1 de mar de 2010

Eusébeia, tresqueia e os cinco sentidos da religião

A pintura ao lado eu a fotografei no Castel Sant’Angelo, em Roma. Decora o teto de um dos corredores. Diz que a religião é filha da paz. Curiosa afirmação para os nossos dias, em que o ateísmo militante e o laicismo intolerante tentam atribuir à religião a causa das guerras e disputas.

O termo “religião” não é bíblico. Com efeito, não há equivalente à noção latina de religio nem em hebraico, nem em aramaico, nem em grego. Em grego, as palavras mais próximas que se utilizam são εὐσέϐεια (reverência; lealdade; piedade) e θρησκεία (culto ritual; serviço divino; formalismo supersticioso).

A etimologia latina de religio é duvidosa, mas útil de se conhecer:

1. Para Cícero, significa re-legere (reler): enfatizaria o caráter ritual da religião, repetitivo.

2. Para Lactâncio e Sérvio, vem de re-ligare (religar): evidenciaria a dependência do homem para com a divindade, a quem se procura unir mediante vínculos simbólicos como as vittæ (fitas) e stemmata (guirlandas).

3. Para Santo Agostinho, procede de re-eligere (reeleger): teria uma conotação aparentada com a anterior, embora evidenciando mais o desvio da condição humana que necessita tornar a escolher Deus.

4. Para Macróbio, deriva de re-linquere (relegar): frisaria o aspecto tradicional, de legado deixado pelos antepassados.

5. Há quem defenda a origem do termo em re-colligere (recolher): significaria o caráter subjetivo da experiência religiosa, aberta à ação de Deus na alma.

Na Teologia católica medieval, o termo evoluiu a ponto de significar:

1. A vida de relacionamento com Deus.

2. Qualquer tipo de tradição sagrada encarnada na cultura.

3. Uma virtude moral, parte potencial da justiça (“dar a cada um o que é seu”), que regula o relacionamento com Deus (“dar a Deus o que é dele”).

4. Forma católica ou protestante de viver o Cristianismo.

5. Estado de vida reconhecido pelo Direito Canônico e contraído mediante a profissão de conselhos evangélicos.

Penso que, dada a tamanha nebulosidade do conceito, utilizá-lo não é a melhor coisa. Aplicá-lo por igual a fenômenos tão díspares quanto o budismo, o confucionismo, o espiritismo, o islamismo e o cristianismo, muito menos.

Por outro lado, aceito a existência das chamadas “constantes religiosas”. Graças a elas é que a Igreja pode ser um centro de convergência e diálogo para as diversas culturas e tradições.
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