Religião é palavra equívoca: com efeito, o que teria a ver a técnica respiratória ateia budista com a redenção operada por um homem divino justiçado numa cruz em Israel há dois mil anos? Ou o que tem de comum a civilidade chinesa confuciana com a bizarra mistura de marxismo e positivismo própria no kardecismo?
E o principal desse assunto é o seguinte: a Bíblia não faz religião. Lembre-se: a palavra religião não aparece na Bíblia.
Religião é uma mera qualidade humana, a qualidade do homem que reverencia o sagrado.
De que adianta não roubar se você trai sua mulher? De que adianta ser fiel à sua companheira se você mata com o aborto? De que adianta dar sopão aos pobres se você não estuda? De que adianta dar beijinho na mamãe se você não reza? — Um homem não-religioso é tal imoral como os outros: roubou, traiu, deu as costas, matou a Deus em sua vida.
Portanto, o que é tal sagrado que deve ser reverenciado? É um ídolo construído pelo gosto pessoal ou um mistério recebido por tradição e acolhido com respeito?
Ídolo é a sacralização do banal, como a Igreja Maradoniana ou o culto à imagem do assassino Che Guevara.
Mistério é o reconhecimento do poder e do valor da vida. A vida impõe seus tabus para não ser morta, desprezada, relativizada, trivializada.
Mistério não é fumaça, algo tão efêmero, inefável e impalpável a ponto de ser impossível falar a seu respeito, moldar por ele a vida, enxergar os fatos por sua perspectiva.
Tão transcendente é o mistério que transforma tanto o indivíduo quanto a sociedade; conforma tanto a vida privada quanto a esfera pública. Dá sentido à instituição, coerência à espontaneidade e esperança à informalidade.
Cristianismo é a máxima expressão do mistério.
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Se quiser, pode ler esta postagem de trás para frente, que dá na mesma.
