3 de out de 2011

Mulheres de Xangô

Existe uma tipologia feminina?

Pode-se questionar, com justiça, o realismo de uma classificação biotipológica da mulher. Efetivamente, qualquer abordagem traz no bojo certas escolhas e vieses discutíveis. Por exemplo, a divisão que proponho entre Dona Sofia, Eva e Fake-Doll.

Em seu livro sobre a mulher (págs. 106-116)Edith Stein indaga do mesmo ao eleger três personagens literárias como protótipos femininos: Ingunn Steinfinnsdatter, da obra de Sigrid Undset; Nora, de Ibsen; Ifigênia, de Goethe. A Filósofa conclui pela legitimidade dessas escolhas depois de comprovar o espírito que animava tais autores em sua criação literária. E indica a possibilidade de se ampliar indefinidamente a tipologia desde que se conserve o mesmo fundo:

“Amadurecer (…) na união amorosa que, fecundando, provoca esse processo de amadurecimento e, ao mesmo tempo, estimula e promove também nos outros o amadurecimento (…), essa é a aspiração mais profunda do desejar feminino, que pode manifestar-se nos mais diversos disfarces e mesmo distorções e desfiguramentos. (…) é esse desejo que corresponde à função eterna da mulher” (pág. 113).

Utilidade da intuição iorubá

Como outra fonte paralela, parece interessante recorrer à mitologia dos orixás, da qual já trouxe episódios a este blogue. Seus mitos versam sobre a criação do mundo, o nascimento dos orixás e suas relações com os homens.

É notória a dificuldade de sistematização dessas histórias. Elas se apoiam mais em tabus do que em princípios morais. Os orixás muitas vezes encarnam os vícios humanos (aliás, como os deuses gregos): violências, ciúmes, inveja, luxúria, gula, etc.

Entre os orixás destacam-se as mulheres de Xangô, o qual teria sido um rei iorubá divinizado. Cada uma representa um perfil feminino: a esposa, a amante, a mãe

Obá, Oxum e Iansã

Textos retirados de Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi:

Obá
Xangô era um conquistador de terras e de mulheres.
Vivia sempre de um lugar a outro.
Em Cossô fez-se rei e casou-se com a velha Obá.
Obá era sua primeira e mais importante esposa.
Obá passava o dia cuidando da casa de Xangô.
Moía a pimenta, cozinhava e deixava tudo limpo.


Mas Xangô era moço ardente, cheio de seiva,
e logo se aborreceu de Obá.


Oxum
Xangô disse a Oxum: 
“Se ficares comigo, abro um tapete de outro sob teus pés,
que é para nunca mais pisares o chão.
E todas as minhas mil riquezas serão tuas”.
Logo que ouviu falar em ouro,
Oxum foi embora com Xangô.
Ele era rico, atrevido e charmoso.
É esse o tipo de pessoa que satisfaz Oxum.
E ambos são doidos um pelo outro.


Oxum era conhecida como a amante ardorosa.
Tinha um corpo belo, de formas finas.
Sua cintura deixava-se abraçar por um único braço.
Por muitas noites Oxum teve em seu leito amantes,
aos quais propiciava momentos de raro prazer.
Oxum teve muitos amores,
de quem ganhou presentes preciosícissimos.
Oxum era rica. Tinha joias, ouro, prata,
vestidos maravilhosos, batas que causavam inveja,
e mais, pentes de marfim, espelhos de madrepérola,
e tantos berloques e panos-da-costa.
(…)
De tudo de seu dispôs Oxum, para o conforto de Xangô.
Primeiro as joias, depois os vestidos, as batas,
depois os pentes, os espelhos, de tudo foi de desfazendo Oxum.
Restou-lhe nada mais que seu vestido branco.
De tudo de seu desfez-se Oxum pelo amor de Xangô.
Ficou pobre por amor de Xangô.


Oiá-Iansã
Um dia Xangô foi ao palácio de Iansã determinado a conquistá-la.
Ele a desejava ardentemente,
mas Iansã era uma mulher difícil
e não queria se render às investidas de Xangô.
(…)
Quando Iansã viu que nenhum de seus Exus
poderia deter Xangô, disse:
“Podem deixá-lo entrar, podem deixá-lo entrar”.

Oiá desejava ter filhos,
mas não podia conceber.
Oiá foi consultar um babalaô
e ele mandou que ela fizesse um sacrifício.
(…)
Oiá fez o sacrifício e teve nove filhos.
Quando ela passava, indo em direção ao mercado, o povo dizia:
“Lá vai Iansã”, que quer dizer “mãe de nove filhos”.

Vivia Oxum no palácio em Ijimu.
Passava os dias no seu quarto olhando seus espelhos.
Eram conchas polidas
onde apreciava sua imagem bela.
Um dia saiu Oxum do quarto e deixou a porta aberta.
Sua irmã Oiá entrou no aposento,
extasiou-se com aquele mundo de espelhos,
viu-se neles.
As conchas fizeram espantosa revelação a Oiá.
Ela era linda! A mais bela!
A mais bonita de todas as mulheres!
Oiá descobriu sua beleza nos espelhos de Oxum.
Oiá se encantou, mas também se assustou:
era ela mais bonita que Oxum, a Bela.
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