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28 de ago. de 2011

Pornochanchada intelectual

Embora frequentemente se afirme que existe uma distinção entre erotismo artístico e pornografia descarada, penso que a seguinte consideração é um bom contra-argumento: pornografia é a publicação (grafia) de qualquer conteúdo erótico, fora do seu contexto normal (porneia).

Perdoem-me uma digressão: não estou me referindo à sensualidade. Isso me parece tão banal quanto um musse de chocolate ser gostoso. Só faço este aparte para não confundir a discussão; afinal, a capacidade de atração feminina tornou-se uma “virtude” na boca de alguns pedreiros. Mas se virtude é algo perene e raras são as idosas que conservam tal prerrogativa, convenhamos que a sensualidade não deva ser virtude…

Em geral, a defesa dos pornógrafos é: “não somos puritanos”. Puritanismo é palavra mágica. Na verdade, é uma minissaia que mostra mais do que esconde acerca da inteligência e das convicções morais do interessado.

Talvez a linha de argumentação mais comum seja a seguinte: erotismo é revelar, pornografia é exibir. Mas será que há tanta diferença? O que fazemos é erotismo e o que os outros fazem é pornografia? Um é chuchu e o outro é pimenta? Ou ao contrário?

Como estamos em tempo de vale-tudo, parece que a única intenção inaceitável para certa opinião pública seria o erotismo gratuito para atrair audiência, o conteúdo vazio embalado a seio farto.

Ressalvando as mudanças históricas quanto ao pudor e as circunstâncias culturais e geográficas que influenciam a moda, dou minha opinião. O bem é condição metafísica da beleza: não vejo arte onde a técnica apurada seja serva de outras intenções. E como não é bom olhar para o que não é lícito desejar, tire o resto da conclusão.

Nada a ver, mas achei graça da definição do Houaiss para pornochanchada: subgênero de filmes popularescos de baixíssima ou péssima qualidade conceptual, formal e cultural, caracterizados por cenas de nudez, de sexo explícito e diálogos que mesclam pornofonia e humor frequentemente escatológico.

E para você, qual é a diferença entre pornografia e erotismo?

7 de ago. de 2011

Moda sentimental

Cultura emocional, emoção de massa

Gestão da satisfação. Imediatez da satisfação. Expressão da satisfação.

O novo regime emocional dilui as fronteiras do público, privado e íntimo. Sucesso emocional é dar visibilidade ao prosaico, num reality show vital. 

Os meios de comunicação potencializam a cultura emocional. Contribuem para a criação do clima sentimental das reações quotidianas: simpatia, feeling, intuição.

Desta feita, mesmo os mais requintados também cedem à pressão da moda, pois as imagens, condutas e ideais absorvidos do entorno influem na forma de encarar a própria vida.

Sociologia da emoção

No processo de socialização, as emoções exercem um papel importantíssimo, permitindo uma análise social privilegiada, pois os sentimentos revelam tanto a pessoa que os experimenta quanto o ambiente em que vive.

Além da textura da vida quotidiana, a análise das emoções ajuda a encontrar padrões numa sociedade complexa, individualizada e fragmentária em que as grandes teorias explicam pouco.

20 de nov. de 2010

Cultura da corrosão


Crítica camarada

Um grande amigo reclamou de mim. Desgostava das imagens que acompanhavam alguns dos itens compartilhados por mim. As imagens não eram minhas, mas retratavam sobremaneira a estética do desencanto que marca nossa época, coisa que ele considera de todo inconveniente.

Confesso que até gosto desse tipo de imagens, na medida que nos surpreendem e podem nos atrair à leitura. Portanto, utilizá-las equivale a jogar no limite e andar sobre o fio da navalha: pois o que a uns agrada, a outros pode causar repulsa.

Fiquei contente com esse tipo de retorno. Sinal de que, na barafunda da informação, o que eu disse ou compartilhei não caiu no vácuo da indiferença.

Projetos inacabados

Tudo isso e mais um pouco me motivou a fazer um exame de consciência acerca deste blog. Tenho de reconhecer que deixei coisas inacabadas… Talvez fazendo uma lista delas, torne a me animar para concluí-las.

A primeira foi um ensaio sobre o mistério da tipologia feminina. Um contraponto entre a verdadeira Eva e a fake-doll. Algo como distinguir as três mulheres de Xangô. Basicamente, faltou falar de Eva.

A segunda foi uma exposição sobre estética. Dá para escrever bastante, possuo inclusive anotações, mas bateu aquela preguiça.

A terceira é sobre a amizade. Após falar da amizade de Aquiles por Pátroclo, necessário é trazer o assunto para os nossos dias, o que ainda não fiz… [Feito!]

A quarta consiste nos difundidos erros sobre a Bíblia. Feita a explicação do maniqueísmo subjacente a esses erros, fiquei devendo os exemplos concretos.

Mais do mesmo

Curiosamente, sem ter previsto, acabei voltando a falar de velhas coisas, desta feita sob outro enfoque, o que causou um bom retorno de alguns leitores. De fato, de que adianta ter escrito sobre assuntos empoeirados? Dois temas recentes nessa linha foram as postagens sobre a culpa e a religião.

Ideias inconcretas

Para finalizar, faço uma declaração de intenções. Gostaria muito de escrever a respeito do kardecismo, dos orixás e de ecumenismo [Feito!]. Por quê?

Porque o brasileiro é soropositivo do espiritismo. Fora o embalo do Chico Xavier. Além disso, o brasileiro é herdeiro da mitologia iorubá.

Com relação ao ecumenismo, é que eu gostaria de publicar trechos de umas cartas. Mas isso vai depender da aceitação da outra parte!

14 de jul. de 2010

Trending topics

Mesmos macacos de imitação

Antes eu já escrevera que o mundo vive de trending topics. Os elos da corrente da vida são notícias de variada procedência que, por um misterioso querer do destino, sobem à crista da informação.

Desde Mick Jagger ao Polvo Paul, da queda do avião no Atlântico ao terremoto no Chile, a opinião pública é conclamada a volver sua atenção à última epifania jornalística.

É forçoso também recordar que tanto a campanha da #fichalimpa quanto o #calabocagalvão fizeram o itinerário ao contrário: da opinião pública à mídia. Sem dúvida, tal novidade é louvável, pois demonstra a força independente do público diante dos produtores de notícia. O protagonismo foi transferido a novos promotores de mobilização.

Os neomobilizadores são os que dominam a nova estética da comunicação de rede, o que ainda é prerrogativa de uns poucos. A massa continua repetindo, seguindo, retwittando, obedecendo ao que seu mestre mandar, ainda que seja um mestre difuso.

Novo calendário de interesses

Em maio, quando faltava assunto na mídia, o Papa tornara-se seu alvo constante. Já se tinham esgotado os temas do Haiti, das enchentes, do Michael Jackson, etc. Mas era óbvio que deixariam o Papa em paz com o início da Copa do Mundo.

Agora, com o fim da Copa, o foco é o esquartejamento da amante de um futebolista, o que em breve dará lugar às eleições. A menos que de permeio aconteça um tsunami no Maranhão ou se descubra que a Lady Gaga é homem.

Certamente, a história se desenvolve ao longo do tempo mediante fatos candentes. Nosso noticiário, porém, parece-se mais a uma saga (compilação de histórias, colcha de retalhos narrativos), cujas partes são concatenadas de acordo com o humor do aedo de plantão.

Pode-se afirmar que os eventos substituíram os tempos. Os trending topics são um novo tipo jubileu na era da informação. O jubileu era a solene comemoração de um aniversário redondo. Semelhante às bodas, o jubileu torna memoráveis os eventos fundantes de uma cultura, etnia, nação ou família. Os fatos significativos do passado são celebrados porque possibilitaram o presente e condicionaram o futuro, que são as coordenadas da liberdade.

Os trending topics, pelo contrário, são arbitrários. São monumentos dedicados ao efêmero. São tão ocos que podem servir para contar o passar do tempo da mesma forma como, na época de Roma, o nome dos cônsules servia para a datação, antes de Dionísio o Exíguo instituir a numeração cardinal da Era Cristã.

Enquanto jubileu ao contrário, um trending topic nada traz à memória. Pelo contrário, apenas atiça a curiosidade e forja personalidades pautadas mais por novidades do que por experiências e convicções. Não abre espaço à liberdade construtiva, somente à ironia mordaz.

*****

Responde-me ou te devoro: quem de manhã lê quatro e-mails, ao meio-dia dois tweets e à tarde três feeds?

Agora é sério: qual o seu trending topic para o dia de hoje?

15 de jun. de 2010

Joan é fanática. Vírgula

Nesses dias, tenho revisto o seriado americano Joan of Arcadia. Recomendo. Pena que pararam de filmar no final da segunda temporada, deixando a história inconclusa.

O argumento é criativo: as dificuldades de adaptação de uma família a uma  nova cidade, tendo por pivô a filha adolescente, Joan, a quem Deus se manifesta e encarrega de uma série de tarefas inusitadas.

Minha postagem sobre Jesus Cristo foi inspirada pelo seriado. Afinal, a música tema é One of us, de Joan Osborne.

Isso me tinha feito pensar por que tanta gente acha Jesus borring, tema tabu, pessoa inconveniente. Como não sou adepto das conveniências, resolvi fazer daquela postagem a coroação de tantas outras que escrevera sobre a fé nos últimos meses.

Talvez o gatilho para eu falar mais sobre a fé tenha sido os recentes ataques injustos ao Papa, com o que tentaram conspurcar sua imagem. Como quer que seja, bastou-me externar meu pensamento a esse respeito no blog ou entrar numas discussões tolas no Twitter para começar a receber perguntas como essa no extinto Formspring:

vc eh católico fanátio? (sic)


Confesso certa contrariedade, pelo que respondi:

Fanático? Não, só sou fanático pelo Flamengo, mas tenho andado um pouco tíbio.

Isso deve ter a ver com uma desilusão amorosa que sofri há três meses. Então resolvi transformar meu blog de variedades num recurso virtual apologético como forma de sublimar sentimentos contraditórios.

Ou pode ser uma questão de fase. Todo mundo tem suas fases: fase gay, fase notívaga, fase zen, fase maconha, fase Internet. Quando eu resolver rodar a baiana e passar da fase atual para outra, sai de baixo.

Agora, sem brincadeira: fanático é quem não vive a caridade e atua de forma irracional. Tenho fé e procuro ser coerente, o que é bem diferente.

*****

Vírgula. Entitulei assim o novo marcador sobre estética. Recorda o cachinho pega-rapaz, aquela mecha de cabelo recurvado sobre a testa ou a face.

Vírgula. A estética pode ser, com efeito, um gancho para a ética, um motivo de esperança para as exigências da vida. Além disso, o tema permite um bom aprofundamento filosófico. Escreverei mais a tal respeito a partir de agora.

Vírgula. Volto a Joan. No seriado, quando a família descobre que ela tem visões, resolve interná-la. É melhor não ver, permanecer cego. Talvez a estética nos abra os olhos. Por que não se fala de Jesus Cristo? Talvez se fale, mas sem estética, com pura ética.

Vírgula. E você? Tem olhos para ver ou só pernas para fugir?

31 de mai. de 2010

Educação sentimental


O coração é a sede dos sentimentos, mas os sentimentos devem adequar-se à realidade. Já pensou se, no cinema, um espectador caísse na gargalhada durante a exibição de um encontro romântico ou no momento da execução injusta de um personagem importante da trama? Ainda pior seria na vida real: isso ofende muito, demonstra egocentrismo e mina a confiança entre as pessoas.

Nem todo sentimento será de acordo com a razão (“o que deve agradar me agrada, o que deve desagradar me desagrada”). Diante dos sentimentos “irracionais”, que não correspondem às circunstâncias, às pessoas, ao momento…, o que fazer? Não parece eficaz mudá-los à força, nem aguardar que mudem por si mesmos. O mais indicado é ignorá-los e fazer o que se deve fazer, segundo o bom senso. Agindo assim, o gosto virá depois, com o hábito das boas reações já arraigado.

E os sentimentos razoáveis? Como saber que efetivamente correspondem a reações corretas? A racionalidade dos sentimentos vem dada pelas relações que supõem. O motivo de uma alegria, a finalidade de uma atitude aguerrida, a razão de uma esperança, etc., tudo isso ganha sentido no contexto das relações interpessoais. O sentimento tem um caráter relacional, mas o objetivismo exacerbado leva à dureza de coração.

Formação é a educação da vontade, inteligência e do coração. Mas, na sociedade tecnicista, os educadores infelizmente tem preferido encobrir a atrofia sentimental pelo consenso. É a etiqueta substituindo a estética.

Como você vai de educação estética?

28 de mai. de 2010

A arte como criadora de âmbitos

Desde Fracis Bacon, impôs-se a convicção de que saber é poder. Logo, só importariam os conhecimentos práticos. Consequentemente, a vida torna-se um problema a ser resolvido, perdendo-se o sentido das relações humanas.

Com efeito, a compreensão do sentido das relações humanas não é um conhecimento prático, não é redutível a esquemas.

As crianças não têm sentido das relações. Problematizam tudo. Quando a vida é vista como um problema, torna-se um dilemaA maturidade, porém, não bipolariza as situações, pois aceita os contrastes. Quando a vida é vista como um âmbito de relações, passa a ser encarada como um conjunto de contrastes.

Aristóteles enumerava a relação entre as categorias do ser. Mas é um modo de ser que depende de outro. Ora, os objetos adquirem maior “personalidade” na medida em que entrem no âmbito das relações humanas (âmbito familiar, profissional, quotidiano, físico, histórico, etc.).

A melhor postura diante dos objetos consiste em contemplá-los e entendê-los, mais do que em lucrar com eles ou dominá-los. Cabe à arte transformar os objetos em âmbitos de relações.

Mas o avanço da técnica levou a considerar suspeitos a arte, a beleza, a estética, os sentimentos. Desde Kant, tem-se feito discriminação entre ciência e cultura, entre exatas e humanas.

Os sentimentos são as primeiras respostas e os primeiros caminhos entre o homem e a realidade. A educação dos sentimentos é feita primariamente pela família, onde se deve ensinar a ter as reações adequadas diante da vida. A escola, que também deveria educar subsidiariamente os sentimentos, tem-nos desprezado e se especializou em educar meros técnicos.
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