29 de ago de 2010

Amigo especial, único, ímpar, singular

Esta é a parte
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Sejam numerosos os que te saúdam,
mas teu conselheiro, um entre mil.
(Eclo 6,6)

Amizade na Antiguidade

O mundo antigo era organizado por relações de parentesco e soberania. Por isso, as afinidades escolhidas espontaneamente eram coisa excepcional e tida, inclusive, como subersiva: Davi amava Jônatas apesar da resistência de Saul; Aquiles era mais sensível à sina de Pátroclo do que à causa grega.

Tanto para Aristóteles quanto Cícero, a amizade era um chamamento elevado que exigia qualidades extraordinárias de caráter, virtudes sólidas, desejo do bem. Como a amizade fosse vista igual ou superior ao matrimônio, sua expressão muitas vezes alcançava intensidade erótica. Por exemplo, fez-se famoso o Cântico do Arco, em que Davi afirma ter sido o amor de Jônatas “mais caro que o amor das mulheres” (2Sm 1,26).

Interpretações ligeiras e ideológicas procuraram aí uma justificativa para a patologia homossexual. Contudo, embora amigos como Aquiles e Pátroclo não pudessem viver separados, a ponto de dividir a mesma tenda, era com concubinas que dividiam suas camas.

Amizade no Medievo

O advento do Cristianismo eclipsou o ideal clássico da amizade ao transferir a dedicação do coração para o Deus Encarnado, para o amor a Jesus Cristo. Depois, com o surgimento do monaquismo, as “amizades particulares” seriam vistas como perigosas para a coesão da comunidade monástica.

Na sociedade medieval, a amizade revestiu-se de específicas expectativas e obrigações, muitas vezes formalizadas com juramentos: suseranos e vassalos empregavam o mesmo jargão da amizade nas suas relações. Mais especificamente nas sociedades católicas, o compadrio funcionou para estabelecer alianças entre famílias, às vezes mais do que entre afilhados e padrinhos, a ponto de compadre se ter virado sinônimo de amigo.

Amizade depois da Renascença

A noção clássica de amizade foi restaurada na Renascença, ao lado de outras formas antigas de sentimento. A virtuosidade das relações de amizade voltou a ser colocada acima de tudo: do matrimônio, da união sexual, até da paternidade. Afinal, a amizade não seria pautada pelo critério do interesse ou da necessidade: sobressairia diante do oportunismo por ser algo raro. Eis o pano de fundo para personagens como Horácio, de Shakespeare, e Sancho Pança, de Cervantes.

Este estado de coisas perdurou durante o Romantismo. Famosos amigos românticos foram Goethe e Schiller, Byron e Shelley, Emerson e Thoreau, entre outros. Mas o desenvolvimento da sociedade comercial fez com que tal ideal perdesse espaço novamente. David Hume e Adam Smith apontarão como o capitalismo tornou impessoais as relações comerciais, relegando as afinidades para a esfera privada: na vida econômica, contam pouco os vizinhos, os companheiros de paróquia, os colegas de escola e trabalho, os pais dos amigos dos filhos, os concidadãos, etc.

Somos o que escolhemos ser para os outros durante o tempo das nossas escolhas, nesta sociedade blasé.
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