3 de abr de 2010

Obrigado pelo presente pascal!

No ano passado, fui almoçar com um amigo de infância que não via há muito tempo. Com a maior desfaçatez, ele se dedicou a achincalhar a Igreja e a citar Umberto Eco como “grande referência”. Eu não abri a boca durante a refeição, não porque estivesse com ela cheia de feijão, mas porque ele não me dava espaço para falar. E eu também não tinha ido com ele ao restaurante para falar desse assunto.

Fiquei pensando: ele agiu de má-fé, querendo me ofender? — Acho que não.

Acabo de receber um e-mail de uma amiga com um monte de frases azedas do Veríssimo contra a Igreja.

Fiquei pensando: ela tem preconceito religioso? — Acho que não.

Se o que todos dizem da Igreja Católica é verdade, então um católico praticante é um imbecil da cabeça aos pés, ou um foragido do manicômio, ou um cego tolhido de razão.

Eu me incluo com muito orgulho na lista desses retrógrados homens quixotescos, desses louco varridos, desses ignorantes fanáticos que vivem fora da realidade.

Curiosamente, esses ataques costumam ser feitos todo ano, geralmente na época da Páscoa ou do Natal. Como a imprensa se alimenta de trending topics e as pessoas vivem de modas ideológicas, tudo passará dentro de uma semana, quando ocorrer algum acidente aéreo ou outra catástrofe natural. Caso não ocorram, pelo menos haverá a Copa do Mundo! Então a mídia concederá sua Indulgência plenária, perdoando a todos os seus alvos, durante um mês.

Teço comentários a algumas frases do Veríssimo no Twitter:

O significado seguinte é o da condição antinatural do homem, obrigado ao celibato ou condenado à hipocrisia.
Ninguém está obrigado ao celibato. Quem quer se casar, que não se ordene. Todos conhecemos senhoras que não se casaram para cuidar da mãe doente. Será que por Cristo não se pode fazer essa mesma opção?
São “hipócritas” os 400 mil sacerdotes não pedófilos que, no mundo inteiro, se dedicam a ajudar as pessoas? Foram 300 casos de pedofilia no mundo inteiro em nove anos, 80% nos EUA. Casos lamentáveis, mas que não impugnam a vida sacrificada de tanta gente abnegada. E algo que convida a refletir sobre o que estaria acontecendo nos EUA.
Finalmente, o celibato foi instituído por Cristo, não pela Igreja.

Seguindo esses círculos sucessivos, fatalmente você chegará à neurose sobre o sexo, que está na base da nossa civilização.
Discurso de gente da época do Muro. Leu Marcuse demais e provou de tudo em 68.

A demonização do sexo e a misoginia são constantes da cultura judaico-cristã e o islamismo não fica atrás.
Demonização? A Igreja considera o matrimônio um sacramento, e a família, uma igreja doméstica!
Misoginia? A Igreja considera Maria a pessoa mais importante da história depois de Jesus! E as nossas santas e doutoras?

O celibato protege o padre do contágio do mal pelo contato com a mulher, descendente de Eva, a primeira desencaminhadora.
Essa heresia é nova! Ora, há padres católicos casados nas Igrejas de rito oriental.

Entre o acobertamento e a omissão, a hierarquia da Igreja tem muito a ver com os crimes praticados por seus sacerdotes.
Primeiro prove os crimes. Por exemplo, toda essa sanha começou quando o Wall Street Journal levantou o caso do padre indiciado em 1979 por abusar de um menino de onze anos na cidade de Essen. Pois bem, ele nunca foi julgado nem muito menos condenado pela Justiça comum. Não havendo a respeito uma sentença transitada em julgado, ninguém tem o direito de afirmar que houve crime. Se o crime não foi confirmado, como poderia sê-lo o seu “acobertamento”? Com base na séria suspeita, o então cardeal Ratzinger ordenou que o acusado fosse submetido a tratamento psiquiátrico e removido para um posto administrativo em Munique onde não tivesse contato com crianças.

Ela sobreviveu à Inquisição, à perseguição aos judeus, à resistência as revelações da ciência, à cumplicidade com tiranos, e pediu desculpas.

Não há espaço aqui para contradizer a tanta falácia em uma única frase.

Ainda hoje dita o comportamento sexual de milhões de pessoas, apesar da sua posição retrógrada na questão dos anticoncepcionais.
A Igreja não é antinada. Ela só propõe um elevado ideal matrimonial. Não quer vivê-lo? Fique à vontade! Problema seu.
Você acha mesmo que a Igreja “controla” a vida sexual das pessoas? Quem de fato parece controlar o imaginário das pessoas é a mídia, quando apresenta a falta de pudor e a promiscuidade como coisas normais.

Mas um dia pedirá desculpas por isto também.

Alguém pedirá desculpas à Igreja ou aos católicos? Afinal, não se pode falar mal de negro, de judeu, de homossexual, etc. Mas de católico, cuspam em cima até dizer chega!

*****
Lembra-se do filme Sexto Sentido? Lá tem um diálogo muito bom, que é o 44º mais citado do cinema, o qual representa bem o que está acontecendo:

Cole: I see dead people.
Malcolm: In your dreams? (Cole shakes his head no)
Malcolm: While you're awake? (Cole nods)
Malcolm: Dead people like, in graves? In coffins?
Cole: Walking around like regular people. They don't see each other. They only see what they want to see. They don't know they're dead.
Malcolm: How often do you see them?
Cole: ALL THE TIME.


Fiquei pensando: essas pessoas não percebem que estão cegas, que estão mortas? — Acho que não.

*****
Concluo com uma pergunta que me foi feita no extinto Formspring:

Como fugir dos esteriótipos e não ser rotulado?
Não sei. Mas geralmente, se você tem moral e sabe dar carinho e consideração, acaba passando incólume.

Na verdade, minha maior surpresa é como pessoas tão inteligentes podem conviver com estereótipos na maior naturalidade.

Muitos vivem no mundo da imaginação e se acham cercados de gente obtusa, sem perceber que os obtusos são eles mesmos.

São doentes que desconhecem a própria doença, anoréxicos que prosseguem em jejum.


*****
Feliz Páscoa!
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