25 de mar de 2010

Porque falar mal de Bento XVI


Minha entrevista mais patética foi feita por um repórter da Record. Eu tinha ido ver o enorme presépio napolitano que fica instalado permanentemente no Museu de Arte Sacra de São Paulo. Como faltavam dois dias para o Natal, a reportagem era uma daquelas típicas de fim de ano.

Disse meu nome e profissão sob os holofotes. Então passei a responder as perguntas:

— O que você achou de interessante nesse presépio?

— Achei interessante a diversidade de situações que ele nos apresenta: desde uma mulher buscando água na fonte até um pizzaiolo com suas pizzas em miniatura.

— Mas você acha que essas situações todas representadas aqui teriam mesmo algo a ver com o episódio do Natal?

— Sem dúvida! Penso que esse presépio nos ensina que o mistério do Natal está inserido em nosso cotidiano.

Saí da entrevista pensando que tinha me dado bem. Afinal, “que sacada a minha” ao perceber que a Encarnação do Verbo tornava divinas todas as realidades humanas representadas naquele presépio tão bonito.

Triste conclusão. No dia seguinte, um amigo tirou uma da minha cara:

— Que ridículo, João Carlos! Para você a única coisa legal do presépio são as pizzas em miniatura? — Fiquei perplexo. Então o meu amigo me explicou que eu tinha aparecido na televisão dizendo apenas isso.

Até hoje me pergunto por que o bendito repórter recolheu o aspecto menos importante da minha resposta como resumo da ópera.

Tenho grandes amigos jornalistas, mas preciso deixar constância que minha experiência com entrevistadores tem sido bastante frustante (já fui entrevistado outras duas infelizes vezes).

Como as operadoras de telefonia, que fazem essas promoções inúteis, ou como os bancos, que estorquem taxas dos correntistas, os jornalistas são muitas vezes sanguessugas da informação que trancafiam a verdade no calabouço da sua ignorância e que a filtram no coador da sua estreita visão de mundo.

*****

Bento XVI está sob fogo cruzado e a mídia tem grande responsabilidade nessa armação.

Sabe o ALT+F3 do MSWord? Aquela função que faz aparecer expressões feitas ao lado de palavras-chave? Pois bem, as notícas podem ser novas, mas os motes são os mesmos de sempre: com um ALT+F3, e Michael Jackson é o rei do pop, o Opus Dei se torna uma instituição ultraconservadora da Igreja Católica e o Ratzinger vira o Papa panzer. Tudo fica devidamente rotulado.

Com quem eu poderia falar para pedir que atualizassem o banco de dados do ALT+F3? Esse é o mal do jornalismo: não constrói conhecimento. As perguntas são sempre as mesmas, as opiniões estão cristalizadas, as críticas refletem a moda, as conclusões são impostas por uns poucos.

A desconstrução de uma imagem

Até 1984, o cardeal Ratzinger era superbadalado: um teólogo progressista, brilhante e inovador, impulsionador de reformas na Igreja, homem sem papas na língua, professor de prestígio, excelente debatedor, conciliador de desavindos, etc.

A partir daí, tudo mudou. Por quê? Nessa ocasião, foi feita uma consulta à Congregação para a Doutrina da Fé, por ele presidida, para saber se o cânon a respeito das sociedades secretas, que aparece no novo Código de Direito Canônico, se aplica aos maçons. A resposta foi positiva.

Sem fazer teoria da conspiração, não é preciso dizer que a mídia está nas mãos de muitos maçons.

Por outro lado, no Brasil, a imagem de Ratzinger ficou arranhada por causa do sr. Genésio, vulgo Leonardo Boff, a quem Ratzinger ajudara quando este era estudante em Roma. Boff, cujas obras já tinham sido rechaçadas no Rio de Janeiro, apelou a Roma com ânimo de fazer estardalhaço. Achando que seria excomungado ou coisa pior, ficou com o orgulho duplamente ferido porque apenas foi confirmada a condenação carioca e proibido de ensinar em nome da Igreja. Saiu por aí dizendo que fora julgado no tribunal da Inquisição e, como não tinha sido excomungado, ele mesmo afastou-se voluntariamente da Fé.

Boff pode ser erudito, mas não escreve coisa com coisa. É de admirar que, vira e mexe, os jornalistas peçam sua opinião sobre assuntos eclesiásticos. Seria como perguntar a Jânio Quadros como deveria comportar-se o presidente da República.

Praticamente não houve pensamento teológico no Brasil. Talvez seja essa a razão do prestígio tupiniquim de Leonardo Boff. Só por um mínimo de consideração, deixo constância que, pelo menos, gosto da sua definição de pessoa: “substância individual de natureza relacional”. Mas é preciso dizer que está calcada nos estudos de um de seus mestres: Joseph Ratzinger.

Com efeito, Ratzinger sabe ir além de São Tomás quando percebe que as teses do Doutor Angélico são insuficientes. Num magistral artigo sobre o conceito de pessoa, publicado no livro Dogma e anúncio, depois de apontar as vantagens e desvantagens da definição tomista (“subsistente individual de natureza racional”), consegue até encontrar um contributo na filosofia de Feuerbach!

Esse tipo de orientação intelectual poderia lhe acarretar a repulsa dos tradicionalistas e a reserva dos conservadores. Mas, pelo contrário, a robustez do seu pensamento, eivado na mais autêntica tradição patrística e na solidez da Escritura, associado ao seu caráter generoso e conciliador, atraiu-lhe a aceitação desses grupos minoritários.

Sua honestidade intelectual é admirável. Exemplo disso é a permanência de Walter Kasper, seu eterno rival, na cúria romana. É seu desejo expresso contar com colaboradores que dissintam de seu modo de pensar.

Não à toa ele conseguira que os luteranos assinassem, em 1999, a histórica declaração que começou a liquidar a causa da reforma protestante.

Os primeiros anos de pontificado foram promissores: ortodoxos e anglicanos cada vez mais próximos da comunhão total com Roma, o amor como pano de fundo da sua pregação, uma linguagem acessível e profunda para dialogar com um Ocidente relativista, etc.

Mas Bento XVI também se viu atacado por todos os lados. Ainda que se possa atribuir a sanha da imprensa em parte a um fraco escritório de comunicação no Vaticano, é forçoso reconhecer que os próprios católicos têm agido estupidamente e com pouca lealdade, servindo aos jornalistas um prato feito.

Infelizmente, o grande inimigo de Bento XVI é a ignorância dos seus opositores. Quantas linhas de suas obras foram lidas pelos que falam mal dele?

A gravidade da situação é que essa ignorância é orgulhosa, é anoréxica. Quanto maior o desconhecimento, menor a disposição de estudar.

Algumas sugestões

Leituras:

Encíclica Deus caritas est: eros e agape.
Encíclica Spe salvi: esperança e progresso.
Encíclica Caritas in veritate: verdade e economia.
Livro Jesus de Nazaré: a vida de Cristo (a tradução brasileira está péssima).
Livro Introdução ao cristianismo: exige cultura e conhecimento filosófico.
Livro Fé, verdade e tolerância: sobre a relação do Cristianismo com as religiões.
Livro Sal da terra: entrevista sobre a Igreja.
Livro Minha vida: autobiografia.

Sites:

http://www.unav.es/tdogmatica/ratzinger/
http://www.popebenedictxvifanclub.com/
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