5 de out de 2011

Sexo dos anjos

Detalhe inferior da tilma de Juan Diego

Os mistérios de Guadalupe

Assisti a um documentário mexicano muito interessante sobre Guadalupe, 1531. Tem a forma de depoimento, e bons atores fazem as vezes dos entrevistados, emprestando sua voz àqueles homens que vivenciaram tão estrondoso milagre no século XVI.

Um dado que me admirou foi acerca do anjo que apareceu estampado na tilma de Juan Diego: é um varão idoso, com asas de águia, que segura com a mão direita o manto celeste da Virgem e, com a esquerda, seu róseo vestido. A razão aduzida no documentário foi a pedagogia divina.

São Juan Diego
A águia era considerada pelos aztecas ave divina, que levava o sangue dos sacrifícios humanos ao deus Sol; além disso, conta a lenda que uma águia lhes indicara onde deveria ser fundada a cidade do México. Por outro lado, a águia é o símbolo de João Evangelista, que justamente profetizou a aparição de “uma mulher revestida de Sol, com a Lua a seus pés” (Ap 12,1). “Águia que fala” é também o significado do nome indígena de Juan Diego, Cuauhtlatoatzin.

Por sua vez, o homem velho representava a sabedoria indígena. Assim, o anjo indica que a sabedoria de Deus conciliou o céu e a Terra, dando fim à guerra cósmica que tanto afligia a cultura azteca.

Íncubos e súcubos

Um íncubo apoderando-se da presa
Isso me fez considerar que os anjos costumam aparecer na Escritura de forma masculina. Mesmo na estranha interpretação literalista do relato dos Gigantes, que os entende como fruto do consórcio carnal entre anjos e homens (Gn 6,1-4), os eventuais seres celestes envolvidos eram íncubos, não súcubos. Ou seja: as mulheres eram suas vítimas.

O demônio feminino Lilit
Mas, justiça seja feita, há uma única passagem em que aparece citada uma “anja”: Lilit (Is 34,14). Seria originalmente um demônio feminino do mito assírio‑babilônico. A tradição rabínica tardia apresentou-a como a primeira mulher de Adão, anterior a Eva, madrasta dos filhos de Adão, a quem tenta matar em seus ciúmes.

Essa beldade com “perfume de enxofre” (Jó 18,15) deve ser a grande paqueradora dos homens maus.

Misandria e o masculino como norma

Quando o feminismo inflaciona, a masculinidade corre o risco de ir para o saco. Existe um sadio feminismo, mas às vezes tenho a impressão de que vivemos em tempos de misandria. Se a escalada da intolerância continuar, dizer que o normal é ser homem poderá virar crime.

Espetadas à parte, tornemos a questão do sexo dos anjos. Acredito que a representação preponderantemente masculina dos anjos tenha alguma relação com a norma bíblica de só atribuir títulos masculinos a Deus. O próprio Cristo é um homem. Embora Deus diga que, “como a mãe que acaricia os filhos, assim vou dar-vos meu carinho” (Is 66,13), por outro lado nunca é chamado “Mãe”, apenas “Pai”.

Isso não é machismo, como tentam defender certas abordagens ideológicas. Em primeiro lugar, as partes do corpo humano sempre serviram para caracterizar os sentimentos. Assim, os úberes, o seio, as entranhas, o regaço femininos representam a misericórdia. Por isso essas partes podem ser usadas para descrever analogicamente as atitudes de Deus para com os seres humanos.

Quanto à representação varonil de Deus, é uma forma de evitar o risco de sua assimilação às divindades telúricas. Vale citar a explicação de Bento XVI (Jesus de Nazaré, págs. 130-1):

“Naturalmente, Deus não é nem homem nem mulher (…). As divindades maternas (…) mostram uma imagem da relação entre Deus e o mundo que é inteiramente oposta à imagem bíblica de Deus. Elas incluem sempre, e mesmo inevitavelmente, concepções panteístas, nas quais desaparece a distinção entre o Criador e a criatura. O ser das coisas e dos homens aparece deste ponto de partida necessariamente como uma emanação do seio materno do ser, o qual se temporaliza na pluralidade dos entes.

“Em contraste com esta concepção, a imagem do pai era e é adequada para exprimir a alteridade entre Criador e criatura, a soberania do ato criador. Somente por meio da exclusão das divindades maternas podia o Antigo Testamento levar à maturidade a sua imagem de Deus, a pura transcendência de Deus.”
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