17 de set de 2009

Quando Evágrio Pôntico deu aula para Jung

Anselm Grün, em seu livro “Convivendo com o mal”,  toma a obra de Evágrio Pôntico (345-399) sobre os demônios e os vícios e a confronta com a psicologia jungiana.

Afirma que, ao falarem do diabo, os Padres do deserto “mitologizavam” o que hoje a psicologia explicaria em termos de complexos, projeções e conteúdos autônomos do inconsciente pessoal e coletivo.

A leitura é agradável e parece extrair sua força mais das estimulantes ideias de Evágrio do que das conclusões do autor. Com efeito, Grün cai no lugar comum de negar a existência do maligno e encontrar explicações, não menos “mitológicas”, na dinâmica psicológica para o mistério do mal.

Grande parte do livro de Grün é um comentário à Capita practica ad Anatolium, em que Evágrio ensina meios especiais para a luta contra cada vício.   Evágrio — que fora colaborador de Basílio e Gregório Nazianzeno — escreveu vasta obra que influenciou Cassiano e João Clímaco, entre outros. Devido a algum viés esotérico, foi condenado em 553 por Justiniano e por um sínodo de Constantinopla.   Evágrio explica muito bem a psicologia do solitário, seus vícios e ascese. Recolho aqui algumas ideias suas, que são bastante interessantes:

1. Nosso comportamento e atitude são importantes para a vida espiritual porque são a porta de entrada para os demônios: como estes não podem penetrar na alma, prestam atenção na atitude corporal, tom de voz, maneira de andar, etc., para assim descobrir o estado da alma (cf. Capita practica ad Anatolium, 47).

2. Os demônios lutam de dois modos, conforme a situação de cada um (ib., 48): por coisas exteriores (materiais: cobiça; pessoas: ira) ou interiores (pensamentos, lembranças e imagens). Quando a vítima é forte eles se retiram e observam a virtude negligenciada para atacar de novo aí (ib., 44). Aos jovens atacam os instintos e desejos, aos velhos as paixões da ira, raiva, mau humor, tristeza e falta de vontade (Liber gnosticus, 135).

3. As espécies de demônios distinguem-se conforme os vícios que provocam: relativos aos desejos (gula, luxúria, cobiça), relativos ao emocional (tristeza, ira, acídia), relativos ao espiritual (vaidade e orgulho).

4. Como praticar a luta ascética:
 a) observar os próprios pensamentos, tempo que duram, ritmos, conexões, entrada de emoções, etc. (cf. Capita practica ad Anatolium, 50);
 b) depois da tentação, analisar: antecedentes circunstanciais, ocorrências sociais, etc.;
 c) Depois de identificar o vício, lançar lhe contra palavras bem determinadas: “Quando fores tentado, não ores antes que hajas lançado cheio de ira algumas palavras contra quem te ataca. Pois se tua alma estiver cheia de pensamentos, também tua oração não pode ser pura. Mas se disseres alguma coisa cheia de ira contra os pensamentos, confundirás e expulsarás as idéias que te tenham sido inspiradas pelo adversário. Pois é este o efeito natural da ira, expulsar os pensamentos, mesmo quando são bons” (ib., 40).

5. Evágrio, em seu livro Antirrhetikon, sugere trechos bíblicos para responder ao demônio em cada vício:
 a) gula: Sl 23[22],1;
 b) luxúria: Sl 6,9s;
 c) cobiça: Dt 15,7s;
 d) tristeza: por temor: Dt 4,31; por lembrança de faltas passadas: 2Cor 5,17;
 e) ira: Ef 4,26;
 f) acídia: por desânimo: Sl 37(36),3; por aflição: Sl 77[76],3s; por desejo de fuga: Sl 132[131],14; por doença: Mq 7, 9;
 g) vaidade: por indiscrição: Pr 23,9; por desejo de atrair: Pr 26,22; por desejo de ensinar: Tg 3,1;
 h) orgulho: via isolamento: Pr 13,20; por crítica: Ecl 7,21.

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