2 de mai de 2011

Castelo místico

Trânsito espiral, de Remedios Varo
Tradução livre de uma conferência dada por André Louf.

Metapsicologia

O coração é donde brota a oração (CCE 2562). Mesmo sem consciência, no coração de cada cristão o Espírito sempre reza “Abba, ó Pai” (Rm 8,26).

A oração pessoal é, portanto, fazer calar o homem exterior para poder ouvir a prece que já está sendo rezada em nós pelo homem escondido do coração. Quaisquer métodos e técnicas de oração, ou disciplina que fomente o silêncio interior, visam a tornar consciente a oração inconsciente.

Esse nível de inconsciência é mais profundo do que o estudado pela psicologia moderna, pois toca o espírito, isto é, o cume da alma. É algo metapsicológico, pois é terreno de Deus, domus interior em que a oração não cessa, templum interius em que habita a Trindade.

Repente, gradação, gratuidade

Se grande parte do tempo não reparamos nessa “liturgia interior”, às vezes o véu é descerrado e uma iluminação repentina nos clarifica aspectos ocultos da nossa existência.

Outras vezes, porém, a tomada de consciência  é um processo gradativo que, chegando à tona, desperta a sensibilidade para o “sentimento  acima de todos os sentimentos”, na expressão do Bem-aventurado Jan van Ruusbroek.

Embora haja circunstâncias que favoreçam esse processo, como o silêncio, a simplicidade e o ascetismo, a oração cristã nunca é determinada por tais preparações. A oração é totalmente gratuita, mesmo quando precisamos perseverar em sua tentativa.

Ainda há outro caminho, mais cruciante.

Coração apiloado

É perseverando na aridez e na crise — quando nossos esforços se manifestam infrutíferos — que experimentamos nossa fraqueza e reconhecemos nossa frágil condição.

Confusão e dúvida, διατριβή τὲς καρδίας, contritio cordis, coração partido, pulverizado, pobre: tal é o salário do orante. Qual é a tarefa do homem nesse processo, senão a humildade? Diz Isaac de Nínive:

Acredita-me, meu irmão, tu não compreendeste ainda o poder da tentação, nem a sutileza de suas artes. Um dia a experiência to ensinará e verás como uma criança que não mais sabe o que olhar. Todo o teu conhecimento será nada mais que confusão, como o daquela pequena criança. Teu espírito, que parecia estar tão ancorado em Deus, teu conhecimento preciso, teu equilibrado pensamento do mundo, tudo será submergido num oceano de dúvida. Somente uma coisa poderá ajudar-te a vencê-lo, a saber, a humildade.

Eis uma pedagogia dolorosa. Não é masoquismo trilhar tal caminho, antes vem a ser um convite para ingressar na vida verdadeira, mediante a transformação do coração de pedra no coração de carne.

A vitória da humildade

Se a tentação conduz à queda, não o é por falta de generosidade e empenho na luta, mas por falta de humildade. Ora, a pior tentação é a do desespero que sucede ao pecado. Assemelha-se a uma picada de escorpião a atormentar o coração. Porém, a humildade também é capaz de vencê-lo e libertar a memória desse transe.

vitória da humildade, que nos traz à nossa mais profunda interioridade, não pode ser predita, pois ocorre quando não estamos mais no controle. Notamos então uma nova sensibilidade, uma paz indefectível, uma unidade interior, a oração brotando da própria fonte.

O pecado, que aparenta ser o triunfo do “homem exterior”, oferece assim a oportunidade de descobrir a curta e pequena ponte que conduz ao Reino escondido dentro de nós, no centro do “castelo interior”.
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