15 de set de 2012

A Sibila do Reno

Hildegarda com sua pupila Richardis, no filme Vision

Novos Doutores

Em outubro próximo, iniciará o Ano da Fé. Por essa ocasião, Bento XVI proclamará doutores a São João de Ávila, “Mestre de Santos e a figura de maior destaque num século de gigantes”, e Santa Hildegarda de Bingen, “a Sibila do Reno e Profetiza dos Teutões”.

Os requisitos para que se proclame um Santo como Doutor da Igreja são: eminens doctrina, insignis vitæ sanctitas, Ecclesiæ declaratio (doutrina eminente, santidade insigne e declaração eclesiástica). Em termos práticos, a declaração como Doutor torna obrigatório para a Igreja universal o ofício e a Missa do Santo em questão, cujos ensinamentos são apresentados como uma referência.

Portanto, a decisão de inscrevê-lo nessa lista tão exígua (35 no total) é — eminentemente — pastoral. Essa intenção fica ainda mais patente com a escolha de Hildegarda, que nem mesmo tinha sido solenemente canonizada, embora seu culto fosse estendido na Alemanha. Com efeito, a Sibila do Reno cai nas graças de todo mundo, desde adeptos da New Age às feministas mais ideologizadas.

Nada melhor do que resgatar a mística medieval para o conhecimento dos nativos virtuais do nosso século.

Mulher polímata

Hildegard Von Bingen (1098-1179) é uma personagem muito peculiar: a mestra do mosteiro beneditino de Rupertsberg foi mística, fundadora, teóloga, pregadora, naturalista, médica, escritora, poetisa, dramaturga e compositora. Criou inclusive uma lingua ignota, com alfabeto igualmente desconhecido, com a qual descrevia suas fantásticas visões.

Além de algumas referências esparsas, Bento XVI já lhe dedicou duas audiências, e o Bem-aventurado João Paulo II escreveu uma breve carta sobre ela, que foi uma das mulheres mais importantes da Idade Média e cujas obras podem ser lidas em latim (e em espanhol).

Dentre as suas obras enumeram-se também peças musicais, compostas por revelação divina. É possível encontrar na Internet uma boa seleção:


A Profetisa nas telas

Em 2010, foi lançado o filme Vision: from the live of Hildegard Von Bingen. A diretora, Margarethe Von Trotta, realizou um belo trabalho, doutrinal e moralmente ortodoxo, o qual vem maculado, contudo, por personagens caricaturescos e estereótipos sobre o feminismo, o naturalismo, a época medieval e as práticas penitenciais. A fotografia e o figurino são excelentes; há inclusive alguns pequenos trechos das músicas de Hildegarda. O resultado final é um tanto heterogêneo: o filme pode parecer pesado a alguns, mas vale a pena.

Em compensação, a TV alemã ZDF produzira em 2008 uma série de documentários sobre as 20 maiores personalidades da história germânica, dedicando à Sibila do Reno um dos episódios. Estão disponíveis para download, mas sem legenda.

O verdadeiro feminismo cristão

A figura de Hildegarda é muito apropriada hoje para contestar a difundida falácia feminista de que a mulher teria sido humilhada e maltratada no decurso dos séculos cristãos. É fora de dúvida que, nas antigas civilizações (exceto em parte entre os judeus e os epicuristas), a mulher foi sujeita ao despotismo do varão, era moeda de troca, era vitimada por divórcios arbitrários, submetia-se à prostituição sagrada, etc.

Pelo contrário, no seio do Cristianismo, a mulher encontrou uma defesa de seus direitos, obteve a proteção do matrimônio indissolúvel, recebeu um status até então inimaginável, e foi proposta como o mais sublime dos modelos na figura de Maria.

Hildegarda não é figura isolada. Helena e Teodora II, Teodolina, Clotilde e Radegunda, Catarina de Sena e Teresa de Ávila, entre tantas outras, exerceram mais influência do que qualquer mulher dos tempos modernos. Essa visão distorcida do desprezo cristão pela mulher provém da tendência atual a denegrir a Igreja histórica.

Curiosamente, os mesmos que atribuem à Igreja as “antigas faltas da Cristandade” também lhe atribuem as crises atuais, oriundas justamente do abandono que fizeram da mesma Igreja. Em suma: se para muitos não houve filosofia antes de Kant, para tantos outros não houve história antes da Revolução Francesa…
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