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26 de dez. de 2013

El ciego del naranjel


Esse é um villancico extremeño, uma das mais belas músicas de Natal que conheço.

Deixo-lhe a letra, com meus sinceros desejos de um feliz Natal!


***

Camina la Virgen pura
camino de Nazareth,
con su Niñito en los brazos,
que más bello que el sol es.

A la mitad del camino 
pidió el Niño de beber.

— No pidas agua, mi vida

no pidas agua, mi bien, 
que van los ríos muy tubios 
y ya no se “puen” beber. 

Un poquito más “alante”

hay un verde naranjel 
cargadito de naranjas 
que ya más no “pue” tener.
Un ciego lo está cuidando,
ciego que no puede ver.

— Ciego, mi buen cieguecito,
si una naranja me dieras
para la sed de este niño
un poquito entretener.

— Coja usted, buena señora,
coja usted, buena mujer,
y en cogiendo para el Niño,
coja las que quiera usted.

La Virgen, como era Virgen,
no cogía más que tres;
el Niño, como era niño,
todas las quiere coger;
cuantas el Niño cogía
volvían a florecer.

— Toma, ciego, este pañuelo,
limpia los ojos con él.

Apenas se fue la Virgen,
aquel ciego empezó a ver.

— ¿Quién sería esa Señora,

que me ha hecho tanto bien? 
Si será la Virgen pura 
y el Niñito de Belén, 
si será la Virgen bella 
y el glorioso San José.

24 de dez. de 2013

Nosso Menino



Heitor Villa-Lobos (1887-1959).

Versão gravada pelo Coral Barroco na Bahia sob a direção de Hans Bönisch.

O nosso Menino nasceu em Belém.
Nasceu tão somente para nosso bem.
Nasceu sobre as palhas, o nosso Menino,
Mas a Mãe sabia que ele era divino.
Mas a Mãe sabia que ele era divino.
Vem para sofrer a morte na Cruz
O nosso Menino: Seu nome é Jesus.
Por nós ele aceita o humilde destino.
Louvemos a glória de Jesus Menino.
Louvemos a glória de Jesus Menino.



Um Santo e Feliz Natal a todos os meus leitores!

1 de mai. de 2013

São José Empresário

Neste dia de São José Operário (e por que não “Empresário”? afinal, ele era o dono da oficina!), vale a pena relembrar alguns aspectos da teologia do trabalho.

São Josemaria, que fez do trabalho o eixo da sua proposta de santidade no meio do mundo, ensinava que o trabalho é, para nós, meio específico de santidade. O que quero dizer‑vos é que temos de converter o trabalho em oração e ter alma contemplativa (Carta 15‑X‑1948, n. 22).

Ora, se o trabalho é oração, convém captar e viver seu caráter dialógico, em que Deus nos fala e nós, por nossa vez, falamos a ele.

No trabalho, Deus nos interpela e nós lhe respondemos. Deus nos fala através do trabalho porque o Senhor está, por imensidade, em todas as criaturas, à nossa espera, ao nosso alcance, ao nosso dispor.

O trabalho é uma palavra dirigida a nós pelo Pai

“Filho, vai trabalhar na minha vinha” (cf. Mt 21,28‑31). Ao trabalho vai o filho, não o mercenário; portanto, ao trabalhar, exercitamos nossa filiação divina, assemelhamo‑nos ao Filho de Deus. 

Como é nossa resposta ao chamado de Deus? Há três opções:
  • Rebelde, grosseira e primária — “não quero!”
  • Preguiçosa, falsa e desatenta — “sim, pai! Mas não foi”
  • Generosa, pronta e sacrificada como a de Cristo — “eis que venho para fazer a tua vontade” (Hb 10,9)

Itinerário da intimidade com Deus

Deveis manter — ao longo do vosso dia — um diálogo constante com o Senhor, que se alimente das próprias incidências do vosso trabalho profissional. Ide com o pensamento ao Sacrário e oferecei ao Senhor o trabalho que tenhais entre mãos; recorrei à nossa Mãe do Céu e ao nosso Pai e Senhor São José, para que vos ajudem a superar as pequenas contrariedades que possam apresentar‑se; recomendai os vossos companheiros e colegas aos seus Anjos da Guarda; reavivai a intenção apostólica, aproveitando as pausas no trabalho; pedi luz ao Espírito Santo, para resolver de maneira adequada os problemas que tenhais pela frente (São Josemaria, Carta 15‑X‑1948, n. 22).

2 de jul. de 2012

Quem paga a conta?

Dizem que a mulher é vontade, e o homem, inteligência. Mas no restaurante da vida, quem paga a conta?

Antes de tentar responder a essa pergunta, vamos complicar essa mesa, acrescentando o coraçãoO coração é um certo laço entre a vontade e a inteligência, quase um filho de ambos.

Pois bem, para descobrir quem paga a conta, penso que nos pode ajudar a consideração de como a fé — misto de luz e moção interior, intuição e entrega — é acolhida pelo coração.

Fé e razão

Seguindo a Tradição cristã, que tem em Agostinho seu expoente, o homem deseja a Deus, ainda que não o saiba, e pode conhecê-lo através da contemplação do mundo ou de si mesmo.

Deus se revela mediante sua Palavra Criadora, a Palavra da Aliança, a Palavra Profética e, enfim, por sua Palavra Encarnada: Jesus Cristo. Como se deve ouvir a Palavra? Com a “obediência da fé” (CCE 144).

A fé é, simultaneamente, uma adesão pessoal a Deus e o assentimento à verdade que ele nos traz por Cristo no Espírito Santo. A cláusula “no Espírito Santo” é importante, pois indica que nossa fé se apoia na fé da Igreja, que é o locus do Espírito. Ou seja, não há fé fora da Igreja, mas mera opinião ou crendice, pois não se pode crer senão mediante um fiador ou garante do que se crê.

Embora o motivo da fé seja a autoridade de Deus que revela, e não a inteligibilidade do dado revelado, a fé não “está de mal” com a inteligência. Sem a compreensão da fé, facilmente se vai do pietismo à impiedade. Daí a necessidade de fazer mais inteligível o que se crê.

Contudo, ao longo da história, nem sempre houve uma harmonização satisfatória entre fé e razão. De fato, num primeiro momento, alguns Padres viam a filosofia com reserva, inspirados talvez em leituras bíblicas que dizem da ciência que “também é vaidade” (Ecl 2,15), pois “o temor de Deus é o princípio da sabedoria” (Eclo 1,16[14]). Posteriormente, mas em sentido contrário, alguns pensadores cristãos também se afastaram da racionalidade da fé cativados por teses filosóficas voluntaristas.

Erros históricos

Tertuliano (†220) defendia o paradoxo credo quia absurdum, contra Clemente de Alexandria (†215), que equiparava a filosofia para os gregos à Lei mosaica para os judeus.

Sigério de Brabante (†1284): foi o principal defensor do averroísmo latino, ou seja, da existência de dupla verdade, baseado numa interpretação equivocada de Aristóteles.

Bem-aventurado João Duns Escoto OFM (†1308): ensinava a potentia absoluta de Deus, fundamentando teoricamente as teses voluntaristas daqueles que o sucederam. De fato, ao apresentar a liberdade como qualidade fundamental da vontade, levou seus seguidores a considerar a liberdade como inata e absoluta e a negar à vontade a necessária colaboração do intelecto.

Guilherme de Ockham OFM (†1349): separou o âmbito da fé do da racionalidade, que só serviria para descobrir o que é provável.

Gabriel Biel (†1495): apoiava a salvação no querer de Deus, independentemente do mérito humano.

Martinho Lutero (†1546): seu pessimismo quanto ao homem o levava a pensar que o homem, conforme a natureza não faz nada senão pecar e, conforme a inteligência, nada senão errar. A graça e a fé seriam incompatíveis com a natureza e a razão.

Søren Kierkegaard (†1855): para ele, o cristianismo seria verdade por parte de Deus, mas não a intelectualizada.

Rudolf Butmann (†1976): segundo o teólogo protestante, a fé não diria como foi Jesus, mas qual seria a mensagem existencial do mito criado pela Igreja: a conversão.

Ser cerebral ou ser voluntarista?

O mistério da cruz, com sua exigência radical de fé, redimensiona toda essa questão. Tanto o intelectualismo quanto o voluntarismo caem por terra diante da entrega amorosa de Cristo.

Judas Iscariotes representa bem o intelectualismo. Homem frio, calculista, interesseiro, que só se preocupava com o dinheiro, a segurança, as coisas no lugar; ou então com uma preocupação social ineficaz, ou com um nacionalismo terreno. Não lhe entrava na cabeça o caminho da entrega, da generosidade, do esquecimento próprio. Por tudo isso, vendeu Cristo por trinta moedas.

Simão Pedro, porém, encarna o voluntarismo. Homem impetuoso, de coração grande, só se movia por entusiasmos passageiros, por sentimentos favoráveis, por caminhos fáceis e alegres. A renúncia, a abnegação, o passar oculto, custavam-lhe ao coração. Por causa de sua volubilidade acabou por negar Cristo por três vezes.

Só a fé é capaz de iluminar a mente e fortalecer o coração, tornando-se o fundamento da fidelidade.

*****

Afinal, quem paga a conta? Sou muito feminista. Por isso, se elas querem isonomia, penso que quem deve pagar a conta é a gatinha da vontade.

18 de jun. de 2012

Cinco segredos da JMJ

Como necessário complemento aos sete passos para uma bem-sucedida JMJ no Rio de Janeiro, apresento os cinco pontos auge da JMJ de Madri, analisados por Bento XVI em seu balanço de fim de ano (que vale a pena ler na íntegra).

Nova experiência de catolicidade

A JMJ é a nova evangelização ao vivo. Permite apalpar a catolicidade, isto é, a universalidade da Igreja: gente de todos os continentes que, sendo tão diferente pela língua, cultura, nação, compartilha os mesmos sentimentos e ideais. É uma verdadeira aula de pluralismo.

Nova forma de ser homem

Em Madri houve cerca de 20.000 jovens voluntários, indicando a perene vitalidade da caridade, que se reveste formas novas conforme os tempos. Através do altruísmo, da solidariedade e do serviço, muitos redescobrem o amor de Deus e do próximo, que é o verdadeiro motivo da ação humana.

Revalorização da adoração

A presença real de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento da Eucaristia é o ponto focal da JMJ. Dali se alimenta a Igreja e aí encontra forças cada fiel. É a atitude que se tem diante da Eucaristia que define se uma pessoa está ou não comprometida com Cristo.

Redescoberta da Penitência

Não seria autêntico um encontro com Cristo que descuidasse a penitência. Jesus Cristo é exigente e a proposta de vida cristã tem como meta nada menos que a santidade. Por isso, o esforço penitencial de purificação, que todo batizado envida ao longo de sua vida, necessita da graça de Deus para chegar à perfeição. A confissão sacramental dos pecados pessoais ao sacerdote é o único meio ordinário, instituído pelo próprio Cristo, para responder ao esforço humano com o perdão gratuito de Deus. Quem frequenta esse sacramento, recebendo a absolvição de sacerdotes experimentados, enche-se de alegria, de segurança, de confiança em sua luta por ser uma pessoa melhor.

Refortalecimento da alegria

Segundo São Tomás de Aquino, a alegria é “certo ato e efeito da caridade”, já que “a mesma caridade inclina a amar, a desejar o bem amado e a gozar nele” (S. Th., IIa-IIæ, q. 28, a. 5, c). Se pela caridade os cristãos são reconhecidos, em toda parte onde estiverem seu traço característico será, portanto, o sorriso da alegria.

1 de mai. de 2012

Qual é a sua lente?


A mensagem seguinte a enviei em resposta a uma tentativa de apresentar Jesus Cristo como mero modelo de humanidade, a Bíblia como um livro repleto de contradições e a Igreja como uma instituição perversa.

Quem usa as lentes distorcidas da própria interioridade vê o que quer.
*****

Só há contradição onde se desconhece a chave hermenêutica. A chave para a compreensão da Bíblia é, simplesmente, a fé da Igreja, que não é “oculta” como você falou, mas publicamente anunciada. Também não tem nada a ver com uma “chave dentro de nós”. Afinal de contas, quem afirmou que a Bíblia é inspirada foi a Igreja e é a Igreja que explica em que sentido ela é inspirada. Quem aceita a Bíblia mas não aceita a Igreja é um esquizofrênico. Com efeito, se eu tivesse de escolher “os meus livros inspirados”, juntaria a Divina Comédia e alguns diálogos de Platão, nunca o Levítico ou Habacuc. Se fosse assim, eu teria de concordar com você em que a Bíblia alberga em si graves contradições.

Portanto, seria um disparate querer encontrar a chave hermenêutica dentro do próprio texto, com a pouca luz do próprio critério e da própria razão. Você mencionou, porém, que as religiões costumam alegar possuir “a chave interpretativa”. Preciso discordar. Basta conhecer minimamente o Zoroastrismo, o Xintoísmo, o Confucionismo, o Budismo, o Taoísmo, o Xamanismo, etc., para constatar que tais generalizações são infelizes. Como eu tinha apontado no e-mail anterior, esse tipo de denúncia é aplicável ao protestantismo, que absolutizou a Bíblia, mas não ao Catolicismo e muito menos às demais religiões.

Achei graça você dizer que “Jesus acreditava tanto no homem”, pois é justamente o contrário o que atesta a Escritura: “Jesus, no entanto, não lhes dava crédito, porque conhecia a todos e não precisava de ser informado a respeito do ser humano. Ele bem sabia o que havia dentro do homem” (Jo 2,24s). É infantil esperar que a Igreja seja uma comunidade de perfeitos e anjinhos. E essa imagem de Jesus humanista, ou de Jesus amigo dos excluídos, me desgosta demais. Se Jesus é uma mera referência, um modelo, então deixe ele lá no pedestal e me deixe cuidar da minha vidinha.

Pelo contrário, se Jesus é o Logos divino, o Verbo de Deus, a Palavra de Deus, o Filho de Deus feito carne, então o mundo tem uma lógica, a história tem um sentido, Deus me dirigiu sua Palavra, me tornou seu interlocutor, me fez seu filho. A mudança verdadeira não é a mudança estrutural da sociedade, mas a transformação interior de cada um mediante esse contato virtual com Cristo.

Não vou entrar no mérito da necessidade de Cristo e da Igreja para a salvação, pois disso já se falou abundantemente nos últimos 50 anos (veja esse documento, por exemplo). Por motivos de espaço, também me abstenho de comentar a confusão acerca das relações Igreja e Estado, evangelização e inculturação, etc. Para cada clichê e afirmação gratuita seria necessário recorrer a parágrafos de história e erudição que, sinceramente, não vem ao caso.

19 de abr. de 2012

A ouvido fechado, palavra aberta

Transcrevo trechos de uma mensagem que enviei a uma pessoa cheia de dúvidas, mas que não as resolve porque reluta em conservar seu ceticismo como um troféu.

É que ainda acredito ser possível o diálogo com quem começa a conversa dizendo que nunca vai mudar de ideia.


*****

É evidente que, se digo algo, é porque penso que posso contribuir com algo para sua vida, assim como quando você me diz algo é que quer compartilhar comigo suas convicções. Não é questão de um converter o outro. A conversão, que é um desandar o caminho andado na contramão, necessita de um meia-volta-volver que só Deus pode conceder àqueles que se dispõem a procurá-lo.

Tenho a convicção de que as atuais acusações, feitas à religião em geral (e ao Cristianismo em particular), procedem em grande parte de uma reação crítica ao protestantismo. Por exemplo: chamar os islâmicos de fundamentalistas é uma impropriedade, pois o “fundamentalismo” foi uma seita protestante americana do início do século XX.

Na mesma linha, como os pseudointelectuais de hoje desconhecem a existência de filosofia antes de Kant, é bastante comum que confundam a autêntica moral cristã das bem-aventuranças com sua versão (reduzida, protestante e kantiana) dos imperativos categóricos: daí que Nietzsche se insurja, com acerto, contra uma "moral de escravos". Mas o filósofo, apesar do bom faro, errou sua pontaria…

Explico de outro modo. A moral cristã não pretende simplesmente moldar bons cidadãos: isso é muito pouco. Também não é um código de prescrições: o mero sentido do dever não arrasta ninguém.

O Estado — ainda vale a pena falar dele? afinal, estamos entrando na era pós-estatal —, o Estado gosta é da religião gnóstica e alienante, que não leva seus adeptos a atuarem socialmente em conformidade com seu credo. A gnose é religião privada, sem repercussão pública. Mas uma ação social contundente incomoda a ordem constituída. Convenhamos: a reforma deve ser o estado habitual das coisas, pois cada geração precisa assumir a situação herdada, o que não se faz sem contribuir com sua própria visão. Repare que não estou propondo que se renegue a tradição, mas que ela seja acolhida criticamente por cada geração.

Todo este assunto é muito complexo e não pretendo fazer aqui um tratado. Apenas quis frisar uns pontos para compartilhar com você meu pensamento. Já escrevi sobre alguns desses pontos e deixei algumas aulas em http://audio.narajr.net/. Confesso que, do jeito que trato esses temas, pode ser uma verdadeira indigestão. Mas é o que tenho para falar.

Por que sou católico? Acho que a resposta é simples. É a mesma que deu São Pedro no ponto de inflexão da pregação de Cristo. Você deve se lembrar que, depois de Jesus anunciar que instituiria a Eucaristia, “muitos discípulos o abandonaram e não mais andavam com ele” (Jo 6,66). Então ele se dirigiu aos próprios Apóstolos e lhes propôs que eles fossem embora também. Mas Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).

Faço minhas as palavras dele: A quem irei? A Maomé? A Lutero? A Alan Kardec? A Kant? A Marx? A Freud? A Nietzsche? A Marcuse? A Foucault? A Derrida?…

*****

Deixe-me agora lhe fazer umas perguntas:

A quem você procurou? A quem você pretende ir?

11 de jun. de 2011

Olhos de pomba

Oculi ergo devotæ animæ sunt columbarum 
quia sensus eius per Spiritum Sanctum 
sunt illuminati et edocti, spiritualia sapientes. (…) 
Nunc quidem aperitur animæ talis sensus, 
ut intellegat Scripturas. 
(Ricardo de São Víctor, Explicatio in Cantica canticorum, 15) 

Vento, sopro, espírito

O vento é realidade ativa, mas invisível, irreprimível e metamorfoseante. Considerado pela mentalidade antiga como princípio da vida é concebido, por isso, como dado por Deus. Mais: o “Sopro” de Deus é a origem de toda vida.

Criada do húmus, a pessoa humana é uma “alma vivente” em virtude do “espírito”. Mas “quem é que sabe se o espírito dos humanos vai para o alto e se o espírito dos jumentos vai para baixo, para a terra?” (Ecl 3,21) Com efeito, o mesmo hálito procedente dos lábios de Deus alenta tanto os homens quanto os animais, cuja vida está contida no sangue. Por outro lado, em oposição à carne, o espírito humano está destinado a um fim sobrenatural, pois é capaz de se fazer “um só espírito” com Deus.

O espírito dado ao homem desfalece ou revigora‑se, experimenta emoções, sentimentos e pensamentos, exprime‑se na oração. O espírito vem a ser, portanto, o que de alguma forma conduz o movimento do coração, da inteligência ou da vontade, e inclusive torna o homem presente onde ele não se encontra.

Discernimento dos espíritos

O espírito designa uma realidade que informa todos os aspectos da vida e não apenas alguma de suas facetas. Daí que se possam distinguir diversos espíritos, “hálitos mentais”, os quais ou animam a tal indivíduo a adotar certo comportamento, ou determinam a atitude de uma comunidade, ou o compromisso de um povo. Há espíritos de ciúme, de torpor, de prostituição, de mentira, do Egito, de Píton, ou ainda espírito nobre, espírito novo, espírito de sabedoria, de revelação, de profecia, de Elias, de fé, de mansidão. Todos os espíritos procedem de Deus, pois o Senhor, “que pesa os espíritos” (Pr 16,2), tem pleno domínio sobre toda a vida espiritual.

“Há espíritos que foram criados para a vingança e na sua fúria reforçam seus flagelos: quando vier o fim, desencadearão sua força e aplacarão o furor de quem os fez” (Eclo 39,33[28]). “Lançou contra eles o fogo da sua ira, a cólera, a indignação, a desgraça, todo um exército de anjos do mal” (Sl 78[77],49). Porquanto o Senhor “faz dos espíritos seus anjos, e do fogo flamejante seus ministros” (Sl 104[103],4), os espíritos também podem ser identificados com os anjos ou os demônios, ambos a serviço dos desígnios eternos. Aqueles recebem seu ministério por força de missão; esses, sua ação implica iniciativa própria e, da parte de Deus, permissividade. Satanás mesmo, para submeter os homens, vale‑se de espíritos imundos: espírito surdo‑mudo, espírito de enfermidade, espírito maligno.

Nesse sentido, deve ser provada a procedência dos espíritos que tocam e penetram o espírito humano, pois “a falsidade é a destruição do espírito” (Pr 15,4): Espírito de filhos adotivos ou de escravidão, Espírito de fortaleza, amor e sobriedade ou de timidez, Espírito de Deus ou do anticristo, Espírito da Verdade ou do erro.

Um da Trindade

“Quem determinou o espírito do Senhor, e que conselheiro lhe deu lições?” (Is 40,13) O Espírito de Deus, “que procede do Pai” (Jo 15,26), é também o “Espírito de Jesus Cristo” (Fl 1,19). Esse Espírito Bom e Santo é o autor da bondade e a fonte da santidade. O “Espírito Santo”, sendo um só Deus com o Pai e o Filho, procede de ambos e com eles é coeterno, consumando a Trindade como misteriosa essência da caridade divina.

A epifania do Novo Paráclito só se dá através das formas fluidas: o sopro, a água, o voo, o fogo, as metamorfoses. Tratam‑se apenas de sinais, que podem ser ambíguos, e aos quais o Espírito Santo não está ligado de forma substancial. O Espírito “Sem‑Forma‑através‑de‑Toda‑Forma” faz resplandecer o “Toda‑Forma”, que é o Verbo humanado, morto e ressuscitado, centro de todas as metamorfoses.

Ora, o Espírito de Deus invade tudo, pois o “Deus dos espíritos e de toda carne” (Nm 27,16) dispensa seu Espírito em todas as partes para cumprir seus desígnios, segundo o modo que convém às circunstâncias históricas e com o necessário vigor de irrupção. O Senhor “modela o espírito humano dentro do homem” (Zc 12,1b), imprimindo seu Selo na criatura, transmitindo‑lhe a intenção, a direção de sua vontade.

O Espírito é aquele pelo qual se completa a comunicação de Deus: é a possibilidade e a inclinação de Deus para existir como que fora de si mesmo. O Espírito “é a abertura da comunhão divina ao que não é divino. Ele é a habitação de Deus lá onde Deus está de qualquer modo ‘fora dele mesmo’. Também ele foi chamado ‘amor’. Ele é ‘o êxtase’ de Deus na direção do seu ‘outro’, a criatura” (C. Duquoc, Dieu différent, Paris, 1977, 121-2). No Espírito, a Graça e o Amor são hipostasiados.

Fonte de memória

O Espírito Santo purifica a memória do coração, ajudando a perdoar. Por isso, “não será perdoada a blasfêmia contra o Espírito Santo” (Mt 12,31): tal endurecimento — que se manifesta na recusa da graça, na desesperação da salvação, na presunção de se salvar sem merecimento, no renegamento da verdade, na inveja das mercês e na obstinação no pecado — conduz à impenitência final, à perdição eterna e ao rechaço do Espírito de amor.

Vindo à intimidade do ser humano — não à corporeidade ou à materialidade —, o Espírito está empenhado na realização da revolução espiritual através da conversão, como força e transcendência de Deus operante na história, mas além da história, irredutível à lógica mundana e instauradora duma outra lógica: a do amor ao próximo.

O Espírito é também a Memória viva da Igreja: dá o sentido e recorda o mistério de Cristo. É o princípio da presença do passado e do escatológico no presente da Igreja, convidando à vigilância do coração, e ao mesmo tempo uma força divina capaz de transformar o ser humano e o mundo.

19 de dez. de 2010

Matrimônio virginal

Em vez de apresentar a prometida hipótese desenvolvida por D. Bernard Orchard OSB, achei melhor publicá-la na íntegra aqui.

Não obstante, gostaria de finalizar a exposição que venho fazendo sobre a virgindade de Maria, tecendo mais algumas considerações que me parecem pertinentes.

Dificuldades textuais

Os Evangelhos são ambíguos ao tratar dessa temática, ou pelo menos dão margem a dúvidas. Por exemplo, por ocasião da Anunciação Maria e José ora parecem noivos (Lc 1,27), ora casados (Mt 1,19s).

Outra fonte de questionamento são os citados “irmãos de Jesus”, como Tiago e José (Mt 13,55). Este problema é mais simples, pois além de a expressão ser um hebraísmo, a própria Bíblia atesta que esses parentes são filhos de “outra Maria” (Mt 28,1), discípula de Cristo.

Dentre todas essas passagens dificultosas, a que talvez tenha dado margem às especulações mais significativas foi a da pergunta de Maria ao Anjo Gabriel  (Lc 1,34):

— “Como se fará isto [a concepção de Cristo], se não conheço homem?”

Com base nessa frase, desenvolveu-se a interpretação tradicional segundo a qual Maria teria feito um voto de virgindade anterior à Anunciação.

Existem, contudo, outros entendimentos. Com efeito, parece que não havia no Israel da época um contexto sócio-cultural para que se fizessem votos de tal espécie:

a) Desde Caetano (†1534), alguns autores entendem o “não conheço homem” no sentido de “não conheço homem agora neste momento em que estarei concebendo”.

b) Outros intérpretes justificam a pergunta de Maria como mero recurso literário de Lucas para introduzir a explicação dada pelo Anjo.

O parto virginal na Tradição

A virgindade de Maria manifesta a gratuidade da Redenção e a filiação divina de Jesus. Sua virgindade é um sinal de aceitação dos planos divinos e de que os tempos chegaram à sua plenitude.

Por outro lado, o senso da fé explicita que, em atenção a tal disponibilidade de Maria, Deus correspondeu com um parto milagroso que lhe conservou a virgindade, pelo que Maria gerou sem dor quem concebera sem prazer.

Com efeito:

a) Se o Filho de Deus não corrompe o Pai ao ser gerado eternamente, também não corrompeu a Mãe ao ser gerado no tempo.

b) Se o Filho de Deus veio curar, não poderia ferir a Mãe.

c) Se o Filho de Deus manda honrar os pais, também santificou a Mãe.

Razões para um matrimônio virginal

“A compreensão que Cristo tem de si mesmo exige que viva célibe no mundo: os filhos no Antigo Testamento são uma bênção, porque significam a vida, o fruto e o caminho até a promessa. Mas Cristo é já ele mesmo a promessa, a vida e o futuro. Ele é o ponto final porque é a abertura àquela vida que está mais além da biologia e da morte. Por isso, ele mesmo define a existência escatológica como uma existência virginal. Agora tem a virgindade um sentido (que antes de Cristo não tinha): a realização direta da fé na vida eterna já presente” (Joseph Ratzinger, Zur Theologie der Ehe, Tübinger Theologische Quartalschrift, 149 [1969] 53-74 [PDF]).

Por isso, a Virgem Maria também foi virgem depois do parto, e viveu um matrimônio virginal com José:

a) Se Jesus é o Unigênito do Pai, devia ser também o Unigênito da Mãe.

b) Outros filhos nascidos de Maria ofenderiam o Espírito Santo que a fecundara.

c) Consumar o matrimônio depois da geração de Jesus teria sido indigno da santidade vivida por Maria e José.

A santidade típica dos “nazarenos”

Estudos recentes acerca das origens do Cristianismo apontam para a possibilidade de ter existido um movimento religioso na região da Galileia, de inspiração batismal, movido pela iminência do Reino de Deus e ligado à instituição do nazireato, antigo costume de Israel pelo qual as pessoas se consagravam a Deus (cf. Nm 6,1-21).

A cidade de Nazaré, nunca antes citada na Bíblia, pôde ter sido o berço ou o centro de difusão dessa tendência que serviu de matriz para o Cristianismo. De fato, o epíteto “nazareno” parece referir-se mais ao estilo de vida do que ao toponímico (cf. At 24,5).

Da mesma época são os famosos essênios (Flávio Josefo, Vida, II, 10-12), assim como os mandeusebionitas e alexaítas. Entretanto, as alusões aos antigos grupos “paracristãos” são tão abundantes quanto vagas. Perderam-se no vórtice da história, embora de quando em quando surjam seitas que pretendem recuperar a suposta pureza primitiva (batistas, judeus messiânicos, etc.).

Virgindade que ilumina o matrimônio

A eminência do Reino de Deus comporta uma urgência que tudo relativiza, inclusive o matrimônio. Mesmo assim, o matrimônio encontra seu sentido mais profundo no Cristianismo, pois se o celibato antecipa o futuro escatológico, o matrimônio cristão torna realidade o ideal passado no paraíso.

Sem dúvida, viver um matrimônio cristão — monogâmico e indissolúvel — hoje pode parecer difícil, mas realiza o casal de forma mais profunda, na medida que faz o homem e a mulher transcenderem o efêmero. O Cristianismo, vivido tanto no matrimônio quanto no celibato, transporta-nos da temporalidade.

Pode-se dizer que indissolubilidade do Matrimônio é o último aspecto do ideal da exclusividade amorosa. A monogamia vem se impondo e tende a ser aceita em todas as culturas. A fidelidade é prezada apesar de tristes experiências e até justamente por elas. A indissolubilidade, porém, parece menos evidente.

Embora a franca maioria das pessoas entenda a exclusividade amorosa como conveniente, muitos receiam projetá‑la ao longo do tempo. A cultura contemporânea imediatista vê dificuldades em compromissos de longo prazo, e enxerga a entrega irreversível como algo obscuro.

É preciso reconhecer a grandeza do ser humano: ainda que preso à vicissitude temporal, o homem não se rege pelo tempo, pois o transcende enquanto pessoa. Assumir um compromisso amoroso ad tempus, circunstanciado, é indigno de si, desleal para o outro, nocivo para a sociedade.

6 de jun. de 2010

Jesus Cristo, de Superstar a bolha de sabão

Muitas vezes, fico com a impressão de que Jesus Cristo não existe no imaginário coletivo senão como um sonho de infância, uma impressão artística, um efêmero mito pop, um protótipo de teurgista. Seu nome tabu tem estado mais para intejeição do que para jaculatória. Mais famoso que os Beatles (grande coisa!), só é citado no Twitter por crentes cujos tweets espirituais me fazem sentir vergonha alheia.

Suas palavras originaram ditados populares e moldaram ideologias díspares. Caem bem como conselhos de amante no livro Olhai os lírios do campo de Érico Veríssimo, mas soam a discurso moralista quando referidas pela boca de gente clerical.

Como era Jesus Cristo? O que a história nos conta? Por incrível que pareça, ainda encontro pessoas que pensam como Renan, a ponto de negar valor historiográfico aos Evangelhos. Por outro lado, também é possível achar crédulos ingênuos como Dan Brown, que se guiam por leituras obtusas de documentos gnósticos do século IV.

Será que o que não sentimos ou não sabemos não existe? Perguntando de outro jeito: por que desconhecemos Jesus Cristo e nos passa despercebida sua personalidade?

Sempre estimei a explicação de T. S. Eliot para a dificuldade que é sentida pelo leitor moderno com algumas passagens simbólicas da Divina Comédia: o homem medieval prezava o símbolo na mesma medida que o homem atual preza o sonho. Daí nosso desconforto. Acho que tal distinção pode ser útil se a aplicarmos a Jesus Cristo.

Com efeito, Jesus adotava uma pedagogia peculiar, detectável nos Evangelhos canônicos, que não se vê comumente por aí. Ele fazia tudo de forma misteriosa.

Explico-me: Ele juntava o símbolo com o sonho. Um símbolo pode não me dizer nada, mas é uma mensagem dEle para mim. O sonho pode ser confuso, procede dos meus anseios, mas Ele os antevê e entende. Quando se juntam, ocorre uma espécie de mágica: um diálogo do qual eu participo sem saber que tinha sido chamado.

Por outro lado, a pedagogia do mistério torna-se ainda mais instigante na medida que é possível descobrir novos significados a cada releitura. É provável que mesmo os apóstolos tenham levado uns anos para fazer várias inferências. Por exemplo: será que eles captaram imediatamente a razão de Pedro ter recebido o primado em Cesareia de Filipe?

A cena é famosa: Jesus os conduz ao oásis no extremo norte de Israel e ali anuncia que Pedro seria o chefe da futura Igreja, sobre quem o inferno não prevaleceria. Ora, Cesareia era uma cidade pagã, dedicada a Pã, deus dos pastores, e atraía muita gente que contemplava admirada a grande rocha de onde pendia uma bela cascata para dentro de um buraco, chamado então Porta do Inferno. O que queria dizer tudo isso? — Pedro, a Rocha, Pastor, não só de Israel, mas de todos os povos, forte contra as portas do inferno.

Outro exemplo: o diálogo junto ao poço da Sicar. Jesus joga na cara da samaritana que ela que tivera cinco maridos, depois de uma conversa impertinente em que a saidinha fora bem atrevida com Ele. Para quê? Para lhe fazer um sermão moralista? Ao que tudo indica, foi bem ao contrário, pois os poços eram, tradicionalmente, lugar de namoro. Foi aí que Rebeca tinha sido conhecida, Jacó tinha dado um beijo em Raquel e Moisés tinha conhecido sua esposa. Cristo disse exatamente à samaritana: “tiveste cinco baals (maridos) e quem está aqui contigo não é teu marido”, significando que a Samaria tivera cinco deuses mas ainda não tinha a Ele próprio como Deus. (Baal quer dizer “senhor” e assim eram chamados tanto a divindade masculina quanto o marido.)

Os exemplos podem ser multiplicados ao infinito. O estudo acurado de tantas referências cruzadas ocultas nos textos indica que Jesus Cristo “não pregava prego sem estopa” e que tamanha elaboração supera a mera capacidade de criação literária de judeus tão pouco afeiçoados à língua grega.

Ora, mistério (em grego) traduz-se por sacramento (em latim). O termo viu uma rica evolução:
1. “Segredo”, no entendimento comum.
2. “Instrução iniciática”, nos círculos helênicos.
3. “Revelação do desígnio divino”, na primitiva comunidade cristã.
4. “Sinal eficaz da graça”, na teologia cristã posterior.
5. “Sinal da fé”, no reducionismo protestante.

A negação das mediações no protestantismo levou até mesmo à perda do sentido sacramental que Cristo conferiu a toda sua vida. Desta forma, Jesus parece apenas um desses professores que gostam de dar aula ao ar livre e cuja matéria não precisa ser anotada pelos alunos, pois ele não costuma pegar pesado na prova.

Pelo contrário, vejo na leitura sacramental da vida de Cristo uma forma de resgatar sua verdadeira e esquecida imagem. Pois Jesus é mais do que um sonho e mais do que um ícone. Está mais vivo do que nunca e tem muito a nos dizer.

26 de mai. de 2010

Perdidos da Bíblia


Minha experiência pessoal e o conhecimento do que se passou com muitos amigos meus me permitem tocar num tema um tanto curioso.

Estou convencido de que as pessoas estão perdidas da Bíblia. O fato não é de hoje, ainda que — por um triste paradoxo — a situação tenha piorado com o advento do protestantismo.

A questão tem importância não só do ponto de vista cultural, porquanto tal lacuna inviabiliza a captação da matriz cultural ocidental, mas também porque indica uma fragilidade mais profunda do pensamento moderno.

Cabeças pretensamente ilustradas tendem a reduzir a Bíblia a uma coleção de histórias da carochinha. Essa atitude denota falta de retidão intelectual: indica que se aceita, a priori, premissas gratuitas e sem fundamento.

A queixa quanto à dureza do texto bíblico não é de agora. Contam que Santo Ambrósio surpreendia quem lhe pedia conselhos com sugestões inusitadas como: — Está tendo problemas matrimoniais? Leia Isaías. — Ora, o que tem a ver Isaías com o gênio da minha mulher?!? De fato, grande parte do texto inspirado parece desconectado da vida real, das necessidades do seu leitor de ocasião.

Em parte, o texto sacro é tão difícil quanto qualquer obra literária mais antiga. Ninguém lê a Divina Comédia ou Dom Quixote sem recorrer a alguma nota explicativa, à orientação de um entendido ou ao artigo de um especialista. Por outro lado, a Bíblia perdeu na cultura ocidental sua base e contexto quando a reforma protestante contestou a autoridade e a tradição pelas quais a Escritura sempre fora recebida e interpretada.

Paradoxalmente, o reducionismo da religião cristã “ao livro” tornou o texto bíblico patrimônio dos filólogos, exegetas e especialistas. Os novos “sacerdotes da palavra” são agora os iniciados nas lides acadêmicas. O homem comum sente-se intelectualmente incapacitado para aceder ao texto bíblico.

Sem dúvida, Santo Ambrósio adotava uma pedagogia peculiar quando mandava ler Isaías, mas era, ainda assim, coerente e perspicaz: na Bíblia não há soluções para problemas nem mensagens de apoio. A unidade dessa coletânea multissecular de textos tão diversos (poemas, historiografia, fábulas, cartas, máximas, genealogias, novelas, imagens, legislação, etc.) radica-se na crença de que Deus esteve por trás da sua composição. E esse Deus não é um remédio para brigas de casal nem uma pomada para os machucados da vida.

Imaginemos agora que você resolva abrir a Bíblia. Você, provavelmente uma pessoa desacostumada a isso e nada propensa às crendices, com que dificuldades irá se deparar?

Incompreensão do texto

A constatação da multiplicidade de opúsculos, a divisão pouco sistemática, a aparente falta de unidade, as repetições inúteis ou enfadonhas, entre outras coisas, serão as primeiras pedras no caminho.

Se você superar essa primeira fase, desprezando tais obstáculos, talvez até se anime com a leitura, embora pairem dúvidas: Será que vou chegar até o fim? Qual é o argumento de fundo? O que tem isso a ver com Jesus Cristo?

Susto com o texto

Chegou o momento da surpresa: poligamia, gigantes, íncubos, incestos, sacrifícios humanos, estupros, maldições, suicídio.

Na minha opinião, essa dificuldade ainda é a parte mais fácil!

Crítica ao texto

Os leitores mais aplicados talvez recorram a estudos exegéticos e ficarão decepcionados.

Primeiro, porque a biblioteca disponível é vastíssima.

Segundo, porque as metodologias são, na maioria das vezes, de cunho historiográfico.

Terceiro, porque muitos autores se propõem reconstruir a história bíblica conforme suas próprias teorias.

Quarto, porque se descobre que o texto bíblico é fluido, impreciso, não fixado como o do Corão, e inclusive divergente ao comparar-se o cânon das diversas tradições.

Rechaço do texto

Que tal ler um livro inteiramente legislativo ou nove capítulos sequenciais de genalogia? Que tal críticas a problemas políticos de mais de vinte séculos atrás ou uma amálgama de imagens apocalípticas?

A tentação é fugir da raia. Os mais nobres abandonam o Antigo Testamento e só leem o Novo. Contudo, os Evangelhos, um tanto repetitivos e milagreiros, talvez soem excessivamente simbólicos.

Possíveis soluções

Sugiro quatro atitudes:

1. Retirar as “lentes do hoje”: por razões culturais, temos aversão ao simbolismo e gostamos do onírico; preferimos a historiografia científica à narrativa patética; buscamos a segurança do sistema e das receitas à incerteza da poesia e das promessas de futuro.

2. Usar o colírio da oração: sendo Deus o autor principal da Bíblia, muitas luzes advêm da meditação. Não é questão de entender na cabeça, mas de ruminar no coração.

3. Seguir a luz da Tradição: sendo o Povo de Deus o autor secundário e, ao mesmo tempo, o destinatário da Bíblia, a melhor interpretação e aplicação do texto são dadas pela Igreja, não pelo último teólogo de plantão. Há uma enorme riqueza no patrimônio patrístico que podemos aproveitar.

4. Buscar alternativas metodológicas: ainda que a Bíblia contenha muitos textos históricos, não se esgota aí nem é a história sua principal mensagem. Análises retóricas, narrativas, semióticas e abordagens tradicionais, científicas, contextuais, etc., permitem descobrir aspectos insuspeitáveis da Escritura.

****

Você tem alguma dúvida? Não hesite em perguntar!

3 de abr. de 2010

Obrigado pelo presente pascal!

No ano passado, fui almoçar com um amigo de infância que não via há muito tempo. Com a maior desfaçatez, ele se dedicou a achincalhar a Igreja e a citar Umberto Eco como “grande referência”. Eu não abri a boca durante a refeição, não porque estivesse com ela cheia de feijão, mas porque ele não me dava espaço para falar. E eu também não tinha ido com ele ao restaurante para falar desse assunto.

Fiquei pensando: ele agiu de má-fé, querendo me ofender? — Acho que não.

Acabo de receber um e-mail de uma amiga com um monte de frases azedas do Veríssimo contra a Igreja.

Fiquei pensando: ela tem preconceito religioso? — Acho que não.

Se o que todos dizem da Igreja Católica é verdade, então um católico praticante é um imbecil da cabeça aos pés, ou um foragido do manicômio, ou um cego tolhido de razão.

Eu me incluo com muito orgulho na lista desses retrógrados homens quixotescos, desses louco varridos, desses ignorantes fanáticos que vivem fora da realidade.

Curiosamente, esses ataques costumam ser feitos todo ano, geralmente na época da Páscoa ou do Natal. Como a imprensa se alimenta de trending topics e as pessoas vivem de modas ideológicas, tudo passará dentro de uma semana, quando ocorrer algum acidente aéreo ou outra catástrofe natural. Caso não ocorram, pelo menos haverá a Copa do Mundo! Então a mídia concederá sua Indulgência plenária, perdoando a todos os seus alvos, durante um mês.

Teço comentários a algumas frases do Veríssimo no Twitter:

O significado seguinte é o da condição antinatural do homem, obrigado ao celibato ou condenado à hipocrisia.
Ninguém está obrigado ao celibato. Quem quer se casar, que não se ordene. Todos conhecemos senhoras que não se casaram para cuidar da mãe doente. Será que por Cristo não se pode fazer essa mesma opção?
São “hipócritas” os 400 mil sacerdotes não pedófilos que, no mundo inteiro, se dedicam a ajudar as pessoas? Foram 300 casos de pedofilia no mundo inteiro em nove anos, 80% nos EUA. Casos lamentáveis, mas que não impugnam a vida sacrificada de tanta gente abnegada. E algo que convida a refletir sobre o que estaria acontecendo nos EUA.
Finalmente, o celibato foi instituído por Cristo, não pela Igreja.

Seguindo esses círculos sucessivos, fatalmente você chegará à neurose sobre o sexo, que está na base da nossa civilização.
Discurso de gente da época do Muro. Leu Marcuse demais e provou de tudo em 68.

A demonização do sexo e a misoginia são constantes da cultura judaico-cristã e o islamismo não fica atrás.
Demonização? A Igreja considera o matrimônio um sacramento, e a família, uma igreja doméstica!
Misoginia? A Igreja considera Maria a pessoa mais importante da história depois de Jesus! E as nossas santas e doutoras?

O celibato protege o padre do contágio do mal pelo contato com a mulher, descendente de Eva, a primeira desencaminhadora.
Essa heresia é nova! Ora, há padres católicos casados nas Igrejas de rito oriental.

Entre o acobertamento e a omissão, a hierarquia da Igreja tem muito a ver com os crimes praticados por seus sacerdotes.
Primeiro prove os crimes. Por exemplo, toda essa sanha começou quando o Wall Street Journal levantou o caso do padre indiciado em 1979 por abusar de um menino de onze anos na cidade de Essen. Pois bem, ele nunca foi julgado nem muito menos condenado pela Justiça comum. Não havendo a respeito uma sentença transitada em julgado, ninguém tem o direito de afirmar que houve crime. Se o crime não foi confirmado, como poderia sê-lo o seu “acobertamento”? Com base na séria suspeita, o então cardeal Ratzinger ordenou que o acusado fosse submetido a tratamento psiquiátrico e removido para um posto administrativo em Munique onde não tivesse contato com crianças.

Ela sobreviveu à Inquisição, à perseguição aos judeus, à resistência as revelações da ciência, à cumplicidade com tiranos, e pediu desculpas.

Não há espaço aqui para contradizer a tanta falácia em uma única frase.

Ainda hoje dita o comportamento sexual de milhões de pessoas, apesar da sua posição retrógrada na questão dos anticoncepcionais.
A Igreja não é antinada. Ela só propõe um elevado ideal matrimonial. Não quer vivê-lo? Fique à vontade! Problema seu.
Você acha mesmo que a Igreja “controla” a vida sexual das pessoas? Quem de fato parece controlar o imaginário das pessoas é a mídia, quando apresenta a falta de pudor e a promiscuidade como coisas normais.

Mas um dia pedirá desculpas por isto também.

Alguém pedirá desculpas à Igreja ou aos católicos? Afinal, não se pode falar mal de negro, de judeu, de homossexual, etc. Mas de católico, cuspam em cima até dizer chega!

*****
Lembra-se do filme Sexto Sentido? Lá tem um diálogo muito bom, que é o 44º mais citado do cinema, o qual representa bem o que está acontecendo:

Cole: I see dead people.
Malcolm: In your dreams? (Cole shakes his head no)
Malcolm: While you're awake? (Cole nods)
Malcolm: Dead people like, in graves? In coffins?
Cole: Walking around like regular people. They don't see each other. They only see what they want to see. They don't know they're dead.
Malcolm: How often do you see them?
Cole: ALL THE TIME.


Fiquei pensando: essas pessoas não percebem que estão cegas, que estão mortas? — Acho que não.

*****
Concluo com uma pergunta que me foi feita no extinto Formspring:

Como fugir dos esteriótipos e não ser rotulado?
Não sei. Mas geralmente, se você tem moral e sabe dar carinho e consideração, acaba passando incólume.

Na verdade, minha maior surpresa é como pessoas tão inteligentes podem conviver com estereótipos na maior naturalidade.

Muitos vivem no mundo da imaginação e se acham cercados de gente obtusa, sem perceber que os obtusos são eles mesmos.

São doentes que desconhecem a própria doença, anoréxicos que prosseguem em jejum.


*****
Feliz Páscoa!
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