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12 de out. de 2013

Rosa Aparecida

Só tu és a rosa, 
que com várias cores 
floresces, rainha 
no reino das flores. 

Pois só tu, Maria, 
és multiplicada 
nos mil e um nomes 
por nós invocada. 

Dos nossos momentos 
assumes as cores: 
Senhora da Glória 
Senhora das Dores. 

Em Lourdes, Salete, 
na Cova da Iria, 
vieste às crianças, 
ó Virgem Maria! 

Que os homens ouvissem 
teu filho, pediste, 
e ao cabo de um tempo 
de novo partiste. 

A nós, brasileiros, 
vieste em imagem 
ficando conosco 
não só de passagem. 

Das águas de um rio 
quiseste brotar, 
e lá pobres homens 
te foram pescar. 

Só peixes buscavam 
e, nada apanhando, 
de novo lançaram 
as redes, rezando. 

E eis que entre as malhas 
pesada aparece 
estátua de barro, 
que o tempo enegrece! 

“Que linda (eles clamam): 
só falta a cabeça! 
Lancemos as redes, 
talvez apareça…”

Milagre, milagre!, 
pois surge em seguida, 
e juntam-na ao corpo 
da Aparecida. 

Capela farão 
naquele lugar 
no qual a Senhora 
nos quis visitar. 

Com um manto a vestiram 
de ouro e de azul, 
que abriga os romeiros 
do Norte e do Sul. 

O cântico cumpre-se: 
“Sou negra e formosa!” 
Em cores escuras, 
de novo eis a rosa… 

Dom Marcos Barbosa, Poemas para crianças e alguns adultos.

17 de jul. de 2013

Prepare-se para a JMJ!


Chegou a JMJ! Esteja preparado para essa guerra de paz e alegria que invadirá o Rio de Janeiro!

Para isso, vale a pena fazer um rápido check-list de sugestões e outras dicas:

ANTES

1) Durma e coma muito bem nesta semana. Corte o cabelo. Compre tudo o que poderá eventualmente precisar.

2) Separe seu carregador de celular (e ponha créditos!). Reserve barras de cereal para os próximos dias. Complete a mochila com as roupas necessárias.

3) Monte uma munição de cartões de visita, lembranças, presentes, santinhos, etc., para trocar com as pessoas de longe que você irá conhecer.

DURANTE

4) Faça uma boa Confissão sacramental. Entre outras coisas, ela garantirá que você lucre a Indulgência plenária da Jornada!

5) Seja exemplar no espírito de serviço e no bom humor. Não reclame da bagunça que nos espera, nem das coisas mal organizadas, nem de alguma ideia da organização que pareça brega ou peregrina. E, acima de tudo, ignore os espíritos de porco que fatalmente aparecerão (militantes atormentados das mais extravagantes tribos)…

6) Aproveite muito bem os tempos mortos (de espera, de trem, de caminhada, durante a função). Reze, converse, conheça pessoas, cante, brinque.

DEPOIS E SEMPRE

7) Dê prosseguimento ao incremento espiritual adquirido mediante o estudo sistemático da doutrina católica, a oração constante e a direção espiritual assídua.

8) Mantenha as amizades adquiridas.

9) Vença as travas da vergonha e do respeito humano! Faça muito apostolado!

***

Boa Jornada!

Imagine que a munição é a oração:

12 de abr. de 2013

Cinco pressupostos da rasoura igualitária

A figura ao lado, publicada numa fanpage do Papa Francisco, foi recentemente denunciada ao Facebook como “agressiva” (pois vilipendiaria um símbolo pretensamente bom ao utilizá-lo para algo verdadeiramente bom).

Sem dúvida, todos somos iguais e temos os mesmos direitos, mas tem sido muito comum qualificar de “direito” toda sorte de reivindicação, ainda que antropologicamente falida.

Como um dos reclamantes me escreveu expondo a sua opinião contrária, recheada de críticas à Igreja — que entrou de gaiata na história —, enviei-lhe a seguinte resposta que penso ser útil reciclar aqui.

***

Primeiramente, creio ser preciso reconhecermos que você parte de alguns pressupostos “seus”. Assim, é forçoso que chegue a conclusões divergentes da doutrina da Igreja.


Pois bem, devido à solidez da doutrina católica, esses pressupostos devem ser bastante bem avaliados.

Em primeiro lugar você afirma, por exemplo, que a Bíblia “foi usada como objeto de dominação”, ou que o cristianismo justificou “atitudes horríveis”. É difícil entender a quê você se refere ao dizer isso. Afinal, a Igreja tem 2.000 anos e criou raízes em diversíssimas culturas.

Na verdade, a Igreja civilizou o Ocidente e tornou-se um referencial moral para todo o planeta, além de ser responsável por uma rede mundial caritativa, hospitalar e educativa, sem precedentes na história da humanidade. 

Outro pressuposto seu é que as instituições são obrigadas a se atualizarem de acordo com as mudanças culturais. É uma afirmação ambígua: concordo com você se essas mudanças forem boas e vinculantes. Fico em cima do muro se essas mudanças forem boas e indiferentes. Discordo de você se forem mudanças ruins. 

Seu terceiro pressuposto é que a Igreja tem sido lenta para acolher divorciados e homossexuais. Para afirmá-lo, faz referência a pastorais para separados que permitiriam a Comunhão eucarística.

Ora, não me parece cabível comparar rupturas matrimoniais com orientação sexual. 

Por outro lado, a situação dos divorciados é muito variada: há aqueles que simplesmente romperam seu casamento; outros que estão arrependidos do que fizeram; outros que foram traídos; outros que buscaram outro relacionamento afetivo; outros que contraíram responsabilidades decorrentes de novas uniões; etc. Portanto, reduzir a pastoral dos divorciados à possibilidade de comungar é um simplismo muito grande. 

Na verdade, a doutrina da Igreja é claríssima sobre isso: as pessoas que vivem ativamente em segundas núpcias não podem receber os sacramentos enquanto permanecerem nessa situação, pois suas vidas estão em desacordo com o ideal matrimonial proposto por Cristo. Mas isso não quer dizer que não possam ir à Missa, rezar, receber direção espiritual, etc. 

No fundo, a reivindicação dos sacramentos como se fossem “direitos usurpados aos fiéis” é de matriz marxista e não cristã. Quem assim pensa, não sabe o que são os sacramentos.

Seu quarto pressuposto é que a Igreja ignora o direito das pessoas a terem seus eventuais relacionamentos homossexuais reconhecidos civilmente.

Aqui percebo claramente a redução da noção de matrimônio. Se o matrimônio fosse apenas direito à sexualidade, ou tivesse uma finalidade meramente genital, ou nada tivesse a ver com filhos, ou nem tivesse seu conteúdo determinado pela natureza, então eu concordaria com você.

Por fim, seu quinto e último pressuposto é que os homossexuais seriam vistos pela Igreja como “cidadãos de segunda classe”.

Nada mais longe da verdade! Acima de tudo, a Igreja vê cada um de nós como pessoa humana. O epíteto “homossexual” é desnecessário para defender os direitos civis de qualquer um.

14 de mar. de 2013

Francisco, o auspicioso


Papa em Santa Maria Maior
(foto de Dom Antônio Carlos Keller)
O novo Papa escolheu o significativo nome de Francisco. Dois franciscos ilustram a Companhia de que ele faz parte: São Francisco Xavier e São Francisco de Borja. Sem dúvida, são referência obrigatória para entender a sua escolha.

Não obstante, outros três franciscos também vêm logo à memória: São Francisco de Paula, São Francisco de Sales, e o universalmente querido São Francisco de Assis.

Cinco linhas mestras se desenham de imediato:
  • o zelo missionário de Francisco Xavier, apóstolo do Oriente;
  • o primado da oração, buscado por Francisco de Borja, duque de Gandia;
  • a caridade infatigável do eremita do amor, Francisco de Paula;
  • a doutrina acessível e o cuidado pastoral de São Francisco de Sales, Doutor da Igreja;
  • e a pobreza humilde do “poverello” de Assis.
Essas características já eram percebidas em alguma medida no cardeal argentino. Agora parecem tornar-se prognósticos bastante auspiciosos.

Por outro lado, São Francisco de Assis também aponta uma outra direção: o oriente islâmico, o qual muitos franciscanos regaram com o sangue de seu martírio, até que, enfim, conseguiram conquistar o coração dos inimigos.

Que todas essas testemunhas acompanhem o pontificado que se inicia, a fim de que o novo Papa dê prosseguimento à missão iniciada pelo fradinho de Assis: “reconstruir a Igreja”.

De fato, o Espírito Santo surpreendeu outra vez!

12 de mar. de 2013

Conclave ou sineclave?

Embora a Igreja viva entre parênteses jornalísticos — a não ser para a notícia de um derradeiro escândalo sexual ou da mais recente pesquisa quantitativa de fiéis decrescentes —, a renúncia de Bento XVI e a perspectiva do novo conclave não saíram da boca do povo e das páginas dos jornais no último mês.

Fiz duas constatações a esse respeito. Primeira, que nossas mídias são incapazes de analisar os fatos, tanto que resumem dossiês de repórteres estrangeiros pior do que o faria um calouro da faculdade de comunicação.


Exemplo disso é o comentário agridoce da Rachel Sheherazade, por quem nutro admiração, mas que sacrificou o Direito em nome o denuncismo. Segundo ela, cardeais suspeitos de conivência com delitos cometidos por sacerdotes deveriam ser excluídos do conclave. Não sei que autoridade e conhecimento ela possui para versar de tamanha casuística!

Com efeito, o Direito da Igreja garante que nenhum cardeal (que tenha a idade prevista) seja excluído da eleição por nenhum motivo ou pretexto, mesmo que ele tenha incorrido em excomunhão, suspensão ou interdito, ou tenha qualquer outro impedimento eclesiástico: nesse caso a censura é considerada suspensa para efeitos exclusivos da eleição do Papa.

Entre os motivos dessa norma está a vontade de evitar, por todos os meios, que os cardeais sejam pressionados, chantageados ou impedidos de votar. Eles, mesmo incorrendo em censura eclesiástica, não perdem a titularidade dos direitos vinculados ao seu próprio estado.

A segunda constatação que fiz a partir da nossa sofrível cobertura jornalística, é que pequenos e grandes gaiatos aproveitam a ocasião para defender a agenda pós-moderna. Como bem disse Clodovis Boff, “erigem a opinião pessoal como critério último de verdade e gostariam de decidir os artigos da fé na base do plebiscito”.

Por exemplo, Sonia Rabello, ex-vereadora do Rio pelo PV, afirmou que as mulheres devem “compartilhar com os homens todas as posições para que o equilíbrio seja alcançado”. Onde estão as mulheres na votação do Papa? Por que não têm uma “participação mais democrática na gestão da Igreja?”

Não sei que vantagem teriam as mulheres em votar no Papa. Na verdade, quase ninguém na face da Terra faz isso: apenas 100 pessoas contra 6 bilhões de habitantes… É uma discussão totalmente mal colocada. Teoricamente, seria possível que mulheres escolhessem o Papa, se assim a autoridade da Igreja o dispusesse canonicamente. Mas o Papa necessariamente seria um homem, pois é doutrina irreformável que apenas os varões são capazes de receber o sacramento da Ordem.

Em quem aposto para Papa? No Espírito Santo. Ele vai surpreender!

19 de fev. de 2013

O debacle ideológico diante de uma renúncia

Nós seres humanos vivemos em tensão: entre aquilo que é perene, definitivo, estruturante; e aquilo que é dinâmico, mutável, cambiante. Se quiser, pode chamar esse dualismo de masculino – feminino, ying – yang, Cristo – Espírito Santo, etc.

Nesse sentido, para falar da Igreja, é preciso ter presente que ela é um projeto divino realizado na vida dos homens, tanto santos quanto pecadores. E que, para secundar a ação do Espírito Santo nas vicissitudes da história, quem exerce a autoridade procura proteger os carismas com uma estrutura jurídica que os potencialize.

Fazendo uma comparação, é como no amor entre um homem e uma mulher: para selar e salvaguardar os sentimentos, vem a graça do matrimônio coroar a mútua união dessas vidas.

Portanto, não faz sentido opor instituição à vida, ou o aspecto espiritual ao carnal. Isso seria como dizer que Jesus não vale, mas só o Espírito Santo, pois o Espírito traz dinamismo para o mundo, enquanto Jesus apenas fundou uma Igreja necessariamente pervertida pelos homens.

É evidente que as estruturas podem ser melhoradas para melhor realizarem em cada época os ideais que elas devem expressar. Mas isso não justifica impugná-las por princípio.

Não há como exigir da mídia fé sobrenatural para interpretar os fatos da Igreja. No entanto, quando leio nos jornais a opinião de pseudoteólogos egocêntricos ou tarados — hereges contumazes como Boff ou Küng, que se valem da renúncia de Bento XVI para falarem de si mesmos e expelir a bílis do seu fracasso religioso —, pergunto-me se seria demasiado exigir da imprensa uma pouquinho de boa-fé. Ou os jornalistas são tão incompetentes que o fato de eles teimarem anos a fio em contar com a colaboração das mesmas cartas marcadas simplesmente indica o seu completo despreparo intelectual e cultural?

O explicado acima traz à luz apenas uma parte do problema. Afinal, opor estrutura jurídica e dinamismo profético é o simples resultado de aplicar à Igreja Católica premissas protestantes. Ainda faltaria falar de premissas modernistas (dogma e revelação como mitos), e de premissas marxistas (uso do poder para oprimir pessoas carismáticas).

Liberte sua fé das amarras dessas ideologias. Do contrário, seus olhos só enxergarão o que você quiser ver.

16 de fev. de 2013

Quo vadis, Papa?

Estava correndo contra o relógio a 140 km/h quando chegou o torpedo com que me comunicavam a renúncia de Bento XVI. Por sorte a surpresa não me causou um acidente, pois uns cones na pista tinham me feito reduzir a velocidade. 

Em duas semanas, dois chefes de Estado renunciaram: Beatrix da Holanda e Bento XVI da Santa Sé. A primeira pode se dar a esse luxo sem grandes polêmicas, mas o segundo… Quais seriam seus motivos? 

Sempre espere o inesperado. Nunca despreze os conceitos que costumam fazer visita a ritmo de cometa. Renuncie a julgar com ligeireza eventos surpreendentemente singulares. Mas não foi isso que vi na imprensa. Sem dúvida, há pressa em noticiar, em explicar, em comentar, em interpretar. Contudo, quanta pena senti diante da superficialidade de Luís Felipe Pondé, ou da amargura despeitada de Genézio (Leonardo) Boff, ou das teorias conspiratórias de tantos outros críticos acerbos. 

Mais uma vez, o Papa se apresentou como “sinal de contradição”, revelando o segredo de tantos corações que descarregam na Igreja o fel da própria consciência. Após um luminoso pontificado, repleto de conquistas sem precedentes, ainda há quem teime em considerá-lo um fracasso. Ou até quem acuse Bento XVI de ter traído Santo Agostinho e passado para o partido de Pelágio: com efeito, a graça não é mais importante que a mera força humana? 

Quando li a notícia, logo me veio à cabeça a famosa frase apócrifa dos Atos de Pedro, inspirada em Jo 16,5, e imortalizada pela obra de Henryk Sienkiewicz: Quo vadis, Papa? — Papa, aonde vais?

O texto do martírio de São Pedro conta como o velho pescador, informado da cruel perseguição, partiu solitário de Roma a fim de servir o Senhor, mas permanecendo vivo. Ao sair, encontra o próprio Cristo no caminho, a quem pergunta: “Senhor, aonde vais?” (Quo vadis, Domine?

E o Mestre lhe responde: “Vou a Roma para ser crucificado”. Ao que Pedro perguntou: “Serás crucificado novamente?” Mas Jesus lhe respondeu: “Não, Pedro, agora mesmo já estou sendo crucificado”. Então Pedro caiu em si e, vendo que o Senhor subia ao céu, retornou a Roma feliz de saber que seu destino seria o mesmo que o do seu Mestre.

Uma rápida analogia levaria a julgar a renúncia ao sólio pontifício com o mesmo rigor adotado por Dante Alighieri diante da abdicação de Celestino V, o santo papa medieval que o poeta afirma encontrar logo à entrada do Inferno (III, 58-60): 


Alguns já distinguira: eis, de repente,
Olhando, a sombra conheci daquele
Que a grã renúncia fez ignobilmente. 


Ao que parece, São Celestino — conhecido por Dante em 1294 — renunciou perante o Consistório após cinco meses de pontificado por causa de uma astuta campanha do cardeal Gaetani, destinado a sucedê‑lo com o nome de Bonifácio VIII. Desterrado e mantido praticamente prisioneiro em condições desumanas, Celestino veio a morrer dois anos depois. 

Mas o juízo dantesco foi paradoxalmente superado pelo juízo eclesiástico, que elevou à glória dos altares o pobre pontífice acorrentado pelas malhas da intriga. 

A única presunção cabível no caso de Bento XVI, um pastor consciente da gravidade do seu ato, um homem santo, dado à oração e à reflexão, é que ele sofreu muito para chegar a tal decisão e que viu mais benefícios do que prejuízos na mesma. Numa atitude franca e humilde, explicou suas razões aludindo à saúde física e espiritual que estão aquém das necessidades da Igreja neste concreto momento histórico. Portanto, mais do que indagar acerca das debilidades de Bento XVI, é preciso investigar a vulnerabilidade especial que sofre a Igreja de hoje, a ponto de o Papa optar por uma solução tão inusitada. 

Já se disse com muito boa intuição que, com essa renúncia, Bento XVI coroou o ciclo de abnegações que norteou a sua vida de entrega a Deus. Sem dúvida, à pergunta quo vadis, Papa?, ele poderia nos responder como o próprio Senhor: “vou a Roma para ser crucificado” ou — por que não? — “agora mesmo já estou sendo crucificado”. 

***
Transcrevo a passagem original do apócrifo:

Ὡς δὲ ἐξῄει τὴν πύλην, εἶδεν τὸν κύριον εἰσερχόμενον εἰς τὴν Ῥώμην.
Καὶ ἰδὼν αὐτὸν εἶπεν· Κύριε, ποῦ ὧδε;
Καὶ ὁ κύριος αὐτῷ εἶπεν· Εἰσέρχομαι εἰς τὴν Ῥώμην σταυρωθῆναι.
Καὶ ὁ Πέτρος εἶπεν αὐτῷ· Κύριε, πάλιν σταυροῦσαι;
Εἶπεν αὐτῷ· Ναί, Πέτρε, πάλιν σταυροῦμαι.
Καὶ ἐλθὼν εἰς ἑαυτὸν ὁ Πέτρος καὶ θεασάμενος τὸν κύριον εἰς οὐρανὸν ἀνελθόντα,
ὑπέστρεψεν εἰς τὴν Ῥώμην ἀγαλλιώμενος καὶ δοξάζων τὸν κύριον,
ὅτι αὐτὸς εἶπεν· Σταυροῦμαι· ὃ εἰς τὸν Πέτρον ἤμελλεν γίνεσθαι.
(Atos de Pedro, XXXV, 9-16) 

13 de nov. de 2012

Os nove grandes Doutores

Na abside da Basílica de São Pedro, em Roma, encontra-se o monumento à Cátedra do Apóstolo, obra adulta de Bernini, realizada em forma de um grande trono de bronze, sustentado pelas imagens de quatro Doutores da Igreja, dois do Ocidente, Santo Agostinho e Santo Ambrósio, e dois do Oriente, São João Crisóstomo e Santo Atanásio. 

A Cátedra de São Pedro faz referência a um antigo costume romano. Estes celebravam seus defuntos em fevereiro, concluindo suas comemorações a 22 desse mês. Junto aos túmulos, tomavam um repasto sagrado, deixando uma cadeira vazia em representação do antepassado falecido. Rapidamente, o dia 22 de fevereiro passou a recordar a “cátedra” de seu defunto mais ilustre — São Pedro —, junto de cujo túmulo tomavam a refeição eucarística.

A partir do século IV, a expressão “cátedra” também passou a significar a sede fixa do Bispo, posto na igreja matriz de uma diocese, que por isso é chamada de catedral, e constitui o símbolo da autoridade e do magistério do Bispo. 

A presença dessas quatro figuras de Bernini, sustentando a cátedra petrina, evoca a importância que esses homens tiveram — e têm — para a fé da Igreja.

Ambrósio, Gregório, Agostinho e Jerônimo
Agostinho e Ambrósio já figuravam como as grandes luminárias do Ocidente, desde 1298, ao lado de Jerônimo e Gregório I, o Grande. A partir de 1568, São Pio V juntou-lhes outras quatro personalidades eminentes do Oriente: Atanásio, João Crisóstomo, Basílio, o Grande, e Gregório Nazianzeno.

No mesmo ano, Tomás de Aquino foi associado à companhia tão seleta, na qualidade de único Doutor até então não pertencente à Antiguidade. É Doctor Communis, tanto para o Ocidente quanto para o Oriente. 

Atanásio
Aqui seria excessivo falar de todos eles detalhadamente. Mas faço questão de pinçar uma frase de cada um, colhidas do livro Os Doutores da Igreja, de Jean Huscenot:

1) Atanásio, Patriarca de Alexandria (298-373), cinco vezes exilado, responde aos policiais que perguntavam por ele: “Vi Atanásio sim. Ele está pertíssimo!”

2) Basílio Magno, Bispo de Cesareia (330-379): criador de um hospital, advertia os que se despreocupam do próximo: “Não há dúvida de que oprimes tantas pessoas quantas as que poderias ajudar.”

Os amigos Basílio e Gregório
3) Gregório Nazianzeno, Arcebispo de Constantinopla (329-373): amicíssimo de Basílio, confessa: “Cada qual tem o seu ponto fraco; o meu é a amizade!” 

4) Ambrósio, bispo de Milão (340-397): apelidado de Doutor da Virgindade, dirá a quem não preza o matrimônio: “Quem condena o vínculo conjugal condena também os filhos e a sociedade.”

5) João Crisóstomo, Arcebispo de Constantinopla (347-407): sem papas na língua, acabaria sendo perseguido por todos os lados. Dentre suas invectivas, destaca-se esta contra os avarentos: “Ide ao altar da avareza e lá sentireis um cheiro forte de sangue humano. (…) É que a avareza quer a alma da vítima e também a do seu sacrificador.”

Crisóstomo
6) Jerônimo (347-420): após ter sua casa incendiada pelos invejosos hereges pelagianos, escreve: “Vale mais mendigar o pão do que perder a fé.”

7) Doctor gratiæ Agostinho, bispo de Hipona (354-430): a humildade intelectual da maior inteligência do Mundo Antigo o levou a revisar sua vasta obra: “Quero submeter a um escrupuloso exame tudo o que escrevi — livros, cartas ou tratados — e assinalar severamente as suas faltas… Julgar-me a mim próprio, na presença do único Mestre, é o meu único recurso para escapar ao rigores dos seus juízos.”

8) Gregório I Magno, Papa de Roma (540-604): considerado o último dos romanos, transmitiu à Idade Média a herança da Antiguidade que naufragava. Homem versátil e capaz, reivindicava para si o título exclusivo de “Servo dos servos de Deus”, reconhecendo que lhe coubera estar na transição das épocas: “Sacudido pelas vagas das questões, sinto a tempestade roncar por cima da minha cabeça.”

Tomás
Para finalizar, um conselho do Doctor Angelicus, Tomás de Aquino (1225-1274), acerca do presente tema:

“Ora, Deus comunica a verdade pelo brilho da sua natureza;
os doutores são apenas seus ministros,
os quais, portanto, devem ser puros, inteligentes, fervorosos e dóceis.
Por si mesmos, não têm nenhuma suficiência, 

mas podem esperar tudo de Deus”.

29 de out. de 2012

Sete exigências da nova evangelização

1. Amizade com Cristo

Ninguém dá o que não tem. Nova evangelização não consiste em ensinar uma doutrina, mas em ensinar uma relação, isto é, significa ensinar a relacionar-se com Cristo.

Afinal, o Cristianismo é para viver, não para falar. E há por aí um monte de bem-entendidos que são um bando de safados.

2. Contagiar com o ardor apostólico

Mais do mesmo, só que com a novidade do fogo. Diz o provérbio que a primeira condição para se abrir uma loja é sorrir.

E você quer incendiar o mundo sem ser uma brasa?

3. Contar a história de Israel

Seria estranho afirmar que Cristo cumpriu as promessas a Israel e ao mesmo tempo desconhecê-las. Por isso mesmo, São Jerônimo dizia que o desconhecimento da Escritura é o desconhecimento do próprio Cristo.

Não é questão de erudição, mas de um mínimo de intimidade com a Escritura. Gaste menos tempo na Internet e leia a Bíblia 5 min por dia.

4. Domínio da cultura contemporânea

Se você tem a Bíblia na mão direita, tenha o jornal na esquerda. Do contrário, estará criando um gueto intelectual e contradizendo a fé.

A fé se comunica e a comunicação começa por saber ouvir. Antena ligada.

5. Paixão pela Tradição Apostólica

A pior alienação para um católico é querer imitar um protestante. Não é preciso reinventar a roda, ou abrir picadas a facão, pois tudo já se fez e já se disse em nossa história bimilenar.

Você não está sozinho e há experiência de sobra na Tradição. O que falta é ler os grandes autores e estudar a patrística.

6. Ter um coração missionário

Isso não quer dizer necessariamente pegar um avião e ir para a Tailândia. Simplesmente significa sentir-se incomodado com o paganismo do seu quintal.

Se você acha normal a apologia da maconha, o crescente número de divórcios, a baixa assistência à Missa dominical ou a militância homossexual, então você nunca fará nada.

7. Gostar das novas mídias

As novas mídias são a versão 2.0 dos Correios, Telégrafos e Telefones. A sua graça está em aproximar as pessoas, mas é preciso reconhecer que muita gente gasta horas papeando com desconhecidos e vive às turras com quem convive diariamente sob o mesmo teto.

A solução não está em fugir da arena, mas em, respeitando seus limites, lutar conforme as regras.



2 de out. de 2012

Declaração de intenções

Hora de balanço. Melhor: hora de fazer prognósticos.

Com a início do Ano da Fé a 11 de outubro, sinto-me instado ao longo dos próximos meses a dedicar algumas postagens às suas linhas mestras, sob a nova categoria Pátio dos Gentios.

Com efeito, o “Pátio dos Gentios” é uma das iniciativas intelectuais e apostólicas mais emblemáticas dos últimos anos, que de algum modo antecipou a proposta do Ano da Fé. Consiste num fórum neutro e aberto que possibilita o diálogo entre crentes e descrentes.

O Ano da Fé será inaugurado em Roma com um Sínodo sobre a Nova Evangelização. Daqui arrancarão três temas relevantes que pretendo tratar no blogue:

1) A chamada universal à santidade e o valor da vida quotidiana.
2) O indiferentismo ético e religioso.
3) A fratura entre fé e razão e o testemunho da caridade.

Além disso, no meio do Ano da Fé ocorrerá no Rio de Janeiro a tão esperada Jornada Mundial da Juventude, já tratada aqui, mas que ainda proporcionará outras considerações.

Por outro lado, como o Ano da Fé terá um aperitivo na proclamação de dois novos Doutores da Igreja, nada melhor que dedicar a essas 35 luminárias breves resenhas biográficas e curtos florilégios.

Por fim, o Papa indicou que “será decisivo repassar, durante este Ano, a história da nossa fé, que faz ver o mistério insondável da santidade entrelaçada com o pecado” (Carta Porta fidei, 13). Portanto, além dos Doutores, vale a pena falar dos grandes heróis da fé, desde Abraão até alguns Santos mais recentes.

Estou aberto a outras sugestões, que agradeço desde já!

21 de set. de 2012

Três formas de falar da JMJ

Durante os quinze dias dos Jogos Olímpícos de Londres, apenas 900 mil espectadores utilizaram os transportes públicos da cidade. Por outro lado, é de se supor que o número será muito inferior no Rio de Janeiro durante a Copa do Mundo de 2014, pois o evento será restrito a jogos no Maracanã.

Nesse contexto, é sintomática, embora não é surpreendente, a pouca ênfase que se tem dado à próxima Jornada Mundial da Juventude na mídia, que atrairá no mínimo um milhão e meio de pessoas de todos os países para ficarem quatro dias na cidade. Ou seja, um evento de impacto muito maior, tanto numérico quanto em termos de valores.

Não surpreende. Como também não surpreendem as estatísticas sobre a redução do número de católicos no país. A redução é evidente. Contudo, “evidente” significa aparente. Explico-me.

Vivemos num mundo de aparência. Todos tentamos aparentar ser melhores do que somos; o que não é mau, já que por causa desse esforço, talvez realmente melhoremos um pouco. E quem vende tenta fazer sua oferta aparentar qualidade, e quem pechincha tenta aparentar desinteresse, etc.

E a Globo tenta de modo cínico aparentar respeito pela Igreja Católica exibindo o recém-lançado hino da Jornada na despedida do Fantástico. E os “católicos engajados” tentam de modo artificial manifestar uma penetração social que não possuem mediante #hashtags no Twitter e curtições no Youtube.

Nada disso é mau. Tudo isso é sim uma maravilhosa oportunidade de descobrir a paixão por comunicar.

Nesse aprendizado tão curto — pois a JMJ está às portas! —, é urgente levar em conta três coisas ao explicar a JMJ para nossos amigos:

1) A JMJ é para todo mundo, justamente porque é “católica”, universal. Enquanto cismarem em etiquetá-la de “coisa de igreja”, será mesmo um fiasco. Ninguém hoje em sã consciência suporta esse ar rarefeito de sacristia.

2) Os “católicos engajados” precisam abdicar de demarcar território midiático. A população brasileira continua sendo católica, ainda que a maioria seja de católicos à deriva. Uma análise meramente sociológica, de observação externa, que nivela denominações de fundo de quintal com a Igreja é uma aberração estatística. Por isso, ser “missionário” fazendo guetos cibernéticos é contraproducente: apenas aprofunda o sentimento de alheamento dos que estão longe. Portanto, encantar com a JMJ, sem “panfletar” a JMJ.

3) O verdadeiro apostolado se realiza através da amizade, que é comunhão de vida, não de linguagem. As mídias não são a “linguagem dos jovens”, mas a linguagem de todos. É ridículo achar que se tem penetração social apenas porque se criou um site, por exemplo. O que falta de verdade é lançar boias aos que estão à deriva, ou ir ao encontro dos que não querem retornar. Por isso, o eventual “fiasco” a que eu fazia referência é a eventual perda de uma oportunidade ímpar de resgatar os que estão perdidos por aí. Mas talvez, dado o nosso terceiro-mundismo, essa oportunidade não seja nossa mesmo, e a JMJ já tenha valido só por remexer as águas.

Sem dúvida, a JMJ será um sucesso para os “engajados” brasileiros, para os estrangeiros e para os que abrirem os olhos quando virem o mar de gente confluindo para a Cidade Maravilhosa. Quem sabe então muitos dos que estão à deriva começarão a perceber que há um farol no meio desse mar da vida… ainda que não lhes tenhamos mostrado a tempo essa luz.

O negócio é trabalhar e confiar! Afinal, o efeito JMJ será mais fruto da graça do que dos esquemas.

E você? Em que poderia melhorar a sua forma de comunicar?

15 de set. de 2012

A Sibila do Reno

Hildegarda com sua pupila Richardis, no filme Vision

Novos Doutores

Em outubro próximo, iniciará o Ano da Fé. Por essa ocasião, Bento XVI proclamará doutores a São João de Ávila, “Mestre de Santos e a figura de maior destaque num século de gigantes”, e Santa Hildegarda de Bingen, “a Sibila do Reno e Profetiza dos Teutões”.

Os requisitos para que se proclame um Santo como Doutor da Igreja são: eminens doctrina, insignis vitæ sanctitas, Ecclesiæ declaratio (doutrina eminente, santidade insigne e declaração eclesiástica). Em termos práticos, a declaração como Doutor torna obrigatório para a Igreja universal o ofício e a Missa do Santo em questão, cujos ensinamentos são apresentados como uma referência.

Portanto, a decisão de inscrevê-lo nessa lista tão exígua (35 no total) é — eminentemente — pastoral. Essa intenção fica ainda mais patente com a escolha de Hildegarda, que nem mesmo tinha sido solenemente canonizada, embora seu culto fosse estendido na Alemanha. Com efeito, a Sibila do Reno cai nas graças de todo mundo, desde adeptos da New Age às feministas mais ideologizadas.

Nada melhor do que resgatar a mística medieval para o conhecimento dos nativos virtuais do nosso século.

Mulher polímata

Hildegard Von Bingen (1098-1179) é uma personagem muito peculiar: a mestra do mosteiro beneditino de Rupertsberg foi mística, fundadora, teóloga, pregadora, naturalista, médica, escritora, poetisa, dramaturga e compositora. Criou inclusive uma lingua ignota, com alfabeto igualmente desconhecido, com a qual descrevia suas fantásticas visões.

Além de algumas referências esparsas, Bento XVI já lhe dedicou duas audiências, e o Bem-aventurado João Paulo II escreveu uma breve carta sobre ela, que foi uma das mulheres mais importantes da Idade Média e cujas obras podem ser lidas em latim (e em espanhol).

Dentre as suas obras enumeram-se também peças musicais, compostas por revelação divina. É possível encontrar na Internet uma boa seleção:


A Profetisa nas telas

Em 2010, foi lançado o filme Vision: from the live of Hildegard Von Bingen. A diretora, Margarethe Von Trotta, realizou um belo trabalho, doutrinal e moralmente ortodoxo, o qual vem maculado, contudo, por personagens caricaturescos e estereótipos sobre o feminismo, o naturalismo, a época medieval e as práticas penitenciais. A fotografia e o figurino são excelentes; há inclusive alguns pequenos trechos das músicas de Hildegarda. O resultado final é um tanto heterogêneo: o filme pode parecer pesado a alguns, mas vale a pena.

Em compensação, a TV alemã ZDF produzira em 2008 uma série de documentários sobre as 20 maiores personalidades da história germânica, dedicando à Sibila do Reno um dos episódios. Estão disponíveis para download, mas sem legenda.

O verdadeiro feminismo cristão

A figura de Hildegarda é muito apropriada hoje para contestar a difundida falácia feminista de que a mulher teria sido humilhada e maltratada no decurso dos séculos cristãos. É fora de dúvida que, nas antigas civilizações (exceto em parte entre os judeus e os epicuristas), a mulher foi sujeita ao despotismo do varão, era moeda de troca, era vitimada por divórcios arbitrários, submetia-se à prostituição sagrada, etc.

Pelo contrário, no seio do Cristianismo, a mulher encontrou uma defesa de seus direitos, obteve a proteção do matrimônio indissolúvel, recebeu um status até então inimaginável, e foi proposta como o mais sublime dos modelos na figura de Maria.

Hildegarda não é figura isolada. Helena e Teodora II, Teodolina, Clotilde e Radegunda, Catarina de Sena e Teresa de Ávila, entre tantas outras, exerceram mais influência do que qualquer mulher dos tempos modernos. Essa visão distorcida do desprezo cristão pela mulher provém da tendência atual a denegrir a Igreja histórica.

Curiosamente, os mesmos que atribuem à Igreja as “antigas faltas da Cristandade” também lhe atribuem as crises atuais, oriundas justamente do abandono que fizeram da mesma Igreja. Em suma: se para muitos não houve filosofia antes de Kant, para tantos outros não houve história antes da Revolução Francesa…

2 de jul. de 2012

Quem paga a conta?

Dizem que a mulher é vontade, e o homem, inteligência. Mas no restaurante da vida, quem paga a conta?

Antes de tentar responder a essa pergunta, vamos complicar essa mesa, acrescentando o coraçãoO coração é um certo laço entre a vontade e a inteligência, quase um filho de ambos.

Pois bem, para descobrir quem paga a conta, penso que nos pode ajudar a consideração de como a fé — misto de luz e moção interior, intuição e entrega — é acolhida pelo coração.

Fé e razão

Seguindo a Tradição cristã, que tem em Agostinho seu expoente, o homem deseja a Deus, ainda que não o saiba, e pode conhecê-lo através da contemplação do mundo ou de si mesmo.

Deus se revela mediante sua Palavra Criadora, a Palavra da Aliança, a Palavra Profética e, enfim, por sua Palavra Encarnada: Jesus Cristo. Como se deve ouvir a Palavra? Com a “obediência da fé” (CCE 144).

A fé é, simultaneamente, uma adesão pessoal a Deus e o assentimento à verdade que ele nos traz por Cristo no Espírito Santo. A cláusula “no Espírito Santo” é importante, pois indica que nossa fé se apoia na fé da Igreja, que é o locus do Espírito. Ou seja, não há fé fora da Igreja, mas mera opinião ou crendice, pois não se pode crer senão mediante um fiador ou garante do que se crê.

Embora o motivo da fé seja a autoridade de Deus que revela, e não a inteligibilidade do dado revelado, a fé não “está de mal” com a inteligência. Sem a compreensão da fé, facilmente se vai do pietismo à impiedade. Daí a necessidade de fazer mais inteligível o que se crê.

Contudo, ao longo da história, nem sempre houve uma harmonização satisfatória entre fé e razão. De fato, num primeiro momento, alguns Padres viam a filosofia com reserva, inspirados talvez em leituras bíblicas que dizem da ciência que “também é vaidade” (Ecl 2,15), pois “o temor de Deus é o princípio da sabedoria” (Eclo 1,16[14]). Posteriormente, mas em sentido contrário, alguns pensadores cristãos também se afastaram da racionalidade da fé cativados por teses filosóficas voluntaristas.

Erros históricos

Tertuliano (†220) defendia o paradoxo credo quia absurdum, contra Clemente de Alexandria (†215), que equiparava a filosofia para os gregos à Lei mosaica para os judeus.

Sigério de Brabante (†1284): foi o principal defensor do averroísmo latino, ou seja, da existência de dupla verdade, baseado numa interpretação equivocada de Aristóteles.

Bem-aventurado João Duns Escoto OFM (†1308): ensinava a potentia absoluta de Deus, fundamentando teoricamente as teses voluntaristas daqueles que o sucederam. De fato, ao apresentar a liberdade como qualidade fundamental da vontade, levou seus seguidores a considerar a liberdade como inata e absoluta e a negar à vontade a necessária colaboração do intelecto.

Guilherme de Ockham OFM (†1349): separou o âmbito da fé do da racionalidade, que só serviria para descobrir o que é provável.

Gabriel Biel (†1495): apoiava a salvação no querer de Deus, independentemente do mérito humano.

Martinho Lutero (†1546): seu pessimismo quanto ao homem o levava a pensar que o homem, conforme a natureza não faz nada senão pecar e, conforme a inteligência, nada senão errar. A graça e a fé seriam incompatíveis com a natureza e a razão.

Søren Kierkegaard (†1855): para ele, o cristianismo seria verdade por parte de Deus, mas não a intelectualizada.

Rudolf Butmann (†1976): segundo o teólogo protestante, a fé não diria como foi Jesus, mas qual seria a mensagem existencial do mito criado pela Igreja: a conversão.

Ser cerebral ou ser voluntarista?

O mistério da cruz, com sua exigência radical de fé, redimensiona toda essa questão. Tanto o intelectualismo quanto o voluntarismo caem por terra diante da entrega amorosa de Cristo.

Judas Iscariotes representa bem o intelectualismo. Homem frio, calculista, interesseiro, que só se preocupava com o dinheiro, a segurança, as coisas no lugar; ou então com uma preocupação social ineficaz, ou com um nacionalismo terreno. Não lhe entrava na cabeça o caminho da entrega, da generosidade, do esquecimento próprio. Por tudo isso, vendeu Cristo por trinta moedas.

Simão Pedro, porém, encarna o voluntarismo. Homem impetuoso, de coração grande, só se movia por entusiasmos passageiros, por sentimentos favoráveis, por caminhos fáceis e alegres. A renúncia, a abnegação, o passar oculto, custavam-lhe ao coração. Por causa de sua volubilidade acabou por negar Cristo por três vezes.

Só a fé é capaz de iluminar a mente e fortalecer o coração, tornando-se o fundamento da fidelidade.

*****

Afinal, quem paga a conta? Sou muito feminista. Por isso, se elas querem isonomia, penso que quem deve pagar a conta é a gatinha da vontade.

18 de jun. de 2012

Cinco segredos da JMJ

Como necessário complemento aos sete passos para uma bem-sucedida JMJ no Rio de Janeiro, apresento os cinco pontos auge da JMJ de Madri, analisados por Bento XVI em seu balanço de fim de ano (que vale a pena ler na íntegra).

Nova experiência de catolicidade

A JMJ é a nova evangelização ao vivo. Permite apalpar a catolicidade, isto é, a universalidade da Igreja: gente de todos os continentes que, sendo tão diferente pela língua, cultura, nação, compartilha os mesmos sentimentos e ideais. É uma verdadeira aula de pluralismo.

Nova forma de ser homem

Em Madri houve cerca de 20.000 jovens voluntários, indicando a perene vitalidade da caridade, que se reveste formas novas conforme os tempos. Através do altruísmo, da solidariedade e do serviço, muitos redescobrem o amor de Deus e do próximo, que é o verdadeiro motivo da ação humana.

Revalorização da adoração

A presença real de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento da Eucaristia é o ponto focal da JMJ. Dali se alimenta a Igreja e aí encontra forças cada fiel. É a atitude que se tem diante da Eucaristia que define se uma pessoa está ou não comprometida com Cristo.

Redescoberta da Penitência

Não seria autêntico um encontro com Cristo que descuidasse a penitência. Jesus Cristo é exigente e a proposta de vida cristã tem como meta nada menos que a santidade. Por isso, o esforço penitencial de purificação, que todo batizado envida ao longo de sua vida, necessita da graça de Deus para chegar à perfeição. A confissão sacramental dos pecados pessoais ao sacerdote é o único meio ordinário, instituído pelo próprio Cristo, para responder ao esforço humano com o perdão gratuito de Deus. Quem frequenta esse sacramento, recebendo a absolvição de sacerdotes experimentados, enche-se de alegria, de segurança, de confiança em sua luta por ser uma pessoa melhor.

Refortalecimento da alegria

Segundo São Tomás de Aquino, a alegria é “certo ato e efeito da caridade”, já que “a mesma caridade inclina a amar, a desejar o bem amado e a gozar nele” (S. Th., IIa-IIæ, q. 28, a. 5, c). Se pela caridade os cristãos são reconhecidos, em toda parte onde estiverem seu traço característico será, portanto, o sorriso da alegria.

1 de mai. de 2012

Qual é a sua lente?


A mensagem seguinte a enviei em resposta a uma tentativa de apresentar Jesus Cristo como mero modelo de humanidade, a Bíblia como um livro repleto de contradições e a Igreja como uma instituição perversa.

Quem usa as lentes distorcidas da própria interioridade vê o que quer.
*****

Só há contradição onde se desconhece a chave hermenêutica. A chave para a compreensão da Bíblia é, simplesmente, a fé da Igreja, que não é “oculta” como você falou, mas publicamente anunciada. Também não tem nada a ver com uma “chave dentro de nós”. Afinal de contas, quem afirmou que a Bíblia é inspirada foi a Igreja e é a Igreja que explica em que sentido ela é inspirada. Quem aceita a Bíblia mas não aceita a Igreja é um esquizofrênico. Com efeito, se eu tivesse de escolher “os meus livros inspirados”, juntaria a Divina Comédia e alguns diálogos de Platão, nunca o Levítico ou Habacuc. Se fosse assim, eu teria de concordar com você em que a Bíblia alberga em si graves contradições.

Portanto, seria um disparate querer encontrar a chave hermenêutica dentro do próprio texto, com a pouca luz do próprio critério e da própria razão. Você mencionou, porém, que as religiões costumam alegar possuir “a chave interpretativa”. Preciso discordar. Basta conhecer minimamente o Zoroastrismo, o Xintoísmo, o Confucionismo, o Budismo, o Taoísmo, o Xamanismo, etc., para constatar que tais generalizações são infelizes. Como eu tinha apontado no e-mail anterior, esse tipo de denúncia é aplicável ao protestantismo, que absolutizou a Bíblia, mas não ao Catolicismo e muito menos às demais religiões.

Achei graça você dizer que “Jesus acreditava tanto no homem”, pois é justamente o contrário o que atesta a Escritura: “Jesus, no entanto, não lhes dava crédito, porque conhecia a todos e não precisava de ser informado a respeito do ser humano. Ele bem sabia o que havia dentro do homem” (Jo 2,24s). É infantil esperar que a Igreja seja uma comunidade de perfeitos e anjinhos. E essa imagem de Jesus humanista, ou de Jesus amigo dos excluídos, me desgosta demais. Se Jesus é uma mera referência, um modelo, então deixe ele lá no pedestal e me deixe cuidar da minha vidinha.

Pelo contrário, se Jesus é o Logos divino, o Verbo de Deus, a Palavra de Deus, o Filho de Deus feito carne, então o mundo tem uma lógica, a história tem um sentido, Deus me dirigiu sua Palavra, me tornou seu interlocutor, me fez seu filho. A mudança verdadeira não é a mudança estrutural da sociedade, mas a transformação interior de cada um mediante esse contato virtual com Cristo.

Não vou entrar no mérito da necessidade de Cristo e da Igreja para a salvação, pois disso já se falou abundantemente nos últimos 50 anos (veja esse documento, por exemplo). Por motivos de espaço, também me abstenho de comentar a confusão acerca das relações Igreja e Estado, evangelização e inculturação, etc. Para cada clichê e afirmação gratuita seria necessário recorrer a parágrafos de história e erudição que, sinceramente, não vem ao caso.

23 de abr. de 2012

Sete passos para uma bem-sucedida JMJ Rio2013

Michael Cook escreveu acerca da JMJ ocorrida em Madri em 2011, aliás muito bem sucedida, a despeito da aura negativa com que a mídia teima em avaliar os eventos pontifícios.

Com base em suas ideias, pensei em sete providências para que a JMJ carioca de 2013 também dê seu fruto.

1) Que a nova geração assuma sua posição na Igreja

Eventos como World Youth Summit das Nações Unidas, ou mesmo shows do porte do Rock in Rio, embora reúnam milhares de jovens (e tantos não tão jovens), não se comparam às Jornadas Mundiais da Juventude, que costumam atrair milhões de peregrinos de centenas de países, os quais suportam o sacrifício de pagar uma longa viagem e de acomodar-se desconfortavelmente. A razão está no compromisso, na identificação com a Igreja Católica.

Portanto, o sucesso da JMJ passa pela interiorização desse compromisso. Sem dúvida, a desproporção da assistência indica que a próxima geração herdará os valores da Jornada e não dos shows patrocinados, mas isso não isenta da necessidade de assimilá-los e de traduzi-los em propósitos práticos, pessoais.

2) Aprender de Bento XVI, que dita a agenda moral do Ocidente

Desde antes de sua eleição, o Papa Bento alertava para a “ditadura do relativismo”. Seu ensinamento desmonta as atitudes politicamente corretas e a neutralidade moral e tem conseguido chegar aos ouvidos de autoridades aparentemente não tão dispostas a ouvi-lo, como as britânicas ou as germânicas, por exemplo.

Mas se o Papa tem feito gente alheia à Igreja pensar, poderíamos dizer o mesmo dos católicos (e dos católicos brasileiros)? Muitas vezes se tem a impressão, e especialmente no Brasil, que a maioria das pessoas ainda ignora as propostas lançadas por Bento XVI. Portanto, mãos à obra: é a hora de inteirar-se, ler, pôr a mão na cabeça e refletir um pouco.

3) Recorrer ao think tank de um homem só… que é de graça!

O crítico cinematográfico Neal Gabler, do New York Times, lamentou o fim do pensamento profundo e anunciou o advento da pós-ideia. Se isso é assim nas grandes metrópoles do Ocidente, não o é no Vaticano. E mesmo que setores intelligentsia não leiam a obra de Ratzinger sobre moral, filosofia, estética, economia e responsabilidade social, muitos jovens já leram.

Tamanha quantidade de ideias construtivas — acessíveis e gratuitas — promete deixar rastro e construir o futuro de uma geração carente de referenciais. E quanto a você, já leu também?

4) Encontrar a única saída para a CRISE (econômica, política, etc.)

Bento XVI anteviu esses e outros descaminhos e apontou respostas antes que as pessoas começassem a perguntar. A dimensão ética da economia não deve ser minorada nem substituída pela mera regulação.

A gratuidade é uma manifestação concreta da justiça e da caridade cristãs, que traz um remédio providencial para tais momentos de dificuldade. Impõe-se, mais do que nunca, redescobrir as múltiplas facetas da generosidade e do amor.

5) Renunciar ao consumismo e ao sexo desumanizador

Uma liberdade de mal com a verdade transforma-se em utilitarismo. O coração dos que reduzem sua liberdade à mera escolha atola-se no consumismo avaro e no hedonismo erótico. A desilusão é consequência óbvia.

A redescoberta de Deus inspira os sonhos de juventude, levanta o olhar para desafios que valem a pena, alargam o coração para os grandes ideais. Só contemplando a Deus pela oração e ouvindo sua Palavra é possível olhar para o homem e compreendê-lo.

6) Reafirmar que a verdade é mais forte que a utilidade

O discurso para os professores foi o mais memorável de Bento XVI na JMJ da Espanha. Propôs-lhes ensinar a verdade com o exemplo e com a palavra, mais do que mero know-how.

A questão aqui é como encaramos a vida universitária, problema que não afeta apenas o corpo docente, mas também o discente.

7) A JMJ ainda é o segredo bem guardado para o mundo

A cobertura jornalística das JMJs é paupérrima. Se um exíguo grupo de homossexuais fizesse barulho ou reunisse uma boa quantidade de gente disposta a presenciar extravagâncias, receberia holofotes. Não é de estranhar tão pouca atenção da opinião pública para um evento que reúne mais de um milhão de jovens? A JMJ das Filipinas, por exemplo, foi o ato mais massivo da história da humanidade, com quatro milhões de pessoas.

Dizem que o Papa alertou o prefeito do Rio de Janeiro que a JMJ trará um impacto para a cidade muito maior que a Copa ou as Olimpíadas, além de ser muito mais difícil de organizar. Provavelmente, as implicações políticas do encontro até facilitem sua prévia difusão midiática por via institucional.

De qualquer modo, é prioritário explicar para todo mundo o que é a JMJ. Vai na linha do conselho de São Rafael a Tobit: “É bom manter escondido o segredo do rei, mas é honroso revelar e celebrar as obras de Deus” (Tb 12,7a). Com isso, também se prepara a cidade para que não apenas tenha os braços abertos, mas saiba fechá-los num abraço caloroso ao Papa e aos peregrinos.

Contudo, talvez não seja tão peculiar essa miopia jornalística. Afinal, do mesmo modo que a mídia não anteviu a Primavera Árabe, nem a desintegração da União Soviética, etc., é incapaz de captar a história oculta dessas Jornadas.

Essa “história oculta” é capilar em todo o mundo através do fermento de cada jovem transformado pelo encontro com Jesus Cristo através da figura do Pontífice. Ele mesmo declarou aos jornalistas:

A sementeira de Deus é sempre silenciosa, não aparece imediatamente nas estatísticas. E com a semente que o Senhor lança na terra durante as JMJs, acontece como com a semente da qual Ele fala no Evangelho: algumas caem ao logo da estrada e perdem-se; outras caem sobre os pedregulhos e perdem-se; algumas caem entre os espinhos e perdem-se; mas algumas caem na terra boa e produzem muito fruto. Exatamente assim acontece com a sementeira da JMJ: muito se perde — e isto é humano. Com outras palavras do Senhor: o grão de mostarda é pequeno, mas cresce e torna-se uma árvore frondosa. E ainda, certamente, muito se perde, não podemos dizer imediatamente: a partir de amanhã recomeça um grande crescimento da Igreja. Deus não age assim. Mas cresce em silêncio e muito. Sei que das outras JMJs nasceram muitas amizades, e para toda a vida; muitas experiências novas de que Deus existe. E sobre este crescimento silencioso nós depositamos a confiança e estamos certos, embora as estatísticas não se pronunciem muito, de que a semente do Senhor realmente cresce e, para muitas pessoas, será o início de uma amizade com Deus e os outros, de uma universalidade do pensamento, de uma responsabilidade comum que deveras nos mostra que estes dias dão fruto.

*****

Não poderia terminar essas linhas sem fazer referência à análise que o próprio Papa fez da JMJ de Madri. Mas quanto aos cinco segredos que ele constatou em seu balanço, dediquemos uma postagem futura.

19 de abr. de 2012

A ouvido fechado, palavra aberta

Transcrevo trechos de uma mensagem que enviei a uma pessoa cheia de dúvidas, mas que não as resolve porque reluta em conservar seu ceticismo como um troféu.

É que ainda acredito ser possível o diálogo com quem começa a conversa dizendo que nunca vai mudar de ideia.


*****

É evidente que, se digo algo, é porque penso que posso contribuir com algo para sua vida, assim como quando você me diz algo é que quer compartilhar comigo suas convicções. Não é questão de um converter o outro. A conversão, que é um desandar o caminho andado na contramão, necessita de um meia-volta-volver que só Deus pode conceder àqueles que se dispõem a procurá-lo.

Tenho a convicção de que as atuais acusações, feitas à religião em geral (e ao Cristianismo em particular), procedem em grande parte de uma reação crítica ao protestantismo. Por exemplo: chamar os islâmicos de fundamentalistas é uma impropriedade, pois o “fundamentalismo” foi uma seita protestante americana do início do século XX.

Na mesma linha, como os pseudointelectuais de hoje desconhecem a existência de filosofia antes de Kant, é bastante comum que confundam a autêntica moral cristã das bem-aventuranças com sua versão (reduzida, protestante e kantiana) dos imperativos categóricos: daí que Nietzsche se insurja, com acerto, contra uma "moral de escravos". Mas o filósofo, apesar do bom faro, errou sua pontaria…

Explico de outro modo. A moral cristã não pretende simplesmente moldar bons cidadãos: isso é muito pouco. Também não é um código de prescrições: o mero sentido do dever não arrasta ninguém.

O Estado — ainda vale a pena falar dele? afinal, estamos entrando na era pós-estatal —, o Estado gosta é da religião gnóstica e alienante, que não leva seus adeptos a atuarem socialmente em conformidade com seu credo. A gnose é religião privada, sem repercussão pública. Mas uma ação social contundente incomoda a ordem constituída. Convenhamos: a reforma deve ser o estado habitual das coisas, pois cada geração precisa assumir a situação herdada, o que não se faz sem contribuir com sua própria visão. Repare que não estou propondo que se renegue a tradição, mas que ela seja acolhida criticamente por cada geração.

Todo este assunto é muito complexo e não pretendo fazer aqui um tratado. Apenas quis frisar uns pontos para compartilhar com você meu pensamento. Já escrevi sobre alguns desses pontos e deixei algumas aulas em http://audio.narajr.net/. Confesso que, do jeito que trato esses temas, pode ser uma verdadeira indigestão. Mas é o que tenho para falar.

Por que sou católico? Acho que a resposta é simples. É a mesma que deu São Pedro no ponto de inflexão da pregação de Cristo. Você deve se lembrar que, depois de Jesus anunciar que instituiria a Eucaristia, “muitos discípulos o abandonaram e não mais andavam com ele” (Jo 6,66). Então ele se dirigiu aos próprios Apóstolos e lhes propôs que eles fossem embora também. Mas Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).

Faço minhas as palavras dele: A quem irei? A Maomé? A Lutero? A Alan Kardec? A Kant? A Marx? A Freud? A Nietzsche? A Marcuse? A Foucault? A Derrida?…

*****

Deixe-me agora lhe fazer umas perguntas:

A quem você procurou? A quem você pretende ir?
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