21 de mai de 2011

Qualquer semelhança é mera coincidência

Desde que o mundo saiu do ovo, sempre houve ladrões sob o Sol. A tendência a apropriar-se do alheio é minoritária, porém difusa. Talvez por sua capilaridade, a cleptomania vem conseguindo impor-se como normal, ainda que sua frequência fuja à curva de Gauss da sociedade.

Ora, a cobiça do alheio cresceu tanto à época da “denúncia da burguesia proprietária” dos anos 60, que os cleptomaníacos criaram um lobby de adeptos. Sua primeira conquista foi conseguir retirar esse fenômeno psiquiátrico da Classificação Internacional de Doenças em 1973. Posteriormente, a cleptomania também foi excluída da lista de enfermidades da OMS em 1990.

Ao mesmo tempo, era preciso dar uma roupagem intelectual para a bandeira ladra. Pseudointelectuais ficaram repetindo balelas como “o rei Davi era ladrão” — com apoio em sua fase de bandoleiro —, ou “Pátroclo era larápio” — só porque utilizou as armas emprestadas de Aquiles. No final das contas, todo mundo teria sido bandido, fato ocultado nos livros de história: Tiradentes, Napoleão, Hitler, Abraham Lincoln, William Shakespeare, Michelangelo, Alexandre o Grande; e, acima de todos, Oscar Wilde.

Da pretensa elite intelectual — como se os universitários e os filhinhos de papai politicamente corretos não fossem a melhor massa de manobra —, o movimento ganhou as ruas. Várias cidades passaram a ter sua Parada Clepto, com notável afluência de incautos e curiosos. A partir de então, começou um grande patrulhamento ideológico contra seus oponentes, em nome do pluralismo.

A ideologia do compartilhamento procede de uma perspectiva dualista que nega o direito à propriedade e ao mesmo tempo exalta a destinação universal dos bens. A última fronteira a ser transposta pelo homem moderno seria a libertação dos seus próprios condicionamentos proprietários. Além disso, vivemos na época das reivindicações e das minorias: como não afirmar que surrupiar faz parte dos Direitos Humanos?

Um fator complicador é que a cleptomania apresenta diversas variantes. Gente que poderia ser tratada para vencer essa tendência não encontra mais respaldo médico e é incentivada a assumi-la como algo normal.

Além disso, a aceitação social de suas formas mais crônicas induz muitos jovens a afanar desde cedo, como se fosse uma legítima opção proprietária. Dentre os transtornos de propriedade mais graves, bons livros de medicina apontam, por exemplo:
a) Transtorno do papel ou rol proprietário, que leva o cleptômano a vestir-se como um mafioso italiano, um antigo malandro da Lapa ou a encapuzar-se como um assaltante de bancos.
b) Transtorno de orientação proprietária, que faz o cleptônomo entregar a outrem o que rouba, como o fazia Robin Hood.
c) Transtorno de inclinação proprietária, pelo qual o pivete sofre desejos pervertidos de posse, como guardar compulsivamente tampas de garrafa, embalagens de leite e outros objetos sem valor.
d) Transtorno de identidade proprietária, que leva a querer ser espoliado.

Se não fosse suficiente a aceitação da rapina na medicina e nos costumes, o lobby prosseguiu buscando respaldo legal. Seus ideólogos seguiram perfeitamente a cartilha e fingiram seguir o mote da tolerância. O Executivo já estava ganho para a causa, pois nele pupulavam os corruptos. Para a difusão da ladroagem ser maior, começaram inclusive a trabalhar na criação de um kit muamba a ser distribuído nas escolas.

Por outro lado, como no Brasil a via legislativa é extremamente dificultosa, os propugnadores da roubalheira recorreram ao Supremo Tribunal Federal, bastante acostumado a suprir as omissões do Congresso. E assim, por unanimidade, o STF reconheceu a equiparação da rapina à compra. A decisão, com efeito vinculante para toda sociedade, foi puro ativismo judicial que tornou a Suprema Corte superior ao Poder Legislativo, eleito por 130 milhões de brasileiros — e não por um homem só.

Ato contínuo, para comemorar a conquista, um grupo de gatunos organizou um roubaço na escadaria da Catedral de uma cidade catarinense, pois para eles a Igreja Católica encarna muito bem o que chamam de preconceito.

Um dos que ajuizaram a ação no Supremo Tribunal foi certo governador. Atualmente, ele está empenhado em transformar seu Estado e a Capital (cujo epíteto é “Leal e Heroica”, a qual tem por padroeiros dois viris soldados mártires) numa referência do esbulho. Com o apoio de certa deputada que roubara o sobrenome do ex-marido e se apresenta como proprietóloga, pretendem agora — mediante 125 metas de gatunagem até 2014 — superar o preconceito proprietário, mesmo que seja à força de amordaçar quem não pensa como eles.

Desde então, o lobby clepto pretende cada vez mais “problematizar a propriedade” e discutir a “idionormatividade”, a fim de retirar os proprietários da “zona de conforto”. Um dos seus representantes, que chegou a ganhar roubado um reality show, e se tornou parlamentar na base da solércia, disse: “precisamos desenvolver estratégias que lidem mais diretamente com o campo da cultura, a exemplo de ações nas escolas, na mídia e nas artes. Assim, o projeto Escola sem Propriedade não correria o risco de apenas interessar a professores e alunos LGBTTTs (Larápios, Gatunos, Bilontras, Trambiqueiros, Traficantes e Trombadinhas)”.

Sendo bem franco: a um ladrão devo reconhecer os direitos humanos. Um ladrão posso admirar por suas qualidades. Mas a um ladrão nunca o terei por padrão de conduta. Inveja quase todos sentem, mas dar-lhe vazão a ponto de roubar já é demais!

Já dizia o profeta: O crime da tua irmã Sodoma era este: opulência, glutoneria, indolência, ociosidade; eis como vivia ela, assim como suas filhas, sem tomar pela mão o miserável e o indigente (Ez 16,49). Porém, no ritmo que a coisa vai, é capaz de quererem até censurar esta frase da Escritura… para não dizer outras!
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