Não obstante, gostaria de finalizar a exposição que venho fazendo sobre a virgindade de Maria, tecendo mais algumas considerações que me parecem pertinentes.
Dificuldades textuais
Os Evangelhos são ambíguos ao tratar dessa temática, ou pelo menos dão margem a dúvidas. Por exemplo, por ocasião da Anunciação Maria e José ora parecem noivos (Lc 1,27), ora casados (Mt 1,19s).
Outra fonte de questionamento são os citados “irmãos de Jesus”, como Tiago
e José (Mt 13,55). Este problema é mais simples, pois além de a
expressão ser um hebraísmo, a própria Bíblia atesta que esses parentes são
filhos de “outra Maria” (Mt 28,1), discípula de Cristo.
Dentre todas essas passagens dificultosas, a que talvez tenha dado margem às
especulações mais significativas foi a da pergunta de Maria ao Anjo Gabriel (Lc 1,34):
— “Como se fará isto [a concepção de Cristo], se não conheço homem?”
Com base nessa frase, desenvolveu-se a interpretação tradicional segundo a qual Maria teria feito um voto de virgindade anterior à Anunciação.
— “Como se fará isto [a concepção de Cristo], se não conheço homem?”
Com base nessa frase, desenvolveu-se a interpretação tradicional segundo a qual Maria teria feito um voto de virgindade anterior à Anunciação.
Existem, contudo, outros entendimentos. Com efeito, parece que não
havia no Israel da época um contexto sócio-cultural para que se fizessem votos
de tal espécie:
a) Desde Caetano (†1534), alguns autores entendem o “não conheço homem”
no sentido de “não conheço homem agora neste
momento em que estarei concebendo”.
b) Outros intérpretes justificam a pergunta de Maria como mero recurso literário de Lucas para
introduzir a explicação dada pelo Anjo.
O parto virginal na Tradição
A virgindade de Maria manifesta a gratuidade da Redenção e a filiação divina de Jesus. Sua virgindade é um sinal de aceitação dos planos divinos e de que os tempos chegaram à sua plenitude.
Por outro lado, o senso da fé explicita que, em atenção a tal
disponibilidade de Maria, Deus correspondeu com um parto milagroso que lhe
conservou a virgindade, pelo que Maria
gerou sem dor quem concebera sem prazer.
Com efeito:
Com efeito:
a) Se o Filho de Deus não corrompe o Pai ao ser gerado eternamente,
também não corrompeu a Mãe ao ser gerado no tempo.
b) Se o Filho de Deus veio curar, não poderia ferir a Mãe.
c) Se o Filho de Deus manda honrar os pais, também santificou a Mãe.
Razões para um matrimônio virginal
“A compreensão que Cristo tem de si mesmo exige que viva célibe no mundo: os filhos no Antigo Testamento são uma bênção, porque significam a vida, o fruto e o caminho até a promessa. Mas Cristo é já ele mesmo a promessa, a vida e o futuro. Ele é o ponto final porque é a abertura àquela vida que está mais além da biologia e da morte. Por isso, ele mesmo define a existência escatológica como uma existência virginal. Agora tem a virgindade um sentido (que antes de Cristo não tinha): a realização direta da fé na vida eterna já presente” (Joseph Ratzinger, Zur Theologie der Ehe, Tübinger Theologische Quartalschrift, 149 [1969] 53-74 [PDF]).
Por isso, a Virgem Maria também foi virgem depois do parto, e viveu um
matrimônio virginal com José:
a) Se Jesus é o Unigênito do Pai, devia ser também o Unigênito da Mãe.
b) Outros filhos nascidos de Maria ofenderiam o Espírito Santo que a
fecundara.
c) Consumar o matrimônio depois da geração de Jesus teria sido indigno
da santidade vivida por Maria e José.
A santidade típica dos “nazarenos”
Estudos recentes acerca das origens do Cristianismo apontam para a possibilidade de ter existido um movimento religioso na região da Galileia, de inspiração batismal, movido pela iminência do Reino de Deus e ligado à instituição do nazireato, antigo costume de Israel pelo qual as pessoas se consagravam a Deus (cf. Nm 6,1-21).
A cidade de Nazaré, nunca antes citada na Bíblia, pôde ter sido o berço
ou o centro de difusão dessa tendência que serviu de matriz para o
Cristianismo. De fato, o epíteto “nazareno” parece referir-se mais ao estilo de
vida do que ao toponímico (cf. At 24,5).
Da mesma época são os famosos essênios (Flávio Josefo, Vida, II, 10-12), assim como os mandeus, ebionitas e alexaítas. Entretanto, as alusões aos antigos grupos “paracristãos” são tão
abundantes quanto vagas. Perderam-se no vórtice da história, embora de quando
em quando surjam seitas que pretendem recuperar a suposta pureza primitiva (batistas,
judeus messiânicos, etc.).
Virgindade que ilumina o matrimônio
A eminência do Reino de Deus comporta uma urgência que tudo relativiza, inclusive o matrimônio. Mesmo assim, o matrimônio encontra seu sentido mais profundo no Cristianismo, pois se o celibato antecipa o futuro escatológico, o matrimônio cristão torna realidade o ideal passado no paraíso.
Sem dúvida, viver um matrimônio cristão — monogâmico e indissolúvel — hoje pode
parecer difícil, mas realiza o casal de forma mais profunda, na medida que faz
o homem e a mulher transcenderem o efêmero. O Cristianismo, vivido tanto no matrimônio quanto no celibato, transporta-nos da temporalidade.
Pode-se dizer que indissolubilidade do
Matrimônio é o último aspecto do ideal da exclusividade amorosa. A monogamia vem se impondo e tende a ser
aceita em todas as culturas. A fidelidade é prezada apesar de tristes
experiências e até justamente por elas. A indissolubilidade, porém, parece
menos evidente.
Embora a franca maioria das pessoas entenda a exclusividade amorosa
como conveniente, muitos receiam projetá‑la ao longo do tempo. A cultura
contemporânea imediatista vê dificuldades em compromissos de longo prazo, e
enxerga a entrega irreversível como algo obscuro.
É preciso reconhecer a grandeza do ser humano: ainda que preso à
vicissitude temporal, o homem não se rege pelo tempo, pois o transcende
enquanto pessoa. Assumir um
compromisso amoroso ad tempus, circunstanciado,
é indigno de si, desleal para o outro, nocivo para a sociedade.
