26 de mar de 2010

Evento, tradição, cultura, vivência

Espaço e tempo

Segundo Gabriel Marcel, o espaço e o tempo são as coordenadas vitais do homem. O tempo passa de modos diversos conforme cada psicologia o sabe captar, não se podendo afrontá‑lo como mera sucessão de instantes, mecanicamente. A vivência do tempo marca a experiência da temporalidade: se as diversas pessoas têm, inclusive em momentos variados, distintas experiências do tempo, tal sucede também nas diferentes culturas.

Pode‑se falar de uma “estrutura hilemórfica” da história, pela analogia entre evento-tradição e matéria-forma. Dependendo da aplicação desta analogia, adotam‑se as mais variadas posturas filosóficas.

Concepção circular fatalista do tempo versus concepção cristã

A tese grega dos ciclos cósmicos, elaborada a partir do espaço e dos ritmos da vegetação — topicamente afirmada desde Nietzsche — é, porém, uma tênue percepção do único ciclo (cf. Hb 4,29) a que o homem é chamado a dar cumprimento sobre a terra: o qual, segundo a verdade revelada por Cristo, “cumpre‑se a si mesmo em Deus, que veio ao seu encontro mediante o eterno Filho”. “O tempo cumpriu‑se pelo próprio fato de Deus se ter entranhado na história do homem, com a Encarnação. A eternidade entrou no tempo: poderia haver ‘cumprimento’ maior que este? Que outro cumprimento seria possível?” (João Paulo II, Carta Ap. Tertio Millennio Adveniente, n.º 9, 1994)

Concepção negativa e mecânica do tempo

Platão manterá uma visão negativa do tempo — degradação da eternidade hiperurânia —, do qual se deveria fugir pela morte, pois só pela libertação do cárcere corporal a alma seria livre do infortúnio do mundo da materia, fabricação do demiúrgo.

Aristóteles, evitando a circularidade do tempo — definido por ele como “número e medida do movimento segundo o antes e o depois” —, explicará o movimento contínuo mediante um primeiro motor imóvel, Deus. A tese foi participada por Descartes, que deixou a herança filosófica do tempo como sucessão de instantes discontínuos, reduzindo a criação a uma “fabricação inicial”, origem das afirmações deístas acerca de Deus como “Arquiteto do Universo” e da imagem, largamente utilizada na catequese infantil, de Deus como um relojoeiro.

Historicismo e ucronia

No século XIX, por influência do romantismo, tradicionalista e cultor da consciência coletiva dos povos, desenvolveu‑se muito a linguística histórica, a história da política, da economia, da religião e da arte, da filosofia e da filologia.

O historicismo, ao aprofundar na pesquisa das relações humanas condicionadas pelo processo temporal, negou a transcendência do homem à própria história, reduzida à sucessão de pathos, isto é, das estruturas psíquicas coletivas. A vivência histórica só poderia captar como os homens experimentaram interiormente os conceitos, não a verdade ou a falsidade dos seus conteúdos.

A presença do passado no presente é em forma de possibilitação. No presente histórico há algo mais que as determinações produzidas por um exercício de faculdades e algo menos que uma efetiva presença real do que já passou. Esse mais e esse menos é o âmbito das possibilidades. O passado não se perde, pois é realidade subjacente, antes se conserva, como possibilidade real, não como puntiforme atualidade real: torna‑se hábito ao passar.

A ucronia é justamente a negação dessa herança, o desprezo das possibilidades que tornam histórico o temporal, a antitude anti‑histórica com o passado. Renouvier (Ucronia: a utopia na história, 1944) tentou considerar o que poderia ocorrer se tivessem havido outras circunstâncias e possibilidades na história ocidental, mas omitiu muitas das condições que se deram efetivamente, inclusive excluindo o cristianismo. Toda a literatura política ativa está cega com propostas ucrônicas.

Visão realista

Teilhard de Chardin, ao falar de cosmogênese, defendeu a ideia de que a criação continua se realizando: não haveria solução de continuidade no sentido do cosmos, que apontaria para o “Cristo Universal”.

Bergson, pretendendo ater‑se à realidade e salvaguardar a consciência e a sua irredutibilidade à matéria, introduziu a distinção de tempo espacializado ou mecânico e duração. Aquele seria reversível, externo, quantificável, passível de simultaneidade; o tempo como duração é o tempo da consciência, capaz de unir ao presente a memória do passado e a antecipação do futuro.

Essas tentativas manifestam a busca de uma visão realista do tempo, que encare o passado como condicionante — mas não determinante — do futuro, ao deixar de herança para o presente uma série de possibilidades reais.
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