16 de dez de 2010

Fecunda virgindade

Balaão aponta para a estrela
(afresco mariano do século II,
o mais antigo conservado)
Na postagem anterior, comentei que considero improvável que Maria tenha feito um voto de virgindade prévio à Anunciação do Anjo, conforme comumente se aceita.

Partilho antes a hipótese de que Maria tomou a decisão de permanecer célibe ulteriormente à Anunciação, desenvolvida por D. Bernard Orchard OSB.

Antes de explicá-la, porém, gostaria de fundamentar mais algumas ideias prévias, a fim de não deixar dúvidas acerca da verdade da fé católica, que professo com alegria.

Fontes da doutrina

Já que a virgindade de Maria é patente nos Evangelhos, os apologetas defenderam com firmeza esse privilégio mariano desde a mais remota antiguidade. Eis os principais testemunhos:

a) Inácio de Antioquia (†110):

Ao príncipe deste mundo ficou escondida
a virgindade de Maria,
seu parto,
e igualmente a morte do Senhor.
Três mistérios retumbantes,
que foram realizados no silêncio de Deus
.

(Epístola aos Efésios, XIX, 1)

b) Justino (†160): Apologia, I, 33.

c) Irineu de Lião (†202): Epideixis 54 e Adversus hæreses, III, 19, 3.

d) Odes de Salomão (XIX, 6-10).

Desenvolvimento da doutrina

O registro mais antigo da expressão “sempre Virgem” (αειπαρθένος) procede do símbolo de Santo Epifânio de Salamina (374). Desde 553, quando foi utilizado pelo II Concílio de Constantinopla, o termo tornou-se normativo (DS 422).

Mas a ideia da virgindade perpétua de Maria já era comumente ensinada, englobando três momentos (antes, durante e depois do parto), como se lê em Zenão de Verona (†380):

Cæterum illa fuit virgo post connubium,
virgo post conceptum,
virgo post Filium.

(Sermo I, 5, 3)

Maria virgo incorrupta concepit,
post conceptum virgo peperit,
post partum virgo permansit.
(Sermo II, 8, 2)

Ataques à doutrina

A partir do século XVI, surgiu uma tendência à “desmitificação”, oriunda do rompimento protestante com a Tradição e, posteriormente, do diapasão racionalista. O papa Paulo IV interveio então (1555), reafirmando a fé tradicional através da Bula Cum quorumdam (DS 1880).

O problema, contudo, persistiu na cultura moderna, especialmente resistente a essa verdade, embora a virgindade de Maria tenha sido alvo de ataques ao longo de toda a história.

Deficiência de abordagem

Ora, a Revelação divina, da qual a Igreja se considera depositária, recebe dupla custódia:

a) custódia dogmática, realizada pelos bispos, para transmitir a doutrina aos fiéis com autoridade;

b) custódia da literalidade do conteúdo revelado, realizada pelos estudiosos, para evitar a ruptura entre o discurso e a vida.

O problema é que o protestantismo, ao negar a custódia dogmática, transferiu toda a responsabilidade para o “estudioso da Bíblia”, tornando praticamente impossível a determinação do que foi revelado de fato.

Com efeito, a Bíblia não é um manual de teologia, e pode prestar-se às mais variadas e mirabolantes interpretações que passem pela cabeça do último teórico de plantão.
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