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18 de jan. de 2014

Rio de alegria

Rio de fé

Quando me ofereceram a oportunidade de participar das filmagens de “Rio de Fé, um encontro com Papa Francisco” — o documentário dirigido por Carlos Diegues sobre a Jornada Mundial da Juventude Rio2013 — senti um misto de lisonja, entusiasmo e expectativa. Afinal, não é todo dia que se tem a chance de representar o sentimento de milhões de pessoas.

Por um lado, eu já vinha trabalhando como voluntário nos preparativos do evento e ansiava por ver o Papa Francisco de perto pela primeira vez. A perspectiva de fazer parte do registro era, sem dúvida, cativante.

Por outro lado, havia o interesse por conhecer Carlos Diegues, o renomado cineasta brasileiro que produz, desde 1959, uma obra a cada três anos em média, várias das quais premiadas internacionalmente.

Depois de inúmeros filmes marcados de humor, crítica social, e análise política e econômica, Cacá tinha decidido realizar um documentário sobre a fé. Motivo: ao saber da eleição do Papa Francisco, sentiu-se comovido, pois fizera todos os seus estudos em instituições de ensino jesuítas.

O briefing da filmagem explicava que a Cidade Maravilhosa tem vocação à alegria e à paz, tanto por suas belezas naturais, quanto por seu povo receptivo que, mesmo diante das adversidades, é capaz de “inventar a felicidade”. Assim, não haveria melhor cenário que o Rio de Janeiro para a JMJ, pois as Jornadas são uma ode à alegria. “Com efeito — citava Bento XVI —, a alegria é um elemento central da experiência cristã. Também durante cada Jornada Mundial da Juventude fazemos a experiência de uma alegria intensa, a alegria da comunhão, a alegria de ser cristãos, a alegria da fé. É uma das características destes encontros. E vemos a grande força atrativa que ela tem: num mundo com muita frequência marcado por tristeza e preocupações, é um testemunho importante da beleza e da fiabilidade da fé cristã” (Mensagem para a XXVII Jornada Mundial da Juventude 2012).

Concluía o cineasta: “O principal objetivo de nosso filme é esse grande abraço místico e humano, peregrino e missionário, cristão e universal, que é a JMJ. E que, pela cidade onde ocorrerá, poderia chamar-se Jornada Maravilhosa”.

Cultura do encontro

Penso que não se deva tomar a citação de Bento XVI fortuitamente, pois muito se tem falado do contraste entre Francisco e seu antecessor durante o primeiro ano do novo pontificado. O que se contrastou, porém, não condiz com a realidade. Pude reparar isso ao participar do filme, ao conversar com pessoas das mais variadas linhas, ao ler os jornais, e ao participar à mesa do debate de lançamento do documentário, ocorrido na PUC-Rio (a íntegra do debate pode ser encontrada aqui).


O evento de lançamento reuniu integrantes de diferentes religiões e movimentos e tratou da necessidade de tolerância religiosa na cidade do Rio de Janeiro, pois a convivência pacífica durante a Jornada Mundial não costuma ser habitual do dia a dia de muitas localidades cariocas.


Ao longo da discussão, em que houve uma animada participação do público, duas tensões se notabilizaram.

A primeira foi uma atitude crítica, velada e subjacente, dirigida contra a Igreja Católica e suas instituições, acusadas de serem demasiadamente verticalizadas, invasivas e anquilosadas. Curiosamente, ao mesmo tempo se denunciou a falta de empenho da hierarquia eclesiástica em mobilizar os leigos para participarem da marcha pela liberdade religiosa que ocorre periodicamente em Copacabana. Traduzo noutros termos: “a liberdade para mim, e a obediência para os outros”.

A segunda tensão constatada foi a ingênua convicção de que o novo Papa é um revolucionário pelo simples fato de ser simpático (quesito em que, consequentemente, os Papas anteriores teriam deixado a desejar). Um dos presentes, que representava determinado grupo de homossexuais católicos, fez-me uma indagação justamente sobre esse ponto, pois ele tinha a impressão de que o novo pontificado auspiciava tal transformação da Igreja que permitiria a reabilitação de Leonardo Boff, posto de escanteio pelos papas anteriores.

Uma pequena digressão: sem dúvida, o Papa Francisco aposta na “cultura do encontro”. O documentário em questão demonstra isso e procura evidenciá-lo a partir de diferentes histórias de peregrinos, voluntários, cidadãos comuns, representantes de outras religiões, etc. E como diz o provérbio chinês, que para abrir uma loja o primeiro passo é sorrir, o atual Romano Pontífice oferece o seu em abundância.

Saber rir das revoluções

Mas chegara o momento de eu responder à pergunta do militante homossexual, defensor de Leonardo Boff e feliz com a saída de Bento XVI. O moderador do debate me solicitou brevidade, pois a minha resposta fecharia as discussões daquela noite.

O espaço deste artigo me permite ser mais explícito nas considerações que ora pude tecer.

Primeiramente, as pessoas se lembram de nós não pelo que dissemos, mas pelo que lhes fizemos sentir. O Papa Francisco tem-nos feito sentir aquilo que os Papas anteriores já diziam. Não há um contraponto, não há um contraste. Só nova embalagem.

A questão é: por que as embalagens anteriores foram rechaçadas pela opinião pública?

O próprio Papa Francisco já percebeu que lhe foi atribuída a aura de revolucionário. Por exemplo, em sua recente Exortação Evangelii gaudium, alude ao aborto voluntário dizendo que “não se deve esperar que a Igreja altere a sua posição sobre esta questão. A propósito, quero ser completamente honesto. Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou «modernizações». Não é opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana” (n.º 214).

Muito mais revolucionário — e visionário — foi Bento XVI ao renunciar (o que não ocorria há 700 anos). Pensando em “novidades”, não foi uma revolução a restauração do rito anglicano no Ocidente (depois de 500 anos), com a possibilidade de se admitirem sacerdotes casados? Se não bastasse, Joseph Ratzinger, antes de ser Papa, estivera por trás da composição do Catecismo da Igreja Católica (o primeiro catecismo oficial da história) e da Declaração Conjunta da Igreja católica com luteranos e metodistas sobre o tema da justificação (que fora justamente a causa da reforma protestante). A lista poderia se estender indefinidamente, mas não é o caso.

Basta frisar que essas conquistas significaram mudanças reais na vida da Igreja das últimas décadas, e são muito mais profundas do que efêmeras emoções midiáticas. Do mesmo modo, seria possível enumerar outras tantas realizações de João XXIII (convocação do Concílio), Paulo VI (reforma litúrgica), João Paulo II (por exemplo, o novo Código de Direito), etc., que repercutem até hoje no dia a dia de milhões de cristãos.

Leonardo Boff e a cultura do “reencontro”

Em segundo lugar, em minha resposta durante o debate era necessário aludir a Leonardo Boff.

O documentário de Cacá Diegues levanta controvérsias “salutares” justamente porque o filme foi considerado oficial. Às críticas das alas mais conservadoras, minha sugestão é fazer limonada com o limão alheio.

Por que o afamado Boff aparece no filme? Aparece porque é afamado. Os católicos assumirão essa culpa? Afinal, alguém deve ser o culpado de que a intelligentsia brasileira, quando pensa na Igreja, logo se lembra de um dissidente que vive a expensas de ser um outsider.

Se o documentário é um produto oficial da JMJ, ele tem necessariamente uma chave hermenêutica ortodoxa. Portanto, se o Boff ali aparece, é que está se convertendo e se reaproximando com humildade do seio da Igreja outrora rechaçada por ele. De fato, ele fala coisas sensatas no filme, embora seja discutível o tipo de relação que ele estabelece entre paz social e paz entre as religiões.
Eu rezo sinceramente por essa intenção: que Leonardo Boff se converta. Seria uma alegria que, além de dizer que não é mais um marxista (coisa que ele tem feito ultimamente), resolvesse confessar-se e voltar a ser católico de missa dominical, fiel à doutrina do Catecismo. Essa seria um verdadeiro “efeito Francisco”!

Quem é, afinal, o papa do amor?

Por fim, a terceira parte da minha resposta no debate foi sobre o amor.

O teólogo sueco Anders Nygren (1890-1978) tornou-se eminente professor da Universidade de Lund, e depois bispo luterano dessa cidade. Também foi presidente da Federação Luterana Mundial. Filósofo da religião, exegeta habilidoso, historiador versátil, teólogo genial e pastor sensível, Nygren se valeu da filosofia kantiana em sua teologia. Ativo defensor do ecumenismo e ferrenho opositor do nazismo, fez-se internacionalmente reconhecido por seu livro Agape and Eros. Essa excelente obra, entretanto, não representa o cerne de seu pensamento. No livro, Nygren explica que, segundo Platão, eros é o amor sedento do Belo transcendente, o que eleva o humano para o divino, o único capaz de saciar a ansiedade da alma aprisionada na matéria; mas, porquanto busca o êxtase da união, seria amor egocêntrico, cobiça. Com o correr dos séculos, o significado de eros teria sido abaixado até assumir notas meramente sexuais.

Tal distinção entre eros e agape, com a reserva deste último para o verdadeiro amor cristão, tornou-se lugar comum em nossa cultura. Há quem não consiga compatibilizar o erotismo com o amor oblativo, coisa bem palpável na música Amor e Sexo, de Arnaldo Jabor e Rita Lee.

Bento XVI criticou essa distinção em sua primeira Encíclica, Deus caritas est, na qual ensinou que tanto eros quanto agape são aspectos do mesmo amor divino. Naquela época, sua ousadia lhe valeu o epíteto de “Papa do Amor”. A continuação do seu fecundíssimo magistério não desmereceu o título. Ratzinger foi um grande teórico do amor. O cristianismo é a religião do Logos, da “lógica” de Deus, mas justamente a lógica de Deus é a lógica do amor.

Bento XVI e Francisco escreveram a primeira Encíclica a quatro mãos da história da Igreja. Não à toa, no magnífico texto há uma seção em que o amor é apresentado como uma forma de conhecimento. O amor tem um Logos. Isso é muito importante. Nos debates sobre a afetividade, é preciso resgatar a racionalidade do amor. Deus é amor, mas o amor não é Deus.

Uma torrente de alegria

Gostaria de concluir fazendo referência a um convite Papa Francisco, para que, a partir dessa experiência de um “Rio de Fé” que foi a JMJ, entremos num “Rio de Alegria”:

Porque não havemos de entrar, também nós, nesta torrente de alegria? (…) Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa. Reconheço, porém, que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados. (…) A tentação apresenta-se, frequentemente, sob forma de desculpas e queixas, como se tivesse de haver inúmeras condições para ser possível a alegria. Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. (…) Não me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: «Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo».
(Evangelii gaudium, nn. 5-7)

12 de dez. de 2013

Em busca de reconhecimento

Muitos querem ter ideias virais. Muitos desejam visibilidade. Muitos buscam reconhecimento. O reconhecimento é a nova honraria que distingue as pessoas igualadas pela rasoura iluminista. A nova questão de ótica consiste em ser visto em todo lugar. Nasceu a síndrome Forrest Gump: estar em todas as partes sem ser ninguém.

A pessoa se sente bem conferindo 50 vezes ao dia seu perfil do Facebook com seus parcos 100 amigos. Sente-se bem porque ser citado, receber mensagens ou curtidas massageia o ego.

Massagem cara, que se traduz em horas semanais dispendidas numa inútil autoexcitação narcisista, horas roubadas ao trabalho, à cultura, à família. A obsessão da visibilidade é a nova bolha especulativa da vaidade, que traz três perigos:

1) Distancia da dinâmica de crescimento intelectual e profissional. O novo currículo consiste na métrica da vaidade, no impacto causado pelas fotos, opiniões e postagens floridas.

2) Confunde os parâmetros de tempo de dedicação e de grau de atenção que as coisas merecem. Exaustão e distração: eis o saldo da incansável atitude multitarefa que reduz a profundidade cognitiva e aumenta a mediocridade.

3) Aliena das verdadeiras necessidades das pessoas, artificializando os relacionamentos. É o melhor treino para o vício de falar de si mesmo sem parar, estragando qualquer empatia. Troca-se o valor pelo sucesso, a amizade pela simples admiração.

23 de nov. de 2013

Retrofit do casamento


Pouco antes de iniciar o Ano da Fé, que termina amanhã, Bento XVI afirmou: “Há uma clara correspondência entre a crise da fé e a crise do matrimônio. E, como a Igreja afirma e testemunha há muito tempo, o matrimônio é chamado a ser não apenas objeto, mas o sujeito da nova evangelização.” (Homilia, 7/10/2012)

Os próximos dois anos prometem colocar a família e o matrimônio no foco da atenção da Igreja e do mundo. Com efeito, a ONU comemorará os 20º aniversário do Ano Internacional da Família e a Santa Sé patrocinará dois Sínodos sobre o tema. Além disso, em 2015 ocorrerá na Filadélfia o VIII Encontro Mundial das Famílias.

Em vista da ocasião, preparei três apresentações com o objetivo de incentivar uma atitude positiva e pró-ativa com relação ao tema.

A primeira consiste em explicar os objetivos da ONU para a família, os quais, graças aos esforços da International Federation for Family Development, são excelentes. As metas propostas comprovam que a família pode ser um meeting point para as pessoas das mais variadas tendências ideológicas.


A segunda apresentação visa à comunicação estratégica dos argumentos pró-família, vislumbrando as oportunidades de persuasão oferecidas pela ciência cognitiva e pela teoria narrativa, a fim de contornar o revisionismo matrimonial.


Por fim, a outra apresentação sugere iniciativas variadas no campo da família, abrindo para um brainstorming.


Recomendo que você visite e assine o feed de http://thefamilywatch.org/. E também agradeceria receber suas sugestões!

9 de out. de 2013

Deus tem Facebook?

Indubitavelmente, nosso dia a dia foi impactado pela nova cultura midiática, transformando a sensibilidade e afetando a forma de tratar com as pessoas e, ainda mais, com Deus.

Já li que a média de checagens diárias ao Facebook é de 14 vezes por dia. O efeito desse hábito pode ser desastroso, pois Deus não costuma se comunicar da mesma forma que a maioria das pessoas. Embora ele goste das pequenas coisas que você gosta e se alegre vendo a foto do último prato de comida que você comeu, isso é muito pouco para ele (e para você também).

Como deve ser nossa comunicação com Deus? Que passos dar para tornar esse diálogo mais robusto?

Primeiro, é preciso fazer do tempo gasto com a Bíblia e com a Eucaristia uma decisão diária. A Bíblia são as mensagens e a Eucaristia são as fotos que Deus põe na sua timeline. Para vê-las, desligue o celular e saia do PC.

Depois, é preciso encontrar a Deus no próximo de carne e osso. A textura da pele traz motivação para a vida. Insanidade é fazer a mesma coisa todo dia do mesmo jeito, de novo, de novo e de novo, e esperar resultados diferentes. Inove!

Por fim, é preciso contabilizar os follows e unfollows (acertos e equívocos) mediante um bom exame de consciência diário, que lhe diga claramente se você fez de Deus a prioridade da jornada. Certamente, ele cutucou você. Você o cutucou de volta?

19 de set. de 2013

Misantropia ou Facebook

A misantropia de certo amigo meu desaparece diante de certas garotas. Por isso, já lhe disse, brincando, que ele não é misantropo, mas misândrico.

Contudo, ele tem algo de razão quando critica tanta invasão de privacidade.

— “Sai do meu quadrado!”

De fato, no quadrado do Facebook todo mundo é amigo. Tanto o colega de infância que o esqueceu, quanto a ex-namorada que bem conhece seus defeitos, assim como o chefe intratável e nossa querida genitora.

A culpa do uso tão elástico do conceito de amizade não é exclusiva do Facebook. Pais querem ser amigos dos filhos, maridos de suas mulheres, professores de alunos, políticos de eleitores, etc.

Seria o fim da solidão? Ou a diluição das relações? Lembre-se que, para a mãe do feminismo, Mary Wollstonecraft, a amizade é o termo chave para a renegociação do contrato sexual e para a nova democracia doméstica!

15 de set. de 2013

Mate o narciso midiático

A internet é o último mundo livre. Portanto, é o mundo que mais exige crítica.

Se a nova cultura digital fomenta a coexistência de identidades, um ou vários avatares, e o monstrinho real detrás da tela, é urgente adotar um estilo coerente para não naufragar a vida na vacuidade. Afinal, muitas vezes as redes sociais se apresentam como gestão de contingência, mas de fato se tornam evasão da realidade.

Equilibrar é preciso. O uso desses maravilhosos instrumentos reclamam uma presença pautada na verdade e na autenticidade. Entretanto, muitos confundem esses valores com grosseria e trivialidade.

Verdade. Expor com simpatia e humor nossas convicções, por mais contraculturais que sejam, por menos politicamente corretas que soem. Aqui há uma pedra de tropeço: algumas pessoas se inibem diante da internet, desencantadas com a difusão de estupidez, a valorização de intelectuais fátuos e a exposição indevida da intimidade. Ora, abdicar de se fazer presente no continente digital significaria militar pela contraverdade.

Autenticidade. Ter sido conquistado pela verdade implica buscar novas palavras, com criatividade responsável e uma certa esperteza. Devemos ter a humildade de usar a palavra exata.

Em resumo, as pessoas comprometidas, idealizadoras, apaixonadas, dedicadas, necessitam desenvolver uma inteligência conectiva, que vá além da publicação de notícias, mas ofereça respostas simples e estimulantes às questões do espírito, da cultura, da sociedade, do amor, da vida.

***

E você? O que pretende comunicar? Com que ânimo o tem feito?

1 de ago. de 2013

Sete práticas de um líder

Os líderes comunicam ouvindo, perguntando, olhando, sorrindo. Quanto mais falarem, menos eficazes serão. A prioridade é o outro: por isso, são excêntricos, no bom sentido.

Os líderes conectam com as pessoas, não com gadgets. Desconectam-se da comunicação virtual diante do interlocutor real.

Os líderes sabem dar e doar. Pois sabem que nada perdem quando comunicam, pois é um caminho de ida e volta.

Os líderes têm as portas sempre abertas, pois não atuam como gente importante ou inacessível. Quem mais importa são os outros.

Os líderes elogiam, não para dominar pela vaidade, mas por verdadeiramente reconhecerem os bons trabalhos e se congratularem por eles.

Os líderes escolhem bem as palavras, pois sabem que elas influenciam as atitudes próprias e alheias.

Os líderes calam as falhas dos outros, mas reconhecem as próprias rapidamente: por isso, não se ri de um líder, ri-se com ele.

30 de jul. de 2013

O sorriso do Papa

Vamos dar uma de repórter?

A cerimônia de boas-vindas ao Papa, ocorrida na última quinta-feira, foi um dos atos centrais mais esperados da JMJ. Da Residência Assunção, onde Francisco estava hospedado próximo ao Cristo Redentor, o Pontífice saiu de helicóptero em direção ao Forte de Copacabana e dali iniciou seu trajeto de papamóvel, que durou cerca de uma hora, devido à euforia da multidão.

Fazendo referência ao lema “Bota Fé”, com o qual a cruz peregrina percorreu as dioceses brasileiras, o Papa explicou:

“«Bote fé»: o que significa?
Quando se prepara um bom prato e vê que falta o sal, você então 
«bota» o sal;
falta o azeite, então «bota» o azeite...
«Botar», ou seja, colocar, derramar.
É assim também na nossa vida, queridos jovens:
se queremos que ela tenha realmente sentido e plenitude,
como vocês mesmos desejam e merecem,
digo a cada um e a cada uma de vocês:
«bote fé» e a vida terá um sabor novo, a vida terá uma bússola que indica a direção;
«bote esperança» e todos os seus dias serão iluminados
e o seu horizonte já não será escuro, mas luminoso;
«bote amor» e a sua existência será como uma casa construída sobre a rocha,
o seu caminho será alegre,
porque encontrará muitos amigos que caminham com você.
«Bote fé», «bote esperança», «bote amor»!”

Nesse momento, o Papa fez que o povo repetisse suas palavras: “Todos juntos: Bote fé, bote esperança, bote amor!

Nos atos dos dias seguintes — Via Sacra, Vigília e Missa de Envio —, foram seguidos os mesmos procedimentos, de modo que muita gente pôde ver o Papa de perto e tirar uma foto enquanto ele passava pela orla. Em todos as cerimônias, os discursos do Romano Pontífice, mediante diversos apelos, incendiaram os jovens.

Por exemplo, na Vigília o Papa os convidou a ser

“terreno bom, cristãos de verdade;
e não cristãos pela metade, nem cristãos «engomadinhos»,
cujo cheiro os denuncia pois parecem cristãos mas no fundo, no fundo não fazem nada;
nem cristãos de fachada, cristãos que são 
«pura aparência», mas sim cristãos autênticos.
Sei que vocês não querem viver na ilusão de uma liberdade inconsistente
que se deixa arrastar pelas modas e as conveniências do momento.
Sei que vocês apostam em algo grande,
em escolhas definitivas que deem pleno sentido.”

Percebendo a reação positiva dos fiéis, o Papa entabulou um diálogo com as milhões de pessoas presentes, que lhe responderam em uníssono “É assim ou estou enganado? É assim?

Essa interação com a assistência se repetiu várias vezes. O Papa demonstrou-se um excelente comunicador e conquistava a adesão dos jovens nos pontos altos de seus discursos através de uma inflexão da voz ou de gestos das mãos. Numa longa entrevista concedida a uma emissora brasileira, o Santo Padre explicou que a Igreja é Mãe e, por isso, precisa estar próxima, abraçar e agasalhar. Nesse sentido, ele justificou o porquê quis circular em carro aberto, descer e falar diretamente com as pessoas, tocá-las: para comunicar, é necessário interagir.

Um comentário recorrente entre os peregrinos era o quanto o sorriso e a energia do Papa cativavam. Confirmava-se a admiração daqueles que, tendo conhecido o cardeal Bergoglio como homem de tendência mais reservada, constatavam que ele estava muito à vontade e expansivo como Papa.

Antes de anunciar a próxima JMJ em Cracóvia, o Santo Padre exortou os jovens na homilia Missa de Envio: “Vayan, sin miedo, para servir.” A cerimônia, liturgicamente impecável mesmo diante de três milhões de assistentes, foi um misto de alegria e saudade. Emocionava pelo recolhimento de todos, a ponto de que, nos momentos de silêncio sagrado, era possível ouvir as ondas do mar de Copacabana, como se fossem o eco de tantas vozes distantes a pedir que Cristo lhes fosse anunciado.

27 de jun. de 2013

Don’t Hate Google for Reader. Use Feedly

Agora que a Google sepultou o Google Reader, se você tinha assinado o feed deste blog, agradeceria que adotasse um novo leitor assim que possível.

O que fazer

Existem muitas formas de se manter atualizado:
  • Redes sociais: você pode seguir o blog no Google+, no Facebook ou no meu Twitter pessoal.
  • Newsletter: basta cadastrar seu e-mail na caixinha ao lado para receber as atualizações em sua caixa postal.
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  • O aplicativo do blog: fotografe o QR Code e seja feliz!

7 de jun. de 2013

O calo das vadias

Contam as más línguas que, quando chega ao jornal a carta de um leitor dito conservador chateado com alguma notícia dita progressista, o chefe de redação convoca seus jornalistas para comemorarem juntos: — Acertamos outra vez no calo desses reacionários!

Fora esse momento, os jornalistas, prisioneiros do fluxo de fechamento sob o chicote do chefe, tendem a desconhecer a opinião dos leitores. 

Opinião? Mas se só pode haver uma única, em conformidade a essas cabeças (de)formadoras da opinião pública…

Pois não é que agora o bendito Estatuto do Nascituro acertou o calo desses mesmos senhores?

Exemplo disso é o jornal O Globo chamar o Estatuto em questão, em duas manchetes (uma delas de capa), de “bolsa estupro”. Mais do que desonestidade intelectual — pois quem escreveu isso não leu o Estatuto —, esse piti midiático demonstra que o calo deve estar doendo.

E o piti midiático tornou-se piti coletivo. Afinal, essa turma forma tanto a opinião pública quanto o piti público.

Já que falamos em vadiagem, que tal recordar a mais saudosa das vadiagens?

22 de abr. de 2013

Sheherazade popozuda

Novamente, Rachel Sheherazade caiu na boca do povo de mente aberta e punhos fechados. Dessa vez, a musa do conservadorismo conseguiu bater ao mesmo tempo nos funkeiros, em certo tipo de feministas, na falta de critério da universidade, …e numa acadêmica que dissertou sobre a cultura pelviana.

Curioso é que a loirinha do SBT recebeu de mulheres engajadas até ataques do estilo slut-shaming, pondo em dúvida se ela era bem resolvida; uma verdadeira afronta desde a perspectiva feminista.

Se a Sheherazade sabe fazer o quadradinho de quatro, ou até o de oito, eu não sei. O fato é que a contundência da paraibana tem deixado exasperado todo mundo. Confesso que eu mesmo já escrevi para ela reprovando uma das suas afirmações. Justiça seja feita, porém: a Rachel quase sempre diz o óbvio tantas vezes ignorado por pessoas ilustradas e de “boa reputação”.

Só os profetas veem o óbvio. Mas os jornalistas conseguem transformá-lo num cavalo de batalha. O duro é que a sociedade precisa menos disso e mais de verdadeiros acadêmicos que contribuam positivamente para a nossa cultura.

Enquanto tantos idealizam subculturas, levantam bandeiras ideológicas, transformam a permissividade em ciência, poucos resgatam valores, propõem metas, estudam as fontes da moralidade.

Penso que a denúncia da Rachel faz sentido, mas atropela as devidas nuances. E mais uma vez constato que a massa que se diz intelectual atua em bloco procurando desclassificar quem não compartilha do seu pensamento tolerante.

Espero que ao cabo dessas Mil e Uma Noites de funk cultural, o rei Xariar não pretenda matar Sheherazade por causa da galinhagem de outras popozudas.


31 de mar. de 2013

Sugestões para novos comentários?

Alguns muito bons amigos meus têm o hábito de me fazer outras perguntas antes de eu conseguir responder as primeiras.

Até aí, tudo bem, o galho é que muitas vezes são indagações cumulativas e — pior! — contradizem o que comecei a responder ou mesmo o que fora questionado antes.

Esse estilo brainstorming de perguntar deveria ser qualificado de liquidificador mental. Mas acho que consiste em mera falta de disciplina intelectual…

Contudo, há quem se ofenda, pois parece que, na verdade, o interlocutor não está preocupado em saber a sua opinião. Por outro lado, evidencia como a maioria das pessoas gosta de falar mas do que ouvir.

E você? Também sofre de verborreia ou coisa semelhante?

12 de mar. de 2013

Conclave ou sineclave?

Embora a Igreja viva entre parênteses jornalísticos — a não ser para a notícia de um derradeiro escândalo sexual ou da mais recente pesquisa quantitativa de fiéis decrescentes —, a renúncia de Bento XVI e a perspectiva do novo conclave não saíram da boca do povo e das páginas dos jornais no último mês.

Fiz duas constatações a esse respeito. Primeira, que nossas mídias são incapazes de analisar os fatos, tanto que resumem dossiês de repórteres estrangeiros pior do que o faria um calouro da faculdade de comunicação.


Exemplo disso é o comentário agridoce da Rachel Sheherazade, por quem nutro admiração, mas que sacrificou o Direito em nome o denuncismo. Segundo ela, cardeais suspeitos de conivência com delitos cometidos por sacerdotes deveriam ser excluídos do conclave. Não sei que autoridade e conhecimento ela possui para versar de tamanha casuística!

Com efeito, o Direito da Igreja garante que nenhum cardeal (que tenha a idade prevista) seja excluído da eleição por nenhum motivo ou pretexto, mesmo que ele tenha incorrido em excomunhão, suspensão ou interdito, ou tenha qualquer outro impedimento eclesiástico: nesse caso a censura é considerada suspensa para efeitos exclusivos da eleição do Papa.

Entre os motivos dessa norma está a vontade de evitar, por todos os meios, que os cardeais sejam pressionados, chantageados ou impedidos de votar. Eles, mesmo incorrendo em censura eclesiástica, não perdem a titularidade dos direitos vinculados ao seu próprio estado.

A segunda constatação que fiz a partir da nossa sofrível cobertura jornalística, é que pequenos e grandes gaiatos aproveitam a ocasião para defender a agenda pós-moderna. Como bem disse Clodovis Boff, “erigem a opinião pessoal como critério último de verdade e gostariam de decidir os artigos da fé na base do plebiscito”.

Por exemplo, Sonia Rabello, ex-vereadora do Rio pelo PV, afirmou que as mulheres devem “compartilhar com os homens todas as posições para que o equilíbrio seja alcançado”. Onde estão as mulheres na votação do Papa? Por que não têm uma “participação mais democrática na gestão da Igreja?”

Não sei que vantagem teriam as mulheres em votar no Papa. Na verdade, quase ninguém na face da Terra faz isso: apenas 100 pessoas contra 6 bilhões de habitantes… É uma discussão totalmente mal colocada. Teoricamente, seria possível que mulheres escolhessem o Papa, se assim a autoridade da Igreja o dispusesse canonicamente. Mas o Papa necessariamente seria um homem, pois é doutrina irreformável que apenas os varões são capazes de receber o sacramento da Ordem.

Em quem aposto para Papa? No Espírito Santo. Ele vai surpreender!

16 de fev. de 2013

Quo vadis, Papa?

Estava correndo contra o relógio a 140 km/h quando chegou o torpedo com que me comunicavam a renúncia de Bento XVI. Por sorte a surpresa não me causou um acidente, pois uns cones na pista tinham me feito reduzir a velocidade. 

Em duas semanas, dois chefes de Estado renunciaram: Beatrix da Holanda e Bento XVI da Santa Sé. A primeira pode se dar a esse luxo sem grandes polêmicas, mas o segundo… Quais seriam seus motivos? 

Sempre espere o inesperado. Nunca despreze os conceitos que costumam fazer visita a ritmo de cometa. Renuncie a julgar com ligeireza eventos surpreendentemente singulares. Mas não foi isso que vi na imprensa. Sem dúvida, há pressa em noticiar, em explicar, em comentar, em interpretar. Contudo, quanta pena senti diante da superficialidade de Luís Felipe Pondé, ou da amargura despeitada de Genézio (Leonardo) Boff, ou das teorias conspiratórias de tantos outros críticos acerbos. 

Mais uma vez, o Papa se apresentou como “sinal de contradição”, revelando o segredo de tantos corações que descarregam na Igreja o fel da própria consciência. Após um luminoso pontificado, repleto de conquistas sem precedentes, ainda há quem teime em considerá-lo um fracasso. Ou até quem acuse Bento XVI de ter traído Santo Agostinho e passado para o partido de Pelágio: com efeito, a graça não é mais importante que a mera força humana? 

Quando li a notícia, logo me veio à cabeça a famosa frase apócrifa dos Atos de Pedro, inspirada em Jo 16,5, e imortalizada pela obra de Henryk Sienkiewicz: Quo vadis, Papa? — Papa, aonde vais?

O texto do martírio de São Pedro conta como o velho pescador, informado da cruel perseguição, partiu solitário de Roma a fim de servir o Senhor, mas permanecendo vivo. Ao sair, encontra o próprio Cristo no caminho, a quem pergunta: “Senhor, aonde vais?” (Quo vadis, Domine?

E o Mestre lhe responde: “Vou a Roma para ser crucificado”. Ao que Pedro perguntou: “Serás crucificado novamente?” Mas Jesus lhe respondeu: “Não, Pedro, agora mesmo já estou sendo crucificado”. Então Pedro caiu em si e, vendo que o Senhor subia ao céu, retornou a Roma feliz de saber que seu destino seria o mesmo que o do seu Mestre.

Uma rápida analogia levaria a julgar a renúncia ao sólio pontifício com o mesmo rigor adotado por Dante Alighieri diante da abdicação de Celestino V, o santo papa medieval que o poeta afirma encontrar logo à entrada do Inferno (III, 58-60): 


Alguns já distinguira: eis, de repente,
Olhando, a sombra conheci daquele
Que a grã renúncia fez ignobilmente. 


Ao que parece, São Celestino — conhecido por Dante em 1294 — renunciou perante o Consistório após cinco meses de pontificado por causa de uma astuta campanha do cardeal Gaetani, destinado a sucedê‑lo com o nome de Bonifácio VIII. Desterrado e mantido praticamente prisioneiro em condições desumanas, Celestino veio a morrer dois anos depois. 

Mas o juízo dantesco foi paradoxalmente superado pelo juízo eclesiástico, que elevou à glória dos altares o pobre pontífice acorrentado pelas malhas da intriga. 

A única presunção cabível no caso de Bento XVI, um pastor consciente da gravidade do seu ato, um homem santo, dado à oração e à reflexão, é que ele sofreu muito para chegar a tal decisão e que viu mais benefícios do que prejuízos na mesma. Numa atitude franca e humilde, explicou suas razões aludindo à saúde física e espiritual que estão aquém das necessidades da Igreja neste concreto momento histórico. Portanto, mais do que indagar acerca das debilidades de Bento XVI, é preciso investigar a vulnerabilidade especial que sofre a Igreja de hoje, a ponto de o Papa optar por uma solução tão inusitada. 

Já se disse com muito boa intuição que, com essa renúncia, Bento XVI coroou o ciclo de abnegações que norteou a sua vida de entrega a Deus. Sem dúvida, à pergunta quo vadis, Papa?, ele poderia nos responder como o próprio Senhor: “vou a Roma para ser crucificado” ou — por que não? — “agora mesmo já estou sendo crucificado”. 

***
Transcrevo a passagem original do apócrifo:

Ὡς δὲ ἐξῄει τὴν πύλην, εἶδεν τὸν κύριον εἰσερχόμενον εἰς τὴν Ῥώμην.
Καὶ ἰδὼν αὐτὸν εἶπεν· Κύριε, ποῦ ὧδε;
Καὶ ὁ κύριος αὐτῷ εἶπεν· Εἰσέρχομαι εἰς τὴν Ῥώμην σταυρωθῆναι.
Καὶ ὁ Πέτρος εἶπεν αὐτῷ· Κύριε, πάλιν σταυροῦσαι;
Εἶπεν αὐτῷ· Ναί, Πέτρε, πάλιν σταυροῦμαι.
Καὶ ἐλθὼν εἰς ἑαυτὸν ὁ Πέτρος καὶ θεασάμενος τὸν κύριον εἰς οὐρανὸν ἀνελθόντα,
ὑπέστρεψεν εἰς τὴν Ῥώμην ἀγαλλιώμενος καὶ δοξάζων τὸν κύριον,
ὅτι αὐτὸς εἶπεν· Σταυροῦμαι· ὃ εἰς τὸν Πέτρον ἤμελλεν γίνεσθαι.
(Atos de Pedro, XXXV, 9-16) 

27 de dez. de 2012

A opinião pública não lhe deve ser alheia

Por limitação natural, ninguém é capaz de julgar por si só a multidão de fenômenos sociais, políticos, econômicos, científicos, culturais e religiosos que acontecem ao seu redor. Por isso influi tanto a opinião da maioria, a opinião pública.

Com a revolução da comunicação, a formação da opinião ficou nas mãos de uns poucos. Coisa delicada, que pode repetir em escala mundial a surpreendente disparidade entre o “hosana” e o “crucifica-o” — como a Jerusalém que mudou de opinião sobre Jesus em tão poucos dias…

Não há exagero em afirmar que o mundo vive da mentira. E, enquanto muitos bons dormem, a cizânia é semeada com inusitada abundância. A presença nos meios comunicação de cidadãos capazes de julgar e expor os sucessos humanos desde uma perspectiva cristã é uma premência. Para isso, os católicos não devem pedir licença. Mas, para serem luz, precisam ter luz.

Você atua publicamente com essa preocupação?

6 de nov. de 2012

Comunicação e pedagogia

A crise da comunicação é primariamente uma crise de conteúdo, pois a comunicação é uma expressão da mensagem, assim como a pedagogia é em si mesma uma expressão da doutrina.

A pedagogia moderna tem suas raízes na pedagogia negativa de Rousseau, que imaginava a educação do homem algo extrínseco, já que ele o supunha naturalmente bom.

A origem mais recente da atual pedagogia encontra-se no idealismo alemão que vê o indivíduo como um momento do espírito universal.

O homem sábio conhece o mal na teoria; o homem tolo conhece-o por experiência. A nova pedagogia, porém, substitui o conhecimento pela experiência e renuncia ao ensino com a justificativa de que o homem aprende sozinho.

Sem dúvida, cada um trilha por sua conta o caminho; porém, só conhece o caminho sob os auspícios de um guia.

29 de out. de 2012

Sete exigências da nova evangelização

1. Amizade com Cristo

Ninguém dá o que não tem. Nova evangelização não consiste em ensinar uma doutrina, mas em ensinar uma relação, isto é, significa ensinar a relacionar-se com Cristo.

Afinal, o Cristianismo é para viver, não para falar. E há por aí um monte de bem-entendidos que são um bando de safados.

2. Contagiar com o ardor apostólico

Mais do mesmo, só que com a novidade do fogo. Diz o provérbio que a primeira condição para se abrir uma loja é sorrir.

E você quer incendiar o mundo sem ser uma brasa?

3. Contar a história de Israel

Seria estranho afirmar que Cristo cumpriu as promessas a Israel e ao mesmo tempo desconhecê-las. Por isso mesmo, São Jerônimo dizia que o desconhecimento da Escritura é o desconhecimento do próprio Cristo.

Não é questão de erudição, mas de um mínimo de intimidade com a Escritura. Gaste menos tempo na Internet e leia a Bíblia 5 min por dia.

4. Domínio da cultura contemporânea

Se você tem a Bíblia na mão direita, tenha o jornal na esquerda. Do contrário, estará criando um gueto intelectual e contradizendo a fé.

A fé se comunica e a comunicação começa por saber ouvir. Antena ligada.

5. Paixão pela Tradição Apostólica

A pior alienação para um católico é querer imitar um protestante. Não é preciso reinventar a roda, ou abrir picadas a facão, pois tudo já se fez e já se disse em nossa história bimilenar.

Você não está sozinho e há experiência de sobra na Tradição. O que falta é ler os grandes autores e estudar a patrística.

6. Ter um coração missionário

Isso não quer dizer necessariamente pegar um avião e ir para a Tailândia. Simplesmente significa sentir-se incomodado com o paganismo do seu quintal.

Se você acha normal a apologia da maconha, o crescente número de divórcios, a baixa assistência à Missa dominical ou a militância homossexual, então você nunca fará nada.

7. Gostar das novas mídias

As novas mídias são a versão 2.0 dos Correios, Telégrafos e Telefones. A sua graça está em aproximar as pessoas, mas é preciso reconhecer que muita gente gasta horas papeando com desconhecidos e vive às turras com quem convive diariamente sob o mesmo teto.

A solução não está em fugir da arena, mas em, respeitando seus limites, lutar conforme as regras.



21 de set. de 2012

Três formas de falar da JMJ

Durante os quinze dias dos Jogos Olímpícos de Londres, apenas 900 mil espectadores utilizaram os transportes públicos da cidade. Por outro lado, é de se supor que o número será muito inferior no Rio de Janeiro durante a Copa do Mundo de 2014, pois o evento será restrito a jogos no Maracanã.

Nesse contexto, é sintomática, embora não é surpreendente, a pouca ênfase que se tem dado à próxima Jornada Mundial da Juventude na mídia, que atrairá no mínimo um milhão e meio de pessoas de todos os países para ficarem quatro dias na cidade. Ou seja, um evento de impacto muito maior, tanto numérico quanto em termos de valores.

Não surpreende. Como também não surpreendem as estatísticas sobre a redução do número de católicos no país. A redução é evidente. Contudo, “evidente” significa aparente. Explico-me.

Vivemos num mundo de aparência. Todos tentamos aparentar ser melhores do que somos; o que não é mau, já que por causa desse esforço, talvez realmente melhoremos um pouco. E quem vende tenta fazer sua oferta aparentar qualidade, e quem pechincha tenta aparentar desinteresse, etc.

E a Globo tenta de modo cínico aparentar respeito pela Igreja Católica exibindo o recém-lançado hino da Jornada na despedida do Fantástico. E os “católicos engajados” tentam de modo artificial manifestar uma penetração social que não possuem mediante #hashtags no Twitter e curtições no Youtube.

Nada disso é mau. Tudo isso é sim uma maravilhosa oportunidade de descobrir a paixão por comunicar.

Nesse aprendizado tão curto — pois a JMJ está às portas! —, é urgente levar em conta três coisas ao explicar a JMJ para nossos amigos:

1) A JMJ é para todo mundo, justamente porque é “católica”, universal. Enquanto cismarem em etiquetá-la de “coisa de igreja”, será mesmo um fiasco. Ninguém hoje em sã consciência suporta esse ar rarefeito de sacristia.

2) Os “católicos engajados” precisam abdicar de demarcar território midiático. A população brasileira continua sendo católica, ainda que a maioria seja de católicos à deriva. Uma análise meramente sociológica, de observação externa, que nivela denominações de fundo de quintal com a Igreja é uma aberração estatística. Por isso, ser “missionário” fazendo guetos cibernéticos é contraproducente: apenas aprofunda o sentimento de alheamento dos que estão longe. Portanto, encantar com a JMJ, sem “panfletar” a JMJ.

3) O verdadeiro apostolado se realiza através da amizade, que é comunhão de vida, não de linguagem. As mídias não são a “linguagem dos jovens”, mas a linguagem de todos. É ridículo achar que se tem penetração social apenas porque se criou um site, por exemplo. O que falta de verdade é lançar boias aos que estão à deriva, ou ir ao encontro dos que não querem retornar. Por isso, o eventual “fiasco” a que eu fazia referência é a eventual perda de uma oportunidade ímpar de resgatar os que estão perdidos por aí. Mas talvez, dado o nosso terceiro-mundismo, essa oportunidade não seja nossa mesmo, e a JMJ já tenha valido só por remexer as águas.

Sem dúvida, a JMJ será um sucesso para os “engajados” brasileiros, para os estrangeiros e para os que abrirem os olhos quando virem o mar de gente confluindo para a Cidade Maravilhosa. Quem sabe então muitos dos que estão à deriva começarão a perceber que há um farol no meio desse mar da vida… ainda que não lhes tenhamos mostrado a tempo essa luz.

O negócio é trabalhar e confiar! Afinal, o efeito JMJ será mais fruto da graça do que dos esquemas.

E você? Em que poderia melhorar a sua forma de comunicar?

17 de jul. de 2012

Comunicação amordaçada

A liberdade é um engodo para quem dela faz sua amante. Comprometa-se com a liberdade, mas não a torne sua cúmplice na traição dos princípios.

Por um lado, para comunicar — e comunicar a verdade — é preciso dar liberdade ao interlocutor, isto é, permitir-lhe uma saída honrosa, demonstrar-lhe que não se quer vencê-lo nem convencê-lo, mas ajudar a chegar mais perto da verdade.

Por outro, verdade se alcança mas não se abarca. A verdade se capta, mas não se captura. A verdade nos conquista, não é conquistada. Por isso, nossas palavras nunca a esgotarão, nunca a descreverão. Portanto, é possível dizê-la, mas não arquivá-la; é possível expressá-la, mas não retê-la.

Nossos tempos assistiram a justificáveis tentativas de diálogo, a esforços comunicativos, ao lançamento de pontes entre polemistas. Mas esse irenismo foi feito muitas vezes às custas dos princípios, às expensas da verdade.

E a verdade raptada é um simulacro. Sua beleza se esvai como a da mulher que, privada de seus segredos, nada mais tem a oferecer.

Anteriormente, já tinha comentado algumas dificuldades provenientes dos que anulam o diálogo pela manipulação do conteúdo ou pela agressividade. Agora, gostaria de citar dois vícios que minam a força persuasiva dos que, mesmo tendo abraçado a verdade, dela parecem ter vergonha ou pretendem comunicá-la despindo-a do atavio da sua contundência.

O primeiro vício é o circiterismo (“marcação por zona”). Equivale a referir-se a conceitos gerais, difusos, inovadores, aproximados ou subjetivos, como se fossem sólidos, claros e inquestionáveis. Obviamente, é lícito buscar os matizes oferecidos pelo espectro semântico dos termos, desde que isso se faça acompanhado da chave interpretativa que permita extrair o sentido preciso ali oculto. Assim, falar hoje de autenticidade, dignidade, direitos, amor, etc. praticamente significa falar nada, pois serve para designar qualquer coisa (grosseria, utilidade, impertinência, pederastia, etc.).

O outro vício é o recurso exagerado ao adversativo (“rir de gol contra”). Declara-se um princípio, o qual é imediatamente mitigado por uma cláusula. Até aqui parece bem; o problema está radicado no risco de tornar a exceção mais importante que a regra, ou o viés mais importante que o alvo.

Lembre-se: possui verdadeira liberdade quem fala a verdade com caridade, não quem finge tolerância impondo a ditadura do relativismo.

***

Responda rápido:
Você tem medo de parecer intolerante por dizer a verdade?
Ou você carece de convicções por medo à verdade? 

11 de mai. de 2012

A fêmea do tisiu

Algo parecido ao que me referia quando falei do meu tweet mais sincero tem ocorrido no Facebook. Tenho visto postados cartazes com dizeres inspiradores ou atribuídos a personalidades importantes, mas faltos de conteúdo e deveras enganadores.

Por exemplo, um desses cartazes dizia que se o plano A der errado, fique tranquilo, pois ainda haveria outras 26 letras. Logo, o alfabeto teria 27 letras?!?

Outro, ainda pior, afirmava:

“Os animais do mundo existem para seus próprios propósitos. Não foram feitos para os humanos, do mesmo modo que os negros não foram feitos para os brancos, nem as mulheres para os homens” (Alice Walker, premiada escritora americana, ativista feminista e vegetariana).

Pergunto-me: bichos, negritude e mulheres pertencem à mesma categoria? Fora o idioma dyirbal, dos aborígenes australianos de Queensland (em que as mulheres pertencem ao mesmo gênero de água, fogo e correlatos, violência, criaturas e fenômenos perigosos), desconheço onde mais será feita em sã consciência tão bizarra analogia. 

(Uma digressão: por isso mesmo, gostaria de ler o livro de George Lakoff: Women, Fire and Dangerous Things, sobre as categorias mentais.) 

Mais: animais têm “propósitos”? Ou ainda: os mesmos homens que defendem a escravidão negra (ainda existem?) pretendem mesmo “usar” as mulheres?

Em suma, aquela afirmação feminista-ativista-vegetariana estabelece uma analogia, presumindo uma inferência de baixíssima probabilidade.

Nessas horas sinto vergonha alheia.
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