo de denúncia é aplicável ao protestantismo, que absolutizou a Bíblia, mas não ao Catolicismo e muito menos às demais religiões.

Achei graça você dizer que “Jesus acreditava tanto no homem”, pois é justamente o contrário o que atesta a Escritura: “Jesus, no entanto, não lhes dava crédito, porque conhecia a todos e não precisava de ser informado a respeito do ser humano. Ele bem sabia o que havia dentro do homem” (Jo 2,24s). É infantil esperar que a Igreja seja uma comunidade de perfeitos e anjinhos. E essa imagem de Jesus humanista, ou de Jesus amigo dos excluídos, me desgosta demais. Se Jesus é uma mera referência, um modelo, então deixe ele lá no pedestal e me deixe cuidar da minha vidinha.

Pelo contrário, se Jesus é o Logos divino, o Verbo de Deus, a Palavra de Deus, o Filho de Deus feito carne, então o mundo tem uma lógica, a história tem um sentido, Deus me dirigiu sua Palavra, me tornou seu interlocutor, me fez seu filho. A mudança verdadeira não é a mudança estrutural da sociedade, mas a transformação interior de cada um mediante esse contato virtual com Cristo.

Não vou entrar no mérito da necessidade de Cristo e da Igreja para a salvação, pois disso já se falou abundantemente nos últimos 50 anos (veja esse documento, por exemplo). Por motivos de espaço, também me abstenho de comentar a confusão acerca das relações Igreja e Estado, evangelização e inculturação, etc. Para cada clichê e afirmação gratuita seria necessário recorrer a parágrafos de história e erudição que, sinceramente, não vem ao caso.

19 de abr. de 2012

A ouvido fechado, palavra aberta

Transcrevo trechos de uma mensagem que enviei a uma pessoa cheia de dúvidas, mas que não as resolve porque reluta em conservar seu ceticismo como um troféu.

É que ainda acredito ser possível o diálogo com quem começa a conversa dizendo que nunca vai mudar de ideia.


*****

É evidente que, se digo algo, é porque penso que posso contribuir com algo para sua vida, assim como quando você me diz algo é que quer compartilhar comigo suas convicções. Não é questão de um converter o outro. A conversão, que é um desandar o caminho andado na contramão, necessita de um meia-volta-volver que só Deus pode conceder àqueles que se dispõem a procurá-lo.

Tenho a convicção de que as atuais acusações, feitas à religião em geral (e ao Cristianismo em particular), procedem em grande parte de uma reação crítica ao protestantismo. Por exemplo: chamar os islâmicos de fundamentalistas é uma impropriedade, pois o “fundamentalismo” foi uma seita protestante americana do início do século XX.

Na mesma linha, como os pseudointelectuais de hoje desconhecem a existência de filosofia antes de Kant, é bastante comum que confundam a autêntica moral cristã das bem-aventuranças com sua versão (reduzida, protestante e kantiana) dos imperativos categóricos: daí que Nietzsche se insurja, com acerto, contra uma "moral de escravos". Mas o filósofo, apesar do bom faro, errou sua pontaria…

Explico de outro modo. A moral cristã não pretende simplesmente moldar bons cidadãos: isso é muito pouco. Também não é um código de prescrições: o mero sentido do dever não arrasta ninguém.

O Estado — ainda vale a pena falar dele? afinal, estamos entrando na era pós-estatal —, o Estado gosta é da religião gnóstica e alienante, que não leva seus adeptos a atuarem socialmente em conformidade com seu credo. A gnose é religião privada, sem repercussão pública. Mas uma ação social contundente incomoda a ordem constituída. Convenhamos: a reforma deve ser o estado habitual das coisas, pois cada geração precisa assumir a situação herdada, o que não se faz sem contribuir com sua própria visão. Repare que não estou propondo que se renegue a tradição, mas que ela seja acolhida criticamente por cada geração.

Todo este assunto é muito complexo e não pretendo fazer aqui um tratado. Apenas quis frisar uns pontos para compartilhar com você meu pensamento. Já escrevi sobre alguns desses pontos e deixei algumas aulas em http://audio.narajr.net/. Confesso que, do jeito que trato esses temas, pode ser uma verdadeira indigestão. Mas é o que tenho para falar.

Por que sou católico? Acho que a resposta é simples. É a mesma que deu São Pedro no ponto de inflexão da pregação de Cristo. Você deve se lembrar que, depois de Jesus anunciar que instituiria a Eucaristia, “muitos discípulos o abandonaram e não mais andavam com ele” (Jo 6,66). Então ele se dirigiu aos próprios Apóstolos e lhes propôs que eles fossem embora também. Mas Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).

Faço minhas as palavras dele: A quem irei? A Maomé? A Lutero? A Alan Kardec? A Kant? A Marx? A Freud? A Nietzsche? A Marcuse? A Foucault? A Derrida?…

*****

Deixe-me agora lhe fazer umas perguntas:

A quem você procurou? A quem você pretende ir?

28 de nov. de 2011

#ignoranceisbliss

Insciência erótica

A educação sexual transformou o amor em playback. O tríplice fogo do amor é vitimado pela dispersão de sua força e a tergiversação do seu sentido:
  • O amor de amizade (hayah) vira instrumentalização. 
  • O compromisso, afeição que funde corações (ahavah) vira seriedade temporária. 
  • O desejo que funde corpos (dodim) vira ácido que corrói a alma.

Espectros de vida

O mundo vive da mentira, enquanto “o justo viverá por sua fidelidade” (Hab 2,4b). Entre um e outro extremo, vemos um espectro de opções insatisfatórias:
  • Viver de impressões. Isso é superficialidade. 
  • Viver de apreciações. Isso é preconceito. 
  • Viver de raciocínios. Isso é ideologia.

4 de nov. de 2011

Spoilers da verdade

Livros fechados, braços cruzados

Muita gente compra livros e não os lê. Mais: os títulos substituem os livros, contam a história com as páginas fechadas.

E os resumos esquemáticos? Resumos esquemáticos são spoilers da verdade. Verdade não destilada, não decantada, nem curtida nem sorvida.

Se a verdade foi substituída pela relevância cultural, o credo foi, por sua vez, substituído pelo pragmatismo. Paradoxalmente, reina a apatia, já que a falta de sentido conduz ao imobilismo, nunca à prática.

E assim, Deus parece estar numa terra perdida em sonhos caducos… em que ninguém acorda. Aparente vitória da metodologia sobre a teologia, da terapia sobre a penitência, do moralismo sobre a santidade, do deísmo sobre a fé.

Vitória só aparente, pois a verdade traz em si uma semente cujo dinamismo nada pode deter. Um fruto seu é mais profícuo que toda e qualquer esterilidade que nos seja imposta.

Como transmitir a verdade?

Se a cultura pós-moderna é avessa às convicções, como convencer que há vida na doutrina sem isso parecer intolerância?

É curioso, mas muitos católicos nominais são os piores interlocutores nessa arena, pois pensam saber o que, de fato, desconhecem. Não obstante, independentemente do título que recebam, tais católicos nominais (não-praticantes, “afastólicos”, de berço, etc.) são pessoas reais que fazem parte da Igreja.

Como então falar a esses corações? Penso que há quatro exigências:

1. Falar simples. Vulgarizar a doutrina. Embalar com a clareza dos conceitos.

2. Falar o porquê. Um sentido vale mais que mil imperativos. Anunciar o fato junto com o seu significado.

3. Falar como. Ensinar o caminho não equivale a decorar passos, mas um passo-a-passo ajuda tanto!

4. Falar compassivamente. Afinal, o objetivo é cooperar com todos, nunca triunfar sobre o outro.

***

E você? Transmite suas ideias ou abre mão delas por causa do relativismo?

21 de ago. de 2011

JMJ Rio 2013!


As Jornadas da Juventude reuniram a cada edição número recorde de participantes. Nunca houve tanta concentração de jovens de tantos países. A JMJ das Filipinas reuniu 4 milhões de jovens em 1995. Nenhum popstar conseguiu atrair tanta gente na história como os papas.

JMJ Madri 2011
Em outros tempos, o próprio cardeal Ratzinger já se perguntara que impacto duradouro suporia para a vida dos jovens a participação em tal evento, promovido pelo bem-aventurado João Paulo II desde 1986. A questão se impõe a qualquer crítico da pós-modernidade. De fato, pode haver coisa mais surpreendente do que milhões de jovens do século XXI, de todas as partes do mundo, se reunirem para estar junto da controvertida figura do Pontífice Romano? Estariam os jovens seguindo um mero movimento de massa, alienados quanto às “minorias oprimidas pela multissecular estrutura eclesiástica”?

O papa no confessionário atendendo a um fiel
Sem dúvida, pode haver alguns que veem no evento uma oportunidade de azarar meninas de outras nacionalidades ou mesmo da própria esquina, como se fosse um “megaencontro-jovem” no mau sentido. Apesar de inevitável, isso não nega que haja fé mesmo nesses participantes eventualmente “interesseiros”. Existe fé. As pessoas creem! Há apreço e reverência pelo Homem de Branco que, de alguma forma, realiza a figura de Cristo. O que não se entende é a crítica azeda contra a manifestação pública da fé. Acusa-se a Igreja de invasão e hipocrisia. Ora, o próprio Bento XVI reconhece a necessidade de um constante aprimoramento de todo aquele que se diz cristão: “Nós devemos ser santos para não gerar uma contradição entre o sinal que somos e a realidade que queremos significar” (Homilia, 20/8/2011). Naturalmente, em toda essa barafunda a culpa não é só da mídia, pois a comunicação interna da Igreja tem sido ruim. Mas seria bom que se fizesse um mínimo esforço de compreensão de um fenômeno nada desprezível. Afinal, os jornais dão mais espaço a seis veados pingados que fazem passeada do que a milhões de jovens, como se uma minoria de intolerantes tivesse mais importância do que uma maioria de gente da curva normal.

Por outro lado, sejamos sinceros: as JMJs são um desafio apostólico para a Igreja. Faz falta ajudar essa juventude pós-moderna a trocar a rebelião do “paz e amor pela rebelião da fé e da caridade. Porém Madri mostrou — com seus 200 confessionários ao ar livre — que o saldo de reconciliação mediante a Confissão foi excelente. Não há outro caminho para a maturidade senão o arrependimento das próprias culpas.

Peço perdão, pois escrevi a esmo, como num desabafo de ideias soltas.

Até 2013. O Rio receberá milhões de braços abertos. 

17 de jun. de 2011

Cânon da crítica

Existe um “cânon clássico de questões” que se costuma levantar à Igreja Católica. Uma forma divertida de dar resposta a tais questionamentos foi realizada por estudantes universitários espanhóis, com motivo da próxima Jornada Mundial da Juventude 2011, que terá lugar em Madri.
Seleciono algumas respostas:
  • Ordenação de mulheres

  • Contracepção
  • Celibato

  • Pedofilia
  • Preservativo

  • Homossexualismo


Abstenho-me de comentar. Mas passo a palavra a quem criou a expressão “cânon clássico de questões”, em 1984.

Há um argumento contrário muito simples (…): essas questões estão resolvidas na cristandade protestante (…) [mas mesmo assim] não resolveu o problema de ser cristão no mundo de hoje. (…) Julgo que se devia tornar claro para nós que, em última análise, não é por causa dessas questões que a Igreja sofre.

Estou convencido de que, numa virada espiritual que um dia há de vir, as questões perderão a sua  premência tão rapidamente quanto chegaram a adquiri-la. Porque, afinal, não são as verdadeiras questões do Homem.

Na maior parte das pessoas encontra-se, atualmente, uma ideologia média que visa a alcançar um determinado nível de vida. Que visa a que uma pessoa se possa realizar no que deseja, no que quer; e Deus, nesse contexto, é, afinal, uma incógnita que, na realidade, não conta. Essa concepção também acarreta que a moral resulte mais do acaso, ou então do cálculo destinado a assegurar a felicidade. (…) A ideologia média, em que vivemos presentemente e que se nos impõe todos os dias, seduz-nos para certezas que, no fundo, isolam o homem do essencial. Por um lado, ele não consegue mais compreender o essencial, por outro, percebe que lhe falta qualquer coisa. Porque as grandes doenças coletivas que atualmente existem baseiam-se na noção de que falta alguma coisa à vida humana e de que se sente essa falta. Nesse sentido, deveríamos ter a coragem de também combater o que é considerado “normal” para uma pessoa do fim do século XX.
(Joseph Ratzinger, O Sal da Terra, págs. 145, 169 e 29-30)

14 de jun. de 2011

Guru libertino

Entra o guru cinquentão em seu escritório sofisticado. Senta-se diante do notebook e começa a cuspir o que ele — insisto, cinquentão — pensa ser o pensamento teen. Ainda tem a pachorra de acrescentar apreciações acerca do comportamento global ou das “novas conquistas éticas”, como se fosse possuidor de uma bola de cristal pós-moderna.

Essa figura não é inventada. É o triste manipulador de mentes jovens que poderiam ser brilhantes mas estão enfraquecidas pela preguiça e que poderiam permanecer joviais mas estão envelhecidas por malfadadas experiências precoces. Difícil dizer o que veio antes: se tal galinha ou esses ovos. Afinal, o guru acaba por plasmar muitas mentes a quem ele atribui a origem das suas mesmas afirmações. O profeta da libertinagem apresenta-se como porta-voz de uma sociedade desgovernada.

Por sorte, nem todos se deixam levar pela preguiça intelectual. Uma parcela considerável de pessoas percebe que há algo errado nas “tendências” e procura resistir. E, dentro dessa parcela, uma nata procura reagir.

Imposição de desejos abstratos

O autodenominado “tolerante” guru — que pode ser o editor de uma revista ou um professor universitário — ignora sem dó os desejos concretos das pessoas concretas, propagando para uma sociedade abstrata sua agenda de delírios, criada nos laboratórios de ideologias escusas.

No Dia da Mulher ele cita uma infeliz: “Quero viver minha vida sozinha, por conta própria, e ninguém tem nada a ver com isso” — mas todos têm tudo a ver com isso! No carnaval, em vez de dizer “pule o carnaval sem pular a cerca”, ele agita a bandeira: “pule o carnaval fantasiado de camisinha”.

O guru lidera uma seita. No dizer do Luiz Felipe Pondé, é a seita que quer que os homens reais deixem de existir para dar lugar aos homens com “libido politicamente reordenado”. Seu credo principal é a ideologia de gênero, que engarça todas as aspirações contratulturais que hoje parecem ter triunfado: “direito” ao aborto, promoção do homossexualismo e da bissexualidade, divórcio expresso e casamento gay, fecundação artificial, etc.

Numa primeira etapa, a ideologia pretende separar sexo de sexualidade e afetividade. Noutro momento, nega a própria existência de masculino e feminino e estimula a promiscuidade desde a infância. O resultado desse processo ideológico é a anulação da identidade sexual e, portanto, da dimensão da complementariedade entre homem e mulher.

Falácias amorosas

A lista abaixo não perfaz um levantamento exaustivo de slogans sobre relacionamento, o que aliás não valeria a pena fazer:
  • Não somos uma opinião a mais. — Infelizmente! 
  • Precisamos experimentar. — Nunca entendi como mecânica corporal pode suprir experiência de vida. 
  • Usando preservativo, nada ocorrerá de mau. — Há riscos reais, mesmo com “proteção”. E gravidez nunca pode ser equiparada à doença. 
  • A gente só quer se divertir. — Sexo não é um esporte radical, ele afeta toda a psicologia.
  • Amor versus sexo é um dilema cristão.Mais falso que Judas
Obviamente, a disjuntiva cristã não se restringe ao campo da castidade, ainda que pareça ser o ponto mais gritante. A verdadeira batalha está se travando em torno ao marco da secularidade. Mas falemos disso posteriormente.

10 de fev. de 2011

Dez impossibilamentos


I. É impossível que Deus, tão misericordioso, me condene ao inferno por eu nunca me lembrar dele.

II. É impossível falar bem da Igreja Católica.

III. É impossível ter um domingo livre para dedicar meu tempo a Deus e aos outros.

IV. É impossível aguentar os pais que tenho.

V. É impossível levar pra frente uma gravidez indesejada.

VI. É impossível ter filhos com meu salário.

VII. É impossível ser político sem roubar.

VIII. É impossível que eu, tão inteligente, pense antes de afirmar falsidades.

IX É impossível namorar sem fazer sexo.

X. É impossível arranjar-me com o que tenho.

*****

É bastante mal que a demoscopia se converta em parâmetro das decisões políticas e se esteja buscando com avidez “onde consigo mais seguidores” em vez de se perguntar “o que é o correto”.
(…)
Não deveríamos tomar como instância contra a verdade o fato de que não se viva essa moral elevada. Deveríamos procurar fazer todo o bem que possamos, e sustentarmo-nos e suportarmo-nos mutuamente.

(Bento XVI, no livro de entrevistas Luz do mundo)

11 de nov. de 2010

Cristianismo não é religião

Esqueça tudo o que você pensava saber sobre religião.

Religião é palavra equívoca: com efeito, o que teria a ver a técnica respiratória ateia budista com a redenção operada por um homem divino justiçado numa cruz em Israel há dois mil anos? Ou o que tem de comum a civilidade chinesa confuciana com a bizarra mistura de marxismo e positivismo própria no kardecismo?

E o principal desse assunto é o seguinte: a Bíblia não faz religião. Lembre-se: a palavra religião não aparece na Bíblia.

Religião é uma mera qualidade humana, a qualidade do homem que reverencia o sagrado.

De que adianta não roubar se você trai sua mulher? De que adianta ser fiel à sua companheira se você mata com o aborto? De que adianta dar sopão aos pobres se você não estuda? De que adianta dar beijinho na mamãe se você não reza? — Um homem não-religioso é tal imoral como os outros: roubou, traiu, deu as costas, matou a Deus em sua vida.

Portanto, o que é tal sagrado que deve ser reverenciado? É um ídolo construído pelo gosto pessoal ou um mistério recebido por tradição e acolhido com respeito?

Ídolo é a sacralização do banal, como a Igreja Maradoniana ou o culto à imagem do assassino Che Guevara.

Mistério é o reconhecimento do poder e do valor da vida. A vida impõe seus tabus para não ser morta, desprezada, relativizada, trivializada.

Mistério não é fumaça, algo tão efêmero, inefável e impalpável a ponto de ser impossível falar a seu respeito, moldar por ele a vida, enxergar os fatos por sua perspectiva.

Tão transcendente é o mistério que transforma tanto o indivíduo quanto a sociedade; conforma tanto a vida privada quanto a esfera pública. Dá sentido à instituição, coerência à espontaneidade e esperança à informalidade.

Cristianismo é a máxima expressão do mistério.

*****

Se quiser, pode ler esta postagem de trás para frente, que dá na mesma.

16 de set. de 2010

Cinco polemiquetes sobre J. H. Newman

“Choque com a ditadura do relativismo”

John Henry Newman (1801-1890) optou dedididamente por procurar a verdade, ainda que às custas de perder amigos e prestígio social. Nos últimos dias, sua figura tem suscitado renovado interesse na secularizada e intolerante sociedade britânica.

Você já tinha ouvido falar dele?
(A) O nome não me é estranho, mas não tenho a mínima ideia de quem ele é.
(B) Acho que sim: Newman não foi amigo de Tolkien?
(C) Nunca, porque para mim os astros da música pop inglesa são mais importantes.

Se você considera válida qualquer das opções acima, não se preocupe (mas saiba que não foi contemporâneo de Tolkien). De fato, até o presente momento, Newman só era conhecido em ambientes intelectuais. No Brasil, então, nem se fale, pois seus livros desapareceram das livrarias para dar lugar a Leonardo Boff e Teilhard de Chardin desde a década de 70.

O motivo de Newman ter descido agora do culto para o vulgo é duplo: sua próxima beatificação a 19 de setembro; e o fato de que será realizada em pessoa por Bento XVI, em pleno solo inglês.

Desde que foi anunciada a viagem pontifícia ao Reino Unido, o circo midiático pegou fogo, com promessa de oposição popular na Ingleterra e polêmicas levantadas em torno à figura do intelectual converso do século XIX. Não pretendo entrar no mérito dessa pretensa oposição, pois só um desmiolado não perceberia a má vontade e a intenção torta dos eternos partidários do “soy contra”. Além de ler este link, basta ver os vídeos a seguir.



Fonte de histórias e controvérsias

Gostaria de  brincar com você, caro leitor. Façamos uma enquete sobre as cinco polêmicas levantadas em torno a John Henry Newman. Tente respondê-las de bate-pronto.

1. Newman não era homossexual?
(A) Isso é fruto da mera tendência natural do lobby gay inglês de se apropriar de personagens históricos.
(B) É que nossa sociedade sexualizada não entende uma amizade intensa entre dois homens.
(C) Celibato é coisa de quem não gosta de mulher.

Comento: Contra fatos não há boatos. Conservam-se mais de 20.000 cartas de Newman, além de seu diário íntimo. Decididamente, ele nunca foi homossexual.

2. Newman não teria se oposto ao papado, apesar de sua conversão? Afinal, chegou a escrever que “a consciência é o primeiro de todos os vigários de Cristo”.
(A) Newman era um dissidente velado.
(B) A ambiguidade dos seus escritos permitiu que os pensadores das mais variadas tendências "batalhassem por sua alma", interpretando Newman conforme o ideário dos seus partidos.
(C) Os católicos são contraditórios e fideístas, pois a crença na infalibilidade papal fere o uso da razão.

Comento: Os católicos deixaram de ser uns párias na Inglaterra graças a Newman. Sua opinião acerca da precedência da consciência ele a explicou ao primeiro-ministro inglês, que caçoava do dogma da infalibilidade.

3. Newman não tinha um caráter difícil e pouco diplomático? Como pode ser proposto como modelo de santidade?
(A) Levar muito a sério as próprias ideias torna as pessoas intolerantes e isoladas.
(B) Newman era tíbio: não satisfazia aos reformistas nem aos conservadores. Sua beatificação é um enigma.
(C) A santidade é uma enteléquia que não existe na vida real.

Comento: Apesar das dissenções intelectuais em que esteve envolvido, foi muito querido pela gente comum. Sempre visitava os pobres e as famílias de sua paróquia, de modo que 20.000 pessoas foram ao seu velório. A nota necrológica de The Times trazia: “Independentemente de que Roma o canonize ou não, [Newman] será canonizado nas mentes das pessoas piedosas de muitos credos da Inglaterra”.

4. O milagre atribuído a Newman para a realização da sua beatificação não é falso?
(A) Pelo menos foi isso que disse John Cornweel [uma espécie de Dan Brown] em The Sunday Times de 9/5/2010.
(B) Os crentes sempre aceitarão milagres; os céticos, nunca.
(C) O que tem a ver um milagre com essa história?

Comento: Os médicos do agraciado pelo milagre (Jack Sullivan) disseram que ele foi o único dentre 15.000 pacientes que se curou da mesma enfermidade da coluna.

5. Sua beatificação não dificultará o diálogo ecumênico?
(A) A Igreja não está preocupada com isso. Quer é se vingar da Inglaterra.
(B) Sempre que dão um passo à frente, dão também um passo atrás.
(C) A Inglaterra não representa nada nesse diálogo.

Comento: Os anglicanos — pasmem! — comemoram Newman no seu calendário litúrgico a 11 de agosto. Longe de separar, sua beatificação será um ponto de união.

Diagnóstico & Prognóstico

  • Se você respondeu a maioria das polemiquetes com A, é que você vê conspiração em tudo.
  • Se respondeu a maioria com B, você é um analista social.
  • Se optou pelas respostas C, sinto dizer: você precisa assistir menos televisão e estudar mais.
Quer outros artigos sobre Newman? Sugiro as seguintes leituras:

3 de set. de 2010

Maniqueísmo em pleno século XXI

Esta é a parte
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Como eu dissera numa postagem anterior, certas formas populares de opinar sobre a Bíblia parecem-me uma manifestação de puro maniqueísmo. Na próxima postagem veremos como demonstração um pequeno elenco de lugares-comuns.

Por agora, detenhamo-nos na história dessa seita curiosa.

Origem do maniqueísmo

O maniqueísmo surgiu no século III, na Pérsia. Seu mentor, Manes, criou uma suma sincretista, uma amálgama heteróclita das doutrinas mais díspares: heresias cristãs, gnosticismo de forte cunho helênico, crença indiana na transmigração das almas e dualismo zoroastriano.

Para completar, diz-se que o pai de Manes fora alexaíta, isto é, pertencente à degenerada seita fundada por um tal Aleixo entre os judeu-cristãos do tempo de Trajano, o qual misturava aos dogmas algumas observâncias judaicas e certas práticas de magia.

Manes consolidou seus ensinamentos numa bíblia pessoal em que verteu sua esmerada caligrafia, seu pendor poético e sua arte em miniaturizar. Seus discípulos traduziram os textos para o grego, o latim, o chinês, o turco e o árabe.

A doutrina maniqueia

Sua doutrina tentava explicar a coexistência do bem e do mal como dois princípios opostos desde toda a eternidade. Jesus Cristo teria sido um mensageiro da luz. Contudo, rechaçava todo o Antigo Testamento, assim como grande parte do Novo.

Manes também escolheu doze apóstolos e 72 bispos, assim como estabeleceu uma hierarquia com presbíteros e diáconos. Administravam o Batismo, a Eucaristia e um sacramento especial para a hora da morte.

A moral maniqueia consistia em selar a mão para não derramar sangue, em selar a boca para não mentir nem comer coisas impuras, e em selar o seio para não gerar a matéria, corrupta obra da carne. Só os "puros" seriam capazes disso; os homens comuns, em contrapartida, se beneficiavam de extrema tolerância moral.

E o maniqueísmo sobrevive…

Em toda parte o maniqueísmo foi perseguido: em Roma, a partir de Diocleciano; a Índia e a China livraram-se dele; na Mongólia, desde a conquista islâmica no século IX.

Apesar da oposição de Santo Agostinho e de São Leão Magno, o maniqueísmo permaneceu inoculado entre os cristãos, vindo a ressurgir como paulicianismo na Armênia (século VII) e catarismo na França (século XIII).

A alma moderna apresenta traços pronunciados da velha doença, pois cede com facilidade à tentação dualista.

Influxo do maniqueísmo na visão popular da Bíblia

Retornando à Bíblia, é evidente que o maniqueísmo aceitou integralmente a interpretação que dela fazia a heresia marcionita.

Entretanto, acho difícil nos dias de hoje alguém conscientemente se dizer discípulo das ideias do gnóstico Marcião, rechaçando em bloco o Antigo Testamento e todos os escritos não-paulinos.

A maior parte das atuais distorções na leitura do texto sagrado parecem proceder mais do dualismo maniqueu do que do marcionismo. Veremos com detalhe na próxima postagem.

3 de abr. de 2010

Obrigado pelo presente pascal!

No ano passado, fui almoçar com um amigo de infância que não via há muito tempo. Com a maior desfaçatez, ele se dedicou a achincalhar a Igreja e a citar Umberto Eco como “grande referência”. Eu não abri a boca durante a refeição, não porque estivesse com ela cheia de feijão, mas porque ele não me dava espaço para falar. E eu também não tinha ido com ele ao restaurante para falar desse assunto.

Fiquei pensando: ele agiu de má-fé, querendo me ofender? — Acho que não.

Acabo de receber um e-mail de uma amiga com um monte de frases azedas do Veríssimo contra a Igreja.

Fiquei pensando: ela tem preconceito religioso? — Acho que não.

Se o que todos dizem da Igreja Católica é verdade, então um católico praticante é um imbecil da cabeça aos pés, ou um foragido do manicômio, ou um cego tolhido de razão.

Eu me incluo com muito orgulho na lista desses retrógrados homens quixotescos, desses louco varridos, desses ignorantes fanáticos que vivem fora da realidade.

Curiosamente, esses ataques costumam ser feitos todo ano, geralmente na época da Páscoa ou do Natal. Como a imprensa se alimenta de trending topics e as pessoas vivem de modas ideológicas, tudo passará dentro de uma semana, quando ocorrer algum acidente aéreo ou outra catástrofe natural. Caso não ocorram, pelo menos haverá a Copa do Mundo! Então a mídia concederá sua Indulgência plenária, perdoando a todos os seus alvos, durante um mês.

Teço comentários a algumas frases do Veríssimo no Twitter:

O significado seguinte é o da condição antinatural do homem, obrigado ao celibato ou condenado à hipocrisia.
Ninguém está obrigado ao celibato. Quem quer se casar, que não se ordene. Todos conhecemos senhoras que não se casaram para cuidar da mãe doente. Será que por Cristo não se pode fazer essa mesma opção?
São “hipócritas” os 400 mil sacerdotes não pedófilos que, no mundo inteiro, se dedicam a ajudar as pessoas? Foram 300 casos de pedofilia no mundo inteiro em nove anos, 80% nos EUA. Casos lamentáveis, mas que não impugnam a vida sacrificada de tanta gente abnegada. E algo que convida a refletir sobre o que estaria acontecendo nos EUA.
Finalmente, o celibato foi instituído por Cristo, não pela Igreja.

Seguindo esses círculos sucessivos, fatalmente você chegará à neurose sobre o sexo, que está na base da nossa civilização.
Discurso de gente da época do Muro. Leu Marcuse demais e provou de tudo em 68.

A demonização do sexo e a misoginia são constantes da cultura judaico-cristã e o islamismo não fica atrás.
Demonização? A Igreja considera o matrimônio um sacramento, e a família, uma igreja doméstica!
Misoginia? A Igreja considera Maria a pessoa mais importante da história depois de Jesus! E as nossas santas e doutoras?

O celibato protege o padre do contágio do mal pelo contato com a mulher, descendente de Eva, a primeira desencaminhadora.
Essa heresia é nova! Ora, há padres católicos casados nas Igrejas de rito oriental.

Entre o acobertamento e a omissão, a hierarquia da Igreja tem muito a ver com os crimes praticados por seus sacerdotes.
Primeiro prove os crimes. Por exemplo, toda essa sanha começou quando o Wall Street Journal levantou o caso do padre indiciado em 1979 por abusar de um menino de onze anos na cidade de Essen. Pois bem, ele nunca foi julgado nem muito menos condenado pela Justiça comum. Não havendo a respeito uma sentença transitada em julgado, ninguém tem o direito de afirmar que houve crime. Se o crime não foi confirmado, como poderia sê-lo o seu “acobertamento”? Com base na séria suspeita, o então cardeal Ratzinger ordenou que o acusado fosse submetido a tratamento psiquiátrico e removido para um posto administrativo em Munique onde não tivesse contato com crianças.

Ela sobreviveu à Inquisição, à perseguição aos judeus, à resistência as revelações da ciência, à cumplicidade com tiranos, e pediu desculpas.

Não há espaço aqui para contradizer a tanta falácia em uma única frase.

Ainda hoje dita o comportamento sexual de milhões de pessoas, apesar da sua posição retrógrada na questão dos anticoncepcionais.
A Igreja não é antinada. Ela só propõe um elevado ideal matrimonial. Não quer vivê-lo? Fique à vontade! Problema seu.
Você acha mesmo que a Igreja “controla” a vida sexual das pessoas? Quem de fato parece controlar o imaginário das pessoas é a mídia, quando apresenta a falta de pudor e a promiscuidade como coisas normais.

Mas um dia pedirá desculpas por isto também.

Alguém pedirá desculpas à Igreja ou aos católicos? Afinal, não se pode falar mal de negro, de judeu, de homossexual, etc. Mas de católico, cuspam em cima até dizer chega!

*****
Lembra-se do filme Sexto Sentido? Lá tem um diálogo muito bom, que é o 44º mais citado do cinema, o qual representa bem o que está acontecendo:

Cole: I see dead people.
Malcolm: In your dreams? (Cole shakes his head no)
Malcolm: While you're awake? (Cole nods)
Malcolm: Dead people like, in graves? In coffins?
Cole: Walking around like regular people. They don't see each other. They only see what they want to see. They don't know they're dead.
Malcolm: How often do you see them?
Cole: ALL THE TIME.


Fiquei pensando: essas pessoas não percebem que estão cegas, que estão mortas? — Acho que não.

*****
Concluo com uma pergunta que me foi feita no extinto Formspring:

Como fugir dos esteriótipos e não ser rotulado?
Não sei. Mas geralmente, se você tem moral e sabe dar carinho e consideração, acaba passando incólume.

Na verdade, minha maior surpresa é como pessoas tão inteligentes podem conviver com estereótipos na maior naturalidade.

Muitos vivem no mundo da imaginação e se acham cercados de gente obtusa, sem perceber que os obtusos são eles mesmos.

São doentes que desconhecem a própria doença, anoréxicos que prosseguem em jejum.


*****
Feliz Páscoa!

5 de fev. de 2010

Galileu, história e paralaxe

Paralaxe é o deslocamento aparente de um objeto quando se muda o ponto de observação. Em astronomia, é o aparente deslocamento angular de um corpo celeste devido ao fato de estar sendo observado a partir da superfície e não do centro da Terra ou por estar sendo observado a partir da Terra e não do Sol.

Ao meu ver, Galileu Galilei, de quem comemoramos em 2009 os 400 anos da sua invenção do telescópio, causou — sem essa intenção de sua parte — uma “paralaxe histórica”.

Criou-se no imaginário das pessoas uma brecha artificial entre fé e ciência, que os esforços feitos pelos últimos Papas têm demorado a consertar.

Por exemplo, Bento XVI fez várias intervenções neste ano (por exemplo, seu discurso “Do telescópio de Galileu à cosmologia evolutiva”).

Como o “caso Galileu” é o único argumento polemizador de que se valem os que afirmam a fratura entre ciência e fé, deixo aqui alguns vídeos do programa que Thomas Woods levou à TV americana a respeito do tema.

Galileu foi um verdadeiro cientista e homem de fé. É incrível como se podem propagar tantos erros históricos e interpretações errôneas da história.

Você identifica os três erros que há na seguinte frase?

GALILEU FOI QUEIMADO PELA INQUISIÇÃO NA IDADE MÉDIA PORQUE DISSE QUE A TERRA ERA REDONDA.

Resposta:


˙(ıʌx oʃnɔǝs ou oɔıuɹǝdoɔ nɐʃoɔıu ǝɹpɐd oʃǝd oʇsodoɹd) oɔıɹʇuǝɔoıʃǝɥ oʃǝpoɯ o ɯɐʌɐʌoɹd sǝɹɐɯ sɐ ǝnb sɐɯ 'ɐpuopǝɹ ɐɹǝ ɐɹɹǝʇ ɐ ǝnb ǝssıp oɐu nǝʃıʃɐƃ ˙ııı
˙ııʌx ǝ ıʌx soʃnɔǝs so ǝɹʇuǝ sɐɯ 'ɐıpǝɯ ǝpɐpı ɐu nǝʌıʌ oɐu nǝʃıʃɐƃ ˙ıı
 ˙ɹɐıʃıɔıɯop oɐsıɹd ɐ opɐuǝpuoɔ sɐɯ 'oɐçısınbuı ɐʃǝd oʇɹoɯ ıoɟ oɐu nǝʃıʃɐƃ ˙ı







28 de out. de 2009

Pecados cerebrais

Numa postagem anterior, comentei que uma consequência da epistemologia pós-moderna é a criação de um corpo de “homens-massa” executores "de elite" (intelectuais, universitários, etc.) a quem basta satisfazer com conforto e bem-estar.


Assim, é perfeitamente possível que gente ilustrada racionalize seus preconceitos sem dar-se conta de que não concatena uma ideia com outra de forma razoável. Massa de manobra inconsciente, crente de que conduz o títere da própria vida porque cursou tal ou qual faculdade.

As pessoas buscam avidamente se comunicar, sem ter o quê comunicar. Antes, uma autoridade burra poderia impor-se à massa. Hoje, a massa ignorante pode arrogar-se ares de autoridade.

Nesse sentido, deixo constância agora de mais um dogma do credo dos ignorantes. Mais uma definição infalível e irreformável dos que, baseados na tradição e nos argumentos de seus predecessores de augusta memória, sistematizam seu pensamento acerca da Igreja Católica.

O “dogma” é: A Igreja sempre quis ter grande influência sobre as pessoas e para isso trabalha sua imagem e fama, para isso atualiza suas listas de pecados, para isso retém muito dinheiro.

Nem sei por onde começar para terminar logo esta postagem. De fato, o que um boleiro responderia a uma pessoa que achasse que o esporte bretão luta por ser socialmente aceito entre os incas da Patagônia porque suas cinco bolas são feitas com bexiga de lhama?

Esse tipo de “dogma” só é criado quando se reduz a Igreja Católica a um fenômeno sociológico. É preciso distinguir a santidade da Igreja da santidade na Igreja. Dessa forma, é possível reconhecer que, a despeito dos princípios instaurados por Cristo, alguns fiéis possam ter tipo algum comportamento equivocado. Mas hoje se diz que a Igreja como um todo adota um comportamento equivocado.

Comportamento equivocado. Qual é o grande crime para a sociedade de hoje, o grande mau comportamento? Manifestar convicções. Soube até de uns ateus de carteirinha, estilo adoradores de Richard Dawkins, que têm se sentido excluídos, que se acham minoria ofendida, porque algumas pessoas não toleram que eles divulguem suas ideias. Pois é, minha gente, na pós-modernidade você não pode ser nem modernista (como tais ateus), nem fideísta (como os muçulmanos, protestantes fundamentalistas e pseudocatólicos tradicionalistas).

O grave comportamento da Igreja é ter convicções acerca de si mesma, é alertar seus fiéis acerca dos comportamentos que ela qualifica de desvios éticos. Ora bolas, se você não é fiel, não precisa acreditar. Se você não concorda com a ética cristã, viva a ética legalista kantiana, a utilitarista de Bentham, ou a axiológica de Scheler. Ninguém está obrigando você a abandonar seu emotivismo, se você é emotivista; ou o intuicionismo, se você é um esteta.

É ridículo pensar que homilias “conservadoras” para as velhinhas da missa de domingo farão algum estrago no novo paradigma cultural pós-moderno. Saiba, meu caro universitário, intelectual mais de razão estreita do que sem fé, que quem tem acesso a informação abundante e imediata é quem mais precisa do critério para selecionar qual a informação relevante e qual a supérflua, qual a preconceituosa e qual a incoerente. Por isso, em vez de tentar sistematizar críticas preconceituosas, leia mais coisas sérias, especialmente os clássicos, para ganhar mais critério, e não acredite em qualquer um.

8 de out. de 2009

Discursos, falácias, mentiras e táticas


Desde o pós-guerra, preza-se a transparência, a informação e abertura; a liberdade de expressão e de escolha; a solidariedade e o consenso.

E os meios de comunicação, cheios desse clima, abriram um leque de possibilidades, mas também espalharam o secularismo, valorizaram o prazer, a liberdade descomprometida, o transitório e o episódico.

Entre as FALÁCIAS mais propagadas estão o marxismo cultural de Gramsi, o "paz e amor" de Marcuse, os sucedâneos pós-89 à utopia marxista (ecologismo e antitabagismo, por exemplo). A pior de todas é a doença da epistemologia pós-moderna: afirmar a impossibilidade da certeza.

E os DISCURSOS ecoados? Elenco abaixo apenas alguns:
•“Isso é preconceito!”
•“Defendo o direito das minorias”
•“Sociedade pluralista”
•“Liberdade de expressão”
•“Você é reacionário”
•“Precisamos fazer justiça histórica”

E sabe como se faz para MENTIR?
•Só falar verdades, mas ocultar alguns pontos
•Dizer 90% de verdade e 10% de mentiras
•Insistir na falsidade
•Fingir pôr-se no lugar de quem deseja prejudicar

Finalmente, os 10 MANDAMENTOS de qualquer ideologia manipuladora:
•Dar um passo atrás do outro
•Pedir 100 para obter 50
•Legalizar o que se tornou socialmente comum
•Dizer que respeita a opinião da maioria
•Explorar a emoção causada por um caso-limite
•Usar assessoria de imprensa para maquiar
•Usar um astro para avalizar a opinião
•Revolucionar o idioma por decreto (impor a “linguagem inclusiva”, por exemplo)
•Avaliar as próprias leis pelo ordenamento jurídico de outros Estados
•Apontar a Igreja como inimiga

CONSEQUÊNCIAS?
•A juventude meteu-se em loucas aventuras pelas quais ninguém se responsabiliza
•A vida social vai-se inviabilizando
•Triunfo das ideologias sobre o pensamento
•O conhecimento tornou-se instrumento para conseguir o poder nas esferas pública e privada
•Criação de um corpo de “homens-massa” executores “de elite” (intelectuais, universitários, etc.) a quem basta satisfazer com conforto e bem-estar

SOLUÇÕES:
É preciso argumentar, derrubando os falsos pressupostos e pondo a descoberto a antropologia subjacente às afirmações, em diversos foros:
•Salas de aula
•Academia, especialmente filosofia, direito, história, etc.
•Mídias sociais
•Políticas públicas
•Mercado (pode ser parceiro também, pois não pensa a longo prazo e pode querer ganhar com a defesa dos valores)

Continua…
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